Along The Way
18 Capítulo XVII
O dia amanheceu envolto em um denso nevoeiro enquanto o pequeno grupo de viajantes desmontava o acampamento e se preparava para seu segundo dia de andanças com rumo ao leste. Recolheram suas coisas e montaram nos cavalos sem muito diálogo, assim como foi o dia todo.
À medida em que o dia avançava, com ele também se intensificava o calor que os fazia suar e puxar o capuz das capas a fim de escapar do sol escaldante no céu desprovido de nuvens. Tiveram alguma trégua somente à tarde, quando alcançaram a borda da floresta e resolveram fazer ali seu acampamento da noite. Ainda restava algum tempo de sol quando pararam, mas como as nuvens que finalmente juntavam-se no céu eram escuras e de aspecto pesado e agourento, foi de acordo mútuo que era necessário construir abrigos secos antes da chuva que ameaçava cair. Clint encarregou-se de buscar lenha na floresta, enquanto Peter e Tony montavam as coberturas e Natasha cuidava dos cavalos, dando-lhes água e escovando seu pêlo, para em seguida acender o fogo e começar os preparativos para o jantar. — Certo, garoto — Tony disse —, segure aqui. Peter fez como pedido, segurando a haste de madeira enquanto o Stark a martelava no chão, utilizando-se das costas de sua machadinha para isso. Então ele uniu duas pontas das varas e as amarrou, para finalmente fixar o grosso tecido da cobertura sobre o segundo abrigo, finalizando seu serviço ao mesmo tempo em que o Barton retornava com a lenha. — Não vamos nos molhar desta vez — Tony comentou satisfeito, indo sentar-se a beira do fogo. Peter botou as mãos na cintura e contemplou seu trabalho concluído, contente por terem se adiantado à chuva e evitado de ficar encharcados como da última vez. Ainda olhando para o abrigo, Peter teve sua atenção atraída para um fino e longo embrulho junto às suas bolsas, então se virou para fitar o sol, feliz em ver que ainda restava algum tempo antes do escurecer, e antes da chuva também. Com um pequeno sorriso ele se dirigiu ao embrulho e o pegou, tirando dele seu mais novo par de espadas de treino em madeira. — Senhor Stark — começou, hesitante. — Como já temos o serviço pronto, acha que podemos treinar um pouco? Atraído pelo chamado, Tony olhou para o garoto, que segurava uma espada em cada mão e lhe olhava com esperança. Suspirou e assentiu, indo para junto do outro e pegando uma das espadas. Peter sorriu amplamente e caminhou até um espaço mais limpo de vegetação e pedras sobre a grama. — Espadas… de madeira? — Clint começou, risonho. — Quantos anos você tem? Dez? O Parker sentiu as bochechas esquentarem, porém não disse nada, somente desviou o olhar. Sabia que era velho demais para ainda estar aprendendo a empunhar uma espada, mas sempre era pior quando outra pessoa comentava. — Deixe meu garoto em paz — interviu o Stark, vendo o quanto Peter se sentia constrangido. — Não, é sério, quantos anos você tem? Porque na sua idade eu já dominava diferentes técnicas de combate. Armado ou não. Diante deste comentário, Tony viu sua paciência se esgotar. Por dois dias tudo o que o Barton fez foi aproveitar cada oportunidade que tivera para caçoar de Peter, às vezes até mesmo de si, e agora esta foi a gota d'água. Ele poderia ter ficado quieto, pois não queria começar uma briga com alguém com quem teria de passar dias a fio na companhia, mas também se não fizesse nada, ele nunca deixaria Peter em paz. — E na idade dele você já desenhava mapas dignos de mestres? — Retrucou, a irritação explícita em sua voz. — Ou sequer desenhava algo com tantos detalhes como ele? Você ao menos sabia ler?! Natasha apenas assistia a cena com um discreto sorriso no rosto, gostando do jeito que o Stark defendia seu amigo, e divertindo-se ao ver seu companheiro sem resposta. — Foi o que eu pensei — concluiu Tony, notando o desconcerto do outro. Voltou-se então ao mais jovem, que lhe dava um sorriso aliviado e agradecido. — Lembra-se da posição, não é? Mão dominante perto da guarda, pé esquerdo a frente e a outra perna um pouco flexionada. Peter assentiu e pôs-se em posição, repassando mentalmente o que lembrava da única aula que tivera há dez dias atrás. — Relaxe, Peter — Tony falou ao ver a postura muito rígida do garoto, e acrescentou, ao vê-lo desviar seu olhar hesitante para os dois que os observavam: — E preste atenção na luta. Então, sem mais esperar, avançou, dando um passo a frente e realizando um movimento diagonal com a espada, sem muita força, sendo interceptado por Peter. Então repetiu o ato, cada vez mais rápido e forte, até ter o garoto focado no treino. — Preste atenção no seu oponente — instruiu —, não só em sua arma. Se eu pisar aqui, o que você faz? — Piso aqui — Peter respondeu entre o ato de se defender, dando um passo para o lado, assim como Tony. — Isso. E se eu avançar? — Eu recuo — Tony assentiu, mas como ele parecia esperar mais, Peter acrescentou rapidamente: — cuidando para não tropeçar em nada. Então Tony avançou novamente, obrigando Peter a dar um passo para trás, atacando com sua espada de diversos ângulos, sucessiva e rapidamente, por vezes acertando o garoto nos braços e ombros, o fazendo gemer em dor, mas mesmo assim não desviava a atenção do que faziam.
— Tome cuidado também com outros ataques de seu oponente, pois estando próximos fica fácil para ele lhe acertar tanto com os punhos quanto com as pernas, e até mesmo com outras armas menores. Peter somente assentiu, registrando a informação enquanto não parava de se defender. Sentia pontos doloridos em seus braços, mas nada que o impedisse de continuar, pois eram valiosas as lições aprendidas, assim como o treino físico em si. — Agora você quem ataca — Tony falou, parando seus movimentos. — O quê? — Já treinamos bastante sua defesa, agora quero ver seu ataque — explicou. — Vamos, me dê tudo o que você tem. Determinado, mas ainda hesitante, Peter atacou, tendo sua arma facilmente desviada, então tentou novamente, pegando confiança aos poucos. Avançou e forçou Stark a recuar. Levantou sua espada e atacou de cima com força, sendo interceptado com facilidade, então tentou novamente ataques altos, até Tony girar e deslizar suas espadas, então Peter, surpreso, se viu desarmado pela primeira vez no dia. — Força não é o principal — Disse Tony enquanto esperava o garoto reaver sua espada. — A menos, é claro, se seu oponente for grandão e tiver uma espada de duas mãos, então você deverá temer ataques fortes, principalmente vindos de cima, pois espadas grandes são pesadas e podem facilmente decepar um membro. Mas no seu caso, você deve se concentrar em ataques precisos em pontos estratégicos, como pernas e braços, pois se seu oponente não puder andar ou empunhar a espada direito a luta estará ganha. Agora, lembre-se disso e ataque. Peter voltou a atacar, tentando golpes mais baixos dessa vez, ganhando murmúrios de aprovação de Tony, que defendia-se facilmente. Continuou a tentar com afinco ao menos desarmar o Stark, mas como este mantinha um agarre firme no punho, limitou-se a atacar como já estava fazendo, mirando em diferentes pontos de seu corpo. — Acerte as pernas dele! — Gritou Natasha, incentivando Peter. Assim como sugerido pela garota, Peter tentou um ataque baixo e curvo em direção às pernas de Tony, porém este facilmente desviou seu corpo para o lado, fazendo Peter tropeçar alguns passos para frente, quase caindo. Tony então riu e usou a lateral plana de sua espada para acertar a bunda do garoto, recebendo um "hey" indignado como resposta. — Não seja tão óbvio, garoto — gracejou Tony, ainda rindo. Com as bochechas do rosto vermelhas e as de sua bunda levemente ardidas, Peter se virou, voltando-se de frente ao homem com ar risonho, para então voltar a atacar, ainda mais determinado. — Ataque com cuidado — instruiu Tony. — Não deixe muito óbvio o que vai fazer. Pense em seus movimentos, não seja imprudente. Peter tentava pensar no que fazer, mas era difícil se concentrar nisso ao mesmo tempo em que se focava nos movimentos de Tony entre atacar e se defender. — Se você for desarmado no meio de um duelo real, o que você faz? — Morro, provavelmente — Peter deu de ombros, pouco antes de ser dolorosamente acertado no braço. — Não! — Disse Tony impaciente, depois pensou melhor e disse: — Bem, é provável que sim, mas antes disso você pode usar outras armas, como seu punhal. Ele tem uma guarda larga boa para desviar ataques diretos de uma lâmina. Peter concordou, se perguntando como não havia pensado nisso antes. Então voltou a atividade, atacando enquanto Stark defendia, avançando e recuando em uma quase dança, com seus movimentos sincronizados aos do outro, mostrando sua melhora no jogo de pés e nos reflexos. Enquanto Tony e Peter perdiam-se um no outro, Natasha e Clint os observavam atentamente, entretidos com a brincadeira alheia. Mesmo que o Parker tenha começado tarde a aprender a duelar, ele não era tão ruim quanto se espera, assim como o Stark também estava se saindo um bom professor, e Natasha gostou de ver como eles formavam uma boa dupla. Eles eram ritmados, parecendo adivinhar o que o outro faria, e quando esqueciam-se das lições para simplesmente brincar com o outro, rindo e sorrindo abertamente, era uma coisa fascinante, e ela cada vez mais se via cativada diante daquele envolvente magnetismo que era quase palpável entre os dois. A moça riu sem se conter quando o Parker atrapalhadamente tropeçou em seus próprios pés, caindo sentado e com uma expressão emburrada no rosto, já que o Stark também ria de si. Decidiu então ajudar o garoto com algumas dicas. — Peter — chamou. — Venha aqui. Um pouco confuso, Peter se levantou sacudindo a sujeira da calça e caminhou até ela, enquanto o Stark cruzava os braços e encarava os dois cochichar e vez ou outra lhe lançar algum olhar de esguelha, sentindo-se um tanto irritado por ter sua aula interrompida apenas para que eles ficassem de fofoca. Desviou o olhar então para o céu, constatando que logo a chuva começaria a cair, dado ao aspecto escuro das nuvens. Retornou enfim sua atenção novamente para Peter, que com um sorrisinho pequeno caminhava em sua direção. Sem dizer palavra, Peter colocou-se em posição de combate e atacou, avidamente estocando com a espada, tentando a todo custo acertar qualquer parte que fosse do Stark, com ânimo redobrado após as dicas da princesa. — Tenta agora aquilo que eu te falei — Natasha exclamou, assistindo entusiasmada. Peter sorriu presunçoso e atacou multiplamente de cima, com movimentos curtos e incessantes, enquanto Tony se perguntava o que de mais Natasha havia ensinado, pois até agora não vira nada novo. Seu erro, é claro, foi manter a guarda concentrada em seu tronco e distrair-se com sua confusão, deixando Peter, com um movimento forte e rápido, direcionar um golpe baixo, desviando de seu golpe ao mesmo tempo que lhe acertava com a espada na parte de trás de sua canela, fazendo-o perder o equilíbrio e cair para trás, surpreso. Mas o que Peter não contava, era que em um reflexo desesperado Tony fosse o agarrar pela frente da camisa, o puxando junto até estarem os dois caídos no chão. Respirando descompassadamente Peter fitou Tony abaixo de si, igualmente ofegante, sentindo algo duro em sua barriga. — Ainda bem que as espadas eram de madeira — Tony falou, puxando de entre eles sua espada, que era o tal objeto duro incômodo. Os dois se encararam antes de começar a gargalhar, rindo presos em seu próprio mundo, sem se incomodar com sua pequena platéia os observando. Tony suspirou quando finalmente parou de rir, assim como Peter, que o encarando de cima tinha os cabelos suados grudados na testa e os olhos brilhantes, um sorriso divertido frouxo no rosto e a expressão suave, tudo isso com o céu escuro de fundo deixando-o mais bonito que em qualquer situação que Tony se lembrasse. Seu corpo todo estava pressionando contra o outro, de uma maneira mais intensa do que quando dividiram a cama, e sem notar realmente Tony levava suas mãos para segurar Peter pela cintura levemente, sentindo as primeiras gotas de chuva caindo sobre si, molhando os dois corpos que sequer se importavam, tão concentrados um no outro como estavam. Peter fechou os olhos e diminuiu instintivamente a distância entre seu rosto para com o do Stark, deixando-os tão próximos que podia sentir sua respiração. — As duas vão se beijar, ou preferem sair da chuva primeiro? A voz de Clint foi o que bastou para quebrar o encanto e eles finalmente perceberem que o que eram pingos esparsos se transformara em uma chuva grossa que os molhava rapidamente. Desconcertados, os dois atrapalharam-se por uns instantes até finalmente se porem em pé, correndo juntos em direção ao abrigo, onde sentaram-se envergonhados, sem coragem de encarar um ao outro por pelo menos o resto da noite.
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