Almejar
12 Capítulo XII - Vozes da razão
Notas iniciais
O relógio marcava uma da manhã quando a insone Agnes respirou fundo e se revirou novamente em sua cama.
"Será que ainda somos amigas mesmo?" questionou-se.
Decidida a enviar a mensagem que tanto procrastinou a escrever, pegou seu celular. Porém, hesitou em desbloqueá-lo.
"Tenho que parar de pensar nisso! A terapeuta disse que preciso relaxar mais! Vou fazer um chá de camomila.” comentou.
Enrolada em seu cobertor, deixou seu quarto. Ao chegar na sala, surpreendeu-se com Mônica e Milena assistindo a uma série enquanto comiam bolo.
“Acordada a essa hora, Agnes? E suas oito horas de sono?” Mônica perguntou.
“Não me diga que te acordamos?! Achei que ‘tava baixo.” Milena falou enquanto procurava o controle remoto.
A loira negou com a cabeça.
"Não, eu nem sabia que vocês estavam aqui. Estou sem sono, então decidi fazer um chá de camomila." respondeu já indo ferver a água.
"Quer assistir com a gente? Pode te dar sono." Mônica convidou.
Agnes pensou enquanto pegava o recipiente com as flores secas. As meninas já haviam lhe convidado outras vezes, mas sempre negava por conta de sua rotina de sono, mas, como estava sem sono, não viu problemas.
"Quero." aceitou.
"Aceita um pedaço de bolo pra acompanhar seu chá? É das bodas dos pais do Nik, eles deram um pedaço muito generoso pra quem trabalhou." Milena ofereceu.
“E um pratinho de concha lindo! O bolo é bom, Agnes.” Mônica completou.
"Não, obrigada. Não como nada a essa hora. O que achou das bodas?” negou e decidiu tentar puxar uma conversa.
“Emocionante. Só digo uma coisa, meninas, o amor ainda existe. Falando em amor existir, eu não vi o Cebola lá com a Carmem.” a outra respondeu.
Mônica riu.
"Maldade esse gancho, Milena. Falando neles, acreditam que a Carmem furou a degustação e o Cebola me pediu pra acompanhar? Meninas... que vontade de casar com um milionário só pra ter um cardápio como aquele." brincou, fazendo as outras rirem.
"Falando sério, vocês se casariam com alguém por interesse? Eu não. Não acho que valha tão a pena assim." a cacheada perguntou e deu sua opinião.
"Não. Um casamento sem amor é triste até de planejar." a wedding planner respondeu.
"Não tenho vontade nenhuma de casar. Vida de casado é bem nojenta se for ver.” Agnes disse se sentando na poltrona, com seu chá quente em mãos.
“Isso é bem relativo.” Mônica apontou o garfo.
“Vocês chegaram a achar que seus antigos relacionamentos acabariam em casamento?” a loira perguntou.
“Sim. O meu primeiro e o último que tive. No primeiro, eu era uma ingênua adolescente que achava que ficaria pra sempre com o menino que estava apaixonada, que era ninguém menos que seu querido cliente, Milena.” Mônica revelou.
“Pelo que ele me fala e pelo que os pais dele me disseram, o menino era complicado.” a outra comentou.
“Põe complicado nisso! Eu até gosto de caras fora da curva, mas o caso dele era demais.” falou.
“Por que vocês terminaram?” Agnes perguntou curiosa.
“Ele terminou comigo por sermos muito diferentes. Na época, achei ruim, mas foi bom. Graças a isso, aprendi que prefiro me relacionar com quem tem coisas em comum comigo. Fora que ele fazia o estilo rebelde até demais, nunca cedia pra nada.” a de cabelos lisos curtinhos explicou.
“Atualmente, ele está melhorzinho.” Milena revelou.
“Pelo menos isso!” a outra comentou.
“Esse seu último tinha coisas em comum?” Agnes perguntou.
“Até que tinha. O nome dele é Ricardo, mas todo mundo chamava de Ricardinho. Era uma paixonite de infância que me deu moral na vida adulta. Acho que aquela história bonita de se casar com seu amor de infância me impedia de perceber que eu entregava mais do que recebia. Mas que bom que acordei pra vida.” Mônica revelou.
“Nossa, que merda!” Milena comentou e a outra riu.
“E você, Milena? Quem gosta de festa não costuma gostar de coisa séria.” Agnes questionou e a fotógrafa riu.
“Rotulou demais agora, Agnes. Mas eu não pensava em casar com nenhum, sempre preferi estudar primeiro. E você?” respondeu, fazendo uma pergunta ao fim.
A loira riu.
“Ser a hipocondríaca me fez nunca nem beijar na boca.” respondeu sincera.
As duas olharam surpresas.
“A adolescência deve ter sido um pesadelo pra você.” Mônica supôs e ela riu.
“Sem Sofia e Penha teria sido pior.” respondeu e, logo em seguida, seu olhar se perdeu, como se revivesse sua adolescência.
As outras perceberam.
“Eu falei pra vocês do que aconteceu depois que Nik me marcou numa postagem? Meu número de seguidores dobrou!” Milena mudou o foco.
“Que bom, miga! Você merece mais reconhecimento!” Mônica falou sorridente.
“Verdade! Você e Nik não deram certo né, Mônica?” Agnes lembrou, gostava de falar sobre as vidas amorosas alheias.
“A fama dele não é pra mim. Prefiro uma coisa mais tranquila, sabe? Eu gosto de ficar em casa assistindo bobagem, jogando conversa fora ou cozinhando junto, mas também gosto de sair sem ter alguém pedindo foto ou querendo jogar hate.” Mônica revelou suas preferências.
“Chegou a fazer isso com algum dos seus ex?” Milena perguntou.
“Uma coisa ou outra. Acho que a pessoa com quem mais fiz coisas dessa lista foi o Cebola. Carmem vacila demais, meninas! O Cebola é um cara muito interessante e até profundo. Não merece esse descaso todo.” respondeu.
Milena e Agnes trocaram um olhar.
“Se o Cebola fosse solteiro, você pegaria?” a cacheada questionou sem rodeios.
Mônica se surpreendeu.
“Ferraria com meu trabalho.” respondeu sem nem pensar.
“E se ele não fosse seu cliente?” Agnes condicionou.
A morena de cabelos curtos abriu e fechou a boca.
“Ah… não sei…talvez. Não penso muito nisso, ele é meu cliente!” exclamou.
“E você, Milena? Pegaria seu cliente se ele fosse solteiro?” Agnes devolveu a pergunta à fotógrafa, que riu.
“Ele é solteiro.” respondeu.
“Então pegarias, Milena?” Mônica perguntou risonha.
Milena deu de ombros.
“Não sei. Eu não misturo vida profissional com pessoal.” respondeu.
“E se ele não fosse seu cliente?” Agnes ressaltou.
“Acho ele um cara muito legal e atraente, mas não posso desconsiderar que é de um roqueiro muito caseiro que pinta, canta, toca e tem uma família bem complicada que estamos falando.” respondeu.
“Um rodeio desses pra dizer que não.” Mônica resumiu.
“Eu não disse não, disse que não posso desconsiderar nada. É diferente.” a outra corrigiu.
“Você vê ele mais como um amigo ou como cliente?” Agnes perguntou curiosa.
Milena abriu e fechou a boca. Por mais espontâneos que fossem nas filmagens, ainda havia um outro Do Contra fora das câmeras, que ela costumava se esquecer quando perguntavam sobre ele.
“Acho que nunca pensei nisso...” respondeu reflexiva.
“Depois eu que sou a workaholic. Pense com carinho no teu amigo/cliente atraente.” Mônica riu ao dizer.
“Que isso, Mônica? Querendo me ajeitar pro teu ex? Achei que pelo código das amigas eu nem podia cogitar ficar com ele.” Milena comentou.
“Não sinto mais nada por ele faz anos! E nada mudou quando o vi. E, assim… não é por nada não, mas você anda numa seca braba.” a outra respondeu.
A cacheada gargalhou.
“Olha quem fala! Vamos focar na série que a gente ganha mais!” apontou para a televisão enquanto Mônica ria e Agnes se interessava pelo conteúdo.
*
Enquanto isso, Nikolas estava em call com Xavier, conversando sobre coisas não relacionadas ao jogo online que jogavam enquanto os outros jogadores não entravam.
“Mas e então? Beijou ela ou não?” Xaveco perguntou.
“Não! Eu não beijo mulher comprometida, cara.” respondeu.
“Ela não é beeem comprometida.” o amigo lembrou.
“Você entendeu!” Nik falou.
“Tá. Então você vai simplesmente ignorar que ela disse que te ama?” o outro interrogou.
“Vai ver era emoção do momento.” o dono dos dreads mentiu.
Xaveco estalou a língua.
“Para de se fazer de sonso!” repreendeu.
“Quer que eu faça o quê, Xavier? Eu achei que tinha superado, mas aí ela vem e me fala isso justo quando vai se casar! Eu tenho que tentar convencer a mim mesmo que…” falava até o amigo rir.
“Que ela não quer seu corpinho nu?” zombou.
“Não dá pra falar sério com você!” o moreno reclamou.
“Tá se preocupando demais, Nikolas. Ela não ‘tá nem aí pra esse casamento e pelo visto o corno do noivo também não, então nem tem tanto motivo pra esse drama todo.” o loiro falou.
“Drama? Eu só fiz escolhas erradas na minha amorosa, não quero fazer mais uma. Eu tenho que me afastar dela…” o outro falava.
“Porra de se afastar, Nikolas! Você já era a fim dela e isso não impediu uma amizade foda.” o amigo lembrou.
“Mas até então ela não tinha dito nada sobre gostar de mim.” Nikolas ressaltou.
“Mas não era tão difícil de imaginar. Enfim, você faz o que quiser, mas, pra mim, sua amizade não precisa acabar. Ela sabe que você não quer nada com gente comprometida, então, se ela continuar com o noivado, é sinal para você seguir em frente, coisa que você já fez uma vez.” Xaveco aconselhou.
Nikolas apertou os olhos.
“Me dói dizer isso, mas você tem razão.” assumiu, fazendo o amigo rir.
“É óbvio, eu sou sua voz da razão. Agora chega de papo que o povo entrou na sala! Foco que eu tenho que sair do bronze.” falou.
O rapaz ajeitou seus fones e decidiu ir bem no jogo, o que também queria que acontecesse em sua vida amorosa.
*
Um pouco mais tarde, já de manhã, Carmem bocejou ao se juntar aos pais para tomar café da manhã, eles tinham o costume de acordar cedo aos domingos.
“Vi as fotos das bodas que Nikolas postou, Carmem. Perguntei para um dos assessores e o número de seguidores cresceu! Espero que ele feche mais contratos conosco!” o pai disse animado.
“Que bom.” falou enquanto se sentava.
“Carmem, querida, como estão as coisas do casamento?” sua mãe perguntou.
“A wedding planner está cuidando de tudo.” respondeu se servindo de suco.
“Sinto que você não tem levado tão a sério como deveria. Nem do vestido você foi atrás.” a mais velha repreendeu.
“Eventos não são meu forte.” a moça se defendeu.
“Não é verdade! Você ajudou Nikolas com as bodas!” a outra rebateu.
Carmem umedeceu os lábios. Os pais não sabiam que sua relação com Cebola existia unicamente para que parassem de falar sobre suas escolhas amorosas.
“São coisas diferentes.” pontuou.
“Pois então é melhor levar mais a sério. É um evento que vai ter gente importante, então precisa ser perfeito!” a mãe falou e a filha assentiu.
“Talvez devêssemos fazer bodas também, Isabele. Assim poderemos estreitar alguns laços com outras influências da cidade no evento.” o pai comentou pensativo.
Aquilo irritou a moça.
“Se me dão licença, estou sem fome.” falou antes de retornar ao seu quarto.
No cômodo, deitou-se na cama e enterrou a cabeça no travesseiro enquanto revivia seu quase beijo. De repente, seu celular vibrou, era uma solicitação de chamada de vídeo de Denise.
“Demorou pra ficar online, hein, piranha! Te mandei um monte de mensagem.” perguntou.
“De madrugada. O que era tão urgente?” a outra perguntou.
Carmem explicou detalhadamente o ocorrido.
“Deixa eu ver se eu entendi… você meio que falou pro Nik que ama ele, quase se beijaram e ele pediu desculpas?” Denise recapitulou.
“Isso mesmo.” confirmou.
“Como se sente com isso?” a ruiva perguntou.
A loira deu de ombros.
“Não me arrependo de uma única palavra.” assumiu.
Denise suspirou.
“Olha, Carmem, como sua amiga, madrinha e voz da razão, digo que é hora de tomar uma decisão.” falou.
“Lá vem você de novo com essa conversa…” Carmem reclamou.
“Se você me ouvisse, eu não falaria de novo. Mas agora a situação se complicou.” Denise retrucou.
“Como assim?” a loira perguntou.
“Você falou que ama o Nikolas, mas continua noiva do Cebola. Não podemos fugir dos fatos, Carmem, o beijo que você tanto quer nunca vai acontecer se você continuar nesse relacionamento com o Cebola. Então é hora de se decidir se vai ou não continuar com o noivado.” a amiga aconselhou.
“Não é tão simples assim, Denise. Você sabe que eu só quis me envolver com o Cebola por causa dos meus pais, e eles já têm até planos com ele. Não posso simplesmente jogar tudo pela janela.” Carmem ressaltou.
“E sua vida amorosa, Carmem? Pode ser jogada pela janela? Você se declarou pro cara que realmente sente alguma coisa! Isso não significa nada pra você?” Denise retorquiu.
A loira respirou fundo.
“É claro que significa! Mas… eu… eu…” perdeu a fala.
“Pense nisso, mas pense bem.” Denise pediu antes de encerrar a ligação.
Carmem deitou a cabeça para fora da cama, deixando os fios loiros encostarem no chão, enquanto os olhos fitavam o teto.
“Que merda eu fui fazer com a minha vida amorosa!” repreendeu-se.
De repente, ouviu duas batidas na porta, que sequer estava fechada.
“Carmem, visita para você.” era a voz de uma empregada.
“Fala que não ‘tô em casa!” respondeu sem olhá-la.
“Que mentirosa.” uma voz masculina soou, que a fez se levantar.
“Nikolas!” exclamou e ele sorriu.
“Oi!” cumprimentou.
“Vou deixá-los a sós.” a empregada disse antes de sair.
“Entra! Senta aqui. O que o traz aqui a essa hora? Conhecendo você, deve ter jogado ontem.” a moça o convidou enquanto ajeitava o cabelo e batia no colchão ao seu lado.
O rapaz foi até lá.
“Joguei, mas fui tomar café da manhã com meus pais e minha mãe insistiu que eu viesse te trazer o bolo que você não comeu. Conhece a dona Flora, Carmem, ela considerou como desfeita.” respondeu estendendo uma lilás sacola de papel.
“Atenciosa como sempre…obrigada.” agradeceu.
“De nada.” ele respondeu.
Os dois ficaram em um estranho silêncio.
“Acho que precisamos falar sobre ontem.” Nik rompeu a quietude.
“É…” ela concordou e logo ficaram silenciosos novamente.
“Eu… eu realmente não sei o que me deu. Eu não parto pra cima de mulheres comprometidas, ainda mais sendo o padrinho de casamento.” explicou-se novamente.
Carmem o olhou bem.
“Se eu não fosse comprometida, o que teria feito?” perguntou.
Nikolas umedeceu os lábios sem olhá-la.
“Você ‘tá me colocando numa posição complicada.” respondeu.
“Por quê?” ela questionou.
“Porque eu teria te beijado.” afirmou, enfim, olhando-a nos olhos.
O olhar permaneceu por alguns segundos enquanto aquela vontade retornava, porém, o rapaz se levantou.
“Mas como não é esse o caso, a gente precisa… ér… seguir em frente.” falou.
“Seguir em frente? Como assim?” ela perguntou.
Nikolas respirou fundo.
“Carmem, você tem seus próprios objetivos com esse casamento. Então, pelo bem da nossa amizade, acho que ou a gente esquece ou a gente se afasta.” condicionou.
Carmem, de olhos arregalados, se levantou.
“Eu não vou esquecer e nem me afastar de você! A gente pode conviver com o fato que quase nos beijamos durante um momento de fortes emoções.” falou rapidamente.
O rapaz franziu o cenho.
“Foi por isso que você quase me beijou?” perguntou.
A moça lambeu os lábios.
“Foi. Você… foi por outro motivo?” mentiu antes de interrogá-lo.
O rapaz negou sem olhá-la nos olhos.
“Não. Ér… eu ‘tava sob fortes emoções e… eu ‘tô solteiro há um tempo. E… você ‘tava bonita ontem.” mentiu.
“Então ‘tá explicado.” ela disse e ele forçou um sorriso.
Os dois ficaram em um novo silêncio constrangedor até Carmem tocar no ombro do amigo.
“Mas… o que eu disse foi real.” confessou e Nik a encarou.
De súbito, uma terceira pessoa se juntou a eles.
“Opa! Nikolas?” era Cebola.
Os dois o olharam com um olhar fuzilante.
“Oi, Cebola. Já ‘tava de saída, só vim trazer o bolo que ela não comeu e minha mãe insistiu que eu trouxesse.” o gamer respondeu.
“O que faz aqui, Cebola?” a noiva perguntou.
“Seu pai me convidou pra acompanhar vocês no golfe. Então… aqui estou.” respondeu e ela assentiu.
“Então bom jogo pra vocês. Tchau, casal.” ia sair quando o pai de Carmem apareceu.
“Nikolas! Já vai? Por que não se junta a nós no golfe?” convidou.
“Ah… eu não sou muito fã de golfe.” respondeu.
“Mas você já não jogou um jogo de simulação de jogador de golfe numa live?” Cebola resgatou.
Nik o encarou sério, fazendo Carmem rir.
“São coisas bem diferentes, Cebola. E é um momento família, prefiro não incomodar. Tchau!” saiu rapidamente.
“Garoto apressado! Nos vemos lá embaixo em uma hora.” Cornélio avisou e deixou o quarto.
Cebola olhou para a noiva.
“Eu… eu interrompi alguma coisa?” perguntou e ela negou enquanto abria a sacola.
“Não, a gente só ‘tava conversando. Faz um favorzinho pra mim? Me traz um garfo? Esse bolo parece estar bom.” pediu e ele assentiu antes de sair do quarto.
Carmem, a fim de esquecer toda a situação, decidiu ver seu feed do instagrão e acabou vendo algo que não queria: uma publicação de Amanda com o noivo em que o casal parecia feliz.
Naquele momento, pensou em sua própria realidade: de um lado, havia Cebola, que tornaria possível sua “vitória”; do outro, havia Nik, o rapaz por quem estava apaixonada. Por mais fácil que parecesse, era uma decisão difícil a se tomar.
“A Denise vai me matar.” comentou.
*
Enquanto isso, no prédio perto da faculdade, em especial no apartamento 102, Cascão se alongava ao som de uma música animada, gostava de correr aos domingos de manhã quando não saía nas noites de sábado.
Sua atenção se voltou para o celular após uma vibração pausar a música por alguns segundos, indicando uma notificação. Ao olhar, franziu o cenho.
“Aplicativo do banco? Mas ainda nem venceu a fatura!” comentou enquanto lia a notificação.
“Opa! Um pix. Caramba! Nik pagou mó bem… espera aí! Será que eu…” balbuciou enquanto entrava no aplicativo.
Em questão de segundos, a boca de Cascão escancarou e logo se converteu em um sorriso aberto.
“Eu… eu… eu consegui! Eu tenho a grana pra pagar a fatura e ainda vai sobrar!” exclamou alto enquanto pulava.
No mesmo instante, Timóteo entrou no apartamento com uma feição de ressaca.
“Titi! Eu consegui!” exclamou.
“Não grita, não, cara. Minha cabeça ‘tá rodando. Conseguiu o quê?” perguntou.
“A grana pra pagar minha fatura!” respondeu.
“Aí, sim. Quando quiser estourar de novo indo em bar, não me convide. Nunca mais eu vou beber.” o outro falou.
“Resenha hoje?” perguntou risonho e o outro riu.
“Se eu melhorar…” respondeu.
“Vai dormir, Timóteo! Preciso compartilhar essa informação!” Cascão exclamou animado.
X
No apartamento ao lado, Agnes bocejou ao acordar ainda na sala, havia dormido na poltrona. Milena e Mônica não estavam lá e a televisão estava desligada.
“Eu dormi na sala?” questionou-se.
“Sim.” a voz de Milena a assustou, a moça havia acabado de sair da lavanderia com suas roupas lavadas em mãos.
“Que susto, Milena!” comentou e a outra riu.
“Foi mal. Até pensamos em te acordar, mas como você disse que ‘tava com insônia e preza pelas suas horas de sono, achamos que te acordar poderia te atrapalhar ainda mais.” explicou, saindo em seguida.
Agnes ia para seu quarto quando a campainha soou.
“Alguém a essa hora?” questionou-se enquanto ia atender.
“Agnes!” era um eufórico Cascão.
Sua mente falhou por um instante até se dar conta de que estava sendo abraçada por ele, e mais ainda por não ter sentido vontade de repelir aquele corpo quente e ligeiramente musculoso em contato com o seu.
“Cascão…” balbuciou e ele se afastou.
“Foi mal o abraço, eu ‘tô tão feliz que até esqueci do seu negócio. Eu consegui! Eu consegui toda a grana pra minha fatura!” exclamou sorridente.
A loira sorriu também.
“Que notícia boa, Cascão! Sei o quanto batalhou pra isso. Entra!” cedeu passagem e ele sorriu.
“Nem me fale! Pintar parede e ser acompanhante em velório foram coisas que eu podia não ter vivenciado.” lembrou.
“E um namoro falso com uma maluca.” ela completou e o amigo riu.
“Isso foi suave.” piscou um olho.
“Feliz num domingo de manhã, Cascão?” a voz de Milena soou.
“Vem me dar um abraço! Porque teu amigo conseguiu vencer da fatura do cartão!” falou abrindo os braços.
“Conseguiu o dinheiro?” ela perguntou sorridente e ele assentiu risonho.
“Consegui!” exclamou.
“Que ótimo, Cascão!” ela comentou enquanto o abraçava.
“Nem acredito ainda. Vamos na rampa hoje? Apostaram que eu não conseguiria antes da fatura vencer, então vão ter que me pagar uma gelada. Vem também, Agnes, você teve um grande papel nisso. A Mônica pode ir também, ela ‘tá por aí?” o rapaz convidou.
“A Mônica o quê?” Mônica apareceu com um celular em mãos e roupa de academia.
“Ir na rampa com a gente hoje. Comemoração por eu conseguir pagar minha fatura.” ele respondeu, fazendo-a rir.
“Isso que eu chamo de comemorar até as pequenas coisas.” comentou e ele riu.
“Ah, é uma longa história. Topa? É no finzinho da tarde.” ele disse.
“Adoraria, mas tenho que adiantar umas coisas que eu já deveria ter adiantado do casamento da Carmem. Mas espero que se divirtam.” negou-se.
“Beleza. ‘Tão a fim de correr? ‘Tá ótimo pra isso hoje.” convidou.
“Vou visitar meus pais hoje, mas apareço na rampa, sim. Tchau, pessoas.” Milena disse e logo saiu.
“Ah… eu topo. Já ia fazer isso. Magali sempre fala de você, hora de finalmente conhecer.” Mônica aceitou e ele sorriu.
“Prefiro ficar em casa. E sobre a rampa… eu não sei andar de skate, patins e afins.” Agnes falou.
“Relaxa, uma galera vai lá só por ir. Vai ser legal.” ele garantiu e ela sorriu.
“Então tá.” aceitou.
“Beleza! Vamos lá, Mônica.” disse e os dois saíram.
Agnes trancou a porta e olhou para o nada por um instante com um sorriso enfeitando os lábios, Cascão era energizante. Tanto que se sentiu inspirada a enfim enviar a mensagem a Penha.
“Oi, Penha. ‘Tá sumida.” enviou um áudio.
Ia fazer outras coisas quando o aparelho vibrou, havia sido respondida.
“Foi mal, as coisas andarram intensas esses dias.” respondeu com outro áudio.
“Ah… imagino. A Sofia voltou de viagem! A gente se falou esses dias e lembramos do ensino médio. Saudades de nós três juntas.” tentou engendrar uma conversa.
“Mon Dieu, Agnes! De tanta coisa quis lembrar logo daquela droga de escola? Enfim, não me fale sobre essas conversas nem nada.” recebeu a resposta.
Agnes arregalou os olhos e ficou sem uma resposta, imaginando que Penha não quisesse mais conversar. Porém, um segundo áudio a surpreendeu.
“Em breve vou estar aí. Aí poderremos conversar pessoalmente sobre as novidades. Nem imaginarria que sentirria saudades dos seus TOCs, Agnes.” falou.
A loira acabou rindo.
“Em breve quando?” perguntou.
“Surpresa. Agorra tenho que ir, vou sair com meu namorrado. Au revoir, Agnes.” falou e logo ficou offline.
Agnes sorriu.
“Nossa… por essa eu não imaginava.” comentou.
*
Na praça, Mônica finalmente havia entendido o motivo de Magali gostar tanto de Cascão, o rapaz era incrivelmente carismático. Em minutos, sentia que o conhecia há décadas.
“Espera aí, você e a Magá foram numa montanha russa? Por que mesmo eu não fui convidada?” perguntou.
“Ela disse que até tentou te chamar, mas você ‘tava ocupada.” respondeu e a moça suspirou.
“Eu ainda estudava, então eu devia estar estudando pra alguma prova. Ér… mudando um pouco de assunto, você que é um amigo do Cebola, o que você acha do casamento dele?” perguntou.
Cascão cruzou os braços.
“Magali tinha razão quando disse que você só fala de trabalho.” comentou e ela riu.
“Ah… minha vida gira em torno do meu trabalho. Não faço muita coisa além disso.” explicou-se.
“Não te incomoda?” ele perguntou.
O sorriso de Mônica murchou um pouco.
“Às vezes. Eu tenho noção que minha vida profissional anda engolindo a minha pessoal, mas… foi difícil ganhar um reconhecimento na Dream. Se eu relaxar, posso perder.” confessou.
“Imagino, o pouco que sei da Dream é que eles reconhecem só quem eles querem. Mas, na boa, não vale a pena deixar sua vida de lado por causa disso. Pelo que o Cebola fala, você é uma boa wedding planner, então pode pelo menos se permitir curtir um pouco mais.” aconselhou e ela riu.
“O Cebola fala de mim pra você?” perguntou surpresa.
O rapaz riu divertido.
“Se ele não tivesse o rolo lá com a Carmem, aposto que ele daria ideia em você.” confessou e a morena negou com um sorriso.
“Ah… nada a ver.” falou.
“Conheço aquele lá faz tempo. Ele é um bicho do mato com mulher, mas com você parecia leve. Aquele dia no boliche e lá em casa, vocês estavam em sintonia! Isso não acontece com qualquer um.” observou, deixando-a pensativa.
“Acabei nem respondendo sua pergunta. Era o que mesmo?” lembrou.
Mônica também precisou resgatar na memória.
“Acho que sobre o casamento dele.” falou e o outro lembrou.
“Ah, é! O que eu penso. Eu acho que ele ‘tá fazendo uma péssima escolha. Eu já disse isso pra ele, mas aquele dali é cabeça dura.” respondeu.
“Acha que ele vai até o fim?” ela perguntou.
“Infelizmente, eu acho. O Cebola sempre foi ambicioso, então acho que a porta que esse casamento vai abrir faz ele esquecer de todo o resto. Espera aí, é a Magali!” exclamou e virou o celular que vibrava.
“E aí, casada! Olha quem ‘tá aqui comigo.” apontou para Mônica, que deu um tchauzinho.
“Não me façam querer voltar pra aí!” ela exclamou.
“Adoraria te rever, Magá.” Mônica disse.
“Levar puxão de orelha de brinde! Qual era a novidade, Cascão?” ela perguntou.
“Eu consegui, Magali. O Nik me pagou e a grana deu pra fatura e ainda vai sobrar. Eu ‘tô muito feliz.” revelou.
“Ah, que tudo! Nossa, Cascão… que ótima notícia! Aposto que vai gastar esse resto com rolê!” comentou e ele riu.
“Nem vou. Vou na rampa hoje, mas quem vai me bancar são os otários que apostaram que a fatura venceria primeiro. Chamei a Mônica, mas fui trocado por trabalho.” respondeu.
“Desisto dessa workaholic.” a amiga falou.
“Eu virei a noite assistindo série com a Milena e Agnes, então nem vem!” Mônica se defendeu.
“Agnes quis se juntar às reles mortais?” Magali perguntou.
“Pra você ver como as coisas estão mudando. Depois fofocamos, temos que voltar a correr!” Mônica disse.
“Ouviu a coach.” Cascão brincou, fazendo Mônica rir.
*
Já havia passado do meio dia quando um corado Do Contra respirou fundo ao passar as mãos em seu cabelo sem topete.
“Milena, eu… você… ér… aquele dia no Bidu foi muito legal. Aquele tipo de lugar não é muito meu estilo, mas você fez ficar bem melhor. Então eu queria saber se você… bom… se você quer sair comigo. Só nós dois, sabe? Sem nada profissional. Como dois amigos ou… se você quiser… mais que isso. Ér… eu sei que seu supervisor pode chiar, mas… ele não precisa saber agora.” falou pausadamente com o rosto vermelho.
O rapaz bufou, incapacitado de encarar seu próprio reflexo no espelho com o qual falava.
“Isso foi horrível! Eu nem fico nervoso perto de mulher! E ela nem ‘tá aqui!” xingou-se.
“O que você ‘tá fazendo?” a voz de Nimbus o fez dar um pulo.
“De onde você surgiu?” perguntou.
“Dali.” apontou para trás.
“Tá aí há muito tempo?” perguntou enquanto deixava o cômodo, sendo seguido pelo irmão.
“Só ouvi que ela nem ‘tá aqui. Ela quem?” questionou curioso.
“Ninguém. O que quer aqui?” perguntou enquanto se sentava no sofá.
“Tava de bobeira em casa. Falei com a mãe hoje, ela gostou da Milena.” Nimbus comentou.
“Eu sei, ela disse.” o outro respondeu.
“E perguntou quando ela vai lá de novo.” alertou.
“Não ‘tô a fim de traumatizar a menina.” respondeu e viu acabar de receber uma mensagem dela.
“Oi, DC! Hoje vou na rampa. Você disse uma vez que queria gravar lá, quer conhecer o lugar hoje? Mas domingo é minha folga, então hoje não tenho câmeras comigo.” tentou ouvir o áudio apenas para si, mas Nimbus também ouviu.
Não conseguiu evitar um sorriso, o que não passou despercebido pelo irmão.
“Claro! Eu vou adorar. Mas não sei andar de skate.” respondeu com um áudio.
“Não se preocupe. Até o fim da tarde!” ela respondeu com outro.
Nimbus riu, fazendo o mais novo o encarar.
“O quê?” perguntou.
“Você é a fim dela, né?” perguntou direto e malicioso.
O mais novo suspirou, mas não respondeu.
“Quem cala, consente. Emocionaaado!” zombou com um cantarolar.
“Veio aqui só pra me irritar?” DC perguntou.
“Essa é minha atividade favorita.” provocou-o.
“Como eu me odeio por ter te dado uma chave!” o mais novo reclamou.
Nimbus riu.
“Tô brincando, rabugento! O que fez você se apaixonar por ela?” perguntou.
DC sentiu a garganta travar. Queria tirar as palavras do peito, tanto que respirou fundo.
“Eu não sei explicar, só sei que eu gosto muito de estar com ela. Fora que ela é muito bonita, tem um sorriso encantador, com aquele batom vermelho então… enfim! Eu tenho medo de estar sendo muito emocionado e vendo coisa onde não tem.” desabafou.
O outro assentiu.
“É um risco, mas você não tem medo de correr riscos.” falou e o irmão abriu e fechou a boca.
“O que você acha que eu faço?” perguntou.
“Pra você pedir minha opinião, a situação deve estar caótica mesmo.” Nimbus observou.
“Não joga na cara. Não é fácil pra mim estar falando isso.” DC pediu e o irmão assentiu.
“Como irmão, eu acho que tem que ao menos falar pra ela como se sente. Você não costuma gostar de alguém, então não dá pra desconsiderar.” começou.
“Mas como seu agente, diria pra ir com calma. Misturar vida profissional com pessoal é uma coisa delicada. Ela é muito profissional, mas acho que conseguiria separar bem as coisas, agora você… eu tenho minhas dúvidas.” concluiu.
DC franziu o cenho.
“Por que acha isso? Eu namorava minha colega de banda e ainda nos damos bem.” defendeu-se.
Nimbus levantou a sobrancelha.
“Por que mesmo a Isadora terminou com você?” rebateu, fazendo o irmão se calar.
“É só meu ponto de vista, DC. Eu vou apoiar a sua decisão, mas pense bem. Vou comprar um almoço pra gente.” falou pegando o celular.
DC ficou pensativo com aquilo.
*
As horas pareceram voar depois disso, logo já era fim de tarde. Cascão estava prestes a sair quando seu interfone tocou.
“Cebola? Nem sabia que viria aqui! Vou colar na rampa, quer ir também? E essa sacola aí?” perguntou.
“Não, eu vim pra cá pra poder ir no apê do lado. É uma surpresa pra Mônica, pra agradecer pela companhia na degustação.” Cebola explicou.
Cascão estreitou os olhos.
“E ela sabe disso?” perguntou.
“Se soubesse não seria surpresa, né, cabeção?” o outro respondeu.
“E tua noiva sabe?” cruzou os braços.
Cebola subiu e desceu os ombros.
“Acha que ela liga?” devolveu uma pergunta.
“Seja sincero comigo, você é a fim da Mônica?” Cascão perguntou direto.
Cebola arregalou os olhos.
“O quê?” perguntou.
“É ou não é?” insistiu.
“De onde você tirou isso?” respondeu com uma pergunta.
“Vocês andam muito próximos.” Cascão respondeu.
“Que culpa eu tenho que a Carmem não ‘tá nem aí pra esse casamento e que a Mônica é legal? Somos amigos. Você tem amigas, sabe que isso existe.” Cebola explicou.
“Sim, mas não acho que seja seu caso.” falou.
O outro revirou os olhos.
“Para de falar merda!” exclamou.
“É só uma observação. Vou indo nessa que já ‘tô atrasado. Se for cozinhar coisa gostosa, deixa um pouco pra mim. Vê lá o que vai fazer, hein, noivinho apaixonado!” provocou enquanto saía.
“Besta!” o outro respondeu com um riso.
Cebola foi até o apartamento ao lado e, instintivamente, ajeitou os cabelos antes de tocar a campainha. Ao ser atendido, Mônica pareceu surpresa em vê-lo.
“Cebola?” falou.
“Oi! Deixa eu adivinhar, trabalhando em pleno domingo.” falou e ela riu.
“É… coisa do seu casamento.” confirmou.
“Sendo o noivo, digo que você precisa relaxar e aproveitar seu domingo.” falou e ela riu.
“Vou acabar aceitando. Entra! O que o traz aqui? O Cascão saiu sem você?” cedeu a passagem.
“Na verdade, eu vim te ver mesmo.” respondeu.
Mônica arregalou os olhos.
“Me ver?” perguntou.
“Sim. Pra gente fazer o… espera aí… Vol-au-vent de palmito com presunto parma e queijo gruyère. Só que sem presunto parma e queijo gruyère, o preço do quilo disso é tão caro que chega a ser ridículo.” respondeu após ler o nome em seu celular.
A moça encarou perplexa.
“Você ‘tava falando sério quando disse que a gente tinha que fazer um?” perguntou.
“Tava! Eu queria te agradecer por ter me acompanhado na degustação, então achei que cozinhar seria legal, é legal cozinhar com você.” respondeu simples.
Mônica sorriu genuinamente.
“Ah, Cebola… você conseguiu me surpreender! Então mãos na massa! Se não é com presunto parma e queijo gruyère é com o quê?” ela perguntou.
O rapaz tirou as coisas da sacola, havia um vinho também.
“O palmito entrou no meu orçamento, e trouxe um frango também. Ah, o Cascão já deixou claro que tenho que deixar pra ele também.” respondeu e a moça riu.
“Então vamos lá!” falou.
*
Enquanto isso, na rampa, Agnes estava surpresa consigo mesma, principalmente por não se sentir incomodada com o local visivelmente sujo.
“Tá a fim de aprender a andar de skate?” Cascão perguntou.
A moça riu.
“Se estou a fim de me machucar? Não. Prefiro ficar sentada ali no banco.” falou.
“Não vou te deixar sozinha. Vamos lá, pode ser legal! Prometo que não te deixo cair.” prometeu.
Agnes pensou duas vezes.
“Tem certeza que não vou cair?” perguntou e ele assentiu.
“Prometo!” exclamou e ela acabou cedendo.
A moça, devagar, subiu na prancha enquanto segurava no ombro do amigo com força.
“Não me deixa cair!” pediu.
“Tem que confiar! Agora vamos dar uma volta.” falou.
A moça tinha um sorriso nervoso nos lábios enquanto oscilava entre o medo e a adrenalina, era uma sensação estranhamente boa. Ao olhar para Cascão, que sorria para si, sentiu-se mais segura.
“É… até que é legalzinho.” falou.
“Quer tentar ir sozinha?” fez menção a se afastar.
“Se sair do meu lado, eu te pego!” ameaçou segurando em sua mão e ele riu.
“Não vou duvidar.” disse ainda a acompanhando.
X
Enquanto isso, Milena mostrava a rampa para DC. O rapaz analisava com um sorriso e tirava fotos com seu celular, nunca havia estado em um lugar como aquele.
“Sério que você nunca foi numa rampa de skate? Nem pra observar a arquitetura?” ela perguntou deslizando devagar com seus patins.
“Nunca. Meus colegas de faculdade preferiam outros lugares e o resto não anda de patins ou skate.” respondeu.
“Entendi. Que tipo de lugar você frequenta?” ela perguntou.
“Ah… eu não saio muito. Quando eu saio, é pra coisas da banda. Então são mais barzinhos mesmo. E você?” ele perguntou enquanto tirava foto de um muro grafitado.
“Não ando saindo muito, mas vou muito em bares, festas universitárias, rampa, muitos lugares. Mas também tem momentos que prefiro ficar em casa na calmaria.” a moça respondeu.
“8 ou 80?” ele perguntou.
“Não, acho que é um meio termo. Algum lugar chamou tua atenção aqui?” perguntou.
O rapaz crispou os lábios.
“Achei legal o grafitti e as grades, mas o que ‘tá mesmo chamando minha atenção é você patinando.” falou e ela riu enquanto começava a rodeá-lo.
“Mesmo? Por quê?” perguntou.
“Ah… você ‘tá equilibrando num negócio com rodas e ainda consegue ficar rodando, isso é surpreendente.” confessou risonho enquanto a acompanhava com o olhar.
“Fica mais fácil quando acostuma. Quer tentar?” perguntou e ele negou.
“Não, eu gosto do meu rosto sem machucados e meus óculos sem arranhões.” respondeu.
“Eu não deixaria você cair, não, medroso.” Milena riu ao dizer.
“Medroso? Eu não ‘tô com medo, eu só… ‘Tá. Eu topo.” cedeu.
“Mente fraca, hein?! Ela nem precisou insistir.” uma voz masculina soou atrás deles.
Os dois se viraram, dando de cara com um patinador loiro e uma ruiva.
“Olha só… o playba e a paty.” ela disse enquanto recebia um abraço deles.
“E aí, sumida! Por onde anda?” a patinadora perguntou.
“Tô numa correria que vocês nem sonham o que é. Esse é o DC. DC, esses são Felipe e Luísa, os irmãos patinadores mais metidos daqui.” apresentou-os.
“Esqueceu de dizer ótimos patinadores. Acho que já te vi… você toca com o Toni, né?” ela perguntou.
“Sim… conhece nossa banda?” DC perguntou e ela riu.
“Conheço mais o Toni.” piscou um olho.
“Indo atrás de modelo agora, Luísa?” perguntou.
“Sabe como é, gosto de rapazes bonitos. Vamos aproveitar a música dos dançarinos, faz tempo que não dançamos sobre rodas.” a moça convidou.
“Não ‘tô sozinha hoje, Luísa. E vou adorar ver o DC caindo.” falou.
“Você prometeu que não me deixaria cair.” ele lembrou.
“Certas quedas são inevitáveis, amigo.” deu dois tapinhas no ombro dele.
“Relaxa, posso fazer companhia ao seu amigo e até mesmo ensinar ele a andar de patins. Sou um profissional, DC, seria uma honra pra você.” o loiro comentou com um sorriso metido.
DC o olhou entediado e, antes que falasse algo, Cascão apareceu segurando na mão de Agnes, que ainda estava em cima da prancha de skate.
“E ai, playba e paty! Lembram da Agnes? Agnes, esses são Luísa e Felipe, os Frufru patinadores que não trabalham na empresa do tio.” apresentou-os.
“Ah, é a rainha do beer pong? E aí, Agnes!” Felipe comentou.
“Rainha é uma palavra muito forte. Cansei de me colocar em risco, Cascão. Você cumprimenta todo mundo e treme tudo.” ela disse descendo da prancha.
“Confiou no Cascão, Agnes? Esse daí se distrai com o vento.” Luísa disse.
“Que mentira! Não vai dançar hoje, patricinha? Ninguém dança sobre rodas sem você aqui.” ele falou.
“Sou influente e sei disso. Vamos, Milena? Teu amigo vai gostar de lavar a alma ao te ver caindo.” convidou.
“Fã ou hater, Luísa?” a cacheada perguntou.
“Óbvio que hater. Vamos lá!” puxou a amiga.
DC suspirou com certo alívio por Cascão e Agnes estarem presentes, além de preferir ter conhecidos por perto, Felipe parecia encará-lo a cada segundo enquanto seguiam as patinadoras.
“Quer me dizer alguma coisa, cara?” perguntou diretamente.
“Só pra ficar na tua. Fiquei um tempão tentando ficar com a Milena, agora que consegui, pretendo continuar.” alertou.
“Eu estou te impedindo?” o moreno rebateu.
“Está avisado.” afastou-se.
DC negou com a cabeça e sentiu um toque no ombro, era Cascão.
“Ignora ele. Ele fica no pé da Milena há mó cota, mas ela não ‘tá nem aí pra ele.” revelou.
O outro deu um riso e olhou para o centro da rodinha que havia se formado. Luísa de fato parecia iniciar tudo, mas logo outras pessoas se juntaram.
Os olhos de DC focalizaram em Milena. A moça não fazia muito além de patinar e girar, mas, para ele, parecia flutuar em compasso com a música.
“Uau…” balbuciou.
O roqueiro estava tão fissurado que nem mesmo percebia seu olhar abobado, que não passava despercebido para quem o via.
“Acho que Milena tem um admirador nem tão secreto.” Agnes comentou com Cascão.
“Talvez o dia que ela deixar de ver ele como cliente, ela perceba isso.” ele comentou risonho.
Após apenas uma dança, Milena retornou.
“Você leva jeito.” Agnes elogiou.
“E olha que estou enferrujada. E aí, DC? Temos um combinado.” falou.
“Combinado?” ele perguntou.
“Você topou andar de patins!” exclamou e ele riu.
“Me desmotivei, você até dança! Muito bem por sinal.” comentou.
“Como eu disse, medroso. Mas vou te perdoar.” disse apertando-lhe a bochecha, fazendo-o rir.
“Vamos molhar a garganta? Vou ganhar de graça e ‘tô com sede.” Cascão falou e os demais assentiram.
O bar ficava na esquina e estava cheio e barulhento. Agnes e Cascão não ficaram em uma mesa, e sim encostados no muro do bar, observando o início da noite.
“Foi divertido vir.” ela comentou.
“Colar em mim é sucesso, Agnes.” brincou e ela assentiu.
A moça o observou por alguns segundos.
“Como você consegue ser tão… você?” perguntou de repente.
Cascão riu em meio ao gole.
“Acho que não teria como não ser. É difícil ser quem você não é.” respondeu.
“É, mas também é difícil ser você mesmo o tempo todo.” ela argumentou.
“Ser pego na mentira é pior, ou até mesmo se sentir uma mentira.” falou e a loira assentiu.
“Eu liguei pra Penha.” revelou de repente.
“E ela?” ele perguntou.
“Foi legal. Até disse que sente saudades de mim e que vai vir ao Brasil. Eu… eu estava com medo de nossa amizade ter acabado, mas nem precisava.” comentou.
“A mente engana a gente. Mas que bom que vocês estão de boa.” ele disse.
“Sim. Eu vou indo nessa, tenho que compensar a insônia de hoje.” avisou enquanto pegava o celular.
“Beleza. Valeu por ter vindo, Agnes! Espero que tenha te feito relaxar.” falou.
“Fez! Vou ver se Milena quer pegar uma beira.” falou e ele sorriu.
Agnes chegou a sair, mas logo parou. Subitamente, retornou e abraçou Cascão. O rapaz se surpreendeu, mas logo retribuiu.
“Ganhei um abraço seu? Seu?” interrogou risonho e ela acabou gargalhando.
“Acho que uma barreira foi quebrada. Tchau, Cascão!” despediu-se e saiu rapidamente.
Cascão riu e Felipe se aproximou com uma latinha na mão.
“Ela ‘tá de dando mole, mano.” comentou.
“Viaja, não, playba. Eu ouvi teu papo torto pro DC, toma jeito!” Cascão o repreendeu.
“O que você faz com a concorrência?” o loiro perguntou após um gole.
“Eu me garanto com a mina, o que é bem melhor. E a mina em questão ‘tá cagando pra você.” respondeu.
“Não foi isso que ela disse quando ficou comigo lá no Bidu.” riu ao dizer.
“Ah, mas no Bidu qualquer um comete erros e pecados.” o moreno ressaltou.
“Vai se lascar, Cascão!” exclamou.
Enquanto isso, em uma das mesas, Milena estava de frente para DC.
“Como se sente em ser boa em tudo que faz?” DC perguntou a filmando, como ela fazia consigo.
Milena gargalhou.
“Tudo é uma palavra muito forte.” respondeu dando um gole em sua bebida.
“Se em um futuro muito distante a gente apostasse uma corrida, você pegaria leve?” perguntou.
“Pegaria leve na risada que eu daria quando ganhasse de você.” piscou um olho para a câmera.
DC parou de filmá-la com um sorriso nos lábios, que permaneceu quando a olhou.
“Eu gostei do seu convite.” comentou.
“Que bom! DC, acha que te trato mais como cliente ou como amigo?” ela perguntou de repente.
O rapaz pensou por um instante.
“Não sei te responder. Você é profissional e amiga numa medida muito natural. Acho que isso que te deixa tão… especial.” falou e ela sorriu abertamente.
“Que feedback, hein.” falou e ele assentiu.
De repente, DC pensou no que o irmão e os amigos haviam dito, então, com o rosto já mudando de coloração, decidiu tentar algo.
“Ér… vai parecer aleatório, mas… eu acho seu sorriso bonito.” elogiou de repente.
Milena pareceu surpresa, mas logo sorriu.
“Aleatório mesmo, mas obrigada. O seu também é.” falou e ele sorriu envergonhado.
Os dois se olharam por alguns segundos, mas não durou muito.
“Milena, eu ‘tô indo pra casa. Você quer dividir a beira? O Cascão vai ficar mais.” Agnes perguntou.
“Vou, tenho aula amanhã e não me sinto preparada ainda. Tchau, DC!” abraçou-o e saiu com Agnes.
DC a observou se afastar e sorriu consigo mesmo, havia sido um dia inesquecível para si.
*
De volta ao apartamento, Mônica e Cebola ainda cozinhavam.
“Quando começou a se interessar por cozinha, Chef?” ela perguntou.
“Acho que quando minha mãe botou todo mundo pra ajudar depois de um surto. Eu achava que iria odiar, mas acabei gostando. E você? Cozinhava quando morava com seus pais?” respondeu.
“Sim, mas nunca gostei muito. Se sente preparado para cuidar de uma casa, noivo?” a moça perguntou.
“Certeza que os pais da Carmem vão contratar empregados pra ela.” ele respondeu.
“Pra vocês.” a morena corrigiu.
Cebola suspirou.
“É muito esquisito pensar que eu vou casar. Mas ao mesmo tempo imagino que minha vida pessoal não vai mudar muito.” comentou.
“Como assim?” perguntou.
“Acho que a relação que tenho com a Carmem não vai ser muito diferente do que é agora. Meus pais não estão nada felizes com essa relação, mas aceitaram o fato. E os pais dela… quando não estão nas viagens infinitas deles, eles só falam de negócios. Então… é isso.” respondeu.
“E se sente preparado para enfrentar isso?” a moça perguntou.
“Às vezes. Mas pensar na vida profissional ajuda.” respondeu sincero.
“Você já sabe no que vai trabalhar com o pai da Carmem?” ela questionou.
“Bom… não. Ele não fala, mas é o sogrão, né?” respondeu.
Mônica acabou rindo.
“Sinceramente, Cebola, fica esperto. Se você ficar na mão do Frufru, pode acabar igual ao Grózny: um puxa-saco que faz de tudo pra agradar o chefe.” aconselhou sincera.
“Não seria extremo assim.” defendeu-se.
“Você assinou um acordo pré-nupcial sem ler e aceitou trabalhar com ele em algo que nem sabe o que é.” lembrou e o rapaz se calou.
Os dois ficaram em silêncio.
“Mas chega de falar disso! Hoje é domingo e temos uma receita chic pra terminar!” bateu uma palma.
O assunto foi ficando mais leve enquanto falavam banalidades em meio à culinária. Uma música de sertanejo começou a tocar na playlist de Mônica.
“Sofrência, Mônica?” perguntou e ela riu.
“Caiu na minha playlist de limpar a casa. Essa eu finjo que a vassoura é microfone.” falou e ele riu colocando o pano de prato no ombro e dançando perto dela.
Mônica riu enquanto começava a dançar também e pegava uma colher de pau, para dublar a cantora, chegando ao ponto de dividirem a colher.
“Chefs de cozinha e dupla sertaneja.” Cebola brincou, fazendo-a rir.
“Funções muito distantes do que a gente realmente faz. Acho que agora já pode ir pro forno por alguns minutos.” ela falou enquanto lia a receita.
Cebola colocou no forno enquanto Mônica abria a garrafa de vinho, servindo duas taças.
“O que podemos fazer enquanto fica pronto?” ele perguntou.
“A gente relaxa.” a moça respondeu com um brinde.
“O que sugere?” ele disse.
Mônica sorriu.
“Tenho uma ideia que vai te fazer chegar às nuvens.” falou.
“No que está pensando, Mônica?” perguntou e ela sorriu sugestiva.
X
A luz do poste entrava pelo cômodo iluminado apenas por velas aromáticas. Cebola e Mônica, em uma posição nunca feita pelo rapaz, estavam com a respiração ofegante, por mais que tivessem iniciado há poucos minutos.
“Mô-Mônica… eu… eu… oh… acho que não vou aguentar muito… eu ‘tô quase… quase…” falava em meio a respiração descompassada.
“Não para agora, Cebola! Estamos quase!” ela disse um pouco menos ofegante, talvez pela experiência.
“É demais pra mim!” resmungou enquanto seu corpo começava a tremer.
Cebola soltou o ar de uma vez e abandonou a posição, jogando o corpo para o lado.
Mônica gargalhou enquanto pausava o vídeo.
“Que vergonha, Cebola! Não durou nem dez minutos!” julgou-o.
“Não se fala isso para um homem… desacostumado, Mônica!” defendeu-se.
“Essa posição nem é tão difícil assim.” comentou.
“Eu fiz yoga uma vez! Eu ‘tô tão ofegante que parece que eu ‘tava fazendo outra coisa!” falou ainda recuperando o ar e ela riu.
“Que coisa?” perguntou tirando o vídeo de yoga.
“Ah, sei lá. Correndo uma maratona?” respondeu e ela negou com a cabeça.
“Exagerado!” comentou.
“Você que é acostumada. Deve fazer yoga todo dia!” comentou e ela negou.
“Todos os dias não, mas é uma forma de me desestressar. Comecei com meditação e acabei no yoga.” respondeu enquanto ia até a cozinha.
“E como você começou a meditar?” perguntou.
“Herança do meu ex. Não funcionava muito, mas aí eu conheci o yoga. O que você faz pra relaxar?” ela perguntou.
“Jogo.” respondeu simples.
“Só joga? Acho que já estão no ponto de comer, Cebola.” falou e ele se deitou no tapete.
“Vou deixar esfriar, estou meio morto aqui. E sim, só jogo. É uma coisa que me deixa relaxado, mesmo eu gritando com o monitor.” respondeu e ela riu.
“Além de dramático é sedentário. Nunca correu com o Cascão?” perguntou e foi a vez de ele rir.
“Me comparar com o Cascão é sacanagem. Aquele cara sempre foi esportivo!” falou.
Mônica foi até lá com a comida e logo retornou para pegar vinho e os talheres.
“Aí, rei do drama. Vamos descobrir se passaríamos vergonha num masterchef.” falou entregando os talheres.
Os dois comeram.
“Não ‘tá igual o do chef, mas aí seria pedir demais. Mas ‘tá muito bom!” ela comentou.
“Somos o orgulho de la profission.” Cebola brincou e ela riu.
De repente, a porta se abriu, entrando Agnes e Milena. As duas não esconderam a surpresa ao perceberem a sala iluminada apenas a luz de velas.
“Oi, gente.” Milena falou.
“Meninas! Ér… não é o que parece!” Mônica falou seriamente.
“E o que parece?” Agnes perguntou sapeca.
Mônica abriu e fechou a boca enquanto Cebola a observava com um sorriso.
“E aí, meninas! Mônica, eu vou indo nessa. Valeu por hoje, eu me diverti muito! Depois você entrega pro Cascão?” falou se levantando.
“Claro. Ér… destravo o portão pra você.” topou e ele sorriu.
“Obrigado. Até mais!” piscou um olho antes de sair.
Mônica sorriu amarelo para as outras duas, que se limitaram em sair rindo.
“Essas coisas só acontecem comigo! Mas… até que foi legal!” comentou com um sorrisinho.
Cebola, por sua vez, não soube explicar o motivo, mas sentia que aquele momento com Mônica podia se repetir quantas vezes fosse que não iria enjoar. De súbito, lembrou de sua própria fala a ela.
“Você tem sido mais minha noiva que minha própria noiva.” reviveu.
Aquilo o fez repensar toda sua história pouco sentimental com Carmem.
“Talvez eu estaria mais feliz se a noiva realmente fosse ela…” balbuciou.
O resto do domingo passou em um piscar de olhos, logo a corrida semana se iniciava novamente, com mentes focadas por um lado e confusas por outro.
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