A aurora começava a dar sinais de raiar quando o Stark acordou. Pacificamente ele abriu os olhos, pois não podia se dar ao luxo de permanecer na cama, uma vez que muito em breve seria hora de partir. Piscou algumas vezes para clarear a visão e olhou em volta, podendo discernir bem as formas pelo quarto graças a janela aberta, por onde também entrava uma brisa fria da manhã, que o fazia se apertar contra os cobertores.

Almejando se proteger melhor do frio, Tony tentou puxar seu cobertor mais para cima, somente para se dar conta de que aquilo que cobria parcialmente seu corpo era nada menos que o corpo de outra pessoa. De sua posição deitado, tudo o que podia ver eram os revoltos cabelos castanhos, os quais não demorou muito a reconhecer.

Não foi com pouca surpresa que ele se descobriu sendo abraçado por Peter, gerando automaticamente a pergunta: Por quê?

Não se lembrava de ter outra vez invadido o quarto do garoto, nem do mesmo invadir o seu, muito menos de terem feito um acordo mútuo de dormirem juntos. Então o que ele fazia ali?

Tony não conseguia pensar em qualquer resposta plausível para tais questões, então simplesmente se deixou apreciar a companhia.

Enquanto deixava seus braços serpentear entorno do garoto, uma lembrança chata revolveu do fundo de sua mente, um zumbido que lhe parecia muito irritante alertando-o da promessa que fizera a si mesmo na véspera, de que não trataria, agiria ou sequer pensaria em Peter de maneira diferente a um simples colega de viagem. Ignorando por ora tal pensamento, Tony envolveu a cintura de Peter com seus braços, o puxando para perto e para cima delicadamente, até que seus rostos se encontrassem lado a lado. Podia sentir todo o corpo do Parker contra o seu, desde a perna jogada sobre as suas, o braço caído frouxamente sobre seu peito e sua respiração quente batendo em seu pescoço.

O ressonar ritmado da respiração alheia lhe dizia que o jovem ainda se encontrava em sono profundo, o que o deu uma certa liberdade para fazer aquilo que há dias estava desejoso. Sem querer pensar em sua ousadia, Tony subiu uma mão que estava no quadril de Peter, contornando a curva de sua cintura enquanto se infiltrava por debaixo de sua camisa, fechando os olhos e puxando de sua memória a imagem daquela pele alva sem impedimentos enquanto suavemente o tocava, sentindo seu calor e suavidade, levemente, tentando a todo custo não o acordar com o toque áspero de sua palma calejada.

Aproximou então seu rosto até que este tocasse o de Peter, acariciando sua pele com seu nariz, o arrastando por sua bochecha, ainda mantendo os olhos cerrados, sentindo seu cheiro e o guardando na memória juntamente com a textura de sua pele, tocando-a de leve com a sua própria, deixando suas bochechas se tocarem por um momento, um brevíssimo momento de hesitação antes de deixar seus lábios roçar de leve pela maçã de seu rosto, descendo pela bochecha macia até se afastar minimamente, apenas para alinhar suas faces, até que seu nariz tocasse o de Peter.

Nesse momento Tony abriu os olhos, encarando o rosto sereno e, em seu íntimo mais profundo, desejou que tivesse a oportunidade de tocar o garoto desse modo enquanto ele estivesse acordado, para sentir sua respiração descompassar e a pele arrepiar sob seu toque, não somente esgueirando toques furtivos sem ao menos Peter ter conhecimento deles.

Um leve movimento das pálpebras de Peter foi o que bastou para estourar a bolha de perdição do Stark, que tendo-o visto acordar tantas vezes já sabia que neste instante o garoto se encontrava próximo de despertar. Tratou então de afastar seus condenáveis toques imorais e inadequados do corpo do jovem, para voltar a sua posição inicial, deitado de olhos fechados, fingindo dormir enquanto Peter acordava.

Abrindo seus castanhos olhos Peter acordou, os esfregou e bocejou antes de olhar a sua volta. Teve um leve sobressalto ao perceber sua situação antes de se recordar dos acontecimentos da madrugada. Sentindo suas bochechas arderem impossivelmente em vergonha, o garoto sentou-se na cama com cuidado, olhando para o homem deitado ao seu lado. Tony mantinha a respiração calma, evidenciando o sono profundo, e Peter agradeceu mentalmente o fato dele ainda estar dormindo.

Antes que o mais velho os flagrasse em tal situação, Peter decidiu abandonar o quarto e voltar para o seu próprio, pegando seu travesseiro e saindo do recinto na ponta dos pés, fazendo o mínimo de barulho possível.

Somente quando ouviu a porta do quarto fechar foi que Tony achou seguro tornar a abrir seus olhos. Mordeu os lábios para se impedir de rir ou sequer sorrir diante da reação tão adorável e ingênua de Peter ao sair de fininho.

Não muito tempo depois batidas na porta chamaram sua atenção, então prontamente se levantou e foi ver quem era. Parada em frente a porta, uma serviçal lhe informou para se aprontar para sair e ir aguardar a princesa nos estábulos, onde seus cavalos já estavam sendo preparados.

E assim o Stark o fez. Vestiu suas pesadas roupas de viagem e guardou suas armas, calçou as botas e reuniu seus pertences, para logo em seguida ir bater à porta de Peter.

O garoto também já terminava de se arrumar, então sem demora partiram pelos corredores parcamente iluminados até os fundos do castelo, onde saíram em direção aos estábulos.

Todo o tempo, o Stark notou com certo divertimento, Peter evitou ao máximo lhe encarar, nem mesmo olhar para si de relance, concluindo então que o mais jovem ainda se encontrava envergonhado. Divertido, Tony decidiu testar a reação do garoto.

— Dormir em uma cama foi tão bom nesses dois dias — começou, como quem não quer nada, olhando de esguelha para Peter. — Tão confortável. Vou sentir falta enquanto estivermos na estrada.

Tony teve que se segurar para não rir. Peter, além de ter ficado vermelho, ainda tinha rapidamente desviado o olhar para o chão, parecendo bastante desconcertado.

— E-eu também — respondeu ainda encarando seus pés.

Tony balançou a cabeça e pensou em provocar mais um pouco, talvez fazer uma piadinha, quem sabe, mas acabou por decidir deixar o garoto em paz.

Ainda lhe intrigava o fato dele ter ido dormir consigo esta noite, e se remoía dolorosamente de vontade de questionar o motivo disso, mas tinha a absoluta certeza de que se o fizesse, além de não receber qualquer resposta, Peter ainda ficaria sem conseguir olhar na sua cara por pelo menos alguns dias. Resolveu deixar para lá então, mesmo muito curioso.

Já nos estábulos, fizeram questão de aprontar seus próprios cavalos, mesmo sob os protestos do cavalariço que fora encarregado de tal função. Enquanto esperavam, estranharam o fato de dois outros cavalos estarem prontos para a viagem, mas nada comentaram até a princesa chegar acompanhada do rei e outro homem, um loiro de barba feita, corte de cabelo curto e feições sérias.

— Quem é o sujeito?

Foi Stark quem perguntou, olhando o homem de cima a baixo, notando suas pesadas roupas de viagem, no mesmo modelo das suas próprias, assim como as várias armas e principalmente o arco fazendo par com a aljava generosamente carregada de flechas.

— Este é Clint Barton — o rei respondeu. — Irá os acompanhar nessa jornada.

— Por quê? — Peter não pôde evitar de perguntar, fitando o homem sério com curiosidade.

— Porque Vossa Majestade sabiamente não confia a segurança da princesa nas mãos de um ferreiro e um aspirante a cartógrafo — respondeu o Barton, sem alterar a expressão.

— Ele auxiliará na escolta de Natasha — interpôs o rei, ignorando a alfinetada do outro. — Então, tudo certo para a saída, não devem demorar, logo o sol nascerá, então quero que estejam fora da cidade antes disso, para evitar olhos curiosos.

Então rapidamente rei e princesa se despediram, para não tardar estarem os quatro viajantes trotando para fora dos muros do castelo e destes para fora da cidade, desviando propositalmente de qualquer vilarejo que pudessem encontrar no caminho.

Não houve muita conversa durante o dia, o vento forte na planície dificultava a tarefa de ouvir e se fazer ouvir qualquer conversa, então se resignaram ao silêncio, até pararem no fim da tarde quando encontraram um conjunto de pedras altas que bloqueava um pouco a ventania, decidindo por levantar o acampamento por ali.

Sentado na beira do fogo esperando o jantar cozinhar, Peter lançava alguns olhares que esperava serem furtivos em direção à Natasha, surpreso com seu novo visual de viajante, tão diferente dos ricos e luxuosos trajes usados no castelo. Vestida em práticas e quentes roupas variando do couro ao algodão, ela usava calças apertadas como seu colete por debaixo da longa capa, tendo também seu cabelo ruivo preso firmemente em uma única trança caída por sobre um dos ombros. Vê-la vestida e sentada tão casualmente, parecendo tão a vontade escorada contra uma pedra enquanto mexia o ensopado, o surpreendeu.

— Limpe a baba do queixo, garoto — Tony murmurou, com um quê de irritação em sua voz. — Antes que ela comesse a pingar.

Ele notara o modo como Peter não tirava os olhos da princesa, tendo aquela expressão embasbacada no rosto e parecendo tão perdido em pensamentos, que não pôde evitar que o ciúme se instalasse em si, como algo incômodo e substancial se remoendo em seu interior.

— Eu não- quer dizer, eu só- — gaguejou o garoto, desconcertado por ter sido pego encarando. — Eu só estava curioso pois nunca vi uma mulher usando calças — esclareceu, sentindo suas bochechas corarem furiosamente, ainda mais sob o olhar divertido que Natasha lhe dispensou.

— Aposto que também nunca viu uma sem — Clint comentou, se divertindo com o embaraço do jovem.

— Não esperava que eu montasse um cavalo de saia, não é?

Em virtude da retórica, Peter nada disse, e também não tornou a encarar a moça, o que secretamente agradou ao Stark.

Terminaram a noite em meio a um silêncio confortável, dormindo pacificamente junto às pedras para escapar um pouco do vento frio, sem nunca perceber que estiveram sendo vigiados o dia todo.