Alone
22 Reencontro

— O que faz aqui?! — Lauren perguntara a Rebecca. Incrível...era tão real vê-la, como somente ela seria capaz de enxergar o que está bem diante de seus olhos? Não parecia uma mera...ilusão de sua mente.
— Desculpa interromper a conversa com sua amiguinha imaginária, mas precisamos procurar um lugar pra descansar. — Jeff comentou em sarcasmo, sorrindo ligeiramente.
Fechou o cenho, encarando-lhe. — Onde pretende ir?
— Vou usar o dinheiro roubado pra pagar um quarto de hotel por perto. Não ficaremos muito tempo por lá, apenas o suficiente para tirar um cochilo, entendeu? — Alertou enquanto dirigia.
— Entendi. Ficaremos no mesmo quarto?
— Sim. Mas não precisa se preocupar, não pretendo estuprá-la enquanto dorme. — Sorriu de lado soltando um riso baixo.
Revirou os olhos. — Que seja. Mas diga-me, irá se encontrar com os caras que contratou pra nos ajudarem a entrar no banco?
— Certamente. — Falou. — Pra ser mais claro, terei algo a mais pra fazer hoje, então só irei encontrá-la há noite assim que terminar. Não abra a porta pra ninguém, garotinha.
— O que tem de tão sério pra fazer? — Perguntou curiosa.
— Você verá. Mas deixe de ser curiosa, está me irritando.
Riu baixo. A irritação de Jeff parou de ser uma ameaça, sabia diferenciar seu humor agora. Ele sempre foi extremamente instável, na mesma hora em que ria, era capaz de se irritar por um mínimo detalhe. Apenas com certo nível de convivência conseguiria saber lidar com sua bipolaridade agressiva.
Enquanto o mesmo dirigia, ficou olhando uma vez ou outra a expressão de Rebecca, a qual não havia se manifestado, mas que olhava com muito desprezo o motorista. Desprezo e desconfiança. Deduziu que sua outra personalidade gostaria de conversar a sós, o que não dava pra saber se era algo favorável ou não.
Quando chegaram ao hotel sem muito luxo localizando-se próximo à uma rodovia, pagaram suas hospedagens alugando um quarto para apenas uma noite. Jeff assim que resolveu essa questão, já saiu sem ao menos visitar a suíte em que ficariam.
Lauren foi até seu quarto adentrando e trancando a porta logo em seguida. Rebecca, obviamente, ainda estava seguindo-a e assim que teve certeza que Jeff se distanciara, tratou de puxar assunto quando pôs seus olhos em Lauren sentada em uma poltrona marrom vetusta com capa degastada, apoiando suas pernas em uma pequena mesa de centro que estava à sua frente.
— Posso saber o que quer comigo? — Ela perguntou antes mesmo que Rebecca viesse a puxar assunto, já que suas ações eram previsíveis.
— Tome cuidado com Jeff, ele não é seu total aliado.
— Apareceu só pra dizer isso? — Ergueu vagamente sua sobrancelha.
— Ouça-me: Jeff pode se aproveitar de você, talvez ele não faça isso, mas ainda será seu plano B, então não confie totalmente nele.
— Não sou tola ao ponto de confiar no Jeff. — Soltou uma risada forçada. — E por que você não some? Você só vem me atrapalhando!
— Se quer que eu suma dê um tiro em sua cabeça. — Retrucou. — Mas não seja insolente, ainda precisará de mim.
— Não, não precisarei.
— Precisará sim, Lauren. Esse tempo todo eu te ajudei sem que percebesse, você só estará livre de mim quando alguém estiver livre de você. — O que ela queria dizer com isso?
— É só isso que quer comigo? — Encarou friamente.
— Por hora, sim.
Rebecca andou para outro lado do cômodo, onde Lauren depois de alguns minutos percebeu que havia ficado sozinha por fim. Um alívio e tanto, por assim dizer. Tirou seus sapatos e caminhou objetivamente até a cama, deitou-se de bruços fechando seus olhos e relaxando seu corpo, tendo talvez um de seus raros momentos de conforto. As pálpebras cansadas já haviam se fechado tornando sua visão completamente soturna, onde sua mente logo encaminhou-se ao desaveio dos sonhos.
— Lauren, acorde. — Sentiu seu ombro ser balançado, despertando-a.
— Jeff? — Bocejou coçando os olhos enquanto sentava-se na beira da cama.
— Você dormiu por seis horas, agora saí dessa cama.
— Certo. — Levantou aos poucos acordando por completo. — Você chegou agora?
— Sim. — Respondeu. — Quero que veja algo.
— O que é?
Jeff tirou sua blusa em seguida livrando-se de sua camisa que estava por baixo. Ela arregalou os olhos imaginando que ele tivesse as piores intenções possíveis, mas apesar disso analisou seu corpo esguio de tom pálido e desbotado, cuja cor branca era considerada bem mais do que exagerada.
— Vós não devestes preocupar-se. — Ele comentou em um tom sarcástico. — Já disse antes e volto a repetir: não pretendo estuprá-la, pelo menos não agora. — Sorriu cinicamente. — Quero que veja uma coisa.
— Espero que essa "coisa" não esteja dentro de sua calça. — Retrucou com os braços cruzados.
O rapaz revirou os olhos bufando longamente. — Pare de ser tola! — Virou-se. — Olhe para minhas costas.
Sem entender muito bem, assim o fez. Olhou duvidosa as costas de Jeff, surpresa ao ver que estavam...tatuadas? — Jeff o que...?
— Apenas veja.
Analisou com mais atenção a tatuagem que encobria as costas delgadas de seu parceiro. Era o desenho de um dragão. Um dragão chinês, mais especificamente. Cobria as costas inteiras de Jeff, tendo traços tribais que alcançavam até mesmo as laterais de sua cintura incluindo também seus ombros caídos. O comprimento do dragão mais parecia de uma serpente, seus chifres eram similares à de cervos, seus olhos completamente brancos, sua boca lembrava a de um leão, seu corpo continha escamas de carpa, suas patas eram de tigres e quanto as garras eram como de águias. Ao todo, o que mais chamada atenção, era o par de caninos longos e afiados da besta feroz assim tatuada.
— A tatuagem é interessante. Mas não entendo porquê a fez.
— Dê seis passos pra trás.
— Como? — Franziu as sobrancelhas levemente, estranhando.
— Faça logo, garota. — Reclamou encarando-a do canto dos olhos.
— Tudo bem... — Resmungou confusa, fazendo como assim pediu. Olhava pra trás para em nada tropeçar, afastando-se aos poucos até ter efetuado os seis passos largos chegando ao outro lado daquele quarto de hotel. Voltou a fitar a tatuagem, a qual parecia ter tomado outra forma assim que afastou, surpreendo-a. — Jeff, isso é...?
— Exato. A tatuagem vista de longe é como uma mapa, uma planta de um local particular que especifiquei.
Era interessante, de perto o dragão era claramente visto, mas de longe apenas seu rosto e sua calda eram realmente notados, poderia perceber claramente uma divisão de corredores e cômodos, como Jeff citou, uma planta de alguma casa ou construção antiga... — Onde é esse lugar? E por que o tatuou?
— Logo saberá. Acredite ou não, mas ter isso em meu corpo será de grande ajuda. — Falou enquanto vestira sua blusa, jogando-se na cama sem ao menos tirar seus sapatos. — Vá pra sala, preciso descansar.
Em um ato gentil de sua parte, sem muitas razões para efetuar isso, pegou a coberta jogando em cima de Jeff que fez uma expressão confusa e indiferente.
— Que atitude gay. — Comentou ele, ignorando e se movendo calmamente na cama buscando pelo sono. Ficou fitando-o por alguns minutos, mas pela sua expressão era melhor ela ir logo
Lauren o deixou indo até a sala, encostando a porta do quarto e indo em direção ao sofá. Ligou a tv passando de canal em canal sem muito interesse, apenas como mera distração passageira. Algo estava perambulando por sua mente, uma preocupação não-natural pelo o que estava por vir...isso não era nada bom há essa altura.
{...}
Pela manhã, por volta das 05:00, Jeff saiu de seu quarto e assim que ouviu a porta de madeira sendo aberta, Lauren levantou-se do sofá afoitamente. A espera já havia tornado-se maçante para a jovem, e seus olhos atentos observavam os movimentos de Jeff, que somente despreguiçava-se no exato momento, mexendo em seu cabelo completamente desalinhado.
— Você está pronta?
— Estou. — Garantiu. — É muito longe daqui?
— Não muito, e por essa razão reservei esse hotel. — Explicara. — Deve levar no máximo uns vinte minutos daqui até lá.
Jeff não estava tão agressivo...por quantos minutos isso duraria?
— Então iremos finalmente visitar o local onde os cobaias humanos são mantidos? — Perguntou com certo ânimo em sua voz, mas que Jeff sequer notou.
— Óbvio, sua pacóvia.
É, como previu, a gentileza dele pouco durou. Soltou uma risada baixa, seguindo ao lado dele para fora do quarto, sem muitos comentários.
Ele estava apressado, não houve pausas durante a caminhada e estava logo em direção à saída do hotel, onde a garota continuara a acompanhá-lo com as mãos acolhidas nos bolsos de sua blusa.
Ambos entraram no carro, Jeff assim que o ligou tratou de colocar uma música aleatória para tocar. Pelo o que analisou de seu gosto musical, a maioria das vezes ele optava por bandas e/ou cantores de rock clássico e heavy metal. No momento, One da banda Metallica repercutia logo em seu começo, acompanhando-os durante a estrada.
— Jeff, que tipo de torturas realizam nas vítimas? — Indagou, o que não pareceu agradá-lo mas ainda assim, recebeu uma resposta.
— A lista é bem estendida. — Suspirou entendiado. — Confinamentos, contenção com cordas ou correntes, afogamento não fatal, ingestões de fluídos corporais -- como sangue, urina, fezes, carne humana, fiações em lugares sensíveis do corpo, choques elétricos, membros superiores e inferiores deslocados, drogas para criar ilusão e amnesia, experiências de quase-morte, escravidão humana, privações de sono, privação de alimentos, abusos sexuais, camadas superiores da pele removidas, entre outras coisas.
Tinha que admitir, era bem mais sério do que pensara. — Isso...é horrível. O que eles ganham com isso?
— Eu já expliquei isso, Lauren. — Disse emburrado. — São testes para usar em interrogatórios, testar medicamentos e drogas ilegais, entre outros derivados.
— Entendo.
— Agora fique quieta até chegarmos, não estou com paciência para responder todas as suas perguntas tolas. — Inflou as narinas estressado, mantendo como foco a estrada na qual dirigira com atenção.
Deu de ombros. Colocou o dedão na boca roendo a unha de leve enquanto pensara sobre as novas informações que tinha obtido. A maioria dos cobaias tinham problemas mentais, e além de sofrerem com suas doenças e não terem os devidos tratamentos, ainda eram submetidos a situações tão precárias. Isso era lamentável, principalmente por seu suposto tio ser um dos mandantes de um projeto clandestino tão horrendo.
Alguns minutos depois e aparentemente chegaram, algo que notou pelo olhar de Jeff confirmando se estava mesmo no local certo. Ele dirigiu um pouco mais longe para que não vissem seu veículo por ali, e o parou guardando a chave no bolso da calça e saindo do carro em seguida. A morena abriu a porta a batendo com força assim que se pôs pra fora.
— Vamos. — Jeff pediu apressando seus passos. O acompanhou, observando a grama por qual caminhava.
Os dois se esconderam atrás de duas árvores ao lado da grande casa branca bem construída em uma área deserta sem qualquer morador pela rua lacuna, que do outro lado era preenchida por árvores de perder de vista.
— Como faremos isso? — Encarou-o.
— Vamos entrar pelos fundos, tem uma passagem, como um porão, é lá onde provavelmente realizam todos os testes. — Sussurrava pensativo. — Pegue. — Entregou-lhe uma faca militar tal como a que o mesmo carregara. — Se precisar atacar, seja rápida e acerte em locais fatais, temos que agir rápido e não tolero interrupções. — Ressaltou em um tom ameaçador. — Provavelmente terá um homem vigiando a passagem, na parte de cima da casa ele deve ser um dos únicos, já que a maioria dos indivíduos que moram aí são os que realizam as torturas e devem estar no porão citado.
— Entendi, Jeff.
— Ótimo, tente não morrer. — Começou a correr atento para cada canto tanto das matas quanto da casa, sofrer um ataque surpresa não seria possível julgando a atenção que ele mantinha. Ela também correu, não tão rápido quanto Jeff, mas quando ele chegou à porta dos fundos conseguiu alcançá-lo com a respiração acelerada, tentando se recompor. — Pronta? — Murmurou.
Ela assentiu. Jeff atingiu a porta com a lateral de seu corpo, batendo forte com o ombro para que ela viesse a se abrir. Ao adentrarem estranharam a pouca claridade, assim como na mansão de Adam, só era iluminado por velas. Com a faca frente ao seu corpo, andava atento limitando seus passos para que pouco barulho fosse ecoado.
Lauren recebeu um sinal dele para que se separassem por um momento tomando direções diferentes. Com o mesmo cuidado dele, andou atentamente, não encontrando uma alma viva pelo recinto, o que era um alivio a parte.
Mesmo com as poucas velas, entrou no que parecia ser a sala, vendo uma escada ao lado e uma porta aberta na esquerda. Receosa, estudou a fundo o cômodo antes de adentrar, mesmo não podendo analisar tão bem pela claridade falha.
Ouviu um barulho que parecia vir de fora, virando-se e dando passos pra trás. Em um momento de pânico, tropeçou pra trás já esperando levar um grande tombo, mas para sua surpresa alguém a segurou pelos braços, o que foi um alivio pela queda e um assombro pelo plano.
Seus olhos arregalaram-se, afastando e tentando olhar o rosto do sujeito. — Q-quem é você?
— Calma, não vou machucá-la. — Disse, calmo.
O profissional assassino que ouvira o barulho causado por Lauren, virou seus olhos furioso caso ela tivesse colocado tudo a perder. Correu até onde ouviu o barulho encontrando-a acompanhada. — Lauren! O que pensa que está fazendo?
— Jeff, eu... — Não completou a frase assim que percebeu que Jeff havia se petrificado perto da porta, completamente imóvel. Sua expressão era...de espanto. Não, ele não sentia medo, mas estava muito, por assim dizer, surpreso.
Olhou para o rapaz que havia a ajudado. Com a pouca luz não reparou em suas vestes e não sabia ao certo a cor de seus olhos e cabelos, mas julgando pelo o que notou, tinha olhos claros e cabelos castanhos próximos a um tom cobre. Ele também olhava seriamente para Jeff, demonstrando a mesma surpresa, mas com uma ponta de ódio acumulada.
— Jeff... — O desconhecido comentou ao lado da garota. — Há quanto tempo, não é...irmãozinho?
Continua...
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