Along The Way
19 Capítulo XVIII
Sentados lado a lado sob o abrigo, Tony Stark e Peter Parker contemplavam a chuva que caía generosa por entre os galhos das árvores. Com olhar desfocado, olhando perdidamente a água que caía generosa do céu, Peter ainda mantinha um agarre firme em sua espada de madeira, a apertando inconscientemente entre os dedos, perdido em seus pensamentos.
Alheio a quase tudo em sua volta, ele encontrava-se consciente apenas do corpo ao seu lado, o objeto de seus atuais devaneios. Perdido consigo mesmo, e passada a emoção de momentos antes, Peter só conseguia pensar em seus atos anteriores. Não acreditava no que havia feito, ou quase feito. Nunca se sentira tão grato a Clint como quando ele o impedira de cometer uma loucura das grandes. Ainda não acreditava que quase havia beijado o Stark! Que Deus o perdoasse, mas de onde diabos veio tal vontade naquele momento? Seu rosto ainda ardia em vergonha ante a conclusão do que estivera às portas de fazer. O que deu em si? E se tivesse feito, o que Tony pensaria? O que ele faria? Certamente não gostaria de descobrir. Mordendo os lábios ele balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos do que quase fora a maior vergonha de sua vida. Como, a partir de agora, ele poderia sequer encarar o outro homem? Inferno, seu coração ainda batia forte e suas mãos tremiam, mesmo segurando firme a espada, sua boca estava seca e Peter desejava internamente se estapear ante de tais reações irracionais. — Aqui, garoto. Subitamente despertado de suas reflexões, Peter teve sua atenção e olhar atraídos para o homem que atualmente lhe tirava a concentração, e por mínimos instantes sustentou seu olhar, mas ao não aguentar mais o peso de seu quase sacrilégio que lhe atormentava, desviou os olhos para as mãos estendidas a sua frente, que sustentavam a vasilha contendo seu jantar. Tony franziu o cenho levemente enquanto que de maneira nervosa o garoto lhe tomava o objeto das mãos e desviava o olhar para longe novamente, imerso em seu próprio mundo como estivera desde que se abrigaram da chuva. Mesmo estranhando a atitude, Tony nada disse, pois estava internamente eufórico demais para perceber totalmente a perturbação do garoto. Ainda não havia compreendido totalmente o que havia se passado ao final do treino, mas a não ser que seus próprios sentimentos estivessem pregando peças em si, suspeitava quase havia beijado Peter. Ou melhor, quase sido beijado por Peter. A incerteza gerada pela emoção do momento estava quase o ponto louco. A iniciativa fora dele ou de Peter? Mesmo que a realização dessa certeza fosse concretizada, não faria mudar o fato de que o ato não fora consumado. Mas isso não tiraria o sentimento de reciprocidade caso o primeiro passo viesse a ser dado por Peter, pois, caso fosse este o caso, significaria que existe alguma – por menor que fosse – chance de ter seus sentimentos recíprocos. A noite então veio e se foi, com ambos os dois protagonistas do ato perdidos em seus próprios devaneios e esperanças, sem notar que seus companheiros os observavam com diferentes apontamentos acerca da anterior interação. Quando a manhã trouxe consigo o sol brilhante e desimpedido de nuvens, os viajantes já se aprontavam para sair. Levantando acampamento, Peter ocupava-se em selar os cavalos juntamente com Natasha, enquanto os outros homens reuniam os utensílios e desmontavam os abrigos um pouco mais distantes. — O que há entre você e o Stark? — Natasha questionou como quem não quer nada, disfarçando o fato de que estivera intrigada com o assunto desde a véspera. — Ontem estavam parecendo tão... próximos. — Ah... Hum... Isso... — gaguejou o garoto, subitamente nervoso com a realização de que a garota havia notado o que se passou. Na realidade, Peter não estava surpreso. Natasha sempre havia se mostrado incrivelmente inteligente e perceptiva, então o que o perturbava era ter sido confrontado diretamente com o assunto. — É... O que quer dizer com isso? — Concluiu então com uma pergunta, em dúvida do que deveria responder. — Nada, só me pareceram realmente íntimos — murmurou, olhando para o garoto com o canto do olho, enquanto fazia seu trabalho com o cavalo. — Se conhecem há muito tempo? Um pouco mais relaxado pela conversa ter mudado um pouco do rumo constrangedor e delicado, Peter respondeu com mais firmeza: — Uns 15 dias. E foi com essa resposta que percebeu como fazia pouco tempo desde que conhecera o homem, e o quanto sua vida havia mudado. Desde que saíram para esta viagem, haviam vivido tantas situações, tivera sua vida em risco por mais de uma vez, tirara não só uma, como duas vidas, e no meio disso tudo ainda conseguiu encontrar espaço para se afeiçoar ao homem de humor inconstante que adorava caçoar de si, mas não permita que outrem o fizesse, aquele que o enchia de tarefas, mas ajudava com as suas, que lhe ensinava valiosas lições... — Sua espada. Com um pequeno sobressalto, Peter percebeu que o alvo de seus pensamentos novamente os interrompia, dessa vez para lhe entregar sua espada embainhada.
Sem dizer uma palavra, o garoto recolheu seu pertence, em momento algum encarando o outro no rosto, desviando o seu para baixo logo que afivelou o cinto da bainha. Sentiu-se subitamente tímido ante a presença do homem, que continuava parado ao seu lado. Desde suas reflexões na noite anterior, Peter deu-se conta de que, ultimamente, reações estranhas tomavam conta de si sempre que estava perto de Tony. Já havia reparado que se sentia estranho, é claro, mas somente agora o reconhecimento da associação desses sentimentos relacionados exclusivamente ao homem recaía sobre si. E a conclusão disso o fazia sentir confuso e anormalmente tímido. — Garoto? — Chamou a atenção do absorto jovem. — Hum? — Já terminou? — Ah, sim... Hum, claro, senhor Stark. Peter foi rápido ao responder quando deu-se conta de que o homem referia-se ao cavalo que selava, e estando pronto o serviço, desejava poder montar a fim de seguir viagem. Um tanto desconfiado da reação anormal do garoto, Tony segurou na sela e alçou-se para cima do animal apoiando um pé no estribo, e do alto ele observou Peter seguir para o próprio cavalo, ainda aéreo, atrapalhadamente montando nele. Tony encontrava-se confuso. No dia anterior o garoto lhe dava esperanças, e agora mal olhava em seu rosto. Estaria ele errado quando supôs que a iniciativa de aproximação havia sido tomada por Peter? Teria sido, afinal, tudo fruto de sua imaginação iludida com qualquer mínima chance de reciprocidade? Provavelmente, pensou. O sol já estava bastante baixo no horizonte quando decidiram parar. E com o objetivo de poupar tempo de luz, Natasha propôs que dois deles fossem buscar lenha enquanto os outros preparavam o acampamento. — Eu busco a lenha — voluntariou-se Tony. — Vamos, Peter. — E-eu vou... Dar água aos cavalos! — Exclamou nervosamente. Por algum motivo, a ideia de ficar totalmente sozinho com Tony no momento o deixava nervoso e levemente assustado, então a negativa foi mais rápida que si próprio. O Stark franziu o cenho, mas nada disse. — Eu vou pegar a lenha — murmurou Clint, olhando de um para o outro. Com um suspiro, Tony virou-se e na companhia do outro homem seguiu floresta adentro, sumindo em meio as árvores. O garoto soltou a respiração enquanto via os dois se distanciar, então virou para Natasha, que o encarava com um olhar carregado de algo que não soube supor. — O quê? — Questionou, enfim. — Nada — ela murmurou, um canto de seus lábios curvando-se levemente. Quando os homens retornaram, os cavalos estavam livres de seu peso extra, e o fogo crepitava a espera da lenha, sob a panela que começava a ferver o jantar. Peter e Natasha conversavam amigavelmente sentados perto do fogo. — Ei garoto, o que acha de treinar um pouco antes do jantar? — Tony ofereceu enquanto soltava a pilha de lenha que trouxera nos braços. — Eu... Eu tenho que... Fazer minhas anotações pro mapa, isso! — Respondeu Peter, nervosamente. — Tenho que fazer as anotações de hoje. — Mas você já- — começou Natasha, antes de ser cortada por um Peter um tanto nervoso. — Eu ainda não terminei! Tenho que desenhar um pouco mais do mapa... — Quer ajuda com o- — tentou Tony. — Não! Quer dizer, não precisa, senhor Stark, obrigado — murmurou nervosamente. Até a véspera, em nenhum momento estar perto de Tony havia sido um problema, então por que subitamente sentia que sequer conseguiria sustentar seu olhar? Quem dirá então fica sozinho com ele... Por que a proximidade lhe parecia tão problemática agora? Peter teria que encontrar a resposta logo, ou ao menos aprender a lidar com isso, pois como poderia evitar um de seus três companheiros de viagem? Negando-se a se sentir sequer minimamente magoado com a recusa óbvia, Tony assentiu e foi procurar um lugar para se sentar próximo ao fogo, ignorando a prosa animada que não se abalou entre os dois mais novos do grupo. Peter dava retoques no rascunho de seu mapa enquanto conversava com Natasha, e por dentro sentia-se um pouco mal por ter negado o treino que de tão boa vontade o Stark lhe oferecia. Tony manteve-se taciturno até depois do jantar, quando, sentado contra uma árvore, ele observava algo mover-se sorrateiramente à distância entre as árvores, mantendo alguma distância do acampamento. — Então você também reparou? — Clint falou baixo, sentando-se ao lado do homem. — Estava esperando ter certeza para comentar com os outros — respondeu sem tirar os olhos da figura escura. — Esse cara esteve nos seguindo o dia todo, talvez até antes. — Provavelmente está atrás de nós desde que deixamos a cidade — comentou o Stark, dessa vez olhando para o companheiro. — O que podemos fazer a respeito? — Por enquanto nada — disse. — Pode ser somente alguém perdido tentando se guiar por nós, mas caso não seja, vamos esperar para ver o que ele fará. — Não é perigoso arriscar assim? — Pontuou Clint. — Ainda mais com a princesa aqui? — Seria mais perigoso arriscar uma afronta — respondeu. — Não sabemos nada sobre ele, se está bem armado ou em quantos são. Melhor manter a cautela e ficar de olho. — Vamos revezar turnos de vigília durante a noite, então. Uma vez explicado a todos a situação, foi acordado que a vigília começaria a cargo de Clint, seguido de Peter, Tony e em fim, Natasha. Por um longo período o Barton manteve-se alerta a quaisquer sons ou movimentos ao redor, e somente quando o sono o derrubava foi que acordou o garoto para que lhe substituísse. Esfregando os olhos, Peter levantou-se e buscou jogar alguma água no rosto para espantar o sono, então sentou-se e vigiou por um período que lhe parecera não ter fim. Tudo o que podia notar ao redor eram os sons dos animais e insetos, além as folhas farfalhando ao vento, então quando de súbito ouviu uma movimentação unusual muito perto, quase sentiu seu coração sair pela boca, até finalmente se dar conta de que se tratava de Stark. — Calma garoto, sou eu — falou baixinho, indo se sentar ao lado do outro. — Quase me matou do coração, senhor Stark — murmurou, ainda sentindo o coração batendo forte e rápido. — Pode voltar a dormir, senhor, meu turno ainda não acabou. — Eu sei, mas acordei e não vou conseguir pegar no sono de novo — argumentou, então o garoto concordou com um aceno. — Bem, eu... Eu vou dormir então — Peter falou forçando um bocejo, enquanto se levantava. — Espere — Tony disse, segurando o jovem pelo pulso, o fazendo se sentar novamente. — Que bicho te mordeu hoje? — O quê? — Peter diz, livrando-se do toque com um movimento do punho. — O que quer dizer, senhor Stark? — Murmurou nervoso. — Você tem estado estranho o dia todo — falou, franzino o cenho. Peter mordeu o lábio e desviou o olhar. Então ele notou, pensou. — Não, que isso, senhor Stark, eu não, quer dizer — gaguejou. — Não tem nada errado, não — concluiu, ainda evitando sustentar o olhar alheio. — Então por que mal olha na minha cara? — Irritou-se com a esquiva do outro. — Eu fiz alguma coisa? — Não, quê isso, senhor Stark — desconversou. — É só, hum... impressão sua. — Hum, sei — murmurou, não acreditando por um instante sequer. — Eu só... estava cansado hoje — falou, forçando outro bocejo. — Então agora eu vou dormir. Boa noite senhor Stark. Estava cansado até para olhar na minha cara, mas não para jogar conversa fora com a princesa o dia todo, pensou Tony amargamente.
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