Almejar
16 Capítulo XVI - Despedidas
Notas iniciais
Agnes ainda estava surpresa com a presença de Penha e Sofia em seu apartamento, mas não hesitou em abraçá-las.
“Um abraço? Você tinha razão, Sofia. As coisas estão diferrentes. Não vai nos convidar parra entrar?” a moça de lisos cabelos negros perguntou.
“Claro! Entrem. Os sapatos!” cedeu passagem, apontando para os pés delas ao fim.
Penha riu.
“Certos hábitos nunca mudam, hein, Agnes?!” comentou enquanto tirava suas botas.
“A rua tem muita sujeira e eu limpei a casa hoje.” explicou-se.
“Você trabalhou o dia todo e ainda limpou a casa? Coragem!” a de cabelos curtos exclamou tirando suas sandálias.
“Não foi o dia todo. E limpar a casa não me cansa.” a outra respondeu.
As três se sentaram no sofá.
“O que andam fazendo?” Agnes perguntou.
“Sobrevivendo à faculdade e questionando minhas escolhas.” Sofia respondeu.
“Andei me divertindo nas boêmias noites parrisienses com boa companhia.” respondeu risonha.
“Quando você chegou?” a moradora perguntou.
“Há uma semana. Mas como você não gosta que te visitem assim que chegam de viagem, falei pra Sofia guardar segredo.” respondeu.
“Agradeço!” a outra sorriu.
“E então? Querro saber das últimas novidades!” a morena disse.
Agnes respirou fundo.
“Nossa… por onde começo?” perguntou.
“Que tal do começo? Vou adorar ouvir essa história de novo!” Sofia sugeriu.
A moça sentiu uma onda nostálgica surgir enquanto pensava na volta que sua vida havia dado.
“Tudo começou quando meus pais disseram que viriam me visitar e conhecer meu namorado…” riu ao começar.
Após contar detalhadamente todos os acontecimentos, as outras duas trocaram um olhar.
“Rainha do beer pong sempre me pega! E pensar que ela gostou desse jogo porque evita contato físico.” Sofia comentou.
“Você focou no beer pong, Sofia? O namorrado fake dela fez o trabalho tão bem feito que ela se apaixonou!” a morena apontou.
Agnes deu de ombros.
“Não foi por causa do trabalho, foi por causa do que aconteceu fora da mentira. Eu até abracei ele por vontade própria! Isso é muita coisa pra mim.” falou.
“Me responde uma coisa… suas tendências hipocondríacas simplesmente somem com ele?” Penha perguntou.
“Não, mas fica diferente. Ele sempre foi muito compreensivo e respeitoso com todos os meus limites. Então deixou tudo mais leve.” respondeu.
“Isso é muito bom.” Sofia comentou.
“Eu gosto do que tem acontecido, mas sinto que tem alguma coisa faltando, só não sei o que é.” a outra confessou.
A morena riu.
“Você sabe muito bem o que é…” comentou maliciosa.
“Penha, seja um pouco mais sensível! É uma coisa nova pra ela!” Sofia a repreendeu.
Agnes suspirou.
“Ela tem razão, Sofia! A cada dia que se passa, eu… eu quero algo mais.” confessou.
Penha aplaudiu, Sofia riu alto e Agnes bufou.
“Me sinto uma adolescente confusa com sentimentos!” reclamou.
“Você não experimentou isso na adolescência, então não se culpe.” Sofia a tranquilizou.
“O que vai fazer?” Penha perguntou.
“Como assim?” a outra devolveu uma pergunta.
“Se você gosta dele, precisa fazer alguma coisa.” explicou.
A estudante de biologia suspirou.
“Sei lá… Acho que só faria papel de boba.” duvidou.
“Por quê?!” as outras perguntaram em uníssono.
“Meninas, ele vai em festas apocalípticas! Os amigos dele são skatistas, festeiros e frequentadores de bares! Eles têm um tipo específico de mulher!” explicou-se.
“Bobagem, Agnes! Se fosse assim, como explicaria aquele amigo dele do beer pong que queria ficar com você?” Sofia perguntou.
“Ele só sabia que jogo beer pong, diferente do Cascão. Acha mesmo que o Cascão, um cara que pode ter qualquer uma, iria querer justo uma cheia de B.O?” interrogou.
“Se for pensar assim, nunca vai conseguir nada mesmo.” Penha disse.
As outras duas se surpreenderam com a franqueza.
“Penha!” Sofia repreendeu.
“Sem morralismo, Sofia! Agnes, durrante anos a hipocondria te parralisou. Então não pode deixar essa insegurrança te impedir de florrescer!” Penha iniciou.
“Você teve corragem parra morrar com duas pessoas, parra trabalhar num lugar que tem fluxo de pessoas, parra fazer um curso presencial, parra contratar o Cascão e parra ir no Bidu. Então me fala por que não tem corragem de pelo menos tentar se aproximar e descobrir se é recíproco?” questionou seriamente.
Os olhos severos de Penha estavam fixos aos arregalados de Agnes. Havia um misto de desprezo e carinho que jamais saberia explicar, era algo único de Penha.
“Não vou te obrigar a se declarrar, mas vou pedir que enfrente mais uma vez as suas tendências hipocondríacas e o seu medo da popularridade do Cascão. Mas não faça isso por mim ou pela Sofia, e sim por você mesma.” concluiu.
Sofia ficou em silêncio, apenas observando a boquiaberta Agnes.
“Vamos, Sofia. Podemos sair amanhã.” Penha sugeriu já se levantando.
“Ah, vamos chamar Denise e Jerê também! Esse rolê precisa acontecer.” Sofia riu.
A outra ainda estava atônita quando enfim teve uma reação.
“O Cascão joga amanhã. Vamos no jogo! Ele não se intimida com plateia.” falou rapidamente.
Penha sorriu.
“Por mim, tudo bem.” falou e Sofia assentiu.
Após se despedirem, Agnes ficou na sala com as palavras de Penha martelando em sua cabeça.
De súbito, a porta se abriu, revelando uma sorridente Milena com uma travessa em mãos.
“Você foi num encontro e voltou com uma travessa?” perguntou de cenho franzido.
“Ganhei num bingo.” a outra respondeu.
“Vocês foram num bingo?” Agnes questionou surpresa.
Milena riu ao assentir.
“E foi legal! Primeiros encontros me deixam meio nervosa, aí acabou ajudando a ficar mais de boa.” falou.
“Nervosa com o que exatamente? Vocês já não ficavam?” a outra perguntou.
“Sim, mas um encontro muda algumas coisas.” explicou.
A loira negou com a cabeça.
“Ele ‘tá te passando excentricidade pela saliva.” comentou.
A cacheada fez uma careta.
“Não fala assim, Agnes! Faz o beijo parecer nojento!” exclamou.
“Se formos ver, é a realidade.” a loira racionalizou.
“Quando dado com vontade, um beijo na boca é mais que uma mera união de bocas, Agnes. Quando você der um, vai saber do que estou falando.” a outra disse deixando a travessa na mesa e indo para seu quarto.
Agnes acabou rindo, mas a fala de Milena também ocupou espaço em sua mente. Com isso, pegou-se imaginando como seria beijar na boca de Cascão, fazendo com que o nojo cedesse espaço à curiosidade.
“Vou tentar dormir antes que eu enlouqueça. Oito horas de sono estão me fazendo falta.” falou indo para seu quarto com um sorriso nos lábios.
*
O quente domingo chegou bem rápido. Em seu quarto, Cebola se arrumava para ir ao campinho onde seria o jogo de Cascão quando seu celular começou a vibrar, indicando uma ligação de Cornélio Frufru.
“Bom dia, senhor Cornélio! Ér… a que devo a ligação?” atendeu surpreso.
“Cebola, hoje tenho uma partida de golfe. Esteja lá.” avisou.
O rapaz piscou um olho de cada vez.
“Golfe? Sinto muito, senhor, mas eu tenho um compromisso.” recusou.
“Que compromisso?” o outro perguntou.
“Meu amigo vai jogar futebol hoje e eu…” falava até ouvir a risada do mais velho.
“Cebolácio, muito em breve, você será meu secretário, então é bom já conhecer algumas pessoas e lugares.” falou.
“É que é uma partida importante. Um olheiro vai estar no campinho e…” tentou argumentar.
O mais velho bufou.
“Pense grande, Cebolácio! Hoje você poderá me ajudar com alguns assessores, amanhã você poderá ser um assessor. Amigos vêm e vão, mas oportunidades… nem sempre aparecem. Logo você fará novos amigos, inclusive que combinem mais com seu novo estilo de vida.” falou.
“Meu estilo de vida?” o rapaz repetiu.
“Há momentos específicos para se visitar um campo de futebol de rua, Cebola. Geralmente quando tem alguma figura importante no lugar, o que não é o caso. Já no campo de golfe, estarão contatos importantes. Está entendendo o que quero dizer, certo?” o outro perguntou.
Cebola engoliu em seco.
“Sim, senhor. Eu… eu vou avisar meu amigo que não vou conseguir ir e encontro o senhor no campo de golfe.” aceitou.
“Ótima escolha. Até mais.” desligou.
O rapaz suspirou.
“Oi, mano. Eu vou ter que furar! O Frufru me chamou pra ir num jogo de golfe e pelo visto vai ter gente importante lá. Então… você entende, né?” enviou um áudio.
Em resposta, Cascão apenas reagiu à sua mensagem com uma joia.
Cebola não soube o motivo, mas se sentiu desconfortável como nunca achou que se sentiria. Até pouco tempo, aquele tipo de oportunidade encheria seus olhos, mas agora parecia esvaziá-los.
“Eu realmente queria ir, Cascão. Mas o Frufru insistiu! E essa coisa do contato é importante.” mandou outro áudio.
“Não precisa me explicar, Cebola. Eu entendo, pode ir em paz. Bom jogo pra vocês.” leu a mensagem de texto recebida.
Cebola colocou os cabelos para trás e foi trocar de roupa.
Chegando no local, olhou para as várias pessoas com amizades tão artificiais quanto o gramado sintético que pisavam.
“Tudo bem, Cebola?” Carmem perguntou enquanto bebia uma taça de água.
Olhou para a noiva.
“Todo mundo aqui é seu amigo?” perguntou e ela riu.
“Ninguém tem tudo isso de amigo. E digamos que minhas escolhas me afastaram um pouco do grupo.” respondeu.
“Que escolhas?” ele perguntou.
“Não namorar com um deles e ter virado influencer, por exemplo.” a loira respondeu.
O rapaz franziu o cenho.
“Que papo é esse? Você nunca falou disso!” exclamou.
A loira o encarou.
“Vamos por partes. A maioria aqui prefere discrição, o oposto de uma influencer. Sobre o namorado, muitos aqui gostam de fazer alianças entre empresas grandes, então acham ruim que não fiz.” explicou.
Aquilo surpreendeu Cebola.
“Isso não é meio… antiquado?” perguntou.
“A vida tem dessas. Mas como a empresa dos meus pais é maior, tive um pouco mais de liberdade na minha vida amorosa, mesmo recebendo indiretas.” respondeu.
“Indiretas? Eles que me escolheram?” o rapaz perguntou confuso.
Carmem riu.
“Nem teria como, Cebola. Mas eles sempre me diziam como seria o “genro ideal”, e você se aplica em quase todos os requisitos. Já que estamos falando disso, acho que já passou da hora de eu ser sincera com você.” deu um gole em sua água.
“Eu nunca senti algo genuíno por você. Eu fui atrás de um cara que meus pais gostassem e que fosse legal, aí te achei. E eu quis me casar porque uma influencer que não gosto ia se casar e eu queria ganhar dela.” revelou.
Cebola a encarou incrédulo. Sabia que ela tinha seus próprios interesses, mas não imaginou que seria desse jeito.
“Você me pediu em casamento só por causa de uma competição?!” perguntou.
“Sim.” ela confirmou.
“Carmem… você podia ter me falado antes!” reclamou baixo.
“Que diferença faria? Você está saindo no lucro. Acha mesmo que não sei que você só continua comigo por interesse?” falou e ele abriu e fechou a boca, achava que estava sendo discreto.
“Ah… teria sido bom saber.” respondeu.
“Cebola, metade dos casamentos aqui são por interesse. Mas ainda sim precisam parecer perfeitos. Então… acho que está na hora de fazer novas amizades, assim se sentirá menos sozinho.” aconselhou e saiu.
Aquilo ecoou na cabeça do rapaz, que já se sentia sozinho em meio àquelas pessoas. Sentiu-se pior ao pegar o celular e ver um story de Cascão no campinho.
“Ele estava certo… estou nas mãos do Frufru.” balbuciou.
*
Enquanto isso, no campinho, sob o sol que ficava mais quente, Cascão fazia aquecimentos perto de uma arquibancada com sombra quando rostos conhecidos apareceram.
“Valeu por colar, gente! Toda força é bem vinda!” agradeceu.
“Estamos todos dentro de você, Cascão.” um amigo zombou.
“Ih… sai fora, maluco!” riu em resposta.
Ao se virar, seu sorriso cresceu um pouco quando viu suas vizinhas, tendo uma dessas presenças como mais especial.
“E ai, meninas! Trouxeram convidados? Já posso começar um esquema de pirâmide.” brincou pegando sua jaqueta da arquibancada.
“Me coloca em pirâmide que eu te bloqueio!” Milena comentou risonha antes de ganhar um abraço dele.
“E aí, Do Contra!” cumprimentou o rapaz que usava óculos escuros.
“Não repara se eu não vibrar com seus gols, cara. Dormi tarde e acordei muito cedo.” o outro comentou com voz de sono.
Cascão sorriu malicioso para Milena, que riu ao dar um tapa em seu ombro.
“Para com isso!” reclamou e ele riu.
“Nem foi ela que tirou meu sono. Depois que ela foi embora do bingo, ainda fiquei um tempo com meus avós.” DC revelou.
“Você levou ela num bingo?” Mônica comentou surpresa.
“É.” ele respondeu simples.
“Aquela travessa bonita que ‘tava em cima da mesa veio de lá. Mas o foco não é meu encontro, e sim nosso querido jogador. Quem você acha que é o olheiro?” a cacheada perguntou.
“Não faço ideia! Tem um monte de gente desconhecida aqui hoje, pode ser qualquer um.” o jogador respondeu.
“Bom. Vou caçar lugar na sombra, boa sorte! Espero que não se incomode se eu ficar usando meu tablet de trabalho enquanto nada acontece.” Mônica comentou.
“Me incomodo, sim. Hoje é dia de folga, mulher!” Cascão exclamou.
“Vou fazer uma força.” disse indo se sentar.
“Vamos também.” Milena deu um tapinha no ombro do amigo antes de ir para a arquibancada junto de um sonolento DC.
“Cascão, essa é minha amiga Penha.” Agnes enfim se pronunciou.
Cascão sorriu para a outra, que o cumprimentou com um pequeno abraço lateral.
“Então você é a famosa Penha!” comentou e ela riu.
“Em pessoa. Agnes falou bem de você. Isso é raro.” revelou.
“Então já tenho motivos para sorrir.” ele disse sorrindo para a loira, que sorriu sem graça.
“Nossa, Sofia! Que lugar quente que foi arrastar a gente!” a voz de Denise soou reclamona.
Denise se aproximou junto de Jeremias e de Sofia. Agnes forçou um sorriso ao vê-la, diferente de Penha, que a encarou dos pés à cabeça.
“Para de reclamar, Denise. Oi, Cascão. Invadimos seu jogo.” Sofia comentou e ele riu.
“Não torcendo contra mim, ‘tá ótimo.” falou os cumprimentando com toques.
“Você já conhece Denise e Jeremias?” ela perguntou.
“E aí, gente? Espero que gostem de partida cheia de xingamentos.” comentou.
“Essas são as melhores. Agnes e Penha? Em um lugar insalubre como este?” a ruiva a provocou.
“É clarro que você aceitou o convite, Denise.” disse secamente.
“Adoro dar rolês com minha amiga.” falou risonha.
“Que clima gostoso, hein?” Cascão sussurrou para Agnes.
“Rivalidade.” riu.
De repente, Penha puxou Agnes pelo braço.
“Aquele vindo ali é quem eu ‘tô pensando que é?” apontou com a cabeça para um rapaz de dreads.
“O próprio.” ela disse e a outra deu um pulinho.
“Saiu da toca, Nik?” Denise o provocou.
“Você sabe que eu saio do meu quarto, Denise. E aí, gente!” falou com um riso.
“Penha, deixa eu te apresentar pro…” Agnes falava até a amiga abrir um enorme sorriso e se aproximar do recém chegado.
“Deixa que eu mesma faço isso, Agnes. Nik, o geek! É um enorme prazer te conhecer! Sou Penha.” falou e o abraçou, sendo retribuída.
“Pode me chamar só de Nik. Acho que já ouvi falar de você.” ele falou.
“Ela que é aquela minha amiga que falava coisas que eu prefiro não repetir quando colocava seus vídeos.” a loira explicou.
“Falava ‘tá no passado, Cherry. Agnes não me disse que pessoalmente você erra ainda mais bonito.” falou e ele sorriu em resposta.
“Essa daí é atacante! Melhor correrem pra achar sombra, gente. Acaba rápido.” Cascão aconselhou e eles foram para lá.
Antes de Agnes sair, o rapaz a chamou.
“Aqui. Pode usar.” entregou a ela sua jaqueta xadrez.
“Uma jaqueta? ‘Tá calor hoje. Eu passei bastante protetor solar e ali tem sombra. Não precisa, não.” respondeu.
“É pra sentar em cima. A arquibancada tá suja. Vou lá! Aproveitem o jogo!” disse antes de correr.
Agnes estava boquiaberta enquanto Sofia e Penha riam.
“Que fofo que ele foi agorra.” a morena comentou.
“Foi uma gentileza. Eu disse que ele era gentil.” Agnes comentou ainda incrédula.
“Ele conhecia todo mundo e só entregou a jaqueta pra você. Vamos nos sentar. E a senhora vai com a gente, Penha!” Sofia disse puxando a morena.
Agnes apertou a jaqueta ao olhar na direção do rapaz e acabou sorrindo.
X
Enquanto o jogo não começava, Denise se aproximou de Nik, que recebia olhares nada discretos de Penha.
“Só falta uma seta na cabeça dela dizendo que quer te pegar.” a ruiva comentou ajeitando seus óculos escuros.
“É amiga da Agnes, Denise. Ela vai ficar puta se eu ficar com a amiga dela sem compromisso.” o rapaz ressaltou.
“A Penha não é do tipo que se apega. Então ela não veria problemas em enfiar a língua na tua boca sem ter que se casar.” moça falou.
“Como você é delicada.” ele comentou irônico.
“Ah, você me entendeu. Aproveita que ela quer te pegar.” recomendou.
“Não era você que dizia pra eu não desistir da Carmem?” ele perguntou e a ruiva suspirou.
“Tem vezes que vale a pena desistir. E isso vale pra nós dois!” respondeu.
“O que quer dizer com isso?” o gamer perguntou.
“Siga em frente, Nik! Você é um cara bonito, famoso e legal. Terão outras Carmens e Keikas que não farão o mesmo que elas.” aconselhou.
“Eu duvido que o cara esteja procurando alguém igual a ex, Denise.” Jeremias riu ao comentar.
“Nas configurações da tua namorada não têm a função gentileza, Jeremias. Quando ela tem que ser gentil, dá pane.” Nik brincou.
“Vai se lascar então.” ela o xingou, fazendo-o rir.
“Não disse? Mas obrigado pela preocupação, Denise. E… eu vou ver.” disse ao olhar para a morena, que sorriu abertamente.
Nik pensou no que Denise falou. Mesmo com todas as conversas e até mesmo demonstrações de sentimentos, Carmem estava decidida a se casar, então não restava mais nada a fazer a não ser seguir em frente.
Diante disso, decidiu seguir o conselho de Denise e devolveu o flerte.
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Mais embaixo, Sofia deu um tapa no braço de Penha.
“Para de flertar e presta atenção no jogo!” repreendeu.
“Nem começou ainda e eu nem gosto de futebol! Agnes, teu crush até que tem bons requisitos.” Penha comentou se virando para frente.
“Requisitos?” perguntou.
“É legal, extrovertido, bonito e gostosinho. Você já tinha visto ele sem camisa?” perguntou.
Agnes olhou surpresa e Sofia acabou rindo.
“Que isso, Penha?” questionou incrédula.
“Foi só uma pergunta. Porque se você já viu antes o que estou vendo aqui… você ‘tá perdendo tempo mesmo!” exclamou apontando para o rapaz que se alongava, de modo que o colete que usava subisse.
“Sim, eu já vi. Mas é só um corpo. Eu nem ligo tanto pra isso.” a loira respondeu.
“Nossa… que sem graça.” a outra comentou.
“Nem todo mundo pensa só na estética, Penha.” Sofia pontuou.
“Eu não penso só na estética, mas quando tem qualidades a mais… a coisa melhorra. Já viu o Nik sem camisa, Agnes?” perguntou.
“Você sabe que ele é meu chefe, né?” a loira perguntou retoricamente.
“Aff. Mas pelo menos bonito você acha que o Cascão é?” perguntou.
“Acho. E parece que fica mais conforme a gente fica mais próximo.” a outra confessou.
“Não tem mais volta, Agnes. Você está apaixonada.” Sofia cantarolou o final.
Agnes olhou para o campo e acabou suspirando.
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Mais em cima, DC bocejou mais uma vez. Após a saída de Milena, os avós quiseram conversar sobre a vida, assunto que se arrastou até a madrugada.
Não hesitou em aceitar o convite da moça para assistirem ao futebol, muito mais para estar com ela que pelo evento, mas o sono estava o vencendo.
“Que horas você foi dormir?” Milena perguntou.
“Acho que a pergunta é se eu dormi. Lembro de ter fechado os olhos, mas não de ter dormido.” respondeu.
“Nossa… podia ter negado o convite. Eu ia entender.” a cacheada disse.
O rapaz sorriu enquanto entrelaçava seus dedos nos dela.
“Você não é mais minha fotógrafa, então tenho que aproveitar os momentos. Meu sono pode esperar.” falou e ela riu.
“Me sinto lisonjeada. Sobre o que vocês ficaram falando até as altas horas?” perguntou.
“Muita coisa! Sua visita fez eles lembrarem de como era tocar o bar e do quanto eles ficaram tristes quando o venderam. Falamos sobre meu escândalo, o mini doc, meus pais e até sobre… o futuro.” respondeu, decidindo ocultar o final.
“Futuro misterioso, hein!” ela observou.
DC riu.
“Eles me perguntaram quando eu vou te pedir em namoro.” respondeu com sinceridade.
Milena mordeu o lábio, preferindo que ele tivesse mantido em segredo.
“Apressados!” comentou com um riso forçado.
“É que meu avô foi bem ligeiro com minha avó.” ele respondeu.
“O que você respondeu?” a moça perguntou hesitante.
DC deu de ombros.
“Que estamos indo com calma.” respondeu e ela respirou aliviada, algo que não passou despercebido pelo rapaz.
Porém, antes que falasse algo, uma presença não muito boa surgiu.
“Posso me sentar aqui?” era Felipe.
“Pode. Lembra do DC, Playba? E aquela é minha amiga Mônica.” falou e apontou para a morena, que apenas acenou com a mão enquanto tinha os olhos fixos em seu tablet.
“Ah… oi.” cumprimentou seco.
“Oi… Playba.” DC respondeu.
“Pra você é Felipe.” especificou grosseiramente.
“Qual foi, Felipe?! Todo mundo aqui te chama assim.” a cacheada ressaltou.
“Todo mundo que me conhece.” falou enquanto se sentava.
Ao observar o loiro pelo canto do olho, DC não conseguiu evitar um pensamento: se um dia se tornasse namorado de Milena, saberia conviver com as pessoas presentes nos lugares que ela sempre frequentava?
*
Uma das coisas que tornava Cascão um bom jogador era a sua facilidade em se desligar dos arredores para focar exclusivamente no jogo.
O outro time era bom, mas sua jogada havia sido melhor, resultando na vitória. Assim que o apito indicou o fim dos dois tempos, deu um pulo animado.
Boa parte da torcida saiu de seus lugares para parabenizar os jogadores. Momento esse que religou sua mente e seu olhar se voltou para onde Agnes havia se sentado, porém, ela não estava lá.
“Ué? Ah, deve ter vazado. Essa multidão suada apavora qualquer…” falava até sentir um corpo colar ao seu.
“Cascão! Você foi ótimo!” era Agnes.
Cascão sempre fora um rapaz de contato físico, mas ainda não havia se acostumado com os abraços repentinos de Agnes, que eram quentes, carinhosos e um tanto urgentes. A moça era de sua altura, então até o modo de retribuir era diferente.
“Valeu, Agnes! Ainda me surpreende você me dando um abraço! Ainda mais num pós jogo, quando até eu quero correr de mim mesmo.” comentou risonho.
De repente, ela o olhou nos olhos.
“Por algum motivo, eu gosto de sentir seu corpo no meu.” falou diretamente.
Aquilo surpreendeu os dois, não mais que o mútuo lamber de lábios e contato visual vacilante. Cascão, sem pensar, se aproximou do rosto dela.
Agnes sentiu o coração bater mais rápido com a proximidade, o que aumentou quando também se aproximou. Seus lábios chegaram a roçar um no outro, porém, ela se afastou abruptamente.
“Desculpe! Eu… eu não sei o que me deu.” disse antes de correr de lá.
“Agnes! Espera!” gritou, mas fora impedido pelas várias pessoas o cumprimentando.
O rapaz respirou fundo e até pensou em ir atrás dela, porém uma mulher bem vestida parou em sua frente.
“Cássio, certo?” perguntou e ele assentiu.
“Sou eu!” confirmou.
A mulher sorriu e estendeu a mão. Ao apertar, o rapaz sentiu que ela havia colocado algo em sua mão.
“Foi um bom jogo. Entraremos em contato em breve.” falou antes de sair normalmente.
Cascão olhou para a própria mão e arregalou os olhos: ela havia lhe dado um cartão de contato.
“Ela… ela era a olheira!” exclamou incrédulo.
“Cascão! Bora pro bar! A gente paga!” chamaram e logo o arrastaram de lá.
*
Alguns dias se passaram desde o domingo. A rotina cheia havia impedido os jovens de se verem ao longo da semana, porém, a chegada da sexta-feira trouxe consigo um impactante acontecimento: a véspera do casamento de Carmem e Cebola.
Ainda era bem cedo quando Mônica, na Dream, estava prestes a ter um ataque. Era sua última reunião com os noivos antes do casamento e havia descoberto que Carmem queria mudar a música de sua entrada, que o fiel barbeiro de Cebola estava doente e que os votos ainda não haviam sido feitos.
“Vocês se casam amanhã! Não é hora de trazer mais problemas!” ela exclamou zangada.
“Eu não posso ir em outro barbeiro. Não se confia em qualquer barbeiro!” Cebola se defendeu.
“E eu vi que November rain instrumental combina muito com minha entrada.” Carmem disse.
“E os votos? Por que vocês deixaram pro último dia?!” a morena perguntou de braços cruzados.
“A gente acabou esquecendo. As coisas foram corridas.” Cebola respondeu.
Mônica quis rir, mas se segurou.
“Não é tão difícil assim escrever votos. Daria pra fazer alguma coisa até na hora.” Carmem desdenhou.
“Nem pense nisso! Vocês dois vão sair daqui, escrever os votos e me mandar até a hora do almoço pra eu ter certeza que não vai ter nada comprometedor e que não foi deixado pra última hora! Enquanto isso, eu vou atrás de um barbeiro com recomendações e falar com os músicos, que com certeza vão surtar. Vão, vão, vão!” Mônica praticamente os expulsou.
Carmem saiu rapidamente, mas Cebola permaneceu na sala.
“Mônica, eu preciso de ajuda pra escrever esses votos.” pediu.
“Sinto muito, Cebola, mas você vai ter que se virar! Tenho muito o que fazer.” falou com os olhos fixos em seu computador.
“Por favor! Nem precisa ser comprido, é só pra não ficar feio. Eu não consigo fingir romantismo.” ele pediu de mãos juntas.
“Procura na internet, dá uma mudada e pronto. Muitos casais fazem isso.” respondeu.
“Não posso fazer isso.” falou.
Mônica o olhou. Prometera a si mesma que não se envolveria mais, mas o olhar do rapaz havia a amolecido.
“Tá. Vamos fazer assim, vai pesquisando e escrevendo enquanto eu falo com os músicos. Depois eu vejo como está e vejo o que mudar.” cedeu já com o celular na orelha.
Cebola pulou.
“Obrigado, Mô! Não vai nem perceber que estou aqui.” disse se sentando na cadeira e pegando um bloquinho de notas e uma caneta.
“Bom dia! É a Mônica, wedding planner do casamento de amanhã de Carmem Frufru. Deixa eu te falar… a noiva quer mudar a música de entrada. Eu sei que está muito em cima, mas…” conversava com um músico que parecia ficar alterado.
Cebola observou Mônica por um instante, sem nem ouvir ela discutindo ao telefone. Há um mês, jamais imaginaria que conheceria alguém como ela, e agora já não se via mais distante dela.
Esse pensamento foi o combustível para escrever seus votos. Decidiu pensar naquela que vinha sendo mais sua noiva que sua própria noiva e funcionou.
“Obrigada, passar bem. Esse trabalho ainda vai me fazer apanhar na rua.” ela comentou enquanto se jogava em sua cadeira.
“Terminei os votos.” ele disse.
“Já? Nem precisava da minha ajuda, ‘tá vendo? Deixa eu ver.” a moça disse.
“Você me ajudou mais do que pensa.” ele respondeu entregando o bloquinho.
Ao pegá-lo, franziu o cenho.
“Nossa, Cebola… que letra é essa? Não consigo ler nada.” comentou.
O rapaz riu.
“Ou era rápido ou legível, os dois não dá.” defendeu-se.
“Então lê pra mim. Isso se você entender sua própria letra.” devolveu.
“Eu vou falar seu nome pra parecer que ‘tô direcionando a alguém e me sentir menos estranho.” avisou.
“À vontade.” ela disse enquanto cruzava as pernas.
Cebola respirou fundo e sentiu as mãos tremerem um pouco.
“Mônica, sempre que eu pensava em amor, eu lembrava dos meus pais, sem imaginar que algum dia viveria algo parecido. Mas foi aí que você entrou na minha vida e me fez ver que o amor nem sempre surge do mesmo jeito.” começou.
“Ele pode aparecer numa cozinha divertida, num encontro com cara de encontro dos outros e até mesmo falando sobre tudo e ao mesmo tempo sobre nada.” continuou, chamando a atenção da moça, que se apoiou na mesa.
“E quando esse sentimento vem, só surge a certeza de que vale a pena compartilhar a vida com essa pessoa e de que a felicidade também está nas pequenas coisas, como acordar ao seu lado todos os dias, dividir as risadas, o café, as lágrimas, os medos, as conquistas e todo o resto.” continuou a leitura.
“Em um dia, meu eu deixou de ser eu e se tornou um nós, e espero que esse nós dure para sempre. Eu te amo.” finalizou.
Ao levantar a cabeça, surpreendeu-se com uma emocionada Mônica, com direito a olhos marejados e sorriso bobo nos lábios.
O fato de Cebola ter usado seu nome fazia com que parecesse que ela era a noiva, e isso a fez flutuar tanto que se viu no vestido de Carmem, na decoração que tanto fora difícil de organizar e até mesmo segurando o buquê de tulipas e rosas vermelhas, que ela mesma havia escolhido.
“Isso ficou… ótimo! Como… como conseguiu escrever isso tão rápido?” ela perguntou enquanto limpava os olhos.
Cebola umedeceu os lábios.
“Eu só pensei em momentos bons. Principalmente vividos com você.” respondeu sincero.
Os olhares se encontraram por alguns segundos, mas Mônica se afastou de repente.
“Ficou muito bom! Eu… se puder me enviar, eu agradeço.” pediu evitando olhá-lo e ele assentiu.
“Claro! Eu… eu vou atrás de um barbeiro agora. Até mais.” despediu-se e ela assentiu.
Assim que Cebola saiu, Mônica respirou fundo.
“Só mais um dia!” exclamou.
*
Assim como Cebola recorreu a alguém confiável, Carmem decidiu recorrer a Nikolas, tanto por ser a pessoa mais romântica que conhecia quanto para vê-lo.
Assim que entrou na loja, sentiu seu coração falhar uma batida com a cena que viu: escorado no balcão, o rapaz trocava um beijo com uma moça de longos cabelos negros.
Aquilo fez seu estômago revirar e sentiu vontade de correr dali, mas decidiu ficar e se passar por uma cliente qualquer observando as prateleiras.
“Au revoir, Nik. Fique com meu lenço, parra não se esquecer de mim.” amarrou um lenço vermelho e perfumado no pescoço do rapaz.
“Vou lembrar de você, Penha.” disse com um sorriso e ela o beijou de novo antes de deixar o recinto.
Nik não viu Carmem, então continuou cuidando de alguns quadrinhos até ela se aproximar.
“Oi, Carmem.” cumprimentou e ela manteve uma expressão emburrada.
“Quem era a garota?” perguntou direta.
O rapaz pareceu um pouco sem graça.
“Ah… você ‘tava aqui há quanto tempo?” perguntou.
A loira cruzou os braços.
“O suficiente pra ver como você anda atencioso com as fãs.” falou irônica.
“Aquela é a Penha. É uma amiga da Agnes que eu conheci um pouco mais ao longo da semana e está voltando pra França hoje.” respondeu.
“Amiga da Agnes? Denise vai ficar puta com você.” ela comentou.
O rapaz deu de ombros.
“Ela que me incentivou a dar uma chance. Mas imagino que tenha vindo por outro motivo.” revelou.
Aquela mudança de assunto a irritou, mas não tinha tempo a perder.
“Eu preciso de sua ajuda pra escrever meus votos.” pediu.
Nik franziu o cenho.
“Melhor pedir pra Denise!” recusou-se.
“A Denise está tendo aula! E ela não é romântica igual a você.” ressaltou.
“Como não? Ela namora. E eu não sou romântico.” ele tentou fugir.
“Só pra você lembrar, eu estava nas bodas dos seus pais e ouvi seu discurso lindo.” a loira lembrou.
“É completamente diferente! Eram meus pais ali! E eles se amam. Você não ama o Cebola.” o amigo comparou.
“Eu sei, mas não consigo inventar sozinha. Por favor!” ela juntou as mãos.
O rapaz respirou fundo.
“Tá bom, mas só porque você me ajudou com as bodas.” cedeu.
Carmem o abraçou.
“Obrigada, Nik! Agora ao trabalho! A Mônica me deu prazo.” agradeceu.
“Agnes ‘tá de folga hoje, então temos que ficar aqui em cima mesmo.” ele avisou e a amiga foi para trás do balcão.
“Só ‘tá você aqui e ‘tava beijando na boca em vez de cuidar da loja?” provocou.
“Só não fala pro meu chefe.” piscou um olho e ela riu.
Após longos minutos, os dois não tinham nada além de palavras riscadas e irritação.
“Como é difícil escrever essa coisa!” a noiva reclamou.
“Vamos mudar a técnica! Que tal o mais óbvio? Fala alguma coisa positiva que você sente por ele.” ele sugeriu.
Carmem pensou por um instante.
“Ah… ele é um cara legal… estudioso… ambicioso… e… é isso.” respondeu.
“Você elogia mais um creme de cabelo que seu próprio noivo. Temos um problema.” o amigo comentou e ela bufou enquanto deitava a cabeça no balcão.
“Eu não sei o que fazer, Nikolas! Eu não sinto nada por aquele cara! Acho que nem amizade mais a gente tem!” exclamou.
“E você ainda quer se casar com ele?” ele perguntou.
“Não tem como voltar atrás agora!” ela exclamou
Nikolas apertou a ponte do nariz.
“Então finge que é outro cara! Incorpore uma fã apaixonada por um famoso inatingível e finge que o voto é pra ele. Vai falando que eu vou escrevendo.” sugeriu.
A moça não precisou se esforçar para pensar em alguém. Bem à sua frente estava o detentor de seus melhores sonhos.
“Quando eu te vi pela primeira vez, eu te achei bonito. Quando ficamos mais próximos, eu percebi que estava diante de um cara maravilhoso. E quando senti que as coisas não eram como antes, eu vi que te amava. Não sou a melhor para falar de amor, mas quando estou com você… eu sinto. E quero continuar sentindo por todo o sempre. Eu te amo, Ni… Cebola.” deixou as palavras se libertarem de seu peito enquanto o olhava fixamente.
Nikolas olhou surpreso.
“Uau! Isso foi bonito e… real.” comentou.
“Então ficou bom?” a moça perguntou.
“Ótimo. Pra alguém que não acredita no amor… mandou bem.” ele elogiou.
Carmem riu fraco.
“Obrigada, Nik. Vou entregar isso na mão da Mônica! Se ela odiar, eu falo que você que escreveu.” falou.
“Aí eu te bloqueio. Depois me fala se der certo.” falou e ela assentiu deixando a loja.
Nik ficou pensativo com a declaração. Sabia que não se direcionava para Cebola, mas se sentiu estranho por não saber se era direcionada a si.
“Tenho que deixar de ser otário!” reclamou e voltou a mexer nas coisas da loja.
*
Mais tarde, o sol já começava a se pôr quando Milena retornou à Dream de um cansativo ensaio externo.
A semana havia sido tão corrida entre suas aulas e o trabalho que sequer havia visto DC, então contava os minutos para enfim sair de lá e descansar do trabalho e obrigações da faculdade ao lado do rapaz. Porém, um chamado de Grózny mudou seus planos.
“Não me diga que é algum problema com o mini doc!” exclamou preocupada.
“Não, não. A estreia é amanhã e está tudo muito bom. É sobre seu trabalho em um todo que quero falar.” ele disse.
A moça o olhou curiosa.
“Milena, você tem sido muito procurada ultimamente. Consequentemente, o pacote econômico também.” começou.
“Sim…” confirmou.
“Em termos de números, isso não é tão bom quanto parece. Então, em nome da família Dream, gostaria de te agradecer pelo bom trabalho feito ao longo desse tempo e desejo boa sorte em sua nova jornada.” falou com um sorriso cínico.
Milena piscou um olho de cada vez.
“Está me demitindo?” perguntou.
“Encerrando o ciclo.” corrigiu.
A moça o encarou atônita.
“Está me demitindo porque meu bom trabalho atraiu clientes? É isso?” perguntou incrédula.
“Para o pacote econômico. Você sabe que a Dream tem vários pacotes, mas priorizamos os mais caros. Você se tornou grande demais para o pacote mais barato.” explicou.
“Se esse é o problema, por que não me promove para um mais caro?” ela questionou.
“Porque as equipes já estão completas. Temos um número limitado de vagas.” respondeu.
Milena deu um riso incrédulo.
“A vida é assim mesmo, minha querida. Em um piscar de olhos, você está dentro ou fora. Pegue suas coisas e passe no RH ao sair, certo? Sucesso para você.” sorriu falsamente e voltou para seu computador.
Milena deixou a sala ainda incrédula. Após pegar suas coisas e deixar o RH, saiu do prédio carregando uma caixa de papelão e caminhou até um ponto de ônibus vazio, onde se sentou.
“Eu aposto que não foi só por isso.” comentou consigo mesma enquanto secava lágrimas de raiva que insistiam em cair.
“Milena? O que aconteceu?” uma voz masculina soou.
“Nimbus?! O que faz por aqui?” perguntou.
“Eu moro na rua de trás da Dream. ‘Tá tudo bem?” apontou para trás antes de perguntar.
A moça forçou um sorriso.
“Tá!” mentiu.
“Se ‘tá mentindo pra mim, é porque não está.” falou e ela suspirou.
“Acabei de ser demitida.” revelou e ele arregalou os olhos.
“O quê? E você ‘tá bem? Vamos lá em casa! Tomar uma água e conversar mais à vontade.” falou.
“Não precisa, Nimbus.” negou.
“Precisa, sim. Você deixou meu irmão bem mais feliz, é o mínimo que eu posso fazer. Vamos lá.” chamou e ela acabou cedendo.
O apartamento de Nimbus era mais moderno que o do irmão, mas estava tão mal que não se atentou aos detalhes.
“Desde que Nik postou as fotos, vários clientes me procuraram. E como eu era do pacote econômico, eles ficavam nesse pacote mesmo. Aí o lucro é menor. Mas acho que não é só por isso. Ele sempre se incomodou com os elogios que eu recebia, foi um pretexto!” ela explicou após beber água.
“Esse daí é um escroto! E o Frufru não faz nada?” perguntou.
A moça deu de ombros.
“Eles têm o rabo preso. De um jeito ou de outro, eu que sairia.” falou.
“Sinto muito, Milena. Mas tenha em mente que você fez um ótimo trabalho e deixou seus clientes muito felizes.” ressaltou e ela riu sem humor.
“E de que adiantou? Fiz meu trabalho bem feito e a que fez de qualquer jeito que se deu bem.” comentou desesperançosa.
“Que é a sobrinha do cara. Não cai nessa de se comparar. Você tem motivos pra se orgulhar da sua trajetória, Milena! Você vai achar um estúdio que vai te valorizar bem mais!” exclamou.
A cacheada sorriu.
“Obrigada, Nimbus. Você é um amor.” abraçou o rapaz.
“Quer que eu chame meu irmão?” perguntou e ela negou.
“Acho que vou falar pra ele depois de soltarem o mini doc.” falou.
“Por quê? Acha que ele vai lá dar na cara do Grózny? Ele não é mais inconsequente.” o rapaz lembrou.
“Eu sei, mas… prefiro deixar pelo menos o mini doc passar. Eu vou pra casa. Obrigada de novo, Nimbus. E seu apê é bonito.” elogiou e ele sorriu.
“Fica bem, ‘tá? Sabe onde me achar.” garantiu e ela sorriu para ele.
Da janela de um ônibus cheio, pela primeira vez, Milena observou os prédios como DC fazia, apenas para não pensar em seu dia. De fato a arquitetura do bairro Limoeiro era muito impessoal.
Ironicamente, aquilo a fez pensar no que tanto queria esquecer. Havia feito um bom trabalho por dois anos para, no fim, acabar daquele jeito.
“Impessoal.” comentou consigo mesma.
Chegando em casa, deparou-se com Mônica e Agnes absortas em seus próprios problemas.
“E aí, meninas! Animadas para a despedida de solteiro aqui do lado? Suas amigas vêm, Agnes?” perguntou.
“A Penha voltou pra França e a Sofia parece que não. Nem eu sei se vou.” respondeu.
“Eu também não sei se estou a fim de ir. E essa caixa?” Mônica disse.
“Fui demitida.” respondeu e as duas cresceram os olhos.
“Por quê?” perguntaram.
“Resumindo, muita procura ao pacote econômico não faz o estilo da Dream, então nosso querido Grózny decidiu cortar o mal pela raiz.” respondeu.
“Nossa, Milena. Sinto muito! Odeio que cada setor tem um gerente e justo no seu tinha que ser o Grózny.” Mônica a abraçou.
“Sinto muito também. Sei o quanto você gosta de ser fotógrafa.” Agnes falou.
“Obrigada, meninas. Mas quero esquecer disso por hoje. Por que vocês estão com essa cara?” perguntou.
As três se sentaram na mesa, todas com a feição desanimada.
“Amanhã é o grande dia. Eu planejei um casamento frívolo em um mês e não me sinto feliz como achei que ficaria quando chegasse esse momento.” Mônica confessou.
“Por causa do Cebola?” Milena perguntou e ela assentiu.
“Eu me apaixonei pelo noivo. E o pior é que eu tenho que estar no casamento cuidando de tudo como se não tivesse um tornado dentro de mim.” comentou.
“Acho que esse casamento nem vai durar. Nós três sabemos de quem ela gosta.” Agnes perguntou.
“Até de quem o Cebola gosta.” Milena completou.
Mônica deu de ombros.
“Não sei de mais nada. Só que eu não quero ser a outra de ninguém. Eu vou superar isso! Minha relação com o Cebola foi a parte bonita de planejar esse casamento, mas vai acabar junto com o planejamento.” decidiu.
“Não vai nem manter a amizade?” a loira perguntou.
“Acho melhor não. E outra… perceberam que ele não foi assistir o Cascão? Ele estava com a Carmem num campo de golfe. Então não me surpreende se ele nem aparecer mais no apê do lado depois de casar. No fim das contas, ele vai atingir o objetivo dele.” respondeu.
“E você, Agnes? Por que está com essa cara?” Milena perguntou.
“Eu estou a fim do Cascão.” falou em voz pela primeira vez.
Mônica trocou um riso com Milena.
“A gente suspeitava disso.” comentou.
“Eu quase beijei ele no domingo. Então eu estou fugindo dele desde domingo.” a loira acrescentou.
“Por quê? O Cascão é de boa.” Milena disse.
“Eu fiquei nervosa e agora estou com vergonha de ter corrido. Eu… eu quero tentar. Penha me disse uma coisa séria sobre minha hipocondria e vida amorosa que eu quero mudar, mas… eu fico tremendo só de pensar.” falou.
“Calma, você não pode se sentir obrigada a ficar com ninguém. Tem que ser natural.” Milena disse.
“Lembre-se de quem é o Cascão, do que fez você gostar dele e foque nisso, sem a obrigação de beijar. Se for pra rolar um beijo, vai rolar.” Mônica aconselhou.
Agnes suspirou.
“Então acham que eu deveria ir na resenha?” perguntou e as duas assentiram.
“Vai se divertir, garota! Você sofreu com provas essa semana, merece um descanso.” Milena disse e a loira acabou rindo.
“Vocês vão?” perguntou.
“Eu não. Vou assistir uma série e tentar me acostumar com certas mudanças.” Mônica disse.
“Quero esquecer de hoje. Te acompanho nessa aventura.” Milena disse, deixando Agnes um pouco mais tranquila.
*
No apartamento ao lado, sentia-se uma típica mistura de aromas em meio a conversas divertidas, jogos e diversão. Em meio a eles, Cascão olhava para a porta a cada cinco segundos.
“Relaxa, cara! O noivo não vai furar a própria despedida de solteiro.” Xaveco comentou enquanto acertava o taco em uma bolinha branca.
“Esse olhar é de quem espera mulher, Xaveco.” Titi riu ao dizer.
“A Agnes parece ter me evitado durante a semana toda. Eu fui muito burro!” xingou-se.
“Ué, mano, você foi o atacante que sempre foi. Se ela não quis, vida que segue.” o moreno falou enquanto observava a mesa de sinuca.
“Mas como ela conseguiu te evitar morando aqui do lado?” Xaveco perguntou enquanto ia atender o interfone.
“Não é tão difícil. E eu andei meio ocupado também. Provas e aquele trabalho do Átila ‘tão acabando comigo!” Cascão respondeu.
“O que virou a olheira lá?” Titi se lembrou.
O amigo deu de ombros.
“Também queria saber! A mulher falou que ia entrar em contato e sumiu. Vai ver mudou de ideia.” respondeu.
“Não pensa assim. Logo ela aparece.” Xaveco disse.
De repente, mais alguém passou pela porta, que estava aberta.
“E aí, gente. Trouxe o óculos VR e o play 5 que prometi. São meus bebês, então cuidem bem deles.” Nikolas falou tirando sua mochila.
“Vamos cuidar!” Titi disse largando o taco na mesa.
“Engraçado como teve que virar padrinho de casamento de um cara que nem mora aqui pra vir aqui em casa. ‘Tá com cara de cansado por quê? ‘Cê é vagabundo.” Xaveco sorriu ao cumprimentar o amigo.
“Você nunca me convidou! E hoje foi bastante gente na loja, só porque eu ‘tava sozinho.” respondeu.
Cascão o olhou preocupado.
“A Agnes ‘tá bem?” perguntou.
“Sim. Ela ‘tá em semana de prova e pediu uma folga.” respondeu, deixando o outro mais calmo.
“Tu não é tão importante assim pra fazer ela ficar doente, não, Cascão. Só porco mesmo.” Titi zombou conectando os fios da TV no videogame.
“Cala a boca, Timóteo! É que ela anda meio sumida, sabe?” explicou para o gamer.
“Ele ‘tá a fim dela, Nik.” Xaveco revelou.
“Eu sei. Os dois não são muito discretos.” o outro comentou.
“Ela também…” Cascão falou já com um sorriso nos lábios.
“Você nunca percebeu? Cara, ela nem mesmo encosta em qualquer pessoa! ‘Tô com sede, o que tem de bom aí?” falou indo pegar algo.
“Cana!” Xaveco o acompanhou.
Cascão ainda estava sorrindo quando seu celular vibrou.
“O noivo mandou mensagem pra ir ajudar a subir com coisas. Já volto.” avisou.
Assim que saiu, deu de cara com Milena e Agnes.
“Ah, meninas! Que bom que colaram! 'Tão sumidas, hein?!” comentou com o olhar mais fixo em uma que em outra.
“A vida tem sua correria. Eu nem ia vir, mas preciso me animar.” Milena falou e ele a olhou.
“Tá triste com o quê? Tirou um 9.9?” perguntou.
“Não, eu fui demitida.” respondeu e ele arregalou os olhos.
“O quê? Por quê?” perguntou.
“Depois eu falo. Vai lá pra onde você estava indo.” disse entrando no apartamento.
“Oi, Cascão!” a loira o cumprimentou com um sorriso.
“Oi, Agnes. Ér… também sumiu.” repetiu.
“Semana de provas. Mas uma resenha pode me fazer descansar.” disse e ele sorriu.
“Pode ter certeza. Tem seu jogo favorito lá. Já, já eu volto pra ver você fazendo os caras chorarem.” falou e ela acabou rindo.
“Ok.” disse antes de entrar e o rapaz saiu risonho.
Ao chegar no portão, viu que Cebola era ajudado por Do Contra.
“A primeira vez que o DC vem aqui e já dá peso pro cara segurar, Cebola?” comentou abrindo o portão.
“Isso ‘tá pesado!” Cebola reclamou.
“Maridão que você vai ser, hein, Fracote! E aí, DC? Firmeza? Milena acabou de chegar, mas ela 'tá meio borocoxô com o que rolou na Dream.” o outro disse os ajudando com as sacolas.
“O que rolou na Dream?” perguntou.
Cascão sorriu amarelo.
“Ah… ela ainda não tinha te dito…” comentou.
“Boca aberta como sempre. Impressionante!” Cebola zombou.
“Eu não sabia que ele não sabia!” defendeu-se.
Ao chegarem, Cebola olhou em volta.
“Cascão… a Mônica veio?” perguntou.
“Não vi, mano. Pode ter chegado quando eu saí.” respondeu e o outro começou a andar pelo local.
DC também procurou alguém com o olhos até encontrar seu alvo ao lado de Nikolas e mais algumas pessoas.
“Se quiser, eu falo com o Frufru, tenho argumentos sólidos. Se dermos sorte, o Grózny se ferra.” ele falou.
“Valeu, Nik. Mas, pelo menos agora, quero esquecer da existência desse cara.” ela respondeu.
“Beleza. Vou te indicar pra quem quiser fotos fora de estúdio.” falou e ela sorriu.
“Obrigada! DC! Você veio mesmo!” enfim o viu.
“É claro! Eu… eu posso falar com você em particular?” perguntou e alguns amigos zombaram.
“Vão se pegar!” alguém disse.
“Ou ele vai dar um fora.” outro falou, levando um tapa.
“Se magoar ela, justo hoje, a gente te pega?” um deles ameaçou.
“Relaxa, se ele a magoar, tem quem console.” aquele DC nem precisou olhar para saber quem era.
“Cuidem da vidinha de vocês. Vamos lá, DC.” ela foi com ele até a sacada.
A visão dali era diferente da do apartamento de DC, dava para ver o prédio da faculdade, uma rua movimentada e até um prédio verde bastante chamativo. Mas seu foco era outro.
“Não sabia que você era amiga do Nik.” comentou.
“Ele é um cara legal. A gente ‘tava falando sobre ferrar o Grózny.” respondeu.
“Ah, então era assunto bom. Falando nele, o que rolou na Dream?” perguntou direto.
Milena suspirou.
“Eu não ia te dizer agora, mas fui demitida.” respondeu, fazendo-o arregalar os olhos.
“Por quê? Você é ótima!” perguntou.
A moça explicou todo o ocorrido e recebeu um abraço carinhoso.
“Sinto muito, Milena. Sei o quanto você gosta de ser fotógrafa. Que raiva daquele idiota! Por mim, eu ia lá agora!” exclamou.
“Por isso eu não ia te falar agora. O mini doc lança amanhã, é melhor não ter problemas com o cara que sabemos que gosta de mexer pauzinhos.” falou e ele riu, abraçando-a mais.
“O que você acha que eu ia fazer?” perguntou.
“Sei lá. Alguma coisa que te prejudicaria.” respondeu.
“Se for o caso, você faria outro minidoc comigo?” ele perguntou e a moça negou com um riso.
“Isso eu não pretendo fazer nunca mais! Melhor andar na linha, rapaz!” exclamou e ele riu antes de enfim a beijar.
“Senti saudades de você essa semana.” sussurrou.
“Senti também. E olha que tive prova! Costumo esquecer da vida nessa época.” falou.
“Então você precisa relaxar. O que acontece nessas resenhas do Cascão?” ele perguntou.
“Muitas loucuras. Vem jogar comigo e com o resto! Você vai adorar!” puxou-o para dentro.
Naquele momento, DC teve a resposta sobre sua presença onde ela ia com amigos: não seria um problema.
*
Agnes sempre se transformava quando jogava beer pong. De repente, sua ansiedade diminuía e seu sorriso crescia.
“Como você ganha todas?” um rapaz perguntou.
“Andam me chamando de rainha do beer pong. Talvez seja por isso.” gabou-se, arrancando risadas e vaias.
“Apostinha?” um deles sugeriu.
“Não. Estou com fome. Podem jogar, meus queridos súditos.” brincou antes de ir até a cozinha, onde tinha uma banana no ponto que gostava de comer.
Decidiu ir até a sacada tomar um ar, dentro do apartamento estava cheio e quente. Não demorou para alguém se juntar a ela.
“Oi!” cumprimentou.
“Oi! Sumiu do beer pong, Cascão.” ela comentou.
“Nik trouxe o VR. Como eu nunca tinha usado, tive que testar. ‘Tô meio zonzo até agora.” comentou e ela riu.
“Tem que pegar leve.” falou após comer a banana.
“Você não faz isso com os caras do beer pong.” comentou e ela riu.
“É o jogo que sou boa. Tenho que me orgulhar disso.” afirmou.
O rapaz umedeceu os lábios, pensando em como entrar no assunto que queria.
“É… Eu… eu fiquei feliz que você veio. Achei que ‘tava me evitando.” falou.
Agnes franziu o cenho.
“Te evitando? Por quê?” perguntou.
“Por causa do que rolou no domigo. Eu… eu tenho que me desculpar. Fui precipitado e… eu não queria te deixar mal.” falou.
“Tudo bem.” respondeu.
Os dois ficaram em silêncio por alguns constrangedores segundos.
Cascão não era hesitante ou tímido, mas Agnes era diferente de todas as mulheres com quem se envolveu, então sabia que não podia agir de qualquer jeito.
Agnes, por sua vez, lembrava das palavras de Penha e sentia uma vontade incontrolável de fazer aquilo que sua hipocondria nunca havia perdido: aproveitar o momento, como Cascão vinha a ajudando a fazer sem nem perceber.
“Cascão!” chamou e ele a olhou.
Trêmula, com os pensamentos embaralhados e com o coração disparado, Agnes se aproximou de Cascão. Em um ato de coragem, tombou a cabeça para o lado, fechou os olhos e acabou com a distância existente entre as bocas, dando origem ao seu primeiro beijo.
A primeira palavra que veio à mente de Agnes foi estranho. Porém, quando os corpos ficaram mais colados e a mão do rapaz alcançou sua mandíbula, encaixando melhor as bocas, tornou-se interessante.
Quando a língua dele lambeu seus lábios devagar, sentiu um arrepio. E quando este mesmo órgão pediu passagem para entrar em sua boca, voltou a ser estranho, mas algo irresistivelmente estranho, que fez com que abrisse a boca sem saber ao certo como agir.
A dança entre as línguas era confusa, mas, ainda assim, Cascão estava feliz em provar a inexplorada boca de Agnes até, abruptamente, ela se afastar ofegante.
“Nossa! Isso foi… nossa!” comentou com o rosto avermelhado e ajeitando seus óculos.
“Isso foi um elogio?” ele perguntou e ela riu mais alto que gostaria.
“Ah… eu… imaginava… não sei o que imaginava. Eu… eu tenho que ir pra casa! A gente se vê amanhã.” falou desnorteada, quase trombando com a porta.
“Espera! Vai embora assim? Ainda ‘tá cedo.” ele pegou em sua mão.
“Ah… tenho… tenho que ter minhas oito horas de sono.” respondeu, arrependendo-se logo em seguida.
Cascão riu.
“Tá bom. Mereço um selinho final?” ele perguntou fazendo um biquinho com uma voz diferente da habitual, parecia mais provocante.
Aquilo despertou algo em Agnes que ela sequer sabia nomear. Não por acaso, mordeu os lábios. Em mais um ato corajoso, juntou novamente seus lábios aos dele em três selinhos vagarosos.
“Tchau.” falou e saiu rapidamente do local.
Cascão continuou ali, com um sorriso gracioso nos lábios.
“Gostei!” comentou consigo mesmo enquanto ia jogar algo.
Já Agnes, ao entrar em seu quarto, deslizou pela porta com um sorriso bobo até se sentar no chão.
“Penha e Sofia precisam saber disso!” exclamou pegando seu celular.
*
Algumas horas haviam se passado quando a ausência de Mônica incomodou Cebola, que não aproveitava sua própria festa.
Em um piscar de olhos, lá estava ele em frente à porta da morena.
Após duas batidas, a porta se abriu, revelando uma Mônica aparentemente cansada.
“Cebola? O que faz aqui e não na sua festa?” perguntou surpresa.
“Eu… eu senti sua falta lá. Eu fiz macarrão com brócolis e nosso vol-au-vent! Mas não tem graça sem seu toque especial.” ele respondeu.
A morena respirou fundo.
“Cebola… acho que temos que nos afastar.” falou e ele franziu o cenho.
“Por quê?” questionou.
“Você vai começar uma nova vida amanhã. E eu… eu preciso começar a minha também.” respondeu.
Cebola se aproximou mais, a ponto de sentirem as respirações.
“Eu não quero me afastar de você, Mônica. Você é importante pra mim!” exclamou, segurando em sua mão.
Mônica quase derreteu com aquilo, mas caiu em si e deu dois passos para trás.
“Cebola! Para! Você se casa amanhã!” exclamou.
“Com alguém que não amo! Eu… eu gosto de você, Mônica. Gosto muito! Todos esses dias agoniantes do noivado ficaram mais leves por sua causa. E sinto que você sente alguma coisa por mim, nem que seja mínima.” confessou.
Com essas palavras, a moça chegou ao seu limite.
“Sim, Cebolácio! Eu gosto de você! E isso tem crescido tanto que me deixa apavorada! Eu sou sua wedding planner! Isso é horrível, antiprofissional e sujo! Por isso não devemos mais nos ver!” exclamou.
O rapaz cresceu os olhos.
“Mas eu… a gente… Mônica, por você eu posso…” falava até ela negar.
“Não, Cebola! Você e Carmem tiveram um mês inteiro pra mudar de ideia e quiseram continuar. Então amanhã, depois de vocês serem declarados marido e mulher, eu deixo de ser sua wedding planner e sumo da sua vida! Então seja feliz com a Carmem, com seus futuros contatos, com seus objetivos e estilo de vida dos sonhos. Eu vou seguir com minha vida, então siga com a sua!” exclamou
“Mônica…” ele chamou baixo.
Mônica abaixou a cabeça, segurando-se para não chorar.
“Cebola, por favor! Volta pra sua festa e não me procure mais. Nos vemos amanhã, como wedding planner e cliente.” falou séria.
As palavras de Mônica atingiram Cebola como se fossem flechas, tanto que doeram. Porém, decidiu acatar o pedido.
O rapaz a olhou uma última vez antes de deixar o apartamento. A moça sentiu as lágrimas escorrerem assim que fechou a porta.
“Eu não quero chorar por causa disso!” exclamou com a voz embargada enquanto ia lavar o rosto.
Mal sabia ela que, do lado de fora, Cebola também lutava contra as lágrimas. Tanto que decidiu abandonar sua própria festa e ir para casa.
*
Outra pessoa que não aproveitava a noite era Carmem. Como não quis uma despedida de solteira, estava com Denise assistindo a um filme qualquer.
“Ainda não acredito que estamos assistindo essa porcaria em vez de estarmos em uma festa.” Denise reclamou.
“Eu não quero sair!” a loira exclamou.
A ruiva encarou a melancólica amiga.
“O que ‘tá te incomodando tanto?” perguntou.
Carmem a olhou séria.
“Tudo! Inclusive você!” exclamou.
Denise arregalou os olhos.
“Eu? Por quê?!” questionou.
“Você incentivou o Nikolas a ficar com aquela amiga da Sofia!" apontou.
A amiga deu de ombros.
“E daí? Ele é solteiro e ela ‘tava muito a fim dele.” respondeu.
"Mas, Denise... É o Nik! Você sabe que eu..." Carmem falava até a amiga a interromper.
"Que gosta dele? Sei. Mas sabe o que eu também sei? Que você se casa amanhã! Não é fácil pra ele também! Então deixa ele seguir em frente!" exclamou.
Denise respirou fundo, decidindo revelar um segredo.
"Eu prometi que não falaria pra você, mas... O sentimento de vocês é recíproco. Só que ele aceitou o fato de que não tem chance nenhuma." confessou.
Carmem arregalou os olhos.
"Como não tem chance nenhuma?" perguntou sem pensar.
"Nem vem com essa. Além de ter deixado claro que não vai ser seu amante, ele já teve o coração destroçado pela Keika! Não merece sofrer mais!” comentou.
"Como quer que eu só ignore que agora eu sei que ele também gosta de mim?!" interrogou.
A ruiva estalou a língua.
"Não se faz de sonsa, Carmem! Assume que você pelo menos suspeitou disso em algum momento.” falou.
“Eu… eu acho que no dia das bodas não era emoção do momento.” a outra confessou.
“Pois é, mas agora é tarde! Daqui algumas horas, você finalmente vence da Amanda, orgulha seus pais e ajuda o Cebola a chegar ao topo do mundo, enquanto joga o seu mundinho na lama." Denise falou.
Carmem apertou os olhos.
“O que eu fui fazer?!” questionou-se.
"Eu te avisei, o Nik te avisou e, se for ver, até o universo te avisou sobre essa burrada, mas você escolheu não ouvir. Agora é tarde. Eu vou pra casa, nos vemos amanhã.” falou saindo em seguida.
Carmem respirou fundo antes de se debulhar em lágrimas. Dali algumas horas, teria uma cerimônia de casamento que muitos sonhariam em ter metade, mas se sentia uma perdedora.
A sexta-feira repleta de despedidas acabou depressa. Logo o sábado começou quente, pronto para sediar o que seria um grande evento: o tão aguardado casamento de Carmem Frufru e Cebolácio Menezes.
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