Almejar

10 Capítulo X - Janelas da alma


Notas iniciais
Boa leitura!

A gélida manhã de sábado havia começado mais cedo para Milena, que, no prédio da Dream, esperava a equipe que a acompanharia no ensaio fotográfico dos pais de Nikolas.

Repentinamente, Grózny entrou ofegante na sala com seu terno desalinhado, cabelos bagunçados e rosto suado.

“Milena! Hoje preciso mais do que nunca do seu profissionalismo!” exclamou ainda ofegante.

“Eu sei. Só estou esperando a equipe.” a moça respondeu.

O mais velho umedeceu os lábios e ajeitou os cabelos e o terno.

“Houve um erro de comunicação entre minha sobrinha e a equipe que cuida dos trabalhos vips.” revelou e a moça franziu o cenho.

“Erro de comunicação?” repetiu.

“Todos estão com ela no casório do primogênito de uma família muito influente. Os clientes viram com ótimos olhos a equipe grande, então não tivemos como realocar.” respondeu.

Milena riu sem humor.

“E o ensaio dos pais do Nik não é nada importante?” perguntou irônica.

“Eu te juro que eu não planejei nada disso! Tenho meus motivos para querer que tudo saia perfeito! Mas Narcisa deve ter enviado a mesma mensagem para dois grupos ou coisa do tipo.” defendeu-se pegando seu tablet de serviço.

“Duvido…” a outra balbuciou.

“Enfim… infelizmente, todas as equipes mais experientes com um trabalho vip ou até mesmo intermediário estão ocupadas. Então… conto com a equipe que você geralmente usa nos ensaios de estúdio.” o supervisor falou.

A fotógrafa cruzou os braços.

“Se eles olharem no site, vão ver que tem muita coisa faltando!” ressaltou.

“Eu sei disso, mas não há absolutamente nada que eu possa fazer! Você costuma ser elogiada pelos trabalhos e o cliente escolheu você, então você se sairá bem.” Grózny assumiu.

“Merecemos um pagamento a mais por isso!” a moça exigiu e ele assentiu.

“Se o trabalho sair perfeito, vocês terão um adicional generoso. Tenho clientes para atender. Boa sorte!” desejou e logo saiu.

Milena respirou fundo e pegou o celular. Por mais que seus trabalhos externos geralmente fossem solitários, os de estúdio contavam com dois assistentes.

“Sarah, Luca, bom dia! Preciso urgentemente de vocês! Hoje é aquele ensaio dos pais do Nikolas e a Narcisa roubou a equipe vip, então preciso muito da ajuda de vocês. Consegui até que a gente ganhasse a mais. Vocês conseguem vir?” mandou um áudio no grupo dos três.

Não demorou para chegarem áudios em resposta.

“Tô indo!” Sarah aceitou.

“Foi mal, Milena. Mas eu ‘tô com dengue. Boa sorte pra vocês!” a voz fraca de Luca soou.

Milena respirou fundo.

“Preciso de mais alguém… tem muita coisa hoje! Mas quem estaria disponível às oito da manhã de sábado?” preocupou-se.

No mesmo instante, chegou uma mensagem.

“Oi, Milena. Que horas mesmo é seu ensaio com o Nikolas? Que adoraria usar o sol da manhã.” era DC.

A cacheada estalou o dedo.

“Você ainda acha legal me acompanhar em trabalho externo?” mandou um áudio.

X

Pouco tempo depois, DC entrou no prédio da Dream e foi até uma sala, onde encontrou Milena junto de uma moça de ondulados cabelos azuis e roupas escuras, exceto pelas letras rosas do uniforme da empresa.

“Oi!” cumprimentou e Milena sorriu e o abraçou.

“Que bom que conseguiu vir, de verdade! O trabalho é de vip sem uma equipe vip, então estou a um passo de surtar. Essa é Sarah, uma ótima tatuadora e parte da minha equipe. Sarah, esse é meu cliente e amigo Maurício, vulgo DC.” apresentou-os.

“É um prazer te conhecer!” Sarah apenas acenou com a cabeça, estava guardando equipamentos em uma mochila.

“O prazer é meu. Então… em que vou ajudar?” o rapaz perguntou e logo recebeu uma mochila pesada.

“Em tudo! Mas relaxa, a gente se ajuda. Felizmente, vão pagar minha gasolina, então todos pra dentro da kombi!” Sarah disse antes de saírem.

Do Contra nunca havia estado em uma kombi, então olhou animado para a de Sarah, que possuía algumas pinturas estilo hippie na lataria.

“Nunca andei de kombi…” comentou.

“Então vai ser uma aventura inesquecível pra você. As pessoas costumam olhar. Quando veem a gótica no volante, ainda mais.” falou abrindo a porta e todos entraram.

“E por quê?” ele perguntou enquanto se sentava e observava alguns cristais lá dentro.

“É muito colorida. Meu amigo arrematou ela num leilão online quando ‘tava bêbado e me vendeu pela metade da metade do preço de tanto ódio. E ainda parcelou!” riu ao lembrar.

“Ainda bem que meu cartão não tem limite tão alto assim. Já tive noites que eu faria uma loucura dessas.” Milena riu, fazendo os demais rirem também.

Durante o caminho, os olhos de DC passeavam pela rua e sorria com o reflexo da kombi pelos vidros dos prédios exageradamente chiques e sem cores, era um interessante contraste. Já as outras duas falavam sobre o ensaio.

“Eu apostaria o meu salário que a Narcisa fez isso de propósito! Que raiva daquela garota!” Milena reclamou.

“Nem precisa gastar dinheiro. Eu não tenho dúvidas.” Sarah falou parando no sinal vermelho.

“Passar a perna no Grózny é tão fácil assim?” DC perguntou.

“Tô começando a achar que sim. Mas o que podemos falar pra eles quando chegarmos lá sem tudo que um pacote vip garante?” Milena perguntou.

“Pelo visto, ele realmente contratou o econômico e o Grózny que quer tratamento vip porque o dele ‘tá na reta. Então vamos fazer o que sempre fazemos.” a amiga respondeu.

“O que tem nesse pacote vip de tão especial?” o rapaz questionou curioso.

“Tudo é melhor, desde equipamentos até o tratamento. Tem até cabeleireiro, maquiador, manicure e lanchinho.” Sarah revelou.

“Mas isso não é normal? Qualquer coisa mais cara vai ter mais qualidade.” ele disse.

“Sim, mas o tratamento e cuidado com o cliente também contam. Nos pacotes econômicos, têm um descaso enorme.” Milena explicou.

“A Milena que fica indo contra as recomendações do Grózny e faz a coisa direito. Já acompanhei alguns trabalhos externos e essa daí realmente gosta do que faz.” Sarah elogiou.

“Disso eu não tenho dúvidas.” DC concordou sorridente.

“É um momento especial!” ela exclamou.

“É ali, gente! Boa sorte pra nós!” Sarah apontou.

Assim que interfonaram, foram recebidos por Nikolas.

“Bom dia, Nik! Essa aqui é Sarah, parte da minha equipe. O DC você já conhece, hoje ele está cobrindo o Luca, meu ajudante que ‘tá com dengue.” cumprimentou-o.

“É um prazer ter vocês aqui. Vamos lá.” respondeu enquanto os guiava.

“É bonito mesmo. Mas achei que fosse mais alto.” Sarah sussurrou para Milena, que riu.

“E olha que nos vídeos nem em pé ele fica.” comentou.

Os pais de Nik estavam animados. Milena já havia falado com eles sobre o ensaio, mas faltava alguns detalhes.

“Senhora Flora e senhor Sérgio! Finalmente chegou o dia do ensaio! Esses são Sarah e Maurício, irão trabalhar conosco hoje.” ela sorriu para os dois.

“Vamos deixar as formalidades de lado. Bom rever você, Milena! E é um prazer conhecer os outros dois. Estou ansiosa!” Flora falou.

“Consigo imaginar. Mas gosto de começar conhecendo a história dos clientes. Como vocês se conheceram?” a fotógrafa perguntou.

O casal trocou um sorriso.

“Flora era uma bailarina e eu um violinista de orquestra. Na época, a academia de dança dela inventou de fazer um recital com uma orquestra junto, que era a que eu fazia parte. Eu estava afinando meu violino para um primeiro ensaio com as bailarinas quando eu a vi…” Sérgio começou, lançando um olhar apaixonado para a esposa ao fim.

“Eu lembro da cara de bobo que ele me olhava.” ela comentou e os demais riram.

“Eu hipnotizei. Até arrebentei a corda do meu violino naquele dia e levei bronca do maestro depois de errar várias vezes por desatenção. Meu foco estava na bailarina.” o homem continuou.

“E como foi a aproximação?” Milena perguntou com um sorriso.

“Minhas amigas me falaram que ele ‘tava de olho em mim. Eu até tentei me fazer de difícil, mas eu achava ele uma gracinha. Ele era tímido e veio todo trêmulo falar comigo. Eu achei fofo.” a mulher disse com um riso.

“Como foi o primeiro encontro?” a moça perguntou e o casal riu.

“Era primavera e ele me levou pra fazer um piquenique embaixo de um ipê. Naquele dia, descobri que Sérgio cozinhava mal.” Flora revelou e os demais riram.

“Agora eu cozinho melhor! Sempre que fazemos picnics, faço ótimos aperitivos!” ele se defendeu.

“Vocês ainda fazem picnics?” Milena perguntou.

“Sim! É uma das nossas tradições! Quando Nik era pequeno, ele amava!” Sérgio respondeu.

“Ainda amo. Mas o problema são as formigas.” Nik comentou.

“Estava cheio de formigas no dia também. Tinha bastante coisa dando errado: a comida ruim, meu nervosismo, o barulho e até um cara tocando violão muito mal, mas… meu foco era a linda mulher que estava na minha frente.” o homem falou e a esposa riu.

“Tinha tudo para ser horrível, mas não foi. Sérgio era engraçadinho e eu simplesmente me via ao lado dele.” trocou um olhar com o marido.

“E lá se foram 30 anos.” ele disse apaixonado.

Os jovens ali presentes se derreteram por um instante.

“Aff, não sou sentimental, mas isso foi fofo.” Sarah comentou com um sorriso.

“A história de vocês é linda! Aposto que conhecem a Valsa das flores, ela precisa fazer parte das bodas! Como foi o casamento?” Milena perguntou.

Flora pegou uma foto emoldurada que havia levado consigo até lá.

“A gente quis uma coisa simples e clássica. Nesse mesmo dia, plantamos aquele ipê ali.” mostrou a foto e depois apontou para um ipê já grande.

“Lindo! Acho que já podemos começar!” Milena disse animada.

“Temos uma ótima iluminação natural aqui, dá pra aproveitar isso!” Sarah observou.

Os pais de Nik eram alegres, apaixonados e fotogênicos. Por mais trabalhoso que fosse, DC se divertia ajudando as meninas e até mesmo podendo opinar sobre algumas coisas.

“Acho que uma foto dele tocando violino pra ela ficaria legal.” Sarah comentou com Milena.

“Aqui tem bastante flor e eles gostam de plantas, acho que isso precisa aparecer. Eu sei fazer coroa de flores.” DC revelou.

“Você me deu uma ideia, DC. Ainda é bailarina, Flora?” Milena perguntou.

“Sim, dou aulas de ballet para a terceira idade.” respondeu.

“O que acham de recriarmos o primeiro olhar? Com vocês de bailarina e violinista de orquestra.” a fotógrafa sugeriu.

“Podemos levar aquele balanço de chão pra baixo do ipê e a cena acontecer nele. Devo ter algumas fitas de cetim, dá pra enfeitar mais o balanço.” Sarah apontou para um balanço de madeira que ficava embaixo de uma árvore.

“Se me permitirem, posso fazer uma coroa de flores.” DC completou.

O casal sorriu abertamente.

“Eu estou amando esse ensaio! Já, já voltamos! Podem usar as flores que quiserem.” Flora disse animada antes de se afastar com o marido.

Nik sorriu.

“Estou vendo um sorriso muito verdadeiro, era isso que eu queria. Como puxei meu pai em termos de cozinhar mal, vou comprar coisas pra gente comer.” falou.

“Então convide alguém pra um picnic, quem sabe não dá a mesma sorte que seu pai?” Milena brincou e ele riu.

“Não é má ideia. Já volto.” saiu.

“Vou pegar as coisas pra enfeitar o balanço! Se precisarem, é só chamar.” Sarah se afastou.

Milena começou a olhar as fotos já tiradas enquanto DC analisava o jardim à procura de alguma flor ideal.

“Se você fosse usar uma coroa de flores, qual flor escolheria?” perguntou à Milena.

A moça parou de olhar as fotos.

“Não sei… nunca usei uma coroa de flor.” respondeu.

“Nunca? Ficaria bonito no seu cabelo! Você vai ser minha cobaia, o cabelo de vocês duas é parecido, então pode me ajudar a ver qual pode combinar mais.” ele disse.

“Tá bom. Onde você aprendeu a fazer coroa de flores?” perguntou enquanto se aproximava dele.

“Quando ajudei Isadora a montar figurino do teatro. O manacá é bonito, mas não acho que combine com a coroa; hibisco funciona melhor sozinho; jasmim ficaria bonito; rosas é meio clichê; margaridas ficariam bonitas… tem até a magnólia! Caramba, tem bastante planta aqui!” comentou olhando ao redor.

Milena o encarava tão boquiaberta que ele riu.

“O que foi?” perguntou enquanto pegava algumas.

“Como você entende tanto de plantas?” ela respondeu com outra pergunta.

“Paisagismo e jardinagem também chamavam minha atenção quando eu fazia arquitetura. Deixa eu ver como ficaria juntar jasmim, rosa e margarida.” falou com as três flores em mãos.

Milena passou as mãos nos cabelos e o rapaz se aproximou com as flores. A princípio, focalizou no contraste do cabelo cheio de cachos apertadinhos com as flores.

Milena também o observava, os olhos focados no que fazia, o lábio levemente franzido e o cheiro amadeirado. DC era mais atraente do que vinha reparando.

De repente, os olhos castanhos se encontraram, demorando-se por um instante em meio aos sons do jardim. Quando os olhares ameaçaram descer, os dois se afastaram.

“A-acho que jasmim vai ficar bom! Casamentos costumam ter! Vou ver se Sarah tem algum arame.” ele falou se afastando e ela umedeceu os lábios.

A moça balançou a cabeça.

“Ele fica bonito quando ‘tá concentrado… mas não é hora de pensar nisso!” exclamou enquanto voltava para as fotos.

*

Um pouco longe dali, Cebola esquentava as mãos em sua jaqueta enquanto olhava pela janela do carro de Carmem. Os dois estavam indo ver um apartamento e o silêncio só não era absoluto pelo som do rádio.

“Carmem, aquele acordo pré-nupcial… você também estava lá quando foi feito?” perguntou algo que estava adiando há um tempo.

“Deixei meu pai e os advogados cuidarem disso. Por quê?” ela respondeu.

“É que lá diz que eu que vou pagar o condomínio. E aqui é um bairro bem… alto. Então deve ser uma fortuna.” respondeu e ela riu.

“Gosto de coisa boa. Se acha que não dá conta, podemos falar com meu pai.” respondeu.

Cebola umedeceu os lábios.

“Não… ér… foi só um comentário mesmo.” disse e ela assentiu.

“É ali.” apontou para um prédio alto e luxuoso.

O apartamento em questão era bem parecido com o que Carmem havia visto com Nikolas, a diferença era que aquele tinha mobília.

“Se me permitem opinar, aqui é uma ótima escolha para um jovem casal.” o corretor disse após o tour.

Cebola e Carmem tinham pensamentos diferentes. O rapaz tentava calcular quanto de dinheiro seria gasto; já Carmem, mesmo com móveis, não visualizava nada.

“Eu não gostei muito daqui. Vamos, Cebola.” disse.

Cebola sorriu amarelo para o corretor, que forçou um sorriso.

“Aonde vamos agora?” ele perguntou já dentro do carro.

“Vou te mostrar o outro apartamento, estou com a chave. Você vai ver como ele é melhor.” respondeu.

“Se é melhor, deve ser ainda mais caro…” o rapaz balbuciou.

“O quê?” ela perguntou.

“Esse corretor precisa de mais preparo. Ele não sabe convencer.” mentiu.

“Nem ouvi direito o que ele disse.” revelou fazendo uma curva, era bem perto dali.

Ao entrar, Carmem sorriu ao, novamente, visualizar toda a cena construída com Nikolas. Cebola, por sua vez, não viu nada de especial.

“É igualzinho ao outro, Carmem. A diferença é que aquele ‘tava com móveis.” comentou.

“Claro que não! Aqui parece um lar! Dá pra imaginar uma noite do hambúrguer e até vasinhos de plantas ali.” falou animada.

O rapaz deu de ombros.

“Suas noites do hambúrguer são suas e plantas… não é minha praia. Quanto mesmo é o condomínio daqui?” comentou enquanto entrava no site da imobiliária.

Carmem o olhou sem ânimo. De repente, aquele apartamento havia perdido a magia de outrora, tanto que deixou de ver tudo que havia visto.

“Que seja. Vai ser aqui mesmo, estamos ficando sem tempo pra ver outros.” falou séria.

“Tem certeza disso?” ele perguntou, fazendo-a bufar.

“Eu pago o condomínio, Cebola! Feliz?!” irritou-se.

Cebola não evitou um suspiro aliviado.

“Se você quiser… só que seu pai tem que saber que partiu de você. Mas perguntei por outro motivo, você precisa gostar do lugar.” ele disse.

“Eu gostei daqui. E se sua grande preocupação é meu pai, relaxa.” falou e o noivo sorriu.

“Já disse que você é incrível?” beijou-lhe a bochecha e ela deu de ombros.

Antes de trancar a porta, a loira olhou novamente para o local que em breve seria seu lar e suspirou.

*

Um pouco mais tarde, após almoçarem, Mônica e Nikolas foram comer açaí em uma sorveteria perto da Dream.

“Eu tinha acabado de fazer um curso de organização de eventos e depois um que focava só em casamentos. Eu já tinha ouvido falar da Dream, mas não tinha confiança nenhuma. Eu era inexperiente e ainda ‘tava na faculdade de direito. Mas Magali e Milena disseram pra eu tentar e, bom… tentei.” Mônica contava sobre como foi parar na Dream.

“Foi direto como wedding planner?” ele perguntou.

“Não, comecei como auxiliar de organização de eventos. Nik do céu… era muita coisa e pouco crédito. Até correr atrás de fornecedor eu corri.” riu e o rapaz riu também.

“Deve ter sido cheio de perrengue.” comentou.

“Muito! Mas acabei aprendendo a importância de quem trabalha com você.” ela concordou.

“E como você virou wedding planner?” ele perguntou.

“Uma que estava cumprindo aviso me deixou cuidar das coisas e acabou dando muito certo.” revelou.

“Carmem me disse que o casamento dela estava nas mãos de uma das melhores.” Nik falou e ela riu.

“Ah… eu tento fazer um bom trabalho. E você? Como acabou virando Nik, o geek?” perguntou.

Antes de o rapaz responder, alguns fãs apareceram pedindo fotos. Mônica sentiu um leve incômodo, aqueles não haviam sido os primeiros que interromperam o encontro, alguns até saíram cochichando sobre ela.

“Desculpe, Mônica. Você me perguntou como eu virei Nik, o geek, né? Sempre gostei muito de jogar e de coisas geek. Em um belo dia, decidi postar na internet e foi lá que começou.” retornou.

“Você imaginava que chegaria aonde chegou?” ela perguntou e ele riu.

“De jeito nenhum!” respondeu.

“Você lida bem com a fama. É legal ser famoso?” a morena questionou.

“Tem seu lado bom e ruim. É legal ver gente te elogiando, mas tem dias que lidar com hater me cansa.” ele respondeu.

“Quem se relaciona com você corre o risco de sofrer hate?” Mônica interrogou.

Nikolas hesitou.

“Bom… tem chances. Mas é claro que eu resolveria como desse.” respondeu.

“A Keika sofria muito?” perguntou, fazendo o rapaz suspirar.

“Ela já era gamer, então já lidava com isso. Mas confesso que quando começou a jogar comigo, apareceu mais. Tem uns caras que não gostam de mulher no squad, sabe?” comentou.

Aquilo fez Mônica umedecer os lábios. Estava cansada de envolvimentos sem futuro, então não queria dar esperanças a alguém que tinha uma realidade que não sabia se queria entrar.

De repente, Nikolas tocou em sua mão.

“A pergunta tem a ver com futuro, Mônica? Eu não deixaria nada acontecer. Nosso horário está acabando, então… o que acha de um jantar amanhã? Temos tanto em comum que não pode ficar num único almoço.” flertou.

Mônica respirou fundo.

“Nikolas, você é um cara muito legal, mas… eu não quero te dar falsas esperanças. Estou buscando um relacionamento tranquilo e reservado, coisa que com um cara que os fãs aparecem o tempo todo e que tem que lidar com hater não dá. Desculpe. Continuo sendo sua fã e se ainda pudermos ser amigos, vou adorar. Até à noite!” falou e logo saiu.

Nikolas ficou sem reação por alguns segundos.

“Nossa… acho que eu desisto!” comentou.

“Oi, Nik! Posso tirar uma foto com você?” um fã pediu e ele o olhou.

“Ér… claro.” aceitou ainda sem reação.

*

Horas mais tarde, no início da noite, Agnes abriu sua porta para Sofia. Fazia um tempo que não se viam pessoalmente, então quase se assustou quando a barreira do abraço fora quebrada.

“Estava com saudades de você! O trio Penha, Agnes e Sofia nunca mais foi o mesmo.” Sofia comentou a abraçando e a outra forçou um sorriso, retribuindo o gesto.

“Isso se ainda existir, né?” comentou.

“Como assim?” a outra perguntou se afastando para olhá-la.

“Entra! Senta aí. Os sapatos.” Agnes lembrou e a outra suspirou.

“Como vai, Agnes?” perguntou enquanto tirava seus sapatos.

A de cabelos lisos se sentou.

“Bem.” respondeu.

Sofia olhou ao redor.

“Então é aqui que você mora… Me surpreendi com seu convite. Nunca deixa ninguém entrar no seu ninho.” comentou.

“Eu não moro sozinha.” a outra se explicou.

“Não está falando com uma recém-conhecida, Agnes. Te conheço há mais de dez anos! E sei que não me chamaria pra falar pessoalmente se estivesse tudo bem.” Sofia disse.

Agnes soltou o ar pela boca.

“Me sinto estranha, Sofia!” desabafou.

“Você sempre se sentiu meio assim…” a outra lembrou.

“Dessa vez é diferente. Nessa última semana, minha vida deu uma virada enorme.” explicou e detalhou sobre os últimos acontecimentos.

“Uau! Mas não é uma coisa boa você ter saído, feito amizades e até falado mais com suas colegas de casa?” Sofia perguntou.

“Seria se eu não tivesse surtado depois. Eu… eu não me sinto suficiente. Todos que me aproximei podem encontrar alguém muito menos problemática, ninguém quer perder tempo com alguém que surta com um toque ou fica preocupando os outros.” confessou.

“Alguém te disse isso?” a amiga perguntou.

“E precisa? As meninas daqui não vão querer me chamar pra mais nada; o Cascão fica se preocupando comigo, e eu não quero que ele pare de se divertir por isso; a Penha anda sumida, deve ter cansado também; e você… a Denise tem razão, você gosta de sair e se divertir, não merece ficar presa a alguém que nunca quer fazer isso!” Agnes desabafou.

Sofia a olhava séria.

“Agnes, calma! Você não sabe se eles pensam assim. Não posso falar nada por ninguém, mas sobre mim… eu gostar de festas não significa que tudo se resuma a isso. Seus novos amigos sabem sobre suas tendências hipocondríacas, se mesmo assim escolheram continuar com a amizade, é porque gostam de você.” falou.

“Consciência pesada.” a outra disse e a amiga suspirou.

“Pare de se menosprezar! Se eles quisessem te abandonar, eles teriam feito isso. Existe uma grande diferença entre gostar e aturar.” ressaltou.

Agnes respirou fundo.

“Você não está sozinha. Não se esqueça disso!” Sofia disse e, por vontade própria, Agnes a abraçou.

“Obrigada, Sofia. Você pode ter um péssimo gosto para amizades, mas é incrível!” exclamou e a outra riu.

“Para de falar bobagem! Eu falei com a Penha esses dias, ela ‘tá com um namorado francês.” revelou.

“E sumiu por causa dele?” a outra perguntou.

“Digamos que ela está aproveitando cada segundo.” piscou um olho.

“Coragem.” Agnes torceu o nariz.

“Você não é mais hipocondríaca. Um dia, você vai se apaixonar por alguém e vai ver que certas coisas não são tão nojentas assim.” falou.

“Estamos falando do que exatamente?” a míope perguntou.

“Eu ‘tava pensando em contato físico, você pensou em quê?” Sofia perguntou com um sorriso malicioso.

“Na mesma coisa, ué.” disse e a campainha tocou.

Agnes abriu e sorriu ao ver Cascão.

“Suado como de costume.” comentou e ele riu.

“Tava correndo. E ai, Agnes? Tudo suave? ‘Tava procurando a Mônica, sabe se ela ‘tá por aí?” perguntou.

“Não… ah! Vem cá, Sofia. Esse é o Cássio, meu vizinho, amigo e… ex namorado falso. Cascão, essa é Sofia, minha amiga.” apresentou-os.

“Prazer te conhecer, Sofia!” apertou a mão dela.

“O prazer é meu. Obrigada por ficar de olho nessa maluca.” agradeceu e ele negou com um sorriso.

“Às ordens. Era só pra perguntar se a Mônica vai na festa de noivado, pra eu pegar uma beira, mas eu me viro. Não vou atrapalhar vocês, tchau, meninas.” despediu-se antes de ir para seu apartamento.

Ao fechar a porta, Sofia olhou maliciosa para Agnes.

“Bonitinho seu falso ex. Já pensou em torná-lo um atual de verdade?” perguntou.

Agnes arregalou os olhos.

“Tá maluca, Sofia? ‘Tá andando demais com aquela safada da Denise. Aliás, fala pra ela parar de ir me encher na loja.” falou e a amiga riu.

“Algum dia vocês ainda vão ser amigas.” falou.

“Nesse dia, eu vou gostar de chuva.” respondeu irônica e Sofia riu.

Agnes sorriu enquanto olhava para a amiga, havia sentido falta da presença dela. Talvez a chamaria mais vezes para uma visita.

*

Mônica ficou aérea depois de sua conversa com Nikolas, sentia-se mal por tê-lo rejeitado. Ao chegar em casa, após se arrumar para a festa de noivado, encarou seu reflexo no espelho.

“Como que eu vou olhar na cara dele?” questionou-se.

Estava tão mal que decidiu pôr fim ao seu afastamento de Magali. Solicitou uma chamada de vídeo e logo foi aceita.

“Olha só quem decidiu aparecer…” a outra falou, fazendo-a rir.

“Oi, Magá! Sei que demorei, mas… você tinha razão.” assumiu.

“Agora me conta a novidade.” Magali respondeu.

“Ah… eu assumi que estou errada. Isso é raro de acontecer.” Mônica falou e a outra riu.

“Eu te desculpo. Naquele dia me exaltei também, tinha brigado com meu marido e… enfim! Senti saudades de te encher. Mas e aí? O que tem feito? ‘Tá bonita! Vai sair?” perguntou.

“Vou na festa de noivado de Carmem, coisa de trabalho. E estou tentando consertar minhas merdas e evitar outras. Eu pedi desculpas pro Nik por ter vacilado com ele e até chamei ele pra sair depois.” respondeu.

“E ele topou?” a amiga perguntou.

“Sim, mas… você sabe! Eu sonho em me casar, então eu ‘tô cansada de rolo sem futuro. Ele é um cara fofo, legal, atencioso e acho que seria um bom namorado, mas… a fama dele não é pra mim.” confessou.

“Fama em que sentido? Ele é galinha?” Magali perguntou.

“Não, é fama de fama mesmo. Toda hora alguém fica pedindo foto e não sei se quero sofrer hate. Fora que tenho pra mim que, na primeira oportunidade, a Carmem vai trair o Cebola com ele.” falou e a outra abriu a boca.

“Conta a fofoca toda!” exclamou.

“Ela é a fim dele, Magali! Não sei por que não assume sendo que ele tem grana e é famoso, mas é óbvio que gosta. O Nik ou não quer ver ou não quer ela.” falou.

“Há! Clássico.” comentou.

“Fora tudo isso, eu quero uma coisa mais tranquila, minha vida já é uma correria.” explicou-se.

“Mas, Mônica, você ‘tá desesperada demais. Ficar com o cara não significa que vai casar com ele, é até perigoso pensar assim.” comentou.

“Não, eu não ‘tô nesse nível. Mas eu quero uma coisa verdadeira e duradoura. Lá no Bidu, eu fiquei com um carinha que eu nem sei quem é, não é isso que eu quero pra mim. Eu quero ficar de casalzinho, quero cozinhar junto, falar bobagem, me divertir… quero um relacionamento sério com alguém que eu goste o suficiente pra isso! Mas a questão é: quem?” falou.

“Ai, Mônica… é difícil, mas não desanime. Nunca se sabe quando o príncipe encantado vai tocar sua campainha.” brincou.

De repente, a campainha tocou.

“Bruxa!” zombou se levantando e a amiga riu.

“Vou jogar na loteria hoje. Depois a gente se fala, divirta-se na festa.” Magali desligou.

Mônica abriu a porta e se surpreendeu com a presença de Cebola. Ele usava um terno e estava cheiroso.

“Uau!” o rapaz soltou assim que a viu. O vestido longo vermelho, a maquiagem simples e os lábios também avermelhados haviam chamado sua atenção.

“Oi, Cebola. Aconteceu alguma coisa? Não deveria estar com sua noiva?” perguntou.

“Minha noiva? Ah! Ela vai direto. O Cascão não quer entrar sozinho no habitat dos ricos, como ele chama. Pensei em te chamar também.” falou balançando a cabeça.

“Me chamar ou pegar uma beira no meu carro?” perguntou com um riso e ele riu também.

“Eu nem lembrei que você tinha carro, Mônica. Ia pedir um uper.” falou.

“Tava brincando, mas posso ser a motorista sem problemas. Não pretendo beber álcool. Vamos lá! E seus pais?” falou.

Cebola suspirou.

“Eles… eles não quiseram ir.” falou e ela abriu e fechou a boca.

“Ah… então seus sogros farão esse papel… vamos!” arrependeu-se do que disse e só andou.

*

Em outro lugar, fazia um tempo que a câmera de Milena havia sido desligada. A fotógrafa e seu cliente estavam sentados na sala enquanto jogavam conversa fora e acabavam com a já aberta garrafa de champanhe e um pacote de salgadinhos.

“Não faz sentido para mim você estar há dois anos fazendo um bom trabalho e ser pouco valorizada enquanto a Narcisa pega vip tendo um portfólio ruim e ficando menos dias e horas. Não tem lógica!” ele criticou após mastigar.

Milena riu.

“Como chegamos nessa conversa? A gente ‘tava rankeando os filmes que você gostou que têm defeitos.” comentou.

“O ponto é que chegamos.” ele disse.

“Assume que é porque você não aceita que O palhaço e a panqueca tem erros gravíssimos.” acusou.

“O palhaço e a panqueca é uma obra de arte incompreendida, Milena! Eu faria uma tatuagem sobre ele! Mas o outro assunto é mais interessante no momento.” falou.

“Faz com a Sarah, certeza que ela te dá um desconto só por você conhecer as bandas desconhecidas dela. Mas já que quer falar sobre trabalho, já ouviu dizer que algumas pessoas precisam correr mais? Então, sou uma dessas pessoas. A Narcisa é a que corre menos porque o tio dela enfia ela nos melhores, independente de ela fazer certo ou não.” respondeu.

“Nossa, que merda! No seu lugar, acho que eu teria pulado fora.” comentou e ela riu enquanto se ajeitava no sofá.

“Já pensei em fazer isso, mas aí acabaria me distanciando ainda mais de um sonho meu.” ela disse dando mais um gole em sua bebida.

“Que sonho?” interessou-se.

A moça sorriu.

“Não ri! Na verdade, são dois: ser cientista e ter um estúdio fotográfico. Cientista eu sempre quis ser, e eu me apaixonei por fotos.” respondeu.

“Por que eu riria? Achei legal!” perguntou e ela que riu.

“Ah… são coisas tão distintas! Mesmo que as propriedades que tornam a fotografia possível sejam ciência pura, mas… você me entendeu!” falou e o rapaz sorriu.

“Acho que sim. Como seria esse estúdio?” perguntou.

“Primeiro que ninguém vai ser maltratado por fazer ensaio barato, que vai ser de qualidade! Marina falou que faríamos sociedade, só não sei como misturaria os quadros dela com fotos.” revelou e ele sorriu.

“Eu também sou artista, ok?” falou e ela riu.

“Veria se acharia um espaço pra você. Só que isso ‘tá longe de se concretizar.” falou, suspirando ao fim.

“Por que você acha isso?” perguntou e ela deixou sua taça na mesinha.

“Tirando a grana, contatos são importantes. Fora que nem sou cientista ainda e nem sei se vou ser.” respondeu.

“Por que não?” ele perguntou.

Milena suspirou sem seu sorriso.

“Eu não ando muito feliz com meu curso já faz um tempo, DC. Quando eu era criança, falava pra todo mundo que seria veterinária igual minha mãe. Era até repetitivo. Fui muito incentivada e passei com bolsa integral, mas acho que não é pra mim. Eu quase vomitei durante uma aula sobre eutanásia e me sinto desanimada nas aulas.” revelou.

“Qual é a sua paixão?” perguntou e ela sorriu.

“Física! O namorado da minha amiga é físico e a gente fica horas falando sobre isso e… eu gosto daquele tipo de física.” falou e o rapaz a olhou bem.

“Nunca pensou em trancar?” perguntou.

“Às vezes, mas foi difícil chegar até aqui e eu não odeio veterinária, eu só… não sei se quero ser uma. Enfim! Chega de falar de mim. Você tem sonhos?” mudou o foco.

“Não muito. Não planejo muito o futuro, gosto de deixar a vida me levar. Mas… ultimamente tem sido diferente.” DC revelou.

“O que você acha que mudou?” ela perguntou e ele suspirou.

“Aquilo que te disse uma vez, o peso da idade. Aos 15, eu podia ligar o foda-se, mas agora… fui fazer isso e prejudiquei meus amigos e minha carreira. Não consigo mais simplesmente ignorar a realidade de quem me rodeia.” respondeu.

“Maduro da sua parte.” a moça comentou.

“Meio tarde, eu diria. Mas sabia que você me inspira?” comentou e Milena levantou a sobrancelha.

“Inspiro?” perguntou.

“Sim! Você tem um supervisor escroto que só te joga em trabalho aleatório e mesmo assim nunca deixou que isso mudasse a maneira de lidar com as fotos ou apagasse seu sonho. Suas janelas da alma, como dizem, mostram que você fica feliz fotografando e quando fala da física.” começou olhando-a nos olhos.

“E não tem coisa mais bonita e inspiradora que isso.” concluiu com um sorriso.

Aquilo pegou Milena de surpresa, tanto que sorriu constrangida, mas DC não parou de olhá-la.

“Nossa… não esperava por isso! Fiquei até sem graça.” falou.

“Só… só senti que podia ser sincero.” ele disse um tanto acelerado.

Os dois ainda estavam lado a lado e se olharam tímidos como nunca ficaram, mas a porta da sala se abrindo os interrompeu de fazer qualquer coisa.

“DC, você vai ter vizinho novo! O portão ‘tá aberto e tem um caminhão… Opa! Eu… interrompi alguma coisa?” era Nimbus.

Milena se levantou e pegou suas coisas.

“Não, eu já ‘tava de saída. Ér… obrigada por ter me ajudado hoje, DC! Sua ajuda foi crucial!” agradeceu.

“Sempre que precisar, é só chamar. Foi legal!” falou e ela sorriu.

“Tchau, meninos.” despediu-se e saiu rapidamente.

Nimbus olhou para o irmão com um sorriso.

“O que ‘tava rolando aqui?” perguntou.

“Nada, a gente só ‘tava conversando.” falou pegando as taças e indo para a cozinha.

“Aham… se eu não tivesse chegado, ainda seria só uma conversa?” insinuou.

“O que você quer, Nimbus?” perguntou.

“Faz tempo que não jogamos. Trouxe um jogo novo e pedi pizza!” falou e o outro deu de ombros e foi lavar a louça enquanto se perguntava o mesmo que o irmão.

*

A lua já brilhava no céu quando a festa de noivado de Carmem e Cebola estava cheia de pessoas da alta sociedade, que estavam lá apenas pela riqueza da família Frufru.

Cebola se sentia extremamente deslocado. A atmosfera frívola, a futilidade e as conversas chatas causavam-lhe náuseas. Sequer sabia onde estava Carmem e Mônica havia sumido, então fazia questão de ficar colado a Cascão, o único que o fazia se sentir menos pior.

“Tá com uma cara de morto...” Cascão zombou tomando um gole de champanhe.

“Aqui ‘tá insuportável!” sussurrou.

“É isso que te espera, amigão. Quem mandou continuar com esse teu plano?” Cascão respondeu, fazendo o noivo revirar os olhos.

“Vai me julgar até quando?” perguntou.

“Sempre que possível. Me arrastou pra bucha, agora aguenta. Acredita que um riquinho veio me pedir pra servir ele? E ainda teve a cara de pau de não pedir desculpas e falar que eu parecia um garçom! Eu nem ‘tô de uniforme de garçom!” o outro reclamou.

“Ah, mano, sabe como são esses riquinhos. Seu terno não é um de alta costura, devem ter confundido.” comentou olhando em volta.

Cascão o olhou sério antes de estapear-lhe a nuca.

“Deixa de ser besta, Cebolácio! Os garçons não estão de blazer. O nome disso é outra coisa! Que espero que você nunca se torne quando suas companhias mudarem.” falou sério.

Cebola franziu o cenho.

“Companhias mudarem?” repetiu.

“Você não queria contatos poderosos? Fazer parte do universo dos Frufru? Isso que vai acontecer. Daqui a pouco, seus rolês vão ser outros.” explicou.

“Não viaja, Cascão! Ainda vou ser seu amigo!” exclamou.

“Não viaja você, Cebola! Podemos até continuar sendo amigos, mas acha mesmo que seu sogro vai deixar você colar em um Bidu ou bar de esquina da vida? Não vai!” retrucou.

“Ele não manda em mim!” o noivo se defendeu.

“Você vai estar nas mãos dele, então manda. Se me dá licença, a comida pelo menos é boa.” Cascão se afastou.

As palavras de Cascão ressoavam em sua mente, às vezes o amigo era muito lúcido. Olhou para as pessoas ali, que nem mesmo conhecia, e respirou fundo.

“Será que esse é meu futuro?” questionou-se.

Decidiu sair para tomar um ar, onde deu de cara com Mônica conversando amigavelmente com outros funcionários. Sem que percebesse, tentou compará-la com Carmem, mas não conseguiu.

“Sou mais próximo da wedding planner que da minha noiva…” balbuciou.

Ia se aproximar dela quando sentiu alguém o abraçar pelos ombros e puxá-lo para dentro novamente, era seu sogro.

“Olha o noivo aqui! Este é o rapaz que te falei.” mostrou-o para alguns senhores.

“Olá!” cumprimentou-os.

“Ganhou na loteria, rapaz!” um deles comentou.

“Sim! Sou um cara de sorte.” concordou sem saber o assunto.

O sogro e os demais soltaram uma risada debochada. De repente, viu sua noiva caminhando com um largo sorriso, que não era para si.

“Então é verdade… o rapaz é amigo da sua filha!” um dos senhores disse.

“Padrinho de casamento. Este casório da Carmem está caindo como uma luva.” riu ao dizer e fez um gesto com a cabeça para alguém.

De repente, Grózny se juntou a eles.

“Olá, senhor Frufru. Queria me ver?” perguntou.

“Viu quem chegou ali? Temos que descobrir se seu emprego continua ou não.” falou e o outro engoliu em seco.

“Falar de negócios na frente dos noivos durante a festa de noivado?” ele perguntou.

“Já serve de lição para você, Cebola. Eventos são ótimos para falar de negócios. Vamos, senhores.” chamou a todos.

“Senhor Frufru! Precisava conversar em particular.” o funcionário falou ao olhar para os curiosos senhores.

“Não há segredos entre mim, meus sócios e meu futuro genro. Eles também fazem parte da Dream.” negou-se, fazendo o outro suspirar.

“Houve um problema com a equipe. Então… a equipe vip não acompanhou a fotógrafa, e sim a do pacote econômico.” revelou e o outro franziu o cenho.

“Você mandou uma equipe inferior para um trabalho importante para a empresa?” um dos senhores questionou.

“Não é inferior, eles são muito elogiados. Enfim… se tivesse dado errado, Milena teria dito.” respondeu.

“Vamos ver isso de uma vez.” falou e o outro secou a testa.

Cebola não sabia por que estava ali, mas decidiu apenas acompanhar.

“Nikolas!” Cornélio foi até ele.

“Senhor Cornélio! Cebola. Senhores. Grózny.” cumprimentou a todos.

“Esses são alguns dos amigos e sócios da Dream. Estávamos falando sobre o setor fotográfico e lembrei do ensaio dos seus pais. Como foi?” perguntou.

“Ótimo. Foram muito bem tratados e amaram o resultado. Se eles estão felizes, eu estou feliz.” respondeu e os outros sorriram.

“Vale até uma publicação, não acha?” Grózny falou e o chefe o olhou feio.

“Claro, mas vou fazer semana que vem. No dia do evento.” respondeu.

“Já é semana que vem? Não falta mais nada?” Carmem perguntou.

“Pouca coisa. Eu tinha feito um orçamento com outro estúdio antes, mas meus pais gostaram da Milena. Disseram que ela sabe como tratar bem as pessoas.” respondeu olhando diretamente para Grózny, que sentia o olhar severo do chefe.

“Então deveria contratá-la novamente! Chame seus pais para falarem conosco na Dream. Será um prazer recebê-los!” Grózny disse nervosamente.

“Mesmo, Grózny? Eles não precisam se preocupar com nada, certo?” provocou e o outro abriu e fechou a boca.

Cebola observou os demais se entreolharem, não fazia ideia do que estava acontecendo. Olhou para a risonha Carmem e entendeu menos.

“Não…” o outro respondeu.

“Que ótimo. Se me dão licença, preciso molhar a garganta. Parabéns pelo noivado, Cebola!” falou tranquilamente.

“Obrigado.” agradeceu.

“Eu vou com você.” Carmem acompanhou o amigo.

Todos pareceram aliviados.

“O rapaz é esperto. Vocês deram sorte!” um dos senhores disse antes de todos se afastarem.

“Senhor Frufru! O que acabou de acontecer aqui?” Cebola perguntou ao sogro, que riu.

“Cebola, um conselho: sempre proteja seu investimento.” deu dois tapas no ombro dele e saiu.

Cebola balançou a cabeça e enfim se juntou a Mônica.

“Oi, Mônica!” cumprimentou-a.

“Desanimado na própria festa de noivado?” perguntou enquanto comia um docinho.

“Ah… ‘tá muito sem graça. Nada contra música clássica, mas eles escolheram as mais chatas.” respondeu e ela riu.

“Por que está aqui fora e não com sua noiva? Precisa pelo menos parecer, né?” perguntou.

“Ela ‘tá com o Nik. Quando ele aparece, ela esquece da minha existência. Mas eu até prefiro no momento, não ‘tô muito legal.” ele respondeu.

“Por que não?” a moça interrogou.

“É tudo tão… frio. Acha que esse mundo é pra mim?” perguntou e ela o encarou, havia prometido a si mesma que não se envolveria mais.

“Só você pode responder essa pergunta.” respondeu.

“O Cascão ‘tava falando que minhas companhias e lugares vão mudar. Eu… eu admiro o pai da Carmem, mas não quero ser 100% como ele.” desabafou.

“Está mudando de ideia, Cebola?” Mônica perguntou direta.

O noivo abriu e fechou a boca. Sentia-se um intruso em sua própria festa de noivado, então nem imaginava como seria o casamento.

“Eu sei lá. Talvez. Mas já é tarde demais pra voltar atrás.” respondeu incerto.

Mônica mordeu a própria bochecha. Queria dizer que não era, mas não podia mais.

“Isso cabe a você.” falou e ele riu.

“Botando o corpo fora?” perguntou e ela acabou rindo.

“Ah, Cebola… me envolvi até demais no casamento de vocês.” respondeu sincera e ele assentiu.

“Te agradeço por isso. Sabe… esse casamento me trouxe muita dor de cabeça, mas colocou você na minha vida. E eu não poderia estar mais grato por isso.” Cebola declarou sincero.

Mônica e Cebola se encararam por alguns segundos. Mônica via a sinceridade nos olhos de Cebola e concordava com ele, uma das melhores coisas daquele casamento fora conhecê-lo.

Não sabiam se era efeito das taças de champanhe ou da atmosfera serena que um transmitia ao outro, mas sentiram vontade de se aproximarem mais. Porém, Mônica caiu em si e se afastou.

“Eu vou indo nessa! Tenho coisas pra fazer amanhã. Parabéns pelo noivado, Cebola.” disse e saiu rapidamente.

O rapaz apenas acenou, sem saber ao certo o que tinha acontecido, muito menos por que seu coração estava batendo mais rápido.

“Eu ‘tô ficando doido!” exclamou.

*

Enquanto isso, Carmem e Nik comiam canapés em uma mesa mais afastada.

“Eu queria ter visto o ensaio. Depois quero ver todas as fotos!” ela disse e ele riu.

“Eles adoraram! Mas sabe de uma coisa… enquanto eles contavam a história de como foi o primeiro encontro, eu tive uma ideia.” falou.

“Qual?” a loira perguntou.

“As bodas começam no finzinho da tarde e vão até a noite, com o jantar. E se nesse fim de tarde tivessem toalhas de picnic pros convidados sentarem? Assim retomamos o primeiro encontro.” sugeriu e ela sorriu animada.

“Não tem jeito, Nik, você é um cara romântico. Eu gostei da ideia. Podemos até colocar a cestinha. As fotos vão ficar bonitas.” concordou.

“Então! Aí pro jantar e outros momentos, vai ter a mesa normal.” o rapaz disse.

“Que tal uma mesona de picnic?” Carmem sugeriu.

“Não tinha pensado nisso… meus pais gostam de reunir gente, pode ser legal. Que ideia ótima, Carmem!” exclamou e ela sorriu orgulhosa.

“O que seria de você sem mim? Mas a equipe de decoração já ‘tá sabendo disso?” perguntou.

“Vou falar com eles na segunda. Agora onde vou arranjar esse tanto de toalha de picnic… eu não sei.” respondeu.

“Eu vou atrás disso, relaxa. A mesona tem na Dream, certeza.” a loira garantiu.

“A gente não pode se unir mais. Falta uma semana e ainda estamos inventando moda.” o gamer brincou.

“Só mostra que somos uma ótima dupla. Falando nisso... aqui! Quis te dar pessoalmente.” entregou a ele uma caixa, que vinha carregando consigo.

“Finalmente! Vejamos… uma taça, um vinho branco e uma gravata borboleta rosa muito brilhante. Você fez parte da nossa história e da jornada rumo ao altar. Por este motivo, nada mais justo do que ter você de testemunha para celebrar a nossa união. Quer ser o nosso padrinho? Algo me diz que isso foi tirado da internet…” comentou e ela riu.

“É óbvio!” respondeu e ele riu.

“Vai ser um prazer ser seu padrinho, Carmem.” falou e ela o abraçou.

“E ai? Como foi seu almoço com a Mônica?” perguntou.

Nik se ajeitou na cadeira.

“Levei um fora. Ela ‘tá atrás de coisa tranquila e reservada. Fora que claramente tem medo de sofrer hate.” respondeu e a amiga riu.

“Eu avisei que não ia dar bom.” provocou.

“Parabéns! Acho que desisto da minha vida amorosa. Vou ser de todas agora.” ele disse e ela o encarou.

“Sinto muito que tenha dado errado, de verdade. Sei que deve ter sido difícil voltar a sair com alguém depois da Keika.” falou seriamente.

O rapaz suspirou.

“Tá tudo bem. Keika não é a única que vai provar essa delícia aqui.” brincou apontando para si mesmo e a moça riu.

“Delícia? ‘Tá se achando demais!” falou.

“Até você me pegaria no off, Carmem.” brincou risonho.

Carmem o olhou bem e deu de ombros.

“O que seria esse off?” perguntou.

“Eu ‘tava brincando.” Nik esclareceu.

“Eu sei, mas… só por curiosidade. Seria um relacionamento aberto? Não é traição, existe um acordo.” perguntou.

“Já falamos sobre isso, só que você ‘tava bêbada. Eu acho que me sentiria estranho.” ele respondeu e ela riu.

“Não é tão estranho assim…” falou.

“Vou começar a achar que você quer abrir o seu.” o rapaz brincou.

Carmem deu de ombros, fazendo Nik arregalar os olhos.

“Ou, ou, ou… você ‘tá pensando em abrir mesmo?” perguntou sério.

“Ah… sei lá. Não acontece nada entre mim e o Cebola. Eu fui com ele ver apê hoje e foi méh. Fui naquele nosso e o encanto foi pro saco. Então… pode ser que eu queira sentir alguma coisa em algum momento.” ela respondeu.

“Quando é assim, você simplesmente não se casa. Mas por curiosidade, que coisa você quer sentir?” perguntou e a moça gargalhou, fazendo-o rir também.

“Você não presta nem um pouco!” ele exclamou.

“O quê? Eu nem disse nada! Você que é tarado!” a moça exclamou.

“Vou me retirar, sou uma alma inocente demais pra isso.” falou se levantando.

“Inocente é uma das últimas coisas que você é!” gritou e ele mandou um beijo antes de se afastar.

Carmem riu enquanto pensava seriamente na possibilidade da abertura.

“Estou parecendo uma desesperada! Coisa feia!” repreendeu-se.

A noite terminou fria. Uma semana se passou tão depressa que logo já era o dia das tão esperadas bodas, um dia que seria mais cheio do que os jovens imaginavam.

Notas finais
Os nomes dos pais do Nik são inventados Valsa das flores é uma música clássica do Tchaikovsky Palhaço e a panqueca é um filme que, ainda na primeira séria, DC diz gostar muito e Mônica não