Alone
5 Dor
– E então, o que achou do Jeff?
– Muito educado. — ironizou Lauren.
– De fato. — riu — Mas estou preocupada...e se algo der errado? Nem sei se decorei tudo o que Jeff pediu...e se eu fizer alguma besteira e colocar tudo a perder?
– Você irá vê-lo todos os dias, ele poderá te orientar caso esqueça de alguma coisa. Fique tranquila, dará tudo certo.
– Está sendo otimista demais Lauren...
– Estou tentando ignorar o pessimismo ultimamente, mas isso não vem ao caso. Por onde iremos começar?
– Primeiro agendar um horário pra vocês dois passarem por algumas consultas, e enquanto isso irei andar pelo hospital procurando os locais que Jeff me pediu...
– Certo. Teremos que ir com calma mesmo, se começarmos a mostrar agitação ficará muito óbvio, vamos cuidar de uma coisa por vez, é preciso ter calma... — falou passando as mãos em seu rosto.
Ela estava feliz com o início dessa longa jornada em busca da liberdade. Liberdade. Como as pessoas veem a liberdade? O que podem fazer pra se libertar? Algumas passam suas vidas presas nelas mesmas, vivendo sob um céu nublado. A verdade é que as pessoas sempre se limitarão em suas autonomias, porventura por já estarem acostumadas com a sujeição. Talvez pudesse definir como um estado de espírito, tentando consegui-la ao custo de suas essências escravizando seus direitos humanos em busca de algo que todos deveriam ter desde o nascimento, a liberdade. Se perguntava se era realmente livre antes de entrar nesse universo dentro de si, ou se só foi descobrir que não era depois de provar isso em sua realidade, fugindo de seu mundo e entrando no dos outros. Seria melhor dizer que ela não fugiu, mas que foi arrebatada.
Uma de suas qualidades era poder pensar em tudo mesmo estando entre nada. Em sua volta pode haver uma multidão, mas em sua mente existirá apenas quem ela quer. Ou seja, ela estará só. Apenas imaginando uma paisagem diferente. Tudo o que queria era fechar seus olhos e sentir a brisa gélida atingindo seu rosto, apreciava o que sensações costumárias a causavam.
Quando foi que minha vida se transformou em uma série de conflitos internos?– pensou.
O sinal tocou, anunciando que era hora de se retirarem. Nunca parou pra pensar em como era a rotina em um hospício, até porque nunca precisou. Mas se fosse para comparar não seria tão diferente da hora do almoço em seus antigos colégios. Em ambos os lugares existiam pessoas desequilibradas e confusas, qual outra comparação seria melhor feita?
Se levantou sentindo a mão de Rachel em suas costas, guiando-a novamente para seu quarto reprimido. O desespero dos pacientes sempre a causava angustia, se colocando no lugar deles. Os funcionários nem sempre eram muito agradáveis, olhando-a com aversão, mas nunca pensou em machuca-los por isso. Jeff não se importava em matar alguém pra atingir seu objetivo, seria apenas mais uma vítima pra ele, sendo culpado ou inocente. Mas pra ela...era diferente. O que a preocupava não era de fato a ideia de matar alguém, mas de ter coragem pra isso.
A maioria das pessoas quando assistem a um filme de terror costumam optar por uma história assustadora e torturante, muitas vezes torcendo pro assassino. A verdade é que as pessoas gostam da dor causada nos outros, é um divertimento à elas. Quando mais agoniante...melhor. Essa sempre foi a lógica deles, mas nunca sentiram necessidade de fazer algo semelhante com alguém. Diferente dos filmes, na realidade não existe os mocinhos ou os vilões, e esse é o maior problema: a incerteza. Quando não se é de um lado ou de outro, você acaba pertencendo aos dois, e sua escolha de qual lado seguir é o que define o que realmente sua existência significa. Mas a realidade de Jeff era diferente, ele não pertencia a lado algum, sua existência era insignificativa, não havia razão pra ele fazer o que faz. E quando não sabe o que lhe mantem vivo, é o mesmo que não estar.
–
No dia seguinte, seria sua primeira consulta desde que chegou ali. Não sabia nem exatamente o que distinguia os psiquiatras com os psicólogos, nunca passou com nenhum deles até agora. Só sabia que precisaria saber o que dizer pra aparentar melhora psicológica, se arriscando a dizer que deveras fosse sua culpa a morte de sua família. Ninguém gostaria de assumir algo que não fez, mas se fosse pro bem do plano não pularia fora, estaria disposta a esconder a verdade se preciso.
– Está na hora. — alertou Rachel abrindo a porta.
Acenou com a cabeça saindo do local, tentando mostrar-se calma.
Os corredores estavam bem mais agitados que o normal, uma nova alma sofrida havia chegado ao local. Os internos estavam dificultando o trabalho dos profissionais, se apresentavam nervosos e instáveis nos últimos dias. A surpreendia o fato de Jeff não ter arrumado confusão desde que foi internado, ele estava mesmo se controlando pra sair dali o quanto antes.
Chegaram a uma sala com paredes azuis claras, provavelmente um dos poucos locais do prédio que realmente tinha uma cor mesmo que inaparente. Um homem de aproximadamente 48 anos de olhos azuis e cabelos castanhos claros estava sentado com os braços apoiados sobre a mesa branca. Em sua frente havia uma cadeira confortável, para os pacientes se sentirem a vontade.
– Olá, senhorita Cresswell. Sou o doutor Dominic Lawson. Por favor, queira se sentar.
– Obrigada... — suspirou.
Se virou pra Rachel que colocou a mão sobre seu ombro a incentivando a continuar, e logo saiu do local deixando-os sozinhos. Foi até a cadeira se sentando em frente ao doutor que a deixou extremamente desconfortável com seu olhar cauteloso sobre a menina.
– Lauren, certo? — começou.
– Sim...
– Segundo seu histórico você teve problemas familiares, poderia me contar o que houve?
– A essa altura você já deve ter conhecimento sobre tudo o que ocorreu, doutor...
– Evidentemente, mas os detalhes só você tem conhecimento, senhorita. Por favor, sinta-se a vontade pra se abrir comigo, serei mais que um profissional aqui, quero ajuda-la em seu tratamento. — disse dando meio sorriso — Em sua ficha diz que você foi acusada de matar seus pais e seu irmão, mas até então seu depoimento revela o contrário. O que me diz a respeito?
Eu tenho que parecer culpada...
– Não tenho nada a dizer, doutor. Eu não me lembro do que aconteceu depois que apaguei, mas acordei muito assustada sem me lembrar de mais detalhes. Só lembro do rosto de meu tio e dos corpos de meus familiares, nada mais.
– Pensei que tivesse certeza absoluta que seu tio, Adam Cresswell, foi o responsável. Por que mudou tão repentinamente?
– Acho que fui aceitando os fatos...minhas digitais foram encontradas na cena do crime, e por mais assustador que isso seja, comecei a me ver como louca desde então...
– Se vê como louca?
– As vezes sim.
Começou a perceber algo estranho ao ver que o olhar do homem passou a ter más intenções, olhando seu corpo. Apesar de maltratada, ela ainda era atraente, mas sua beleza não justificava a atitude impropria do doutor. Ela estava quase o atacando, sentindo o ódio aumentar cada vez mais. Viu ele se levantando, mas resolveu continuar imóvel até então.
– De todas as paciente que tenho acompanhado, senhorita Cresswell, você foi até hoje a mais vistosa. Seus lábios são atraentes e concitativos... — falava se aproximando da cadeira onde ela estava.
A morena tentou se levantar quando o homem prendeu seus braços sobre a cadeira impedindo-a. Ela ergueu seu rosto irada vendo um sorriso malicioso brotar em seus lábios, deixando claro quais eram suas intenções. Tentou a beijar a força enquanto levava suas mãos aos seios fartos da mulher que não parava quieta. Se sentia frágil por não saber o que fazer, enquanto o homem passeava aos mãos sob seu corpo. Assim que ele aproximou novamente sua mão ela agiu sem pensar, mordendo a mão do doutor com força livrando-se de toda raiva acumulada que ele a causou. Ele gritou de dor, batendo em seu rosto tentando fazer com que ela soltasse. Mas ela nada fez, continuou aplicando ainda mais força sentindo o gosto do sangue entrando em sua boca. Ele chutou sua barriga fazendo-a cair com a cadeira pra trás, indo parar no chão. Enquanto Dominic procurava algo pra colocar em sua mão machucada, Lauren continuava deitada no chão olhando pro teto.
No momento ela não pensava em nada, e não pretendia realizar aquela cena outra vez. Mas algo era agradável...ela sentia o prazer de ver a dor em uma pessoa que a causaria caso não tivesse impedido.
– Sua vadia! — xingava o homem — Eu vou tornar sua vida um inferno nesse lugar!
Ainda sem total consciência sobre o que estava fazendo, ela sorriu. Dando inicio a uma gargalhada inusitada, enquanto o sangue em sua boca jorrava pelo seu queixo. Ele a encarava incrédulo, Lauren não sabia o que ele pensava a seu respeito, mas tudo o que sentia agora era o desejo de repetir a ação. O desejo de conhecer a verdadeira dor novamente.
Continua...
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