Notas iniciais
Bem é a primeira história que eu publico no Nyah! Eu já postei ela no meu blog mas acho que o sentido da história muda de acordo com os lugares onde ela é lida.
Espero que vocês gostem e espero também não quebrar nenhum tipo de regra.
Estou re-escrevendo tudo, então sinta-se livre para dar sua opinião sobre. Ela é mais do que bem vinda.

O mundo mudou, mas pequenas coisas continuam iguais, indiferentes a passagem constante do tempo, imutáveis... Mesmo depois de tanto tempo o gosto ainda é o mesmo, amargo, azedo...

Eu posso sentir o gosto dos sentimentos, de todas as habilidades que eu tenho gosto de definir essa como a mais inútil, assim como a que mais combina comigo. Sim, eu sou um inútil. Aprendi a algum tempo que quanto mais rápido você assume esse tipo de coisa mais rápido consegue seguir em frente. O mais engraçado nesse dom é que não consigo sentir o gosto de qualquer alimento propriamente dito. Sei apenas a intenção dele, nada mais. É claro que isso faz com que eu coma muito pouco, o ódio tem um gosto indescritivelmente ruim, e quase tudo feito para mim tem como principal ingrediente esse sentimento. Acabo apelando para produtos industrializados, aqueles macarrões instanteneos que poderiam muito bem servir de sabonete se fossem cozidos por mais de três minutos, que tem um estranho gosto de indiferença. Tenho a crença de que isso seja como beber água, algo sem gosto que você ingere quando seu corpo avisa que vai entrar em colapso se não o fizer. Algo que é feito por obrigação, não por prazer.

Meu cabelo é incrivelmente longo para um garoto, chegando ao meio das costas em um liso negro escorrido. Meus olhos mudam de cor de acordo com meu humor, e costumam manter um tom de preto profundo, eu achava no começo que olhos pretos indicam raiva ou descontento, mas depois de um tempo comecei a acreditar que significavam descontento. A falta de comida que dava um aspecto magro, quase doente. Não era uma figura bonita, mas também não chegava a ser feio. Talvez eu fosse algo que se perdeu entre a definição do que poderia ser um ou outro. Mas creio que minha caracteristica mais importante é minha ridiculariade. Gosto de manter isso sempre na minha mente, sem deixar minha mente esquecer por um segundo que seja esse fato, pois toda vez que eu esquecia isso por alguns instantes vinha alguém me lembrar, em questão de minutos, o quão ridiculo eu era. Eu gostava de culpar a vida por isso, ou chamar isso de destino. Acredito que, até certo ponto, todos considerem o destino cruel.

Todas as pessoas que eu conheci na vida conseguiram ganhar de mim de alguma maneira, agregando a mim meu adjetivo descritivo negativo favorito: perdedor.

Viver era uma droga, e ainda é. Lembro de rir por horas sozinho na minha cama pensando nisso. O fato de vir um dia bom só significa que o seguinte será pior. Isso, é claro, definido por uma pura expressão matematica. É dificil ser pior do que o ruim, mas ser pior que o bom... Não é exatamente um desafio. Quase todos os meus dias bons eram uma forma da vida rir da minha cara na manha seguinte.

– Levanta seu inutil, tá na hora da escola! — Gritava a minha mãe do andar de baixo. A frase era ruim, indicava mal humor, mas ao menos ela não tinha começado com um balde de água — Você que que eu suba ai???

Levantei rápidamente da cama, não queria que ela entrasse no meu quarto, não sabia o que ela faria se o fizesse. Coloquei uma camiseta branca com o simbolo de minha escola, que reluzia em azul e dourado. Era uma escola cara, mas algo me dizia que existia um calculo sendo feito com todo o dinheiro gasto em mim. Era como um investimento que definitivamente seria resgatado mais tarde. Centavo a centavo, com um percentual aceitavel de juros.

– Você ainda não esta cansado ? — Perguntou-me uma voz masculina vinda do meu quarto. Pensei em responder. Pensei em que resposta dar. Ai lembrei que estava no meu quarto, que a manha tinha acabado de começar, e que eu nunca havia dividido quarto com ninguém. Controlei os gritos. Li em algum jornal que ladrões não gostavam de gritos ou resistencia. Obriguei meus olhos a procurarem pelo quarto, me movimentando com caltela e sem movimentos bruscos, pela origem da voz.

Essa foi a primeira vez que eu o vi. Sentado na minha cama, do modo mais desleixado possivel, e me encarando de um modo profundo e assustador. Seus olhos eram azuis, numa profundidade que só poderia ser achada no azul do mar, seus cabelos tinham um tom que se perdia entre o verde e o preto, com uma única trança lateral e pequena feita com perfeição. Ele parecia muito forte. De fato, demorei tanto tempo o analisando que demorei um pouco mais do que deveria pra perceber que tinha um invasor no segundo andar da minha casa, sentado em minha cama e me olhando como se estivesse tirando minhas roupas com os olhos. Nesse momento lembrei, com algum pânico, que ainda não tinha vestido minhas calças.

– Quem é você? — Parecia a pergunta mais obvia a se fazer, meu nervosismo me fez dar um pequeno passo para trás. — O que esta fazendo no meu quarto?

–O que eu sou depende de você — Riu. — Posso ser sua espada, seu escudo, ou até seu amante. Desde que na hora certa. — Seus olhos se encheram com um leve brilho enquanto eu ficava mais e mais vermelho. Ele estava falando serio? — Mas o que sou não é o mais importante agora. Na verdade, acredito que o que eu sou não seja importante de nenhum forma. Estou aqui para te dar um aviso. Um aviso só pra você. Já começou, e preciso que você esteja preparado o quanto antes.

–O que começou? — Perguntei fazendo todo o esforça para não engasgar. — Qual seu nome?

–A decisão. Aquilo que vai definir o que virá a seguir. — Riu. — Meu nome... Bem, seja um bom garoto e descubra isso por nós dois. — Entre uma gargalhada e outra ele sumiu. Uma pequena nuvem de fumaça esverdiada foi o que restou. Tinha cheiro de incenso, e também não demorou a desaparecer.

Fiquei parado muito tempo, mais do que deveria. Uma movimentação suspeita no andar de baixo me fez voltar a realidade. Isto é, se ainda existia uma realidade. Terminei de me vestir rápidamente e comecei a arrumar a cama. Fazia tudo mecanicamente. Não podia pensar, ou melhor, eu não queria pensar no que havia acabado de acontecer. Ao puxar o lençol tive a minha primeira prova de sanidade. Uma bala pequena caiu, envolta em uma enbalagem branca que eu não conhecia. Só tinha uma letra impressa, mas parecia holografica.

"Presente do meu estranho visitante", pensei. "Mas fantasmas não costumam carregar doces", completei. Talvez fosse um ladrão, embora fosse improvável que um ladrão desaparecesse no ar sem deixar rastros, depois de entrar no quarto de um estudante, não roubar nada e ainda deixar um presente. "Talvez um ninja...", pensei. Ri do meu pensamento quase que imediatamente, e comecei a me preocupar novamente com minha sanidade mental.

Abri o pequeno envelope. O doce quase pulou para minha mão. Tinha um tom de vermelho profundo, quase sangue, e me parecia extremamente atrativo. Pensei em o colocar na boca, mas então lembrei de sua origem complicada de explicar. Talvez... Talvez só provar. Não era como se eu fosse sentir algo bom. Não era como se eu tivesse um motivo para não ser envenenado.

O sabor e a textura eram únicos. Era doce, doce como eu nunca havia sentido antes. Era um sentimento novo. Completamente novo. "Seria amor?", Pensei sorrindo. Lembrei novamente da origem da bala e comecei a gargalhar. "Realmente, devo estar enlouquecendo" pensei, guardando o papel branco no bolso e seguindo em frente.

Era melhor jogar toda essa felicidade fora. "O destino é ruim e o dia será um droga", pensei. Gostaria de afirmar que eu estava errado nesse pensamento, mas minha felicidade teve uma duração quase tão curta quanto a daquela bala. Como a muito tempo não era, meu dia foi uma droga.

Notas finais
Não acredito que estou voltando a escrever isso depois de tanto tempo. Creio que todos os leitores antigos já tenham abandonado a esperança de ver isso continuar, mas bem, espero que novos apareçam. Diga-me o que achou, como ficou, enfim... É isso.