Along The Way
11 Capítulo X
Notas iniciais
O ambiente estava quente, mas Peter se sentia frio. Ou talvez o tempo estivesse frio, e Peter, quente. Não saberia dizer, tudo estava tão confuso. Sua única certeza era o destoar de sensações, pois tudo estava tão escuro que não podia nem mesmo ver um palmo a sua frente, o que deixava Peter nervoso e assustado. Levou alguns instantes confusos até concluir que se encontrava no meio da floresta totalmente sozinho, o ar frio, carregado e úmido lhe entrava com dificuldade nos pulmões, e era como se estivesse se afogando em terra. Desesperado, o garoto tentou fugir, na esperança de que se saísse dali encontraria um local seco e quente, onde respirar com tranquilidade fosse mais fácil. Tentou correr, mas não podia sair do lugar, e foi tardiamente que percebeu um grosso caule de trepadeira lhe envolver o tornozelo, suas espirais folhosas apertando-o cada vez mais forte sempre que Peter forçava a planta tentando se soltar. Tratou então de abaixar-se e tentar desenrolar de si os cipós com suas próprias mãos, mas ao fazê-lo o que tocou não era a superfície verde que esperava, em seu lugar pôde sentir cinco dedos frios lhe restringindo o tornozelo. Subitamente o ambiente se iluminou, como se uma espessa nuvem tivesse finalmente descoberto a lua cheia, possibilitando que sua luz refletida pudesse enfim iluminar o que Peter reconheceu como uma pessoa deitada no chão lhe segurando.
Com o rosto contorcido em terror e soltando um grito mudo, Peter cambaleou para trás em sua posição agachado, caindo sentado e apoiado em suas mãos, totalmente aterrorizado com o reconhecimento da figura diante de si, pois jamais esqueceria aquele rosto, e o pescoço aberto perpetuamente vazando sangue e empapando suas roupas lhe era inconfundível. A figura do homem assassinado por Peter avançou por sobre o garoto após um último apertão que lhe fez grunhir e sentir o tornozelo pulsar em dor, as feições mortalmente pálidas, beirando o cinza pairaram sobre Peter, que pôde sentir seu frio sepulcral em todo seu corpo trêmulo, lhe enviando arrepios por toda sua espinha, e quando a boca anormalmente animalesca escancarou-se diante de seus olhos, tentou a todo custo fechar os olhos e clamar pelo Stark, mas não conseguiu, suas pálpebras pareciam lhe ter sido arrancadas e sua boca costurada, então tudo o que lhe restou fazer foi esperar o golpe final enquanto tentava controlar a tremedeira em seu corpo que gradualmente esfriava em contato com o do cadáver sobre si.
Peter gritou e sentou-se, sentindo seu coração disparado martelando em seu peito, para enfim o reconhecimento se abater sobre si. Tentando reaver o ritmo normal de respiração, o garoto olhou em volta, tentando enxergar alguma coisa em meio ao breu noturno. Finalmente pode discernir uma pequena e precária claridade das brasas do quase totalmente extinto fogo, que chiavam quando as gotas de água caíam sobre si, e só então Peter percebeu que a sensação fria em seu corpo se dava às gotas da chuva que começava a cair e lhe umedecia as roupas.
— Você está bem, garoto? — Tony falou, fazendo Peter finalmente notar sua presença. — O ouvi gritar.
Peter olhou em direção à voz do Stark, e agora com os olhos mais bem acostumados com a escuridão, pôde discernir o contorno de seu corpo e mais alguma coisa que este carregava.
— Foi apenas um pesadelo — respondeu, então passou a mão no rosto para afastar a água misturada ao seu suor de sua fronte. — O que está fazendo, senhor Stark?
— Construindo uma cobertura — o homem respondeu, indicando as varas que carregava. — Não podemos ficar na chuva, certo?
Peter concordou enquanto o assistia fincar as varas em quatro pontos perto de onde estiveram dormindo.
— Eu posso ajudar em alguma coisa? — Ofereceu, não querendo deixar Tony fazer todo o serviço, mesmo que no momento qualquer atividade fizesse a dor latente em sua torção piorar.
— Não precisa — respondeu. — Você tem que descansar seu pé, ou vai acabar piorando.
Não tendo objeções quanto a isso, Peter se resignou a apenas assistir o homem fixar os quatro pilares e em seguida jogar e prender sobre eles um tecido moderadamente amplo e grosso, dando ao abrigo improvisado um teto que impedia a passagem da água. Depois de pronto e seguro, Tony juntou suas bolsas de mantimentos e equipamentos e os colocou sob a tenda para enfim se juntar a elas e Peter no abrigo da chuva.
Os dois sentaram-se lado a lado e se mantiveram em silêncio, somente escutando a água pingar sobre e das folhas e galhos das árvores, assim como eventuais trovões.
Tendo agora sua bolsa mais perto e acessível, Peter puxou dela uma toalha de algodão não muito grande, e tentou secar-se do jeito que dava, pois sentia-se gelado até os ossos, tendo o Stark copiando seu exemplo.
Como ainda era o meio da noite, Tony se acomodou deitado do jeito que dava e tentou dormir, não tardando em obter êxito na tarefa.
Peter, em contrapartida, sentia-se tão acordado quanto possível, o terror vivenciado em seu mais recente pesadelo somado ao frio que lhe fazia tremer mesmo sob seu cobertor o impedia de voltar a dormir, todo o seu sono havia se esvaído. Ficou então deitado, sem ter o que fazer e sem conseguir adormecer, totalmente desperto mesmo quando as horas iam avançando e trazendo o alvorecer, levando as grossas nuvens de chuva embora, restando apenas a água que acumulara-se nas árvores e continuava a pingar, até que o sol que despontava por detrás delas as secassem.
Peter fungou e soltou um longo bocejo, olhando para o pé levemente arroxeado que finalmente dera uma amenizada na dor, então desviou seus olhos para o Stark ao seu lado, que dava indícios de querer acordar.
Com as roupas grossas de couro Tony não havia se molhado tanto em comparação às de algodão e linho de Peter, portanto não sentira tanto frio ou desconforto com a umidade. Acordou bem disposto e sem tardar tratou de organizar os pertences para retomar a viagem.
— Precisa de ajuda aí? — Tony perguntou ao ver Peter se equilibrar contra o cavalo enquanto tentava montar.
— Não precisa, eu consigo.
Respirando fundo e apertando os dentes, Peter deixou seu pé dolorido se apoiar no chão, o que não doeu tanto quanto ele imaginou. Arrependeu-se do pensamento logo em seguida, quando precisou o firmar bem enquanto usava o outro para se impulsionar no estribo e finalmente subir na sela. Se impediu de gemer em dor durante o ato, e teve de disfarçar bem o latejar que sentia quando já se encontrava em cima do cavalo.
Tony lhe lançou um olhar desconfiado, mas nada comentou.
Fora novamente uma manhã difícil para Peter. Sentia seu corpo pesado, e mesmo com as roupas já secas, ainda sentia um pouco de frio. Sua cabeça estava um tanto dolorida, assim como seus ferimentos. Não conseguia parar de bocejar também, a noite insone estava cobrando seu preço, e estava suspeitando de que começava a ficar doente, pois sua garganta estava arranhando levemente e não conseguia parar de fungar, o nariz irritantemente escorrendo.
Aparentemente as dores no corpo do dia anterior não eram somente por conta do excesso de treino, mas também pelo começo de um resfriado, e ter sido exposto a chuva somente contribuiu para piorar sua situação.
Esperava que ao menos não fosse nada sério, e que na manhã seguinte já estivesse melhor. Só precisava descansar e dormir um pouco. Peter desejava imensamente poder dormir, não devia ter se privado do sono após acordar de madrugada, pois agora estava exausto. Queria tanto dormir que poderia o fazer sentado mesmo. Desejava que tivesse nem que fosse alguns poucos instantes para descansar…
Tony observou com o cenho franzido o garoto que cavalgava ao seu lado. O menor estava estranhamente quieto e piscava com frequência e lentidão, vez ou outra fungando e limpando o nariz na manga da capa, esfregando os olhos com as costas da mão livre, e parecia lutar para se manter equilibrado sobre a sela.
— Está tudo bem? — Tony questionou preocupado.
— Hum? Ah, sim… Ótimo… — Peter respondeu, com a voz enrolada e parecendo sonolenta.
O olhando em estranhamento, Tony teve certeza que o garoto podia estar tudo, exceto ótimo. Porém, antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, assistiu a Peter simplesmente afrouxar o agarre nas rédeas do cavalo e tombar para o lado, caindo de qualquer jeito sobre o chão da floresta.
Em um salto rápido, Tony desceu do cavalo e foi ao auxílio de Peter, que estava semiconsciente no chão, gemendo baixinho em dor.
— Garoto! — Chamou, dando tapinhas em sua bochecha. — Você está bem?
— Me deixa dormir — Peter resmungou, virando o rosto contra as folhas úmidas no chão.
Um pouco mais aliviado por Peter não ter se machucado ou desmaiado, Tony o tocou na testa com as costas da mão, notando o quanto ele parecia quente. Tony então recolheu sua mão e praguejou baixo. Não era hora para ficar doente, pensou.
Ponderou então as possibilidades: parar o resto do dia ou seguir viagem mesmo com Peter mal parando sobre seu cavalo.
A missão deveria ser concluída o mais rápido possível, não tinham tempo a perder, mas o que faria quanto ao garoto doente? Bem, sempre tinha a possibilidade de o jogar sobre a cela o amarrar lá, mas isso seria crueldade demais. Aparentemente tudo o que Peter precisava era descansar um pouco, porém isso queria dizer que precisariam parar, e portanto perderiam pelo menos a metade de um dia de viagem. Isso não poderia acontecer, atrasos estavam fora de cogitação.
Decidiu então que continuariam, mas prometeu a si mesmo que se Peter piorasse, poderiam fazer uma pausa. Mas a questão agora era: como manter Peter sobre o cavalo. Tony pensou sobre isso, chegando a uma única conclusão.
Pegou seu próprio cavalo e o livrou de todo o peso, exceto a sela e seus adereços essenciais, colocando o que retirou no cavalo de Peter, prendendo neste uma corda o ligando ao seu. Pegou então o garoto que dormia no chão e de algum jeito com alguma dificuldade o pôs sobre sua sela, logo em seguida montando ele mesmo atrás de Peter. Se acomodou e ajeitou o jovem da melhor maneira que pôde, então passou firmemente um braço por sua cintura a fim de o manter no lugar, finalmente botando o cavalo para trotar calmante pela floresta.
Amaldiçoou mentalmente tal posição sugestiva e comprometedora, enquanto se desdobrava para manter o garoto no lugar, com as costas apoiadas contra seu peito e a cabeça em seu ombro, ao mesmo tempo em que precariamente guiava o cavalo com uma mão apenas.
Peter dormira durante quase toda a tarde, acordando somente quando o sol já estava um tanto baixo no céu.
Esfregou os olhos e tirou alguns instantes para se orientar. Sua cabeça estava pesada e seus membros moles, então piscou e olhou em volta, percebendo que estava sentado e balançava num movimento constante. Mais alguns instantes confusos depois ele finalmente se deu conta de que cavalgava, e sua mente nublada nem questionou como o fato era possível antes que por fim se desse conta da situação como um todo.
Seu corpo enrijeceu e subitamente ele estava totalmente consciente do corpo quente contra o qual se apoiava, o braço forte lhe segurando pela cintura e a respiração morna e ritmada em sua orelha. Somou então dois mais dois e concluiu que Tony o sustentava no lugar enquanto estivera inconsciente. Queria questionar o Stark sobre a situação, mas ao mesmo tempo não queria saber. A posição era constrangedora demais. Comprometedora demais. E ele se sentia tão errado por achá-la tão quente e confortável. Dois homens não deveriam estar neste tipo de situação.
— Finalmente acordou — Tony falou ao notar que o jovem se encontrava consciente de novo. — Já estava começando a pensar que havia morrido — brincou.
Peter mordeu o lábio e não pôde se impedir de arrepiar quando a voz grossa e levemente rouca juntamente com a respiração quente bateu diretamente em sua orelha. Não respondeu nada, e nem o teria feito mesmo se soubesse o que dizer. Sentia sua garganta um pouco doída, e o constrangimento lhe privava as palavras.
— Acho que é melhor pararmos por hoje — concluiu o Stark, olhando para o sol. — Logo irá escurecer.
Peter não sabia se sentia-se agradecido ou triste pela perda do contato, e imediatamente censurou-se por tê-lo achado confortável.
— Quer ajuda para descer?
— Não precisa, senhor Stark, eu não sou criança — resmungou de maneira teimosa, enquanto pulava para o chão, só lembrando da torção quando alcançou o solo, pisando exatamente com o pé dolorido, não tardando em cair de cara sobre as folhas.
Tony mordeu os lábios tentando não rir, mas não pôde impedir uma risadinha de sair enquanto dizia: — Eu havia oferecido ajuda por conta de seu pé.
Então com um pulo bem mais digno que o do Parker, Tony desceu do cavalo e foi ajudar o menor a se levantar. Peter estava com o rosto impossivelmente vermelho, tanto em vergonha quanto de dor, pois além do tornozelo forçado, ele caíra sobre o arranhão na coxa, e tinha também algumas folhas e sujeira grudadas nele.
Não aguentando diante daquela expressão emburrada e quase chorosa, Tony se rendeu às gargalhadas, não se sentindo nem um pouco culpado por rir da desgraça alheia.
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