Along The Way
12 Capítulo XI
Notas iniciais
Após findado o momento de graça, Tony tomou fôlego e olhou para Peter a sua frente, que por sob a sujeira podia-se ver sua expressão emburrada de faces vermelhas, os olhos marejados e com o lábio inferior preso entre os dentes, tentando conter as lágrimas de dor e humilhação. O Stark então recuperou-se dos risos e se foi retratar com o jovem magoado, tirando-lhe gentilmente da fronte e cabelos os ciscos que o sujava.
— Estás bem? — Perguntou Stark.
Peter somente assentiu, orgulhoso, desvencilhando o toque de Tony sobre si e se afastando aos pulos até um conjunto de pedras, onde sentou-se, cruzando os braços e fungando, desviando o olhar para longe, tentando esconder seu abatimento, sem sucesso é claro, pois tudo em si exalava desalento, o que não passara despercebido pelos olhos atentos do Stark.
— O que há? — Questionou, franzindo o cenho. — Os ferimentos estão doendo muito?
Peter, com um bico nos lábios, apenas balançou a cabeça em negação, para então fungar novamente e limpar o nariz na manga da camisa.
— Então por que essa cara de bunda velha?
Com um olhar que mesclava mágoa e ofensa, o garoto olhou para o homem que agora também tinha os braços cruzados, lhe encarando com curiosidade.
— Eu perdi a tarde toda de anotações — murmurou cabisbaixo.
Tony segurou-se para não rir novamente. Então era isso? Tamanho drama por causa de uma tarde de anotações? Balançou a cabeça, um pouco incrédulo, mas não pôde deixar de achar certa graça na forma emburrada e frágil do garoto, que amuado arrancava pequenas plantas do chão, ainda sustentando o bico involuntário em seus lábios, o que o deixava ainda mais fofo.
Tony passou a mão no rosto e balançou a cabeça novamente, como que para se livrar das impressões acerca do jovem, então suspirou e meteu as mãos nos bolsos, de maneira despreocupada.
— Meio dia não lhe farão diferença — falou, atraindo a atenção de Peter. — Não há muito segredo quanto ao caminho, é só seguir o rio que cedo ou tarde acabará chegando a Zahod.
Peter nada disse, e como não parecia menos amuado, Tony completou:
— Se lhe faz tanta falta assim, depois eu posso lhe ajudar com o caminho de hoje, tudo bem?
Satisfeito por ter enfim trazido algum brilho ao olhar do mais jovem, Tony suspirou, então tirou as mãos do bolso e se aproximou de Peter, lhe bagunçando os cabelos já muito revoltos com a destra, tendo na canhota a pederneira, que lhe entregou.
— Faça o fogo, sim? Vou buscar alguma, e talvez caçar algo para o jantar.
Peter assentiu e pegou o objeto, então assistiu em silêncio Tony pegar sua machadinha para enfim adentrar a mata e sumir por entre as árvores.
Virando-se com o que encontrou por perto, Peter iniciou o fogo, alimentando-o com gravetos medianos secos encontrados por ali mesmo. Feita a tarefa, ele então desdobrou-se na função de tirar a sela dos cavalos, se apoiando nos mesmos para manter o equilíbrio que tinha sobre um pé só, não querendo forçar ainda mais a torção. Não foi fácil, mas por fim conseguiu, depois de quase ter sido derrubado algumas vezes pelos animais e outras por conta própria, porém agora comemorava internamente sua pequena vitória em ter se mantido firme com sua dignidade parcialmente intacta. Conseguiu também pegar água no rio, com certa destreza, é claro, sem mencionar o fato de quase ter caído na água. O mais importante, entretanto, foi já ter tudo pronto quando Tony retornou equilibrando em seus braços uma pilha de galhos medianamente grossos cortados em tamanhos cômodos ao transporte, e segurando como dava uma ave grande e colorida pelos pés.
— Consegui um faisão — falou orgulhoso, largando a lenha próximo ao fogo e ostentando a ave morta. — Espero que a água já esteja quente.
Tendo a água fervente, Tony se pôs a depenar o bicho, enquanto Peter o assistia, entretido. Ave limpa e cortada aos pedaços, o Stark a colocou na panela de água quente, a fim de fazer uma sopa, acrescentando temperos e uma batata grande, deixando-os cozinhar sem pressa.
— Pode me ajudar com o mapa agora, senhor Stark? — Peter perguntou, já com seus materiais sobre o colo.
Tony assentiu e aproximou-se, se sentando ao lado de Peter no conjunto de pedras em que se encontrava. Inclinou seu corpo em direção ao do garoto e espiou o rascunho do mapa, onde o Parker já havia adicionado suas anotações do dia até onde as conseguira fazer. Observou então o todo, notando que realmente Peter era bom no que fazia, e parecia ter uma boa memória aos detalhes, considerando o fato de que só trabalhava realmente no mapa ao fim do dia, e o esboço feito até agora baseado no mapa geral dos reinos estava realmente bom.
— Aqui — se inclinou mais até ter seu ombro tocando o do garoto e indicou o fim do desenho do rio —, cerca de metade da tarde de viagem a partir daqui há uma bifurcação no rio, então continuamos a seguir à direita.
Peter assentiu e desenhou os contornos básicos, adicionando referências e detalhes segundo as indicações de Stark, que ainda se encontrava inclinado sobre si meio de lado, com o braço esquerdo a se apoiar na pedra às suas costas e com o peito em contato com seu ombro e lateral do braço, não notando realmente a proximidade um tanto desnecessária, mas que nenhum dos dois se incomodava em findar.
Peter tentava a todo custo concentrar-se no que fazia, buscando não se abalar pela proximidade e calor do corpo do Stark contra si, ignorando ainda com mais esforço a quentura das partes que se tocavam e o ar morno que soprava dos lábios de Tony diretamente na lateral de seu rosto e pescoço toda vez que ele falava, o que lhe causava arrepios e fazia suas bochechas corarem, e Peter censurou e praguejou mentalmente as reações tão irracionais de seu corpo.
Quase agradeceu verbalmente quando terminaram de trabalhar no mapa, pois Stark se levantara para cuidar do jantar, e Peter se viu finalmente livre do contato que tanto lhe causava estranhamento de um jeito que jamais sentira. Suspirou e passou a mão nervosamente pelo pescoço, onde antes alcançava o ar quente da respiração de Tony, então a levou ao rosto, o sentindo igualmente quente. Balançou a cabeça e pensou no motivo pelo qual se sentia assim, não chegando a nenhuma resposta racional senão a enfermidade que o afligia, de certo o calor era dado pela febre e as sensações estranhas em seu corpo por outros sintomas desconhecidos.
Comeram em silêncio a sopa, apreciando a boa carne depois de alguns dias de apenas vegetais e tubérculos em sua alimentação. Terminada a refeição, ambos se prepararam para dormir, mas Peter não estava nem um pouco sonolento agora, muito pelo contrário, se encontrava bastante disposto a jogar conversa fora com Tony, que a princípio tentara ignorar, mas se deu por vencido ao perceber que nada no mundo faria o garoto inquieto calar a boca e dormir.
— Sabe, senhor Stark — começou Peter que deitado olhava para seus pés —, me sinto um tanto idiota por andar com um pé descalço e o outro não.
— Descalce a outra bota e os dois ficarão iguais — Tony murmurou, deitado de lado, não querendo dar corda à falação do garoto.
— Queria poder calçar a outra bota — continuou, ignorando o que fora dito pelo outro —, mas meu pé ainda dói se eu tentar.
Tony revirou os olhos e se virou para ficar de frente ao garoto deitado ao seu lado.
— Sabe, nem todo mundo dormiu a tarde toda, então que tal me deixar dormir agora?
— Me desculpe, senhor Stark — Peter murmurou, então ficou em silêncio algum tempo, e quando Tony já estava adormecendo na ilusão de ter alguma paz, o garoto recomeçou: — Por que aceitou seguir essa viagem, senhor Stark?
— Ameaçaram cortar minha cabeça fora — disse entre dentes, irritado. — Mas se eu soubesse da minha companhia, teria preferido que o tivessem feito.
— Mas por que tiveram que o ameaçar?
Tony suspirou, tentando tirar paciência de onde fosse, e esfregou o rosto com as mãos, pensando se nocautear o garoto seria uma opção boa para o momento, mas dando-se por vencido resolveu o responder, na esperança de que Peter, uma vez satisfeito o deixasse dormir em paz.
— Porque o imbecil do Rogers sabia que eu não faria de bom grado qualquer coisa que me pedisse.
— Por quê?
— Porque eu costumo cortar fora a língua daqueles que me incomodam, e a sua já está perto disso — ralhou, pois toda sua paciência já havia se esvaído. — Como você fala, hein. Eu e o Rogers nos odiamos desde que nos entendemos por gente. Você tinha que ver quando éramos crianças, vivíamos em pé de guerra, aquele imbecil puxa saco me dava nos nervos.
E meio sem perceber, Tony se encontrava entretido na conversa, esquecido momentaneamente do sono, se pondo a contar para Peter uma de suas histórias de quando criança.
— O Rogers vivia atrás do meu pai, para cima e para baixo. Na época o velho trabalhava para o rei, fazia-lhe armas e armaduras, e mimava na mesma intensidade o garoto com que lhe era bajulado, então um dia, como que para me vingar, eu juntei na rua os cães mais pulguentos que pude encontrar e os coloquei para dormir na cama do Rogers — Tony pausara a narração para rir junto a Peter, que interessado ouvia a história. — Nunca ri tanto quanto no dia seguinte quando ele apareceu se coçando dos pés à cabeça — rindo novamente Tony relembrou radiante daquele acontecimento. — Ele teve sorte de não ter morrido na época, pois depois disso pegou uma doença… Minha mãe era a curandeira da vila e cuidou dele, o que só me deixou com mais raiva depois, pois além de bajular meu pai ele também o fazia com a minha mãe. Mas ao menos ninguém descobriu que eu tinha causado tudo aquilo.
Os dois riram juntos, Peter imaginando como seria o imponente Steve Rogers de hoje uma criança se coçando desesperadamente e um pequeno Tony Stark se divertindo às suas custas, enquanto o homem relembrava divertido dos fatos.
Ficaram algum tempo em silêncio depois disso, tentando reaver a seriedade, enquanto olhavam para o céu estrelado.
— Mas e quanto a você? — Começou Tony, sem se tocar de que isso seria o gatilho necessário para outra falação que o privaria do sono. — Por que aceitou vir, mesmo sabendo dos perigos?
— Eu preciso de dinheiro, sabe — Peter murmurou, agora meio amuado. — A recompensa prometida vai ser exatamente o que eu preciso para poder voltar para casa.
— Por que? Não quer mais estudar com os padres? — Tony perguntou depois de um longo bocejo, divido entre o sono reavido e a curiosidade.
— Não é isso… — voltou a murmurar, nervosamente brincando com os dedos. — Eu fui… Não gosto de falar disso… Mas eu fui… forçado, digamos, a sair de casa muito novo… só queria rever meus pais… Não que não esteja bom com os padres, longe disso, devo tudo a eles, mas sinto falta da minha família. — Dito isso o silêncio se abateu sobre eles, o sono que começava a nublar os pensamentos de Tony lhe impediam de processar corretamente as informações e dar alguma resposta, então Peter decidiu mudar de assunto : — Ainda falta muito para chegarmos, senhor Stark?
— Não muito — falou baixo, com os olhos pesados fechados em sono. — Alguns dias… acho que uns 6 ou 7 dias, se tudo correr bem…
Bocejando longamente Tony se encolheu em si mesmo virando novamente de lado, fechando os olhos e quase se entregando ao mundo dos sonhos.
— Que bom que não falta muito — Peter respondeu, bocejando também —, pois também sinto saudades da Nat-
Peter fora impedido de falar pela mão de Tony que lhe subira tateando pelo peito até encontrar e tapar sua boca, interrompendo sua frase.
— Agora shiiii — murmurou Tony, um pouco enrolado pelo sono. — Eu preciso dormir.
Peter afastou então a mão de cima de seu rosto, a deixando cair novamente sobre seu peito, enquanto que por sua vez o Stark caía em sono profundo, sem sequer recolher o braço estendido. Peter decidiu que já incomodara demais o homem, então ficou em silêncio e imóvel, tentando não o perturbar, resultando em uma calmaria que não tardou a levá-lo a seguir o exemplo do mais velho.
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