Almejar
19 Capítulo XIX - Escolhas
Notas iniciais
A chuva da noite anterior havia resultado em uma gelada segunda-feira, o que diminuía ainda mais a vontade de deixar a cama.
Mônica bocejou assim que entrou na cozinha para preparar seu café, já com sua bolsa no ombro. Cebola não havia ido embora tarde, mas isso não significava que havia parado de assistir sua série após a saída do rapaz.
Enquanto a cafeteira fazia o trabalho, decidiu olhar seu celular, logo percebendo uma notificação de seu banco.
“Pelo visto, o pagamento caiu e eu não vi. Vejamos…” entrou no aplicativo, arregalando os olhos ao ver o valor recebido.
“Meu papai do céu! Ela pagou muito bem!” sorriu largamente.
De repente, Milena apareceu com sua mochila nas costas.
“Bom dia, Mônica! Parece feliz!” comentou enquanto ia até a geladeira.
“Além de ter tido uma boa noite, acordei com dinheiro na conta. O casamento da Carmem foi um desafio muito bem remunerado.” comentou e a outra riu.
“Aí, sim! Certeza que você vai ter mais clientes que nem ela.” falou.
“Não sendo igual o casamento dela, eu não vejo problema nenhum.” riu ao dizer.
“Fico feliz por você, de verdade! São poucos wedding planners da Dream que levam a sério que nem você.” a amiga comentou enquanto pegava o restante de pizza que havia comprado na noite anterior.
“Só espero não achar uma Narcisa. Ah! Por que o DC ‘tava afobado ontem?” a de cabelos curtos perguntou curiosa.
“Um famosinho da internet criticou muito o mini doc, aí ele veio ver como eu ‘tava. Quer uma fatia?” revelou.
“Não nego pizza amanhecida. E você ‘tá bem?” Mônica aceitou antes de fazer uma pergunta.
“Agora, sim. Assistimos à trilogia de Crepúsculo e tive uma conversa sobre isso que nunca imaginei que teria com um cara.” falou e a outra riu.
“Excêntrico. E ele ainda ‘tá por aí?” perguntou e a outra negou enquanto esquentava o alimento no micro-ondas.
“Não, ele foi pra casa bem cedo. Mas foi melhor, eu iria querer ficar na cama.” confessou e a outra riu.
“Sei como é!” afirmou.
“Como estão você e Cebola?” Milena perguntou e a amiga suspirou.
“É complicado. Eu amo cada pedacinho de momento que estou com ele, mas tenho medo que nos descubram.” confessou.
“A Carmem que disse não.” a cacheada lembrou.
“É, mas eu era a wedding planner. O profissionalismo fica como? Enfim… estamos no sigilo. Mudando de assunto, você ouviu ontem os pais da Agnes?” mudou de assunto, abaixando a voz no processo.
“Ouvi! Será que ela tá bem? Eles pegaram pesado.” ela comentou entregando um prato com pizza morna para a amiga e ficando com outro.
“Não vi ela depois e nem tive coragem de bater no quarto dela.” falou enquanto mordiscava o alimento.
De repente, a terceira moradora se juntou a elas.
“Oi.” cumprimentou.
“Nem falou da nossa péssima alimentação matinal. ‘Tá tudo bem?” Milena perguntou.
“Na medida do possível.” respondeu enquanto pegava sua garrafa de água.
“Agnes! A gente acabou ouvindo sua conversa com seus pais. Tá bem mesmo?” Mônica revelou.
“Eu vou ficar legal. Meninas…acho que nunca perguntei isso: como são as famílias de vocês? São tranquilas? Aceitaram bem a mudança pra cá?” a loira perguntou.
Aquilo surpreendeu as outras duas. De fato, aquela conversa nunca havia acontecido.
“A minha é. Eu sou filha única, então foi difícil no começo. Mas agora está tudo certo.” Mônica respondeu.
“Eles surtaram quando você trancou o curso?” Milena perguntou e a outra riu.
“Nossa… demais! Naquele momento, eu fiquei feliz em não morar com eles. Mas eles acabaram aceitando com o passar do tempo.” respondeu.
“E você, Milena?” Agnes perguntou.
“Eu tenho uma boa relação com meus pais e irmãos. Eu me mudei por causa da faculdade, então aceitaram super bem.” Milena respondeu.
“Cheguei a conhecer seu irmão. Um fã do Nik que conhecia o Cascão.” Agnes comentou e a outra riu.
“Aquele lá é maluco.” comentou.
“O que eles acham dos seus rolês apocalípticos?” a loira perguntou e a cacheada riu.
“Eles sabem dos rolês, mas eu nunca disse que alguns eram apocalípticos.” respondeu.
“Nem tudo a gente fala.” Mônica riu.
Agnes suspirou.
“Pois é… Tenham um bom dia, meninas.” disse antes de sair com seu grande guarda-chuva, já havia comido.
As outras se entreolharam.
“A coisa ‘tá feia… vou nessa também. ‘Tô atrasada! O dever me chama!” Mônica exclamou antes de dar um gole em seu café e sair com o restante de sua pizza.
Milena ficou sozinha na cozinha, apenas ouvindo os barulhos da rua e da geladeira.
“Tem bastante coisa que eu não falo também…” comentou.
Sua mente divagou ao longo do caminho até a faculdade. Ao chegar lá, deu de cara com alguém que não via há um tempo.
“Oi, Franja! Decidiu sair da toca?” cumprimentou o namorado de Marina.
“E ai, Milena! Evento acadêmico. E eu, como um bom mestrando, vim por livre e espontânea pressão.” o loiro falou e ela riu.
“Quis inventar de ser cientista, deu nisso.” brincou.
“Escolhas. Tenho que fazer credenciamento, até mais!” despediu-se.
A moça observou o grupinho andando junto até onde seria o evento. Por um momento, enxergou-se entre eles, mas um vento gelado a tirou de seus devaneios e decidiu seguir seu caminho, mas parou na entrada do prédio. De repente, o caminho até sua sala parecia comprido demais.
De súbito, pegou seu celular.
“Oi, mãe. Eu...” mandou um áudio incompleto.
Olhou para dentro e seu olhar parou em um mural de anúncios, onde havia um panfleto sobre escolha vocacional. Em seguida, seus olhos correram para a calçada do outro lado da rua, onde havia um cachorro magro abanando o rabo para um grupo de estudantes que o acariciava.
Aquilo a fez pensar, até seu celular vibrar.
“Milena? O áudio cortou.” era uma resposta de sua mãe.
A moça riu.
“Mãe… acho que fiz uma nova escolha.” falou.
*
No refeitório, Cascão conversava com alguns amigos.
“Aí eu fiquei até sem graça. Não sei como entrar nessa conversa, nem se ela quer entrar nessa conversa.” falou sobre o ocorrido da noite anterior.
“Iria roubar a brisa!” um deles disse.
“Eu também iria preferir esquecer o mico. Por que tu não leva ela pra um rolê? Ajuda a esquecer.” um outro sugeriu.
“Hoje é segunda, maluco.” Cascão lembrou.
“Ué, nem todo rolê acaba em bebedeira e otras cositas más, Cascão! Tem rampa, resenha e, por que não, a Toca do coelho.” Felipe sugeriu.
Cascão e os amigos riram.
“Toca do coelho? Vai traumatizar a menina.” comentou.
“Vai ter baile de máscaras. E lá é um ótimo lugar pra se construir lembranças.” o outro disse.
“Pelo estado que você fica, duvido muito que lembre das coisas, Playba. Mas acho que vira mais uma resenha que festa apocalíptica, ela precisa se sentir confortável.” Cascão comentou.
“Na tua casa? Isso é papo de quem vai mostrar o conforto da cama, isso sim.” um amigo riu.
“Cala a boca!” xingou.
“Fechou a resenha então! Não se esqueça de chamar a tua outra vizinha.” Felipe subiu e desceu as sobrancelhas.
“Tu não vai ter outra chance. Ela ‘tá pegando outro cara.” o moreno disse.
“Se não está sério, não é pecado cobiçar.” o loiro afirmou risonho.
De repente, Cascão recebeu uma ligação de um número desconhecido.
“Alô? Ah, oi! É aquela olheira! Cala a boca todo mundo!” atendeu e logo sussurrou para os amigos.
“É um prazer falar com a senhora. Sim, pode falar. Ah… não… tudo bem! Sem problemas, agradeço até. Até mais!” desligou em meio a um sorriso cada vez menor.
“E aí?” um amigo perguntou.
Cascão suspirou.
“A vaga foi pra um moleque mais novo! Ela disse que pode deixar meu nome numa lista de espera, aí eu topei.” respondeu.
Os amigos se entreolharam, sem saber o que falar.
“Pô, mano… desanima, não! Teu momento ainda chega!” um deles disse e Cascão levantou.
“Fechou Toca do coelho hoje? Faz grupo lá e chama geral!” disse enquanto deixava a mesa.
Cascão caminhou sentindo um nó se formar em sua garganta. Pretendia ir para a sala de aula, para não trombar com ninguém, porém, deu de cara com Cebola.
“Mano, já teve a impressão de estar sendo observado?” o amigo perguntou enquanto olhava para um grupinho que passou rindo.
“No seu caso, não é impressão.” respondeu.
“Aff! Eu realmente achei que o não ter vindo dela facilitaria minha vida, mas nada está mais fácil.” Cebola reclamou.
“A vida tem dessas. Vou colar na Toca do coelho hoje, vai rolar um baile de máscaras. Quer ir?” Cascão convidou e o outro franziu o cenho.
“Em plena segunda-feira?” perguntou.
“Não é pra beber até cair, só pra… esquecer dos problemas.” explicou.
Cebola deu de ombros.
“Bom… problemas eu tenho mesmo. E talvez a Mônica tope ir num lugar que ninguém liga pra ninguém. Mas o que você ‘tá querendo esquecer?” perguntou.
O amigo suspirou.
“Os pais da Agnes foram escrotos com ela. Pode ser uma boa ir na Toca do coelho pra esquecer disso.” falou e o amigo riu.
“Agnes e Toca do coelho na mesma frase? Tem certeza disso? Talvez uma resenha seria mais suave.” sugeriu.
“Sim, mas eu preciso esfriar a cabeça! Do jeito que só uma festinha duvidosa consegue. Hoje a olheira ligou e a vaga foi pra outra pessoa.” revelou.
Cebola arregalou os olhos.
“Nossa, mano… Lamento!” deu tapinhas nas costas dele.
“Tudo bem… vai ver nem era pra ser. Vou pra minha aula, a gente vê os detalhes depois.” falou enquanto caminhava não muito animado.
Cebola encarou o amigo com certo pesar, dificilmente Cascão se desanimava.
“Situação tensa que esse cara caiu…Será que Mônica topa?” comentou enquanto pegava seu celular.
“Ali! É ele!” uma pessoa desconhecida apontou.
“Certeza que foi corno! Ela deve ter achado um cara muito mais bonito.” outra disse.
“Ou famoso. Gente fútil que nem a Carmem só pensa em números.” outro disse.
Cebola revirou os olhos enquanto se afastava.
“Saudades de quando eu era um anônimo!” comentou entrando em sua sala, onde ocorriam conversas calorosas.
“Cara… eu consegui um estágio no exterior! Meu currículo vai pras alturas!” ouviu um colega comentar.
“Eu vou começar numa empresa daqui uns dias. Só o inicial é 5.000.” outro disse.
“Formatura no fim do semestre e o meu trampo já tá garantido!” um outro comentou.
Cebola os olhou com os lábios crispados de incômodo. Desde o não de Carmem, não havia pensado naquilo que o incentivou a ficar dois anos na relação: seus sonhos recheados de ambição e imediatismo.
“Eu tinha esquecido disso…” balbuciou.
De repente, seu celular vibrou, indicando uma mensagem de Mônica, que fez seu rosto se iluminar.
“Que triste a situação do Cascão… Pode contar com minha presença! Mas não vou ficar muito.” leu mentalmente.
“Só de ter você lá, já deixa melhor.” respondeu com um sorriso.
Enquanto não era respondido, olhou para frente com um sorriso, esquecendo-se um pouco de preocupações.
“Como ela mesma me disse, o que eu desejo virá com o tempo!” comentou.
*
Enquanto isso, na Dream, Mônica estava na cafeteria, aguardando o fim da limpeza do andar matrimonial. Desde que chegou, ouvia inúmeros burburinhos sobre o casamento de Carmem, mas nenhum a incluía.
“Bom dia, Mônica! Estava lindo o casamento que você organizou!” uma colega comentou.
“Obrigada. Não acabou como era esperado, mas… entreguei o que prometi.” respondeu.
“Qual foi o real motivo do não?” outro perguntou.
“Não sei. Vocês conhecem a Carmem, ela é muito… sentimentalmente fechada.” respondeu.
“Não precisa mentir pra gente, Mônica. Já sabemos de tudo.” uma outra disse.
Os olhos de Mônica cresceram.
“Tudo o quê?” perguntou.
“Que o casamento era por interesse.” respondeu, fazendo-a suspirar aliviada.
“Ah… muitos casais riquinhos são assim.” ela comentou.
“Mas ele não é rico. Aí tem coisa! Ele vinha sem ela, deve ter te confidenciado alguma coisa.” disse.
“Tá pronto, pessoal!” a funcionária da limpeza comentou passando com um balde e um esfregão.
Mônica se levantou.
“Não… casais assim são discretos. Eu era só mais uma contratada, gente. A Carmem nem vinha direito. O papo ‘tá bom, mas tenho que fazer uma limpeza de planilhas para atrair novas. Até mais, gente.” disse saindo de lá
No conforto de sua sala, respirou fundo.
“Como fui esquecer dos fofoqueiros de plantão daqui?! Será que ‘tá na cara que rola alguma coisa?” interrogou-se.
De repente, ouviu batidas na porta.
“Entra.” autorizou e logo se pôs de pé, era sua gerente junto de um casal notoriamente abastado e com uma também notável diferença de idade.
“Esta é a Mônica. Nossa wedding planner que cuidou do casamento de Carmem Frufru. Mônica, esses são Angélica e Vicente. Vou deixá-los à vontade!” a gerente os apresentou e logo saiu da sala.
“Olá! Bom dia!” cumprimentou-os com um aperto de mão.
“Oi! Eu vi a postagem da Carmem. Que casamento lindo! Uma pena que ela disse não, mas o resto estava divino! Eu quero um igual ao dela!” a noiva disse animada.
“Não poupe esforços e dinheiro, Mônica! Os desejos do meu docinho são uma ordem!” o noivo disse sorridente.
Mônica também sorria.
“É claro! Primeiramente, parabéns pelo noivado! Tenho certeza que será um momento único para vocês. Para deixar tudo do jeitinho que sonham, preciso saber mais sobre a história do casal!” começou já abrindo sua planilha, teria um longo trabalho pela frente.
X
Após ter fechado o contrato com aquele casal e com mais um, também influenciado por Carmem, sua gerente apareceu.
“Carmem te deu sorte, hein? Quando o cliente te procura diretamente, é porque a coisa anda boa. E quando são clientes com desejos caros… melhor ainda.” ela comentou.
“Não imaginei que isso aconteceria!” exclamou.
“Você merece! Você faz um excelente trabalho.” ela disse antes de sair.
Aquilo animou Mônica. Quando aceitou a proposta da Frufru, seu desejo era que surgisse um bom retorno financeiro, e tudo indicava para isso. Todavia, toda a situação ocorrida com Cebola, desde antes de nutrir algo por ele, acendeu uma lâmpada em sua cabeça.
“Será que as duas partes sabem os interesses de cada um?” questionou-se.
Diante disso, decidiu pesquisar algo que vinha procrastinando há um tempo.
“Como voltar pra faculdade depois de trancar o curso?” pesquisou atentamente.
*
Do Contra estava sorridente naquela manhã. Além da ótima noite com Milena, Nimbus, em seu apartamento, na presença de Isadora, Jeremias e Toni, havia dado boas notícias sobre o mini doc.
“O resultado tem sido muito positivo, gente! Até mesmo os comentários daquele bosta alavancaram as coisas. Mas… tem uma parte não muito boa.” Nimbus falou.
“Tava demorando pra estragar meu dia! Fala de uma vez.” DC pediu.
“O número de contratos pra tocar nos lugares ‘tá disparado, mas… até o momento, todos querem só o DC.” revelou, tentando ser o mais sensível possível.
DC suspirou, diferente dos amigos, que apenas deram de ombros.
“Não entendi sua hesitação, Nimbus. DC já fazia uns shows solos instrumentais. Ele é o único que vive só pra música.” Isadora lembrou.
“O que chamou a atenção deles é esse lado multi-instrumentista dele. Fora que o povo tem se interessado pela história. Mas ainda achei importante ouvir o que vocês têm a dizer.” Nimbus disse.
Os quatro se entreolharam.
“Eu queria que a banda crescesse mais. Talvez a gente pudesse colocar a banda como exigência.” DC sugeriu.
“Para de ser idiota!” Toni falou, fazendo-o arregalar os olhos.
“O quê?” perguntou.
“Disse pra parar de ser idiota. Do Contra, você é o único que só vive pra música. Você sairia perdendo.” Toni explicou.
“Dissemos até no vídeo! Então os fãs sabem que a banda não é o principal projeto da nossa vida.” Jeremias completou, apontando para si mesmo, Isadora e Toni.
“DC, a banda é de Schrodinger, você não. Ainda vamos poder fazer nossas apresentações juntos, mas você tem que aproveitar o auge.” a moça aconselhou.
DC respirou fundo, gostava de estar com sua banda nos palcos e queria continuar, mas não podia ignorar o fato que a música era a peça chave de sua vida, mas não da dos amigos.
“Vocês acabaram de perder a chance de sempre estarem em todos os shows comigo.” comentou, fazendo-os rir.
“Qual é a parte ruim disso?” Toni zombou.
“Só vi vantagens.” Jeremias também brincou.
“Não se livrou totalmente da gente, rapaz! Ainda quero ter nossos shows esporádicos.” a loira disse.
DC sorriu para os amigos.
“Falando em esporádico, o que virou seu lance com a Milena? Ela percebeu que vale mais a pena ser solteira?” Toni perguntou.
“Eu dormi com ela de ontem pra hoje.” respondeu sorridente.
“Poupe-nos dos detalhes.” o loiro disse.
“Foi dormir de dormir mesmo, pervertido. Assistimos a trilogia de Crepúsculo, tivemos conversas muito profundas sobre o filme e dormimos satisfeitos. Só vim mais cedo pra casa porque ela tinha aula hoje e Nimbus queria fazer reunião a essa hora da manhã.” DC explicou.
“A vida não gira ao seu redor. Horário comercial e de aulas existem.” o irmão disse.
“Crepúsculo? Ela era uma pessoa tão normal… tinha que se envolver logo com esse maluco?!” Toni zombou, recebendo um dedo médio levantado em resposta.
“Ela ainda vai em festas apocalípticas? Eu soube que hoje vai rolar um baile de máscaras na Toca do coelho e até hoje não demos um rolê.” Isadora perguntou.
“Ah… eu não sei.” ele respondeu.
“Espero que você não seja um daqueles caras que surta por ela gostar de festa, Do Contra.” Jeremias comentou.
“Não, não. Fora que a primeira vez que a vi com outros olhos, foi numa festa no Bidu.” ele lembrou.
“Vou chamar ela! Aí vamos nós todos! Chama a Denise e Sofia também, Jerê!” Isadora, animada, disse com o celular em mãos.
“Tá ligada que hoje é segunda, né?” ele disse enquanto digitava algo.
“Se ela topar, você me deve um drink de morango, bonitão.” a loira disse.
O amigo riu.
“Droga! Vou ter que gastar dinheiro num drink.” praguejou e ela riu.
“Na Toca do coelho eles abrem palco pra bandas. Será que rola um trampo hoje, Nimbus?” Toni comentou.
“Vou ver se consigo pra vocês.” Nimbus disse já pegando seu celular.
Isadora riu alto.
“Milena disse que minha mensagem chegou ao mesmo tempo que ela foi colocada num grupo de rolê pra lá. Então ela vai!” falou.
“Preparado pra ver os caras daquele bar apertado olhando pra tua Pitanguinha que nem você olhou lá no Bidu?” Jeremias provocou.
“Não sou um cara ciumento.” DC afirmou e os demais riram.
“Não foi o que eu vi naquele dia que mostrei meu amigo e ela disse que não era pouca coisa.” a ex provocou.
“Não era ciúme! Era… surpresa.” defendeu-se.
“Aposto que aquele Felipe que dá em cima dela vai estar lá. Vai ficar surpreso de novo?” Toni também provocou.
Nimbus riu alto.
“Às vezes, seus amigos e seus inimigos são as mesmas pessoas.” brincou, fazendo os demais rirem, até DC.
A conversa continuou até cada um ter que ir para seus próprios compromissos.
Sozinho, vários pensamentos chegaram à mente do rapaz. Alguns sobre os contratos crescendo, outros sobre como seu apartamento precisava de uma limpeza, uma quantidade sobre a banda e muitos sobre Milena.
Não queria admitir em voz alta, mas a fala dos amigos, mesmo que fosse brincadeira, havia entrado em sua mente.
“Será que eu sei lidar com isso mesmo?” perguntou-se.
*
Pela primeira vez em meses, o contador de Nikolas estava satisfeito.
“As divulgações na sua live, o cupom de desconto e os eventos que a GGeek esteve impulsionaram os negócios, Nikolas.” afirmou.
“Eu disse que tinha que ter esperança!” o rapaz ressaltou.
“Se continuar nesse ritmo, o investimento poderá até crescer. E quem sabe contratar um novo colaborador? Porque, convenhamos… por mais que você nunca fique aqui com frequência, seus haters saberem onde você pode estar é perigoso. Fora que seria uma mão na roda pra sua colaboradora, ela deve sofrer trabalhando aqui sozinha.” o outro falou.
“Na verdade… não sofro. Dependendo do colega, seria um pesadelo ter mais alguém.” Agnes respondeu enquanto limpava um expositor.
O contador franziu o cenho, fazendo Nik rir.
“Digamos que Agnes faz o estilo se quer bem feito, faça você mesmo.” explicou.
“Pra isso evoluir pra um burnout… enfim. Novamente, parabéns pelo bom resultado.” disse antes de se direcionar à saída, porém, deu meia volta.
“Aliás… chegou a edição de luxo do Batimão?” perguntou.
“Dia de sorte!” Nik disse e o acompanhou até onde estava.
Agnes sorriu com isso. Não estava muito animada naquele dia, mas saber que a GGeek ia bem a deixava feliz, tanto por Nik quanto por manter seu emprego.
Enquanto observava o rapaz mostrar os gibis para o contador, pensou em seu trabalho. Não pensava em trabalhar para sempre na loja, mas gostava de estar lá. Nikolas era um bom chefe, o lugar era confortável, perto de sua casa e não era desrespeitada como fora na noite anterior.
“Não é um trabalho medíocre!” exclamou.
De repente, assim que o contador saiu, a dupla de clientes que entrou na loja a surpreendeu.
“Oi, Agnes!” eram Sofia e Denise.
“Oi…” cumprimentou ainda sem entender.
“O Jerê chamou a gente pra ir na Toca do coelho hoje pra um baile de máscaras. Vem também!” Sofia convidou.
A míope franziu o cenho.
“Toca do coelho?” repetiu sem entender.
“É um bar apocalíptico. Tipo um Bidu ao quadrado.” Denise explicou.
A loira torceu a boca.
“Não. Hoje é segunda-feira e esses bares são uma nojeira! Eu gosto do Bidu, mas não posso dizer que lá é limpinho.” negou.
“Pelo que você disse que seus pais disseram, pode ser legal esfriar a cabeça. Lá não é super apertado como você pensa e hoje não vai tanta gente.” Sofia argumentou.
“E pelo que eu soube… o Cascão vai estar lá.” completou baixo.
Agnes umedeceu os lábios. Não teve coragem nem de mandar mensagem para ele.
“Vou pensar e te dou uma resposta.” respondeu.
“É pra dar uma resposta mesmo!” Sofia apontou um dedo.
“Você também, Nikolas! A Carmem vai adorar ir lá.” Denise convidou o amigo.
“Que isso? Caravana dos que vão para bares às segundas?” perguntou irônico.
“Exatamente! É só não chutar o balde, Nik.” a ruiva piscou um olho.
O dono dos dreads pareceu pensar por um instante.
“Pode ser legal.” aceitou.
“Vai ser legal!” Sofia esfregou uma mão na outra.
“Quantas pessoas vão num bar apocalíptico com o chefe, a namorada dele que acabou de dizer não no altar pra outro cara, a amiga festeira que antes não era festeira e os dois amigos dela?” Agnes perguntou.
“É um privilégio para poucos. E você acertou no casal, hein?” Denise riu.
“Denise!” Nik repreendeu, recebendo um levantar de ombros em resposta.
“Bora, Sofia. Temos mais gente pra chamar.” falou com uma palma.
“Pensa com carinho, Agnes!” a amiga falou antes de saírem.
Nik riu enquanto descia para o estoque, deixando Agnes sozinha com seus pensamentos.
“Talvez realmente seja bom…” ponderou.
*
Mais tarde, de volta à Dream, o som do salto fino de Carmem ecoava pelo corredor silencioso. Sabia que todos falavam dela, então fez questão de estar lá naquele dia.
“Boa tarde, Carmem! Ér… sinto muito pelo casamento.” uma funcionária comentou.
“Não sinta. Sabe se Mônica está com algum cliente?” perguntou.
“Acredito que não.” falou e a loira assentiu enquanto se direcionava até a sala da morena.
Ao chegar lá e ser autorizada sua entrada, Mônica pareceu surpresa.
“Carmem? Aconteceu alguma coisa?” perguntou.
“Queria falar com você. Tem um minuto?” perguntou e a outra assentiu.
“Claro! Pode se sentar. Aceita um café, chá, água…” ofereceu e a loira negou com a cabeça.
“Não, valeu. Seguinte… eu te devo desculpas. Você teve um grande trabalho com o casamento e eu, além de não ter dado a devida atenção, estraguei todo seu planejamento.” desculpou-se.
Mônica não conseguiu evitar um arregalar de olhos.
“Ah… tudo bem. No fim das contas, você tomou uma boa decisão. Mas eu fiquei curiosa, Carmem! Por que você disse não? Pelo que me lembro, você tinha metas bem definidas.” falou.
Carmem riu.
“Além de ter visto que as coisas estavam caminhando pro lado oposto que eu queria, mesmo eu não sendo sentimental, tem alguém que me faz acreditar no amor, e não é o Cebola.” respondeu com um sorriso doce brincando nos lábios.
A wedding planner não conseguiu evitar de sorrir.
“Fico feliz que tenha percebido a tempo, Carmem.” comentou.
“Acha que o Cebola ia dizer sim, Mônica?” a outra perguntou.
A morena umedeceu os lábios.
“Ah… não sei.” mentiu, fazendo a outra rir.
“Não precisa mentir. Eu percebi há bastante tempo que vocês dois têm alguma coisa.” revelou calmamente.
Mônica sentiu o coração acelerar.
“E-eu… eu sinto muito! Ma-mas nada nunca aconteceu durante o noivado! Só amizade mesmo.” explicou-se nervosamente.
“Relaxa! Em dois anos, nunca me conectei com ele como vocês se conectaram, e isso não deve ser desconsiderado. Fora que, depois que eu disse não, nós encerramos qualquer tipo de relação amorosa, então ele é livre pra ficar com quem quiser.” esclareceu.
“Até com a própria wedding planner?” a outra riu ao dizer.
“Ex wedding planner. Vocês dois não vão precisar se esconder pra sempre, só por um tempinho. Mas pode contar comigo caso alguém apareça pra encher o saco de vocês.” garantiu.
Mônica a encarou sem reação.
“Obrigada, Carmem.” agradeceu verdadeiramente.
A loira se levantou.
“Vou ser sincera, ter acompanhado o Nik nas bodas me fez ver as coisas de um outro jeito, então… é o mínimo que eu posso fazer.” disse antes de deixar a sala.
De volta à sua, girando em sua cadeira, Carmem sentiu um peso sair de seus ombros. Ao ir para a janela, pegou a planta que já tinha seus primeiros brotos.
“Logo eu também não vou mais precisar esconder meu romance dos sonhos… Acho que vou dar um oizinho pra ele!” comentou com um riso.
Antes de ir à loja, a loira decidiu passar em um lugar primeiro. Ao passar pela porta do local, olhou ao redor com um sorriso enquanto o cheiro de flores entrava em suas narinas.
“Olá!” a voz da senhora soou.
“Oi, dona Nena! A senhora se lembra de mim?” perguntou.
A senhora ajeitou os óculos e sorriu.
“A mocinha que estava noiva e veio com um amigo para cuidar das bodas dos pais dele! Como foi?” perguntou.
“Depende. As bodas foram a coisa mais linda que já vi. E o casamento… bom… eu disse não.” Carmem respondeu sorridente enquanto mostrava a mão sem o anel.
Nena riu.
“Pelo seu sorriso… não foi ruim.” observou.
O sorriso de Carmem se abriu mais.
“Sabe o rapaz que estava comigo naquele dia?” perguntou e a outra assentiu.
“Eu amo aquele cara, dona Nena! Quando eu descobri que era recíproco, eu… eu tomei a coragem que me faltava para não fazer uma burrada.” revelou.
“Me chame de bruxa se quiser, mas naquele dia que vocês vieram, eu já sabia que iriam acordar pra realidade! Foi parecido com minha sobrinha. Ela namorou por anos com um rapaz, aí eles terminaram e, um tempinho depois, ela achou a alma gêmea, hoje ‘tá casada, morando fora e muito feliz.” a mais velha disse.
“A senhora acha que vou ser muito feliz?” a moça perguntou.
Nena sorriu graciosa.
“Me responda você.” falou entregando uma tulipa vermelha.
Carmem sorriu enquanto olhava a flor.
“Acho que já estou.” falou com um sorriso.
A moça saiu de lá com um sorriso e uma planta nova. Ao chegar à GGeek, não viu o namorado.
“Oi, Agnes. O Nik ‘tá por aí?” falou com a outra, deixando a planta em cima do balcão.
“No estoque. Mas ele ‘tava trocando uma lâmpada, então… ah, uma jiboia!” falou ao apontar para a planta.
"Só de olhar pra planta já soube o que era? Bióloga mesmo." Carmem comentou, fazendo a outra rir.
"Eu tenho uma dessas. Ela é boa pra purificar o ar." respondeu.
“Dona Nena falou isso, mas a parte de ser fácil de cuidar chamou minha atenção. Você disse que o Nik 'tava trocando a lâmpada? Essa eu quero ver!” falou enquanto descia até lá.
Ao chegar, deu um riso ao vê-lo na escada, concentrado no que fazia.
“Desde quando você sabe trocar lâmpada, gamer?” perguntou e ele riu.
“Eu moro sozinho e, por muito pouco, não fiquei noivo. Sei fazer muita coisa.” respondeu enquanto descia de lá.
“Cozinhar não é uma delas, né?” a moça provocou.
“Não dá pra ser perfeito em tudo.” disse fazendo um biquinho, que logo foi selado com os lábios dela.
“A que devo sua visita, Carmem?” ele perguntou.
“Não posso visitar meu namorado?” ela respondeu com outra pergunta.
“É claro, mas durante um expediente cheio de gente fofocando sobre você… não sei.” ele lembrou.
“Deixa eles serem felizes. O contador veio?” perguntou enquanto os dois voltavam para a loja.
“Sim! Pela primeira vez em meses, tive uma boa margem de lucro.” revelou.
A moça sorriu.
“Que ótimo! As coisas estão caminhando bem pra gente!” comemorou e ele assentiu.
“Finalmente! O que tem sido bom pra você?” perguntou.
“Minhas plantas estão crescendo saudáveis, estou com a consciência tranquila em relação ao trabalho da Mônica, pelo visto continuo influenciando muita gente e ‘tô com um namorado que eu realmente gosto.” ela respondeu.
“Realmente sou um sonho de consumo. Faço até as plantas ficarem bonitas.” brincou.
A loira riu.
“Nada convencido.” disse antes de distribuir vários beijinhos.
O som de uma garganta sendo limpa os interrompeu.
“Desculpe, casal, mas se querem manter em segredo, vão ter que ser mais discretos.” Agnes avisou enquanto apontava com a cabeça para a porta, onde um cliente entrava com os olhos presos ao celular.
O casal se recompôs.
“A Denise te falou do rolê de hoje?” Nik perguntou.
“Na Toca do coelho, né? Acho que pode ser legal a gente ir. Uma máscara e um lugar que todo mundo ‘tá ocupado demais é sempre bom.” respondeu.
“Resposta suspeita, dona Carmem Frufru. Que lugares insalubres anda frequentando?” ele perguntou risonho.
“Tua casa, teu quarto, tua cama…” ela respondeu baixo.
“Desde quando lá é insalubre?” ele perguntou.
“Me convida pra ir lá que eu te mostro.” a namorada respondeu e ele riu.
“Quando você quiser. Não tenho nada a esconder.” piscou um olho provocativo.
Com os olhos fixos nos dele, que retribuía, a moça mordeu o lábio com lascívia. Agnes observava a cena com certo estranhamento e vergonha alheia.
“Nossa… acho que isso é a famosa tensão sexual.” a míope falou.
“Muito em breve, você vai estar fazendo a mesma coisa com o Cascão.” Carmem insinuou.
Agnes a olhou de cenho franzido.
“Você tem um chefe muito fofoqueiro, sabia?” a de cabelos ondulados completou em resposta à expressão surpresa.
Nikolas olhou para a namorada como se tivesse sido traído, fazendo-a rir.
“Não era fofoca! Era só um comentário. Vocês ficam bem juntos, Agnes.” ele disse.
“Vocês dois também. E o dia que eu fizer isso que vocês fazem, é porque morri e fui substituída.” falou enquanto ia até o cliente.
O casal riu.
“Nunca mais compartilho histórias com você.” Nikolas disse cruzando os braços.
“Nunca é uma palavra forte, querido. Viu minha nova planta?" apontou e ele assentiu.
"Escolheu a jiboia por ser fácil de cuidar ou por filtrar o ar?" falou e a moça o olhou surpresa.
"Ué? 'Tá certo que meu diploma foi cassado, mas a botânica da relação ainda era eu." brincou, fazendo-o rir.
"Minha mãe me deu uma dessas, fica no meu quarto inclusive. Prova que não é um lugar insalubre." respondeu.
"Uma planta no meio de uma pilha de pratos e copos não resolve muita coisa." provocou-o.
O dono dos dreads riu.
"Não sou você, não, Carmem." rebateu, fazendo-a rir também.
"Tô brincando com você , rapaz! Bom... vou indo nessa, a gente se vê à noite.” piscou um olho e saiu da loja animada, sentindo-se mais feliz para continuar seu dia de trabalho.
*
A noite caiu depressa e levemente gelada, pelo menos do lado de fora do bar de paredes escuras.
Agnes reparou no local assim que pôs os pés ali. Luzes neon que doíam os olhos, som alto que incomodava os ouvidos, espaço apertado que gerava contato físico invasivo, vários aromas ao mesmo tempo, danças eufóricas e olhos cobertos por máscaras.
“É muito pior que o Bidu!” exclamou com certo nojo.
“Sabia que era o tipo de lugar que você odiaria.” Denise riu.
“Denise! Relaxa, Agnes. Vamos pra um lugar mais tranquilo.” Sofia falou.
Mesmo mascarados, a moça reconheceu alguns rostos, alguns eram do beer pong, outros da rampa e até os da resenha de Cascão.
“E aí, Agnes!” um deles cumprimentou.
“Oi!” cumprimentou de volta.
“Tá sumida! Nunca mais colou na rampa e no Bidu.” outra disse.
“É a correria.” respondeu.
“Bora jogar um beer pong? Vocês também.” um rapaz as convidou.
“Vão indo. Eu vou ver se acho o Cascão por aí.” Agnes falou.
“Tem certeza?” Sofia perguntou ao olhar para o monte de pessoas.
A amiga sorriu.
“Relaxa, Sofia. Já, já encontro vocês.” disse e os demais se afastaram.
A loira crispou os lábios ao olhar ao redor. Por mais que fosse segunda-feira, estava cheio. Andou poucos passos, mas logo caiu em um amontoado de pessoas.
O cheiro de álcool, de perfumes e suor, as falas muito perto de si e o caminho cada vez mais difícil de atravessar fizeram com que, de repente, suas mãos suassem e sua respiração ficasse mais pesada.
“Odeio multidões!” reclamou baixo enquanto tentava andar, sentindo tudo ficar pior.
Sua visão estava começando a ficar turva quando uma mão a puxou para um lugar menos cheio, que nem mesmo estava longe.
“Tem que ter coragem pra andar naquele montinho.” era Cascão, com seu sorriso diferente que o habitual, um menos alegre.
A loira sorriu abertamente, ter Cascão ali fez com que seu coração voltasse a bater normalmente. Era como se seu caminho tivesse se iluminado um pouco mais.
“Como eu ‘tô feliz em te ver!” exclamou antes de abraçá-lo.
Agnes não sabia, mas Cascão também precisava daquele abraço, tanto que, daquela vez, ele quem parecia corresponder com mais urgência.
“Também ‘tô feliz em te ver! Ainda mais depois de ontem. E de hoje.” falou e ela o olhou.
“O que aconteceu hoje?” perguntou e ele suspirou.
“Lembra da olheira? Então… eu não fui escolhido.” respondeu.
A moça arregalou os olhos.
“Mas como? Você era o melhor naquele jogo!” exclamou.
“Mas não o mais novo. Eu já passei dos 20, Agnes. Ainda tenho chances, mas se tiver um cara que joga como eu e tiver 18, eles vão preferir o mais novo. E assim… eu não vou ficar mais novo.” ele começou.
“Às vezes, acho que tenho que desistir, sabe? Poucos têm a chance de viver de futebol, sem passar nenhuma necessidade ou ter que alugar sua amizade no tinder pra pagar a fatura do cartão, e… acho que não sou um desses poucos.” desabafou.
Agnes o encarou.
“Eu nunca te vi tão desmotivado…” comentou e ele deu um riso.
“Ah… coloquei expectativa demais.” brincou com seu copo.
“Nenhum jogador consegue começar a carreira depois dos 20?” a loira perguntou.
“Consegue, mas vai ficando mais difícil.” o estudante de educação física respondeu.
“Bom… uma garota com tendências hipocondríacas contratou um cara muito desenrolado, talentoso e extrovertido para ser o namorado falso dela e… tudo acabou melhor do que qualquer um imaginava. Então… alguns milagres acontecem.” Agnes comparou.
Cascão acabou rindo, um riso que aliviou seus ombros.
“Vem cá, rainha do beer pong!” abriu os braços e ela cedeu, recebendo um abraço apertado e um beijo nos lábios.
“Valeu, Agnes. É sempre bom ouvir uma coisa legal. Mas chega de falar de mim! Como você 'tá? Ontem foi meio… tenso. Eu nem tive cara de ir lá encher teu saco depois.” falou.
A estudante de biologia deu de ombros.
“Agora, depois de pensar em tudo que me disseram, eu ‘tô melhor. A propósito… obrigada por me defender! Significa muito pra mim saber que tem alguém ao meu lado.” confessou.
O rapaz sorriu abertamente antes de abraçá-la novamente.
“A gente cuida de quem a gente gosta, Agnes. Bora jogar um beer pong? É difícil conseguir uma partida com a rainha.” falou e ela acabou rindo.
“Posso te dar uma chance.” falou e ele sorriu com o olhar divertido.
“Chance pra quê? Jogar ou me aproximar mais de vossa majestade?” perguntou.
A moça sentiu os lábios secarem enquanto suas bochechas pareciam esquentar, mas não sentia que era ruim.
“As duas coisas.” respondeu sem pensar.
O moreno estendeu a mão, que foi entrelaçada pela dela.
“Então vamos lá!” convidou e os dois passaram pela multidão, daquela vez, parecia bem menos pior.
*
Nimbus havia conseguido que a banda tocasse, então o som do rock envolvente do grupo ecoava pelo bar. Enquanto o quarteto tocava, Milena conversava com Sarah, Marina e Franja, o qual parecia mais interessado em seu celular do que em qualquer outra coisa.
“Tô falando! É só arranjar um fiador que o lugar é nosso! Tem espaço certinho pro estúdio de tatuagem, pro de foto e pro ateliê de arte! Vou mostrar a foto!” Sarah disse animada.
“O ateliê vai estar junto com os estúdios?” Franja perguntou.
“É uma ideia, mas é possível que o pai rico da Marina dê o ateliê de presente de formatura.” Milena respondeu.
“Acho difícil! Ele queria que eu fosse arquiteta, não artista plástica.” Marina disse com um riso.
“Achei a foto! Olha que gracinha!” a de cabelos azuis mostrou um local espaçoso e um pouco antigo.
“É bonita mesmo! Mas, mesmo que a gente consiga um fiador, como vamos pagar o aluguel e as 50 mil contas que vêm junto? A gente ‘tá na pindaíba.” Milena lembrou.
“Esse é o detalhe sórdido. Franja, não ‘tá a fim de financiar a gente?” Sarah perguntou.
O loiro riu.
“Tá pedindo pra pessoa errada.” respondeu.
“Já pensaram em empréstimo bancário?” o bartender perguntou, conhecia elas.
As meninas riram.
“Somos uma editora de vídeo e tatuadora freelancer; uma fotógrafa atualmente freelancer; e uma futura artista plástica. Se o banco emprestar 500 reais é até muito.” Sarah falou.
“E ex estudante de medicina veterinária. Então nem 500.” Milena completou.
“Vai trocar de curso mesmo?” Marina perguntou.
“Vou. Eu gosto da área, mas… não é o que me vejo fazendo. Mas decidi terminar o semestre.” Milena respondeu.
“Já escolheu o outro curso?” Sarah perguntou.
“Pensei em alguma coisa que se relacione com física.” a amiga respondeu.
“Você é maluca!” Marina riu.
“Bem-vinda a esse mundo doido e mal compreendido!” Franja fez um soquinho com Milena.
“Estou vendo uma miragem?” uma voz masculina soou, fazendo Franja rir alto.
“Bem que eu ‘tava reconhecendo aquele boné vermelho. Jeremias! Achei que sua disciplina exagerada de estudos te impedia de vir em bar de segunda-feira.” cumprimentou-o com um abraço.
“Olha quem ‘tá falando! ‘Tô aqui a trabalho. Oi, meninas!” Jeremias cumprimentou enquanto o restante da banda chegava.
“Não sabia que vocês eram amigos!” Milena disse enquanto recebia um beijo na bochecha por parte de DC e cumprimentos amigáveis de Isadora e Toni.
“Há muitos anos! Junto com seu vizinho, o Timóteo. Ele te convida pros shows, Milena? Porque eu nunca sou convidado.” Franja reclamou.
“É claro! Você não aceita.” o amigo lembrou.
“Nem comigo ele sai direito, Jerê! Não vai apresentar a gente pros seus amigos, Milena?” Marina perguntou.
“Ah, é! Acho que alguns já se conhecem. Banda, aqui temos Sarah, que vocês já conhecem; Marina, minha amiga, e Franja, o namorado dela.” apontou para cada um.
“Amigos, esses são Isadora, Jeremias, Toni e DC, a banda de Schrodinger do mini doc.” ela apresentou.
“Então você que é o namoradinho da Milena!” Franja se direcionou para Do Contra.
O moreno riu.
“Em carne e osso.” assumiu.
A resposta fez com que muitos sorrisos fossem trocados entre os amigos de Milena e Do Contra, mas nada disseram.
“Qual o assunto do momento? Oi! Uma caipirinha pra mim, por favor!” Isadora pediu enquanto se sentava.
“Segunda-feira, Isadora.” Toni comentou enquanto flertava com uma garota.
“Olha só… ele sabe olhar um calendário.” ela zombou e o amigo revirou os olhos.
“Assunto do momento, Isadora: Milena vai mudar de curso.” Sarah revelou.
“Sério?” DC perguntou e ela assentiu.
“Decidi hoje. Veterinária não é mais pra mim! Vou finalizar o semestre, fazer os trâmites de mudança de curso e começar no próximo semestre.” explicou.
“Qual vai ser o curso?” Jeremias perguntou.
“Alguma coisa que se relacione com física, ainda estou escolhendo.” respondeu.
“Tenho certeza que será muito feliz!” DC disse, recebendo um sorriso dela em resposta.
Ao voltarem para o palco e iniciarem um rock romântico e mais lento, Marina arrastou Franja para a pista.
“Aqui mostra que tem outras maneiras de alugar sem um fiador. Só que aposto que é ou muito caro ou muito burocrático.”” Sarah mostrou o celular para a amiga.
“Se me permitem, todas as opções têm seus obstáculos, mas às vezes vale a pena tentar.” o bartender opinou, deixando-as pensativas.
*
Mônica se questionava quando lugares como aquele haviam deixado de ser tão interessantes para si. Não por acaso, sentiu saudades da calma resenha feita no apartamento de Cascão.
“Tô ficando velha!” comentou.
“Me concede esta dança, senhorita Sousa?” Cebola apareceu, fazendo uma reverência.
A morena riu.
“Será uma honra, cavalheiro mascarado.” aceitou e os dois se posicionaram em meio a outro casais dançantes, mesmo os que zoavam.
“Aprendeu a dançar valsa, lorde Menezes?” ela brincou antes de ser girada.
“Pro casamento que não aconteceu. Serviu de alguma coisa aturar aquela velha me xingando. Como foi seu dia?” ele perguntou.
“Melhor do que imaginava. A Carmem foi me pedir desculpas por todo o trabalho ter resultado em um não e peguei dois projetos grandes de pessoas que gostaram do seu quase casamento. Detalhe: eles foram me procurar, não procurar um wedding planner.” respondeu animada.
“Qual a diferença? Você é wedding planner.” o rapaz perguntou inocentemente.
“Quando um cliente procura diretamente por você, é porque seu trabalho está sendo reconhecido. E isso é muito bom pra carreira. Falando em carreira, eu vou voltar pra faculdade.” falou e ele sorriu.
“Mesmo? Decidiu seguir o plano de ser advogada e wedding planner?” ele perguntou.
“Sim! É até um diferencial.” falou e ele assentiu.
“Tô orgulhoso de você, Mô! Já disse uma vez, você é ótima nas duas coisas, então vai ser uma wedding planner ainda melhor.” ele falou e ela sorriu.
“Sinto que as coisas estão caminhando bem pra mim em várias esferas da minha vida… e você? Como foi seu dia?” perguntou.
“Normal. Eu ‘tava prestes a surtar sobre aquele lance de sucesso profissional rápido, mas… eu lembrei de você.” falou e ela riu com um franzir de testa.
“De mim?” perguntou.
“É! Do que você me disse sobre tudo ter seu tempo. E… realmente!” disse antes de beijá-la.
Era a primeira vez que se beijavam em um local com outras pessoas, e mal esperavam para poder fazer isso sem máscaras.
*
Carmem sorria enquanto dançava com Nikolas. Seus olhos não conseguiam desgrudar dos dele e vice-versa, mesmo que cobertos por máscaras.
“Nik, você saber dançar valsa tem que ser dito em seu canal algum dia!” exclamou e ele riu.
“Tem certos segredos que meus inscritos não precisam saber.” falou.
“Quantos segredos meu gamer favorito esconde?” perguntou.
“Não muitos, sou um livro quase aberto. Mas tem um que eu quero poder falar.” disse.
“Qual?” ela perguntou.
“Que eu tenho uma namorada.” disse antes de beijá-la.
A loira sorriu, gostava quando ele a chamava assim.
“Vamos fazer a primeira postagem enigmática?” sugeriu.
“Pode ser o quê?” ele perguntou.
“A gente posta a foto no mesmo lugar específico.” ela disse.
“Temos fãs meio Sherlock Holmes. Quanto tempo será que demora pra descobrirem?” ele perguntou.
“Essa que é a diversão.” ela disse enquanto o puxava para uma mesa, bem abaixo de letras brilhantes em neon.
Propositalmente, as fotos foram tiradas em uma parte onde havia letras em neon na parede. Carmem estava no fim da frase e Nik no começo, o que poderia ser um prato cheio para quem gostava de teorizar.
“Agora a gente vai embora e posta com pouco tempo de diferença.” ela disse.
“Isso vai ser divertido. Acho que vou até abrir uma live. Quer ir assistir a gravação?” ele convidou.
“Claro! Vou ficar vendo o povo respondendo meus stories achando que 'tô me recuperando do casamento e as teorias malucas que mandam.” falou.
Os dois saíram rindo do bar.
*
Um pouco depois, outra banda se apresentava. A pedido dos próprios festeiros, a música lenta e romântica havia continuado.
Milena dançava com DC, muito surpresa com a facilidade que ele dançava valsa.
“E não é que você sabe mesmo dançar valsa?” comentou e ele riu.
“Pressão familiar. Mas, sendo sincero, não acho tão ruim assim essa dança.” falou.
Quando a música acabou, o par foi pedir uma bebida. Enquanto aguardavam, um rapaz se aproximou.
“E aí, Mileninha! Sumiu da Toca! Como sempre, ‘tá uma gata!” ele cumprimentou com o olhar predador.
DC o encarou e, sem perceber, se aproximou mais da moça, assim como sua mão, que alcançou-lhe a cintura.
“E acompanhada! Não vai cumprimentar o DC?” abraçou-o pelos ombros.
“Oi.” DC disse seco enquanto estendia a mão esquerda com um sorriso forçado.
O outro o olhou dos pés à cabeça com um riso debochado.
“Não imaginei que se renderia a um playboyzinho, Milena. Tanto tempo dando fora no Felipe…” comentou.
“Pra você ver como são as coisas. Se me dá licença, essa música é legal.” ela disse puxando DC consigo.
“Quando quiser um homem de verdade, manda um salve, princesa.” ele disse alto antes de se afastar rindo.
“Vish, Milena. Acho que o homem de verdade ficou sentido.” DC zombou, fazendo-a rir.
“Se ele é tão homem assim, vai entender que escolhas melhores têm que ser aproveitadas.” ela disse, o que fez o rapaz abrir um enorme sorriso.
Por ironia do destino, a mesma música que tocara na primeira vez em que Do Contra desejou os lábios de Milena estava se tocando. Assim como da primeira vez, seus olhos desceram aos lábios pintados de vermelho da moça.
Daquela vez, porém, pôde beijá-la livre de medos e hesitações, sendo retribuído.
“Tá inspirado, Maurício?” ela perguntou enquanto recuperava o ar e brincava com o pé do cabelo dele.
“Apaixonado.” comentou enquanto seus lábios passeavam pela pele da moça, como a bochecha e pescoço.
Aquilo não pegou Milena de surpresa, era muito nítido. Mas também não evitou um sorriso aberto ao ver que seus sentimentos não a levavam para algo sem fundamento.
“Eu tentei evitar sentir demais. De ser emocionado demais, mas… eu não consigo simplesmente fingir que não quero melhorar as coisas.” falou.
“Melhorar as coisas?” ela repetiu com a antes de dar-lhe um selinho.
“Aham…” balbuciou em meio a um abraço.
Do Contra olhou-a nos olhos com suas orbes brilhantes. A máscara que outrora estava presa aos seus óculos havia sumido, então era possível ver o reflexo da luz neon vermelha e os círculos que enfeitavam o teto em suas lentes, era como se formasse coraçõezinhos.
“Perguntaram se eu era seu namoradinho hoje. A gente podia… tornar isso realidade.” sugeriu em um sussurro e ela sorriu.
“Está me pedindo em namoro, Do Contra?” perguntou e ele abriu um sorriso largo.
“Eu ‘tô! Você ter entrado na minha vida por um escândalo é estranho, mas seria mais estranho ainda se eu não tirasse do meu peito o que eu sinto por você! Você não é obrigada a aceitar, é claro. Mas eu queria que você… soubesse.” declarou-se.
Os olhos de Milena também brilharam. Rapazes apareciam em sua vida, mas nenhum falava nada daquele jeito ou a tratava daquele jeito, assim como nenhum conseguia mexer consigo como seu antigo cliente excêntrico conseguia com maestria.
Diante disso, a cacheada o abraçou carinhosamente.
“Como eu já te disse, você não é esporádico pra mim. E sim! Eu quero namorar com você!” aceitou com um grande sorriso.
O rapaz sorriu abertamente antes de girá-la no ar, ignorando tudo e a todos ao seu redor. Um beijo apaixonado finalizou o giro, algo que foi visto por um trio em especial.
“Acho que ele conseguiu.” Isadora sorria.
“Me deve cinquenta conto, Toni.” Jeremias riu.
“Aff!” Toni bufou.
A moça os encarou.
“Vocês apostaram?” perguntou.
“Eu apostei que ela iria aceitar, o Toni que ela ia preferir deixar as coisas sem compromisso.” Jeremias explicou.
“Confiei no lado frequentadora de festas apocalípticas dela.” o loiro disse.
“Se liga, Marco Antônio! Se ela não gostasse dele, tinha pulado fora há muito tempo. Justamente por ir em festas apocalípticas, ela sabe dar fora!” a amiga riu.
*
Agnes não conseguia e nem mesmo queria esconder que amava jogar beer pong. Durante o jogo, sentia-se como qualquer outra jovem, livre de tendências hipocondríacas, livre de pais rígidos, livre de palavras pesadas, apenas livre.
Ter Cascão e Sofia ao seu lado, e ver que eles se davam bem, era o que a deixava ainda mais alegre.
“Fala pra gente, Agnes. Como você aprendeu a jogar tão bem?” alguém perguntou.
“Uma amiga me apresentou e eu gostei por não ter muito contato físico. Aí o resto é talento.” brincou.
“Você não gosta de contato físico?” outra perguntou.
“Não.” respondeu simples.
“E como você convive com aquele cara? Ele conhece mais gente que político!” um rapaz apontou para Cascão.
Aquilo fez a loira rir.
“Acho que tem gente que é diferente.” comentou e olhares maliciosos surgiram em meio a gritinhos.
“Cês são bobos demais!” Cascão riu.
“Cascão, por que tem uma foto sua na parede?” Sofia perguntou apontando para uma foto do rapaz pregada na parede, ao lado de outras pessoas.
“É porque eu sou vip.” respondeu, fazendo a outra gargalhar.
“Vip?” repetiu.
“Sim. Eu já trouxe muita gente pra cá em rolê. Tudo gente que virou cliente frequente.” confirmou.
“Agora a grande pergunta: ser vip num bar apocalíptico é algo a se orgulhar?” um amigo falou.
“Toda conquista é uma conquista, maninho!” o moreno falou rindo.
“Eu fui uma que o Cascão arrastou pra cá e fiquei. Muita coisa aconteceu aqui, né, Cascão?! Inclusive nesta sala…” uma garota piscou um olho.
Agnes levantou a sobrancelha para a interação, fazendo Sofia rir.
“Nem disfarça.” a amiga sussurrou.
“O quê?” perguntou.
“Seu ciúme.” respondeu e a estudante de biologia revirou os olhos.
“Ciúme? Eu não sinto essas coisas não, Sofia.” afirmou.
Sofia deu de ombros.
“Bom... sentindo ou não, abre teu olho. Como Denise sempre diz: tem que marcar território.” falou.
“O dia que eu seguir um conselho da Denise, pode me internar!” a míope comentou.
Seu olhar retornou para onde Cascão estava e sua surpresa foi que ele a olhava, tanto que sorriu, fazendo-a sorrir também.
“Por que aqui chama Toca do coelho?” perguntou com as bochechas tão vermelhas quanto a luz neon.
“Apertado, cheio e é muito provável que tenha gente que se multiplique aqui.” um rapaz respondeu enquanto errava uma bolinha no copo.
Agnes franziu o cenho.
“Se multiplique?” perguntou inocentemente.
“Agnes… ainda bem que as paredes não falam.” uma garota falou risonha.
“Eu já vi uma pegação monstra no banheiro.” um outra menina disse.
“Isso é o de menos! Uma vez, eu vi gente se pegando em cima da mesa de sinuca. E tinha gente lá agindo como se nada tivesse acontecendo!” um rapaz disse.
Agnes arregalou os olhos boquiaberta. Sabia que isso acontecia em festas, mas era diferente ouvir em uma conversa.
“Você vem muito aqui, né, Cascão?” comentou e ele riu alto enquanto os colegas soltavam um “vish”.
“Venho, mas não faço essas coisas.” respondeu sincero.
“Mas gosta de brincar que a gente sabe, Cascãozinho.” um garota disse, levando um cutucão de alguém, que apontou para Agnes com a cabeça.
A loira assentiu.
“Acho que vou pra casa. Amanhã acordo cedo. Tchau, gente! Foi legal!” disse antes de se levantar e seguir em direção à saída.
“Espera aí!” Sofia a acompanhou, assim como Cascão.
“Viu o que você fez?” uma garota repreendeu a amiga.
“Ah, para! Se a santinha quer dar moral pra um cara que gosta de rolê na Toca do coelho, tem que ter o pé no chão.” falou.
Aquilo foi a última coisa que Agnes ouviu antes de conseguir deixar o local completamente.
“Agnes! Espera! Ela não disse por mal.” Sofia falou se desvencilhando das pessoas para chegar à amiga.
“Acho que disse sim. Mas relaxa, Sofia, eu não ligo pra isso!” falou conseguindo desviar dos outros com certa facilidade.
“Então por que ‘tá indo embora?” perguntou, dando de cara com Denise, que estava sozinha.
“Ué, ‘cês já tão indo?” a ruiva perguntou.
“Eu, sim. Mas a Sofia pode te fazer companhia se quiser.” Agnes falou.
“Não vou deixa você sair alterada assim. Vem! Vamos falar sobre o quanto incomodou o que a menina disse!” falou enquanto puxava a amiga até uma mesa vazia.
“Gente, o que ‘tá acontecendo?” Denise perguntou curiosa.
Agnes respirou fundo enquanto se sentava.
“As pessoas estão começando a perceber que eu gosto do Cascão.” falou.
“Qual o problema disso? É até bom!” Sofia perguntou.
“Bom? Eles podem até ser legais comigo, mas não acho que eles aceitariam que existisse algo entre mim e ele!” falou.
“E o Cascão por acaso aceita pitaco dos outros? Pra mim ‘tá muito claro que ele também gosta de você.” a amiga disse.
“Eu não duvido dele, mas… os amigos festeiros dele não sabem das minhas tendências hipocondríacas! Quando descobrirem… é claro que vão ficar no ouvido dele. Não digo que ele é mente fraca, mas chega um momento que você cansa!” a estudante de biologia exclamou.
“Se valoriza, Agnes! No fim das contas, o que vai importar é como vocês dois se sentem. Conhecendo o Cascão como eu conheço, ele tem opinião própria. E você sabe disso!” Denise exclamou.
A loira suspirou.
“Ele sempre fica do meu lado, desde antes de eu sonhar em sentir alguma coisa por ele. E… meus dias andam melhores. Seria horrível perder isso por causa de alguém.” comentou sincera.
“Uau!” uma voz masculina surpreendeu as três.
“Cascão?! ‘Tá aí faz tempo?” Agnes perguntou.
“O suficiente.” respondeu enquanto se sentava de frente para ela.
A loira baixou a cabeça.
“Deve me achar uma ridícula agora.” falou.
Delicadamente, Cascão segurou o queixo da moça, fazendo-a olhar em seus olhos.
“Não. Eu achei bonito o que você falou.” disse com seu belo sorriso.
A loira umedeceu os lábios enquanto as outras duas trocavam um olhar malicioso.
“Vem me ajudar a achar o Jerê, Sofia. Agnes ‘tá bem acompanhada.” Denise puxou a amiga de lá.
Agnes ria timidamente enquanto sentia um turbilhão de emoções passearem por seu corpo. Mas, como ele já havia ouvido a conversa, percebeu que não tinha nada a perder.
“Cascão, eu… eu nunca senti o que eu tenho sentido por você. Então eu não sei o que fazer!” exclamou sincera.
O rapaz entrelaçou sua mão à dela.
“Antes de mais nada, relaxa. Não precisa ter pressa nenhuma.” começou.
“Não menti quando disse que não fazia aquelas loucuras, mas você sabe que eu não vinha brincar de casinha. Eu valorizo muito o sentimento dos outros, Agnes, então se pra você isso for um problema…” falava.
“Não, não é! Eu sempre soube que você gostava de rolê apocalíptico, e isso não me incomoda.” a moça garantiu firme.
“Então não se preocupe com eles. Eu não deixo os outros ditarem como vai ser minha vida.” falou.
“Então o que eu faço, Cascão?” perguntou com certo desespero.
“A princípio, só deixa rolar.” falou antes de beijar-lhe a mão.
Agnes o olhou com carinho. Quando escolheu deixar a casa dos pais, ir para a faculdade presencial e buscar um emprego também presencial, tinha o desejo de melhorar sua situação e experimentar a vida, e lá estava a chance de experimentar a vida amorosa, sem pressões.
“Por que você é assim, hein?” questionou.
“Assim como?” ele perguntou.
“Ah…assim! Fofo, divertido, legal… várias coisas.” falou e o rapaz riu divertido.
“Se a rainha do beer pong ‘tá dizendo que sou assim, eu vou concordar.” falou e ela negou com a cabeça enquanto ria, estava mais leve. Cascão conseguia fazer isso, e queria que continuasse.
Dito isso, puxou-o para um beijo nos lábios. Por algum motivo, o rapaz lhe transmitia coragem.
A noite finalizou mais doce e com muitos corações sobrevoando as cabeças dos apaixonados jovens, algo que se arrastou por dias, que além de mais bonitos, pareciam passar mais depressa.
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