Almejar
9 Capítulo IX - Limites
Notas iniciais
Mônica não ia ao Bidu há muito tempo, então havia esquecido da atmosfera caótica do bar de paredes azuladas e luzes coloridas.
“Faz tanto tempo que não venho aqui que até me surpreendi.” comentou com Agnes enquanto iam até uma mesa.
“Eu gosto do Bidu.” a outra comentou com um sorriso e a morena a encarou surpresa.
“Você gosta de um lugar destes?” perguntou surpresa.
“Eu me diverti muito quando vim aqui. Você conhece o tal Grózny?” a loira perguntou.
“Infelizmente, conheço. Ele é um metido ridículo e puxa saco que só atende direito quem é rico ou famoso. Metade do prédio odeia ele e a outra metade não assume em voz alta.” fofocou.
Agnes riu.
“Então eu também faria uma festa. Falando nisso, por onde será que anda nossa anfitriã?” perguntou e Mônica riu.
“Ali.” apontou para a pista de dança, onde Milena dançava animada junto de Cascão e outros amigos.
“Dançando com gente suada… coragem!” comentou.
“Hoje é um dia que pode. E ela vai em rolê apocalíptico, deve estar acostumada. Vou atrás de alguma bebida, você vem?” Mônica perguntou se levantando e a outra negou.
“Não, pode ir lá.” falou e a morena saiu.
Agnes olhou ao redor e se sentiu entediada, parecia menos divertido sem Cascão ao seu lado. De repente, ouviu seu nome ser chamado por um grupo, eram os rapazes do beer pong.
“Beleza, Agnes? Vamos jogar, vem com a gente!” convidou.
A loira hesitou.
“Não sei... Vocês são amigos do Cascão, e ele nem ‘tá aqui comigo.” falou.
“Ué, qual o problema? Tu joga melhor que ele! Vamos lá, se não quiser participar das apostas, não precisa.” um deles insistiu.
A moça mordeu o lábio inferior. Eles não sabiam sobre suas tendências hipocondríacas e muito menos que odiava contato físico, mas queria jogar e eles nunca haviam invadido seu espaço pessoal.
“Tá, mas não quero que fiquem no meu cangote. Gosto de espaço para as minhas estratégias.” condicionou e eles riram.
“Cê que manda!” exclamaram e ela os seguiu até o porão.
Como de costume, o local cheirava a bebida e cigarro e tinha várias pessoas rindo e jogando. A quantidade de pessoas fez Agnes hesitar e olhar para trás, repensando se devia estar ali.
“O que o Cascão falaria?” questionou-se e logo sua mente respondeu.
“Me diria pra relaxar!” riu e, após respirar fundo, decidiu permanecer.
“Pessoal, essa aqui é a Agnes, uma das melhores jogadoras de beer pong que conheço. Deem espaço pra ela! Ela não gosta que fiquem fungando no cangote.” um deles disse e ela acabou rindo, talvez também conseguiria se divertir sem Cascão.
*
O Bidu não era um dos lugares que Carmem tinha o costume de frequentar, mas não se surpreendeu com o que viu. Junto a si estavam Cebola, Denise, Jeremias e Sofia.
“Obrigada por me convidarem! Eu ‘tava no tédio.” Sofia comentou sorridente.
“Que isso, miga. A gente precisava de um rolê juntas.” a ruiva falou.
“Isso porque viajaram juntas.” Jeremias comentou.
“Sofia se diverte em bares assim. Com quem mais ela iria? Com a Agnes?” a ruiva riu ao dizer.
“Denise!” a amiga a repreendeu.
“Ainda não entendi por que quis vir no Bidu e me trouxe junto, Carmem. Ainda mais numa quarta-feira.” Cebola reclamou com a noiva.
“Você é meu noivo, precisa ir em alguns lugares comigo. E o Nik ‘tá aqui, decidimos vir todos.” ela respondeu procurando o amigo com o olhar enquanto todos se sentavam em uma mesa.
“Ele sai de casa?” Sofia perguntou risonha.
“Mais do que você imagina. Mas não sei onde ele ‘tá.” Carmem respondeu.
“Ele é um gamer, então provavelmente sentado e no celular. Digo com propriedade que todo gamer é meio sedentário sempre que possível.” Cebola zombou entre risos.
“Acho que precisa rever suas estatísticas, Cebola.” Jeremias comentou rindo enquanto apontava com a cabeça para um local em especial.
Na direção apontada por Jeremias estava um dançante Nikolas junto de Xavier.
“Pra um sedentário, até que se mexe bastante. Ô NIK! VEM CÁ!” Denise comentou risonha antes de gritá-lo.
“Cortou a brisa do cara, Denise.” Cebola comentou enquanto olhava o cardápio.
“Só pra ele saber que estamos aqui.” ela disse.
O rapaz se aproximou ao lado de Xavier, que ainda dançava.
“Oi, gente!” cumprimentou.
“Tá mais soltinho que arroz, hein?” a ruiva comentou.
“Influência desse cara. A propósito, esse aqui é o Xaveco, meu amigo/editor/parceiro de squad e…” falava abraçado ao amigo.
“Sua voz da razão. E ai, galera?” o loiro completou.
“Achei que eu era sua voz da razão.” Carmem enfim se pronunciou.
“É o contrário, miga.” Denise riu ao dizer.
“Carmem, o dia que você for a voz da razão de alguém, essa pessoa vai presa.” ele brincou e ela gargalhou.
“Tu tem gingado, Nik.” Jeremias comentou e o outro riu.
“Ah, sabe como é… eu tenho o molho.” brincou balançando os braços, acertando a mão em uma garota por acidente.
“Ai, moça, desculpe!” desculpou-se e ela se virou com um sorriso.
“Não foi nada, não…” falou com um sorriso sedutor.
A moça não tirou os olhos do rapaz, tanto que, ao se sentar no balcão, lançou um olhar sedutor enquanto sugava o canudo de sua bebida e lambia os lábios em seguida.
Cebola e Jeremias trocaram um olhar malicioso enquanto Xaveco dava tapinhas nas costas do amigo, Denise ria alto e Sofia olhava para o gamer, que trocava um sorriso com a desconhecida. Carmem tinha uma sobrancelha erguida.
“Eu já volto.” Nik avisou, causando risos e batidas na mesa.
“Você vai dar mole pra uma desconhecida?” Carmem perguntou incrédula.
“Eu meio que estapeei ela, vou ser se ‘tá tudo bem.” falou risonho.
“Vai com tudo, mano!” Xaveco estapeou uma nádega do amigo quando este passou em sua frente e voltou para a pista.
“Ele não ‘tá morto não, Carmem. Assim como você e seu noivo…” Denise alfinetou, recebendo um olhar feio da amiga.
“Vou atrás de uma bebida.” levantou-se.
“Eu também preciso molhar a garganta.” Cebola disse a acompanhando.
“Vou pegar uma também. Vocês querem o quê?” Jeremias se levantou.
“Caipirinhas.” Denise disse e a outra assentiu.
Assim que Jeremias saiu, Sofia riu para a amiga.
“Pessoalmente, o Nik é gatinho mesmo.” comentou e a outra riu.
“Nem se anima muito, a Carmem é doidinha por ele.” revelou.
Sofia franziu o cenho.
“Ué… mas ela não ‘tá noiva?” perguntou.
“Por interesse. É uma longa história.” respondeu.
*
Fazia um bom tempo que Milena havia limitado suas idas a qualquer tipo de festa apocalíptica aos fins de semana, então fazer sua festa em plena quarta-feira e ter tido a participação de vários amigos a deixou animada.
“Por que mesmo a gente parou de dar rolê no meio da semana?” uma amiga de cachos compridos perguntou enquanto fazia um passinho.
“Porque ainda temos um pouquinho de juízo. Vou beber alguma coisa, suei demais!” comentou.
“Se tivesse dado chance pra um dos cinco caras que vieram te paquerar, suaria de um jeito bem mais gostoso.” a amiga disse explícita, fazendo Cascão gargalhar e Milena crescer os olhos.
“Pra que meias palavras, né? Depois dessa, vou até tirar a água do joelho.” o rapaz comentou saindo da pista risonho.
“Eu só quero comemorar o dia de hoje, safada. Oi! Vou querer uma água.” Milena falou e pediu sua bebida ao bartender.
“Uma água pra mim também. Você ‘tá na seca há um tempão, Milena.” a outra ressaltou.
“Não ‘tô com tempo pra isso, Marina. Conhecer gente com essa intenção é trabalhoso demais.” a amiga disse pegando sua água.
“Ah… isso é desculpinha tua! Você não disse que aquele teu cliente excêntrico era interessante? ‘Tá aí uma chance.” Marina comentou e a outra riu.
“Não misturo vida profissional com pessoal.” ressaltou.
“Então por que estão virando amigos?” rebateu.
“São coisas diferentes, Marina. Fora que um músico bonitinho que nem ele tem rios de mulheres, não ‘tô a fim de mais uma dor de cabeça, tenho mais com o que me preocupar.” comentou e a artista deu de ombros.
“Fica aí desperdiçando chances, depois não diga que não avisei. Bom, eu preciso ir nessa. Espero que Grózny se ferre mais vezes e que aproveite sua noite, amiga!” despediu-se com um abraço.
“Tchau, Mari! Obrigada por ter vindo!” despediu-se.
Milena ficou alguns segundos sentada e, ao olhar ao redor, viu um deslocado roqueiro sozinho em uma mesa com uma latinha de energético em mãos.
“Tá sozinho aí por quê? Tem conhecidos seus aqui.” aproximou-se e ele sorriu ao vê-la.
“Fiquei com preguiça de interagir com pessoas em rodinhas.” revelou.
“Tá aqui há quanto tempo?” perguntou.
“Uns… 30 minutos.” respondeu e ela arregalou os olhos.
“Você ficou meia hora aqui sozinho? Podia ter me procurado ou mandado mensagem que ‘tava aqui!” exclamou.
O rapaz deu de ombros.
“Eu vi você dançando, não quis interromper seu momento. Aliás, você dança bem.” elogiou e a moça riu.
“Então vem dançar comigo.” puxou-o.
“Dan-dançar? Essa música?” apontou para cima e ela assentiu com um sorriso largo.
“É! Vai me dizer que não gosta de música eletrônica, Do Contra?” comentou.
“Não é isso, é que não sou acostumado a dançar… este estilo.” explicou.
“E qual você sabe?” ela perguntou.
“Por obrigação dos meus pais, valsa. O resto… sou uma negação.” respondeu.
“Eu posso pedir pra colocarem uma valsa.” a moça comentou e o amigo acabou rindo.
“Não, melhor não. A gente apanha daquela galera ali.” apontou para um grupo que dançava muito animado.
“Se eu te disser por que estão tão animados assim, você descobre que nem ouvindo a música eles devem estar. Enfim… topa me acompanhar nessa?” convidou.
“Tá, mas não sei nem como começar.” o rapaz alertou.
“Só deixa o ritmo entrar.” Milena disse balançando o corpo.
DC começou tímido e um tanto desengonçado, mas, após Milena girá-lo, soltou-se um pouco mais em meio a risos, a ponto de também girá-la e até pular sem se importar com nada ao redor. Quando estava exausto e suado, foram se sentar.
“Tá fora de forma, rapaz.” a moça zombou e ele riu.
“Acho que você que está em forma até demais.” comentou ofegante e ela riu.
Do Contra a olhou por alguns segundos, Milena conseguia animá-lo com uma facilidade absurda. Sem que percebesse, seu olhar se perdeu nela por alguns segundos, nos cabelos volumosos, na pele negra brilhante e nos lábios carnudos pintados de vermelho, onde demorou mais; não por acaso, acabou lambendo os seus.
Isso o fez se levantar de sobressalto.
“Eu preciso ir agora! Prometi pro Nimbus que ia… que ia… ajudar ele num negócio. Espero que Grózny tenha aprendido uma lição.” falou nervosamente e ela assentiu.
“Obrigada por ter vindo!” agradeceu com um abraço.
“De nada! Ér… eu vou indo. Até mais!” despediu-se e ela acenou.
O rapaz pagou sua conta e saiu rápido do bar. Do lado de fora, percebeu que seu coração batia mais rápido e podia jurar que estava corado.
“O que acabou de acontecer? Recomponha-se, Maurício!” repreendeu-se enquanto se abanava com a mão.
*
Mônica havia bebido mais do que imaginava. Após beijar um rapaz, foi até o balcão beber mais um drink, onde deu de cara com um conhecido.
“Você ‘tá me perseguindo, Cebola! Não tem outra explicação!” comentou com a voz arrastada e ele riu.
“Te juro que não! A Carmem me arrastou pra cá hoje e sumiu. Nem venho neste bar, as bebidas baratas fazem a gente beber muito.” chacoalhou a lata.
“Eu bebi alguns drinks, mas continuo sóbria.” comentou.
“O suficiente pra um beer pong? Ouvi dizer que tem lá no porão, mas nunca joguei e não quero passar vergonha sozinho.” ele disse.
“Eu vou com você, esse me interessou.” falou.
Os dois desceram até o porão e se surpreenderam com o que viram: várias pessoas gritando animadas após uma risonha Agnes acertar uma bolinha num copo distante e cheio de bebida.
“Cebola, eu ‘tô muito doida ou a pessoa rindo com um monte de gente em volta é a Agnes? A que mora comigo!” comentou e ele riu.
“É ela mesma.” confirmou.
Os dois se aproximaram da loira.
“Oi, Mônica! Veio tentar a sorte?” perguntou despreocupada.
“Tá tudo bem, Agnes? O que deram pra você beber?” perguntou.
“Nada. Eu não bebo e nem aceito bebida de qualquer um.” respondeu.
“Ela é literalmente a pessoa mais sóbria daqui, não é à toa que ganha de todo mundo.” um dos rapazes disse.
“Eu jogo bem.” garantiu risonha.
“Querem jogar? Se errar, vira o copo. Se ganhar, leva um prêmio da nossa prateleira.” um deles disse apontando para os copos no chão e para uma prateleira com várias coisas.
“Isso é nojento! Agnes, você realmente ‘tá jogando isso?” Mônica reiterou.
“Não perdi nenhuma. Mas eu não ‘tô participando da aposta, ‘tô só jogando mesmo.” respondeu.
Cebola e Mônica se entreolharam.
“Vamos?” ele disse e ela deu de ombros.
Um tempinho depois, os dois haviam perdido tantas vezes que sequer sabiam quantos copos foram virados, mas ainda jogavam. Agnes, por sua vez, decidiu dar um tempo do jogo.
Nesse momento, um dos rapazes, um de feições asiáticas e cabelos negros, se aproximou.
“Ninguém é páreo pra você.” comentou e ela riu.
“É uma técnica que nunca vou te ensinar, Tikara. Nem tenta.” falou e ele riu, olhando para ela em seguida.
“Não cheguei a te dizer, mas te acho foda! E… muito bonita! Seria legal a gente sair qualquer dia desses, só nós dois.” comentou tocando em sua mão e deslizando o dedo.
O toque de Tikara a fez se arrepiar, mas de ansiedade. Repeliu o toque e se levantou.
“Eu tenho que ir agora. ‘Tá ficando muito tarde.” falou.
“Espera, Agnes! Foi alguma coisa que eu disse?” segurou em sua mão para impedir que saísse e ela puxou com certa rigidez.
“Não! Tchau!” disse antes de subir as escadas correndo.
A moça corria sem prestar atenção em nada até que viu uma figura conhecida: Sofia.
A amiga estava feliz, dançando animada com Denise e outras pessoas. Olhou um pouco mais para o lado e viu Cascão, sorridente ao lado de uma garota.
Limpou as lágrimas que embaçavam sua visão, pagou sua comanda e correu para casa. Chegando lá, sequer passou álcool em gel ou tirou os sapatos como de costume, apenas correu para seu banheiro e se sentou no chão, com as costas encostadas na parede.
“Toda vez… toda vez é essa merda de sensação ruim! Eu não sirvo para sair, não sirvo para ser boa companhia, não sirvo nem pra me sentir bem por muito tempo! Mas que porra!” esbravejou irritada enquanto começava a chorar.
“A Denise é uma amiga muito melhor que eu pra Sofia… ela estava feliz, como eu jamais conseguiria deixar! O Cascão não vai querer manter a amizade com alguém que surta com um toque! A Mônica deve ter me achado uma idiota por ter saído correndo! O Tikara deve estar rindo de mim neste exato momento! A Milena nunca mais vai querer me chamar pra alguma coisa… como posso ser tão ridícula?!” exclamou.
Sua respiração estava pesada e seu coração acelerado, o que desencadeou um de seus episódios hipocondríacos.
“Por que eu ‘tô respirando assim? Será que é alguma doença daquele bar lotado? Será que me drogaram? Será que foi do zoológico? Será que é dengue? Eu só posso estar doente! Preciso de um banho! E de um médico! Cadê minhas coisas?!” desesperou-se, deixando cair algumas coisas de sua pia no ato.
Após um banho nada relaxante, aferiu sua temperatura, arrumou-se e chamou um uper para levá-la ao hospital.
*
De volta ao bar, assim como Mônica, Carmem havia bebido mais do que imaginava. Estava sentada com um sóbrio Nik, que havia retirado a amiga da pista após perceber seu estado.
“Aquela lá teve uma boa experiência com Nik, o geek?” perguntou com a voz arrastada enquanto bebia a água que ele havia dado.
“Ela pareceu gostar. Por onde anda seu noivo? Achei que estariam juntos hoje.” comentou.
“Eu não faço ideia de onde aquele bosta ‘tá! Tatá!” gargalhou ao repetir o som final.
Nik acabou rindo também.
“Pelo tanto que você ‘tá bêbada, acho bom acharmos.” comentou olhando em volta e ela o abraçou, esfregando a cabeça em seu ombro.
“Ô Niiiik? Você ficaria com alguém que tem relacionamento aberto?” perguntou abruptamente.
O rapaz a olhou com um riso.
“Que tipo de pergunta é essa?” perguntou.
“Ficaria ou não?” quis saber.
“Não sei.” ele respondeu.
“Não é traição. O casal tem um combinado.” lembrou.
“É, mas sei lá… acho que me sentiria estranho.” falou e ela começou a rir alto.
“Vamos achar a Denise ou o Cebola, você ‘tá muito bêbada.” falou e ela o abraçou mais.
“Tô não! Bebi só… isso aqui!” gesticulou com a mão.
“É claro…” olhou ao redor e viu a cabeleira ruiva que procurava, ela se aproximava sozinha.
“Denise! Sabe onde ‘tá o Cebola? Tua amiga ‘tá bebaça.” apontou.
“Acho até que ele já vazou.” Denise respondeu.
“E deixou a noiva aqui?!” questionou incrédulo.
"Ele nem queria vir, não duvido que tenha avisado e a bebaça não lembra.” respondeu e o rapaz bufou.
“Tá… temos que levar ela pra casa.” falou.
“Melhor não. Os pais dela não gostam que ela apareça bêbada ou dê algum vexame.” ela ressaltou.
“Na casa do Cebola então?” o rapaz perguntou.
“Tá ligado que eles nem gostam muito dela, né? Seria pior. Pode ser lá em casa, mas preciso de ajuda! Jerê teve que ir pra casa, eu já ia chamar ela pra gente ir.” pediu e o rapaz assentiu.
“Tá bom. Vou ir pagar as comandas, você chama o uper?” perguntou e ela concordou.
Ao retornar, a loira precisou ser carregada. No carro, após cumprimentarem o calado motorista, Carmem sorriu.
“Oi, Nik!” cumprimentou de repente.
“Oi, Carmem.” respondeu risonho.
“Você ‘tá bonito hoje. Por que ficou com aquela garota? O que ela tem de tão especial?” perguntou com a voz oscilante.
“Se liga, Carmem. Foi só uma pentada.” Denise comentou com o celular em mãos, fazendo o rapaz a olhar frio e o motorista soltar um risinho.
“Nem sei por que ‘tô respondendo, mas a mina era legal e mostrou interesse em uma ficada.” ele respondeu.
“É tão fácil assim te pegar?” perguntou.
“Ser solteira também é requisito, miga. Fica a dica.” a ruiva comentou.
A loira não respondeu, havia fechado os olhos.
“Algum dia você pretende dizer pra ela?” Denise perguntou de repente.
“Dizer o quê?” o rapaz perguntou.
“O que sente.” falou e ele bufou.
“Essa conversa do nada…” resmungou.
“Nem vem mentir pra mim! Eu sei que você gosta dela.” apontou o dedo.
“E que diferença isso faz? Desde que a conheci, ela já tem compromisso. Eu já aceitei o fato de que seremos apenas amigos.” respondeu.
“Duvido! Você namorou com outra só pra esquecer dela.” acusou.
“Que mentira! Eu já tinha aceitado há muito tempo que seria apenas amizade, tanto que eu realmente amei a minha ex!” Nik exclamou.
“Amou tanto que acabou.” Denise disse.
“Foi ela que terminou comigo, Peste! E eu sofri pra caramba! Por que acha que abri uma loja física e me encho de coisa pra fazer? Pra esquecer que a minha vida amorosa é uma merda!” respondeu sincero.
“Se criasse coragem pra chamar a pessoa babando no seu ombro pra sair, isso mudaria.” ela comentou.
“Além de isso com certeza foder com tudo, ela está noiva e eu não curto traição.” o rapaz respondeu.
“Você sabe que as coisas são diferentes…” a ruiva lembrou.
“Mas pra mim não muda nada.” ele falou.
“Vocês são muito cabeça dura! Cruz credo!” Denise reclamou.
“Sei que não é da minha conta, mas… ser um destruidor de lares é até pecado. E ainda corre risco de apanhar do outro.” o motorista se pronunciou.
“Temos alguém sensato aqui.” Nik comentou.
“É um relacionamento aberto. E aquele frango não deve bater nem numa mosca.” a ruiva respondeu.
“O mundo ‘tá perdido mesmo.” comentou estacionando.
Após ajudar Denise a levar a agora dorminhoca Carmem, Nik foi para casa com as palavras de Denise na cabeça, mas fez questão de tentar esquecê-las.
*
Denise não estava inteiramente enganada. Cebola de fato não estava mais no Bidu, mas também não estava em casa. Pouco sóbrio, estava na sala de Cascão, deitado no chão ao lado de Mônica. Até pensou em ir para casa, mas teria problemas com os pais por voltar tão bêbado.
“E qual a sua cor favorita?” ele perguntou brincando com um coelhinho de pelúcia azul que Mônica havia ganhado no beer pong.
“Vermelho. E a sua?” ela respondeu igualmente bêbada.
“Acho que não sei.” respondeu e os dois gargalharam.
“Como era você na infância?” Mônica perguntou.
“Uma peste! Pode perguntar pro Cascão!” comentou rindo.
“Vou nada! Ele trouxe uma convidada! Mas o que você fazia?” ela perguntou.
“Quando eu tinha uns sete anos, adorava encher o saco de umas vizinhas e arrastava o Cascão comigo. Nem sei mais quem é, mas, Mônica do céu, eu fazia até planos pra irritar. Fora isso, eu falava elado.” falou e ela o olhou risonha.
“Elado?” repetiu.
“Trocava o r pelo l. Às vezes ainda acontece, mas só quando eu fico nervoso. E você? Como era na infância?” explicou.
“Irritada. Mas o povo vinha encher meu saco também! Eu até batia nos outros!” respondeu e ele riu.
“Saber se defender é importante.” comentou e ela assentiu.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, era como se o teto girasse.
“Acha que vai trocar as letras durante seus votos com a Carmem?” perguntou de repente e ele riu.
“Com toda certeza, não.” afirmou e ela riu.
“Como tem tanta certeza? Já vi muitos noivos falando que não iam sentir nada e na hora choravam que nem bebê.” comentou.
“O casamento deles tem uma coisa que o meu não tem.” falou balançando a perna.
“Ah, é… e você acha que algum dia vocês se aproximam mais?” perguntou e ele deu de ombros.
“Não sei. Acho que ela me escolheu por eu ser o tipo de cara que o pai dela gosta. Não ficaria surpreso se algum dia ela quisesse abrir a relação.” falou.
“Sério?” a morena perguntou e ele riu.
“Em algum momento, um de nós vai sentir falta de sentir alguma coisa.” falou.
“Você tem sentimentos!” apontou e ele riu.
“Sim. Até a Carmem tem, ela só não demonstra. Deve ser porque os pais dela são assim.” falou.
“E os seus?” ela perguntou.
“São amorosos e sempre dizem que possuir não é tudo na vida.” respondeu.
“Você ‘tá casando por interesse, então desviou disso.” disse sincera e ele riu.
“Conheci outro estilo de vida. Eu não nego o modo que meus pais me criaram, mas… eu quero mais. Pensando em vida profissional, quero ser como os pais da Carmem; agora em vida amorosa, como os meus.” revelou também sincero.
“Os Frufru não são essa flor que você ‘tá pensando, Cebola. Todo mundo é um iceberg.” comentou.
Os dois começaram a rir.
“Poético!” Cebola comentou.
Mônica se levantou cambaleante e pegou o coelho.
“Eu vou embora. Amanhã eu acordo cedo e vou estar de ressaca. Foi muito legal passar essa noite com você!” falou e ele riu.
“Digo o mesmo.” disse e ela deixou o apartamento.
Cebola bocejou e pegou uma almofada do sofá para encostar a cabeça. A porta se abriu e de lá entrou Timóteo.
“Deita no sofá, maluco!” exclamou trancando a porta e indo direto para seu quarto enquanto o outro se arrastava até o sofá e dormia em segundos.
*
A manhã começou difícil para os ressacados jovens. Mônica sentia a cabeça latejar enquanto preparava um café forte. Milena, por sua vez, entrou na cozinha sem aparentar um pingo de ressaca.
“A gente ‘tava no mesmo lugar ontem?” a de cabelos lisos perguntou com a voz arrastada.
“Eu dancei muito e bebi pouco. Mas você parece ter feito o contrário.” respondeu.
“Eu bebi um drink baratinho e docinho que nem batia. Quando fui ver, tinha bebido vários!” a outra revelou.
“Um dos perigos do Bidu.” Milena falou rindo.
Agnes apareceu com um olhar cansado e abatido e usando uma máscara.
“Nossa… o que aconteceu com você?” a cacheada perguntou chocada.
“Me senti mal, fui no hospital e disseram que eu ‘tava bem. Medi minha temperatura ontem e achei muito alta, então pode ser que eu esteja doente. Então decidi não colocar ninguém em risco.” respondeu..
“Mas eles não disseram que você ‘tá bem?” Mônica perguntou.
“Não sei se acredito. Saí muito esses dias, choveu e ontem fui num lugar cheio de gente.” respondeu.
“Desculpe se fiz você se sentir forçada a ir, Agnes.” Milena se desculpou.
“Não se culpe, eu podia ter negado ou não ter cometido certos erros. Bom… pedi pro Nik o resto da minha folga pra ir em outro médico agora cedo, mas primeiro… vitamina C!” falou indo pegar seu suco de laranja.
“Não me fala de fazer coisa errada. Eu bebi muito no meio da semana! Mas pelo menos beijei na boca, fazia tempo que eu ‘tava na seca.” Mônica deu um riso antes de dar um gole em seu café.
“Aos 45 do segundo tempo, eu também beijei um cara.” Milena confessou.
“Vocês conheciam bem esses caras que enfiaram a língua na boca de vocês?” a loira perguntou.
“Vou te decepcionar agora, Agnes! Eu não conhecia.” Mônica respondeu.
“Mônica… vai saber se esse cara não tem alguma doença transmissível!” Agnes temeu.
“Espero que não. Eu não costumo fazer isso, mas ‘tava bem louca. Você conhecia o seu, Mi?” falou.
“Sim. Eu nem deveria ter ficado com ele, a gente se vê sempre. Vai ficar estranho.” respondeu.
Agnes a encarou. Uma das pessoas que Milena via sempre era Cascão. Não soube o motivo, mas aqui apertou seu peito.
“Era o… Cascão?” perguntou hesitante.
Milena riu.
“Não! Eu nunca peguei o Cascão e nem me imagino pegando. Era um amigo da rampa que me dá mole.” respondeu.
Agnes suspirou aliviada, mas isso passou despercebido.
“Acho que nunca mais volto naquele Bidu! Se me dão licença, vou indo.” saiu.
“Eu vou ir pra Dream de ônibus hoje. Não tenho condição nenhuma de dirigir.” Mônica comentou e a outra riu.
X
Assim que Agnes saiu do prédio, deu de cara com Cascão um pouco cabisbaixo após se despedir de uma desconhecida que entrou em um carro.
“Você triste depois de uma noite como ontem?” observou e ele riu.
“Tava legal no Bidu, mas a problemaiada da vida afetou demais a cabeça e me atrapalhou nas coisas.” falou.
“Que coisas?” ela perguntou inocentemente.
Cascão riu um pouco sem graça.
“Vamos deixar em off, é melhor.” falou.
No mesmo instante, Cebola apareceu com os olhos sonolentos.
“Ô broxa, eu vou vazar! A mina lá te bloqueou depois daquele papo de que nunca tinha acontecido? Porque eu pisei num brinco e deve ser dela.” comentou.
“Ô sem educação! ‘Tô conversando aqui!” Cascão repreendeu.
“Ah, oi, Agnes. Mandou bem no beer pong ontem! Falou!” disse e logo tomou seu caminho.
Os outros dois ficaram constrangidos.
“Nem sabia que você tinha ido no Bidu! Espero que tenha curtido.” o rapaz se pronunciou.
“Milena não me deixou faltar, mas me diverti sim.” respondeu.
“Aí, sim!” disse e ela riu.
“Tenho que ir agora. Tenho hora marcada no médico.” falou e ele arregalou os olhos.
“Médico? Você ‘tá doente?” perguntou.
“Não, é só… baixa imunidade. Até mais.” despediu-se.
O rapaz a olhou confuso.
“Estranho. Depois vejo isso.” falou e foi para a faculdade.
Antes de começar a aula, ficou sentado em um banco usando seu celular.
“Deixa eu ver… falta quanto pra minha fatura? Porra… Tudo isso? Bem que podia surgir outro trampo que nem o da Agnes!” suspirou ao ver seu saldo bancário.
“Cascão! O Átila postou a nota! Graças ao bom pai, eu consegui uma nota boa!” um colega de sala avisou.
“Opa! Acho que fui bem. Estudei que nem condenado e achei a prova suave.” falou entrando no site onde via as notas.
Ao abrir, franziu o cenho antes de encarar o nada.
“Tudo bem, mano?” o colega perguntou.
“Eu… eu zerei…” respondeu incrédulo.
O outro abriu e fechou a boca.
“Vish… vai lá falar com ele, vai ver ele errou.” sugeriu.
“Aquele homem nunca erra nota, disso eu sei. Caralho! Eu não posso pegar DP!” exclamou apertando os olhos.
“Calma, Cascão! Vai ter outra prova ainda, vai dar pra recuperar. Mas geral costuma se ferrar nessa disciplina, aposto que vai ter trabalho, fica assim não.” o colega disse dando tapinhas nas costas dele e saindo.
Cascão respirou fundo e viu duas garotas passando e rindo ao olhar para ele.
“Foi ele.” uma delas comentou.
“Nossa… quem diria, hein?” riu continuando o caminho.
Cascão revirou os olhos, as duas eram amigas da garota que havia levado para casa e não conseguiu fazer nada, sua mente estava tão nublada que o sangue não circulou para onde precisava.
“Saldo baixo, nota baixa, piru baixo e agora a autoestima também… que porra, hein! Vou nem assistir droga de aula nenhuma.” reclamou enquanto pensava em matar a aula.
“Se bem que não é uma boa estourar em falta… se eu precisar faltar pra um trampo, fodeu… Argh!” resmungou enquanto ia para a sala de aula.
*
Carmem apertou os olhos ao sentir uma luz repentina.
“Hora de acordar, bela adormecida de ressaca.” Denise disse.
“Por que eu ‘tô na sua casa?” a outra perguntou ao perceber onde estava.
“Porque você bebeu demais. Depois tem que fazer um pix generoso pro Nik pela sua comanda cara.” falou.
“Tenho algo pra me arrepender?” perguntou levando a mão à cabeça.
“Tem! O seu noivado.” Denise respondeu.
“De ontem!” a outra completou.
“Acho que não.” falou e a loira respirou aliviada.
Carmem pegou seu celular e bufou ao ver uma mensagem.
“Ah, não… Mônica quer conversar sobre o casamento…” reclamou.
“Se não tivesse noivado, não precisaria se preocupar com isso.” a outra comentou.
“Denise, hoje não. Minha cabeça ‘tá explodindo.” a loira resmungou.
“Se tivesse noivado com o cara que ‘tava lá cuidando de você quando ‘tava dando PT e não com o cara que simplesmente sumiu, não estaria com essa dor fodida.” Denise provocou com um riso.
“Do que você ‘tá falando?” perguntou.
“Preciso dizer que quem cuidou de você não foi o Cebola e sim suas duas vozes da razão?” respondeu com uma pergunta.
“Não vamos falar de relacionamentos agora, já tivemos essa conversa. Eu tenho que ir.” disse já chamando um carro por aplicativo.
“Ah, tinha esquecido uma coisa que deve te envergonhar! Você ‘tava com ciúme da peguete do Nik.” revelou e a loira arregalou os olhos.
“O que tinha naquela bebida? Quer saber? Não vou pensar mais no que rolou ontem! Tenho que ir pra casa, tomar banho e ir pra Dream!” falou saindo rapidamente.
*
Um pouco mais tarde, à espera de Carmem, Mônica estava em sua quarta xícara de café a fim de espantar a ressaca. Naquele dia em especial, não estava sozinha, duas fornecedoras estavam consigo. Havia esquecido disso, mas, para o seu alívio, viu ter enviado um e-mail para Carmem em outro dia, então não podia dizer que ela não havia sido avisada.
“Seus clientes vão demorar mais?” uma delas perguntou impaciente.
“Acredito que houve algum imprevisto. Logo estarão aqui.” respondeu.
No mesmo instante, Carmem apareceu com um óculos de sol e um copo de café em mãos.
“Carmem! Essas são as responsáveis pelo buffet e decoração, elas quiseram falar pessoalmente com você.” Mônica apresentou.
A loira limitou-se a assentir com a cabeça.
“Olá! Por que precisavam de mim?” perguntou.
“Falamos muito com sua wedding planner, mas o aval dos noivos é importante.” uma delas disse.
“O que é tão importante então?” Carmem perguntou impaciente.
Mônica olhou constrangida para as demais, que apenas reviraram os olhos. Carmem havia atrasado quase uma hora e estava fazendo pouco caso.
“Mônica fez um pequeno levantamento com os convidados que confirmaram presença sobre eventuais alergias, então temos aqui três opções de cardápios.” a responsável pelo buffet iniciou, mostrando o slide no computador da sala.
“Já tiveram confirmações de presença?” Carmem perguntou.
Mônica franziu o cenho.
“Sim… seu prazo é curto, não teria como dar muito tempo. Eu coloquei isso na pasta do drive, você não viu?” perguntou.
“Tem pasta em drive? Ah, enfim. Pode escolher o cardápio que combinar mais.” falou com o celular em mãos.
“Podemos agendar uma degustação. Mas seria melhor que fosse sem atrasos, para ninguém ter que comer nada requentado.” alfinetou.
“Beleza.” a noiva respondeu.
“Como você me parece muito ocupada, vou apenas perguntar se deixo nas mãos da Mônica os detalhes sobre a decoração.” a outra fornecedora falou diretamente.
“Ótima ideia! Teria poupado o tempo de todas nós, afinal, contratei Mônica para isso. Mais alguma coisa?” perguntou já se levantando.
“Muitas! É difícil de falar com você, Carmem! O vestido, a dança dos noivos e padrinhos, as alianças, ensaio da cerimônia, as lembranças para o padrinhos e convidados, a daminha e pajem…” Mônica falava até a outra interromper.
“O que eu tiver que resolver, manda pra mim pelo zap. O que você puder resolver, resolva e me avise. Tenham um bom dia, senhoras.” falou saindo em seguida.
As outras três olhavam igualmente incrédulas.
“Menina insuportável! Ouvi dizer que ela ficou brava com o Grózny pelo jeito que ele tratou aquele famoso lá e trata a gente com essa falta de respeito! Hipocrisia pura!” uma delas reclamou.
“Sinto muito, meninas. Até o noivo que só ‘tá casando por interesse é mais legal que ela!” Mônica fofocou baixo e as outras riram.
“Nem conheço e já concordo. Bom, então somos nós mesmas.” uma delas disse.
“Ah, Mônica, aquela parte geek... O que faço?" perguntou e a morena teve uma ideia.
“Essa parte tem a ver com o noivo e ele é mais interessado nas coisas, posso chamar ele pra vermos isso lá na GGeek. Aproveito e falo com o Nik.” falou e elas se entreolharam.
“Alguém finalmente fazendo morada nesse coraçãozinho?” uma delas perguntou e ela riu.
“Ele é legal, mas acho que acabei com as chances disso acontecer com ele. Meninas… no dia que saí com ele, o noivo da Carmem apareceu e a gente acabou interagindo tanto que acabei excluindo o coitado.” falou.
As outras arregalaram os olhos.
“Você ‘tá tendo um caso com o noivo?!” perguntaram em uníssono, fazendo os olhos de Mônica crescerem.
“O quê? Não! Fizemos amizade, mas só isso!” explicou-se.
“Mas ele é pelo menos bonito?” perguntou e Mônica deu um risinho.
“Ah… eu acho. Mas não só isso, também é inteligente, legal, bom de papo… enfim, Carmem deveria valorizar mais.” comentou e as outras sorriam maliciosas.
“Olhe bem o que faz, hein, dona Mônica!” alertaram e ela riu.
“Tão me confundindo? Agora ao trabalho!” falou antes de voltar alguns slides.
*
Do Contra não sabia ao certo se sua noite de sono havia sido boa ou não. Havia tido um sonho maravilhoso, onde fazia o melhor show de sua vida com sua banda mais viva que nunca e era recebido por um beijo apaixonado após os aplausos fervorosos, porém, o problema estava na pessoa que o beijou: Milena, a fotógrafa que havia desejado os lábios na noite anterior.
Deitado em um palco de madeira e encarando as luzes no teto, tentava entender seus próprios sentimentos, e negá-los.
“Até o mais carente dos homens não pode ser tão emocionado assim! Eu nem sei se ela é solteira! Mas mesmo que seja, uma profissional feito ela jamais toparia alguma coisa… Por que eu ‘tô pensando em alguma coisa?!” exclamou.
“Tenha dó! Ela só me chamou pra dançar por eu ser um deslocado no bar e só aconteceu de ela ter um sorriso muito bonito. O que eu ‘tô falando?!” repreendeu-se.
A pessoa que apenas o ouvia gargalhou.
“Por que está falando da sua vida amorosa com sua ex?” perguntou.
“Que vida amorosa, Isadora? Não existe nada entre ela e eu! E… você me conhece bem, achei que seria uma boa ajuda.” respondeu.
“Você deu sorte que já me acostumei com suas estranhezas e falta de senso. Acho que você ‘tá a fim dela.” respondeu simples.
“Como? Eu conheço ela há pouquíssimo tempo! E… a gente nem pode ir além da relação profissional.” exclamou.
“Desde quando você segue convenções?” perguntou.
“Este caso é diferente. O porra do supervisor dela já enche o saco, eu odiaria ferrar pra ela! Nem devo estar a fim… deve ser só… a euforia de conhecer alguém que me dei bem de cara ou a energia do Bidu… aquele lugar é enfeitiçado!” exclamou e ela riu.
“Por que você se nega tanto a aceitar que pode sim estar apaixonado? Nem todos demoram anos, DC. Certas conexões são mais instantâneas.” falou.
“Ela é legal com todo mundo, vai ver comigo também é só isso. E não quero comprometer nosso trabalho, ainda tem o resto do mês pela frente. Eu vou superar isso. Eu bebi uns goles de drink, então… deve ter sido o álcool, aquelas luzes, a cabeça rodando por causa da dança… o batom vermelho, quer dizer, o borrão vermelho das luzes.” falou e a loira gargalhou.
“É claro… Um conselho: relaxa. Sendo momentâneo ou não, sentir atração é uma coisa normal do ser humano.” falou e ele suspirou.
“Eu sei, mas… é complicado.” falou e ela riu.
“Sim. Vamos lá, já que está aqui, me ajuda com a arrumação. Como anda o mini doc?” perguntou.
“Tava indo bem até meus pais descobrirem e decidirem se enfiar nele. Milena vai sair traumatizada desse trabalho.” comentou e Isa riu.
“Quero muito dar um rolê com ela algum dia. Algo me diz que a gente se daria bem.” ela disse.
“Você me deu uma ideia!” exclamou animado.
*
Nikolas respirou fundo quando finalmente conseguiu se sentar. O movimento havia sido intenso. Carmem não demorou para aparecer ao lado de Denise.
“É de Frango.” a loira disse entregando a ele uma embalagem de lanchonete.
“Valeu! Sozinho aqui fica difícil de beliscar alguma coisa.” agradeceu e ela se escorou no balcão.
“Cadê a senhorita TOC?” Denise perguntou.
“Agnes, o nome dela. E ela ‘tá de atestado.” respondeu enquanto mordia seu salgado.
“Acreditam que a Mônica quis fazer reunião pra falar de coisa que é o trabalho dela fazer? Tinha até chamado umas fornecedoras pra eu decidir coisa.” comentou.
“E o que você fez?” ele perguntou após uma mordida.
“Sem querer, acabei atrasando um pouco, mas não dei muita atenção pro que elas queriam, eram umas escolhas que eu não ‘tava a fim de fazer com a cabeça latejando.” falou.
“Um pouco quanto?” o rapaz perguntou.
“Sei lá… acho que uma hora.” respondeu e os dois arregalaram os olhos.
“Uma hora? Escrota você, hein?” Denise comentou e a outra cruzou os braços.
“Por quê?” perguntou.
“Ué? Além de não ter colaborado pra uma coisa do seu casamento, fez elas esperarem uma hora! Botou o pé no trampo delas, Carmem. ” Nik falou.
“Era trabalho de outra pessoa e eu estava com dor de cabeça!” defendeu-se.
“Podia ter falado isso pra Mônica. Certeza que ela dava um jeito.” a outra disse.
“Você pode até não levar casamentos a sério, mas a equipe leva. Ainda mais o da filha do chefe que vai acontecer em menos de um mês.” o amigo disse.
A loira suspirou pensativa.
“É… eu podia ter mandado mensagem.” comentou e os dois assentiram.
“A princesa vai ter que pedir desculpas.” Denise disse.
“Eu vou! Vou usar seu banheiro, Nik.” Carmem falou.
“Vou com você! Tenho que lavar as mãos.” Denise a acompanhou.
Nik ainda comia quando, de repente, Mônica e Cebola entraram aos risos.
“Oi, Nik! Tudo bem? Como anda a ressaca?” a moça perguntou sorridente.
“Não tive ressaca, bebi pouco. Cebola, deixou tua noiva sozinha e vazou? Coisa feia.” comentou e o outro riu.
“Eu ‘tava tão bêbado que nem lembro como cheguei no apê do Cascão.” respondeu.
“Viemos ver as coisas da decoração do casamento. Eram figures actions e HQ. Aquilo do ilustrador, eu entrei em contato e ‘tá sendo feito. Que figure action tem seu coração, Cebola?” Mônica perguntou.
O rapaz olhou em volta.
“Vou ver o que tem por aqui.” falou.
Enquanto ele olhava, a moça se aproximou do dono da loja.
“Nik, eu… até hoje fico sem graça pelo que rolou no boliche. Você é um cara tão legal e eu ignorei isso.” comentou e ele riu terminando de comer.
“Reconheço que certos jogos roubam a atenção.” falou limpando a boca com um guardanapo e ela colocou uma mecha de cabelo para trás.
“Estou tentando ser menos workaholic. Se quiser jantar comigo no sábado à noite… eu daria toda a atenção dessa vez.” convidou-o.
Nik se surpreendeu, não esperava um convite.
“Ah… acho que estou livre no sábado.” aceitou incerto.
Cebola ouvia a conversa com o cenho franzido.
“Esse cara deve ter mel na calça…” balbuciou.
De súbito, um som de garganta sendo limpa ecoou. Lá estavam Carmem e Denise.
“Reunião?” perguntou irônica.
“Coisas do casamento de vocês. A decoradora que você não deu atenção falou sobre as figures actions. Como era parte do Cebola, achei justo ele escolher.” Mônica explicou.
“Cara… seria tão foda uma do Batimão ou do LOL...” Cebola comentou.
Denise gargalhava enquanto Carmem franzia o cenho.
“Cebola, de verdade, desiste de colocar esses bonequinhos!” a loira exclamou.
“Figure actions.” ele corrigiu.
“Bonequinhos, figure actions, foda-se! Vai ficar horrível com o resto da decoração!” ela reclamou.
“Depende de como é arrumado, Carmem.” Mônica lembrou.
“Não quero isso no meu casamento!” a loira exclamou.
Cebola revirou os olhos. Por mais que também não se importasse com o casório, queria ao menos ter algo de divertido no dia.
“Pera lá, Carmem, você que escolheu todo o resto! Não era pra ser a cara dos dois?” rebateu.
“Tem os quadrinhos. Bonequinho vai ficar brega!” a noiva exclamou.
“Mais que o brilho? Eu duvido!” Cebola retrucou.
“Você ‘tava lá na hora que foi decidido, podia ter opinado com mais convicção.” ela apontou.
“Como? Você inventa um casamento do nada com um prazo ridículo e espera que eu tenha reação? Até agora estou processando tudo que aconteceu e vai acontecer.” o rapaz retrucou.
“Você aceitou!” Carmem lembrou.
“Eu ‘tava sob pressão!” Cebola exclamou em resposta.
“Vai voltar atrás, Cebolácio? Esse é o momento.” a loira cruzou os braços.
Cebola se calou, percebendo que havia perdido a cabeça. Lembrou-se de seus objetivos e limpou a garganta.
“Não é assim também, é que… é muita coisa de uma vez.” consertou.
Os demais apenas observavam até Mônica decidir intervir.
“Gente, é normal se sentir estressado durante o noivado. Então vocês precisam relaxar. Que tal uma festa de noivado? Até hoje vocês não fizeram.” sugeriu.
“Essa daí quer mostrar trabalho, hein?” Denise sussurrou para Nik.
“Ela está sendo profissional.” ele respondeu também em um sussurro.
“Eu queria fazer isso já, mas outras coisas ganharam prioridade e esqueci. Mas acho uma boa ideia.” Carmem disse.
“Acho bom também. Talvez seja até o local pra já presentear os padrinhos.” Cebola disse.
“Finalmente estamos falando de algo bom! Eu, a voz da razão/melhor amiga/madrinha dessa desmiolada, mereço um presente bom!” a ruiva disse.
“Relaxa. Que dia fica melhor?” Carmem perguntou.
“Que tal no sábado agora? À noite? Ninguém corre o risco de ficar morrendo em algum compromisso que nem hoje.” Cebola sugeriu.
“No sábado agora? Eu tenho…” Nik dizia até o noivo cortá-lo.
“A presença dos padrinhos é indispensável! E da nossa wedding planner também, pra também ver o perfil dos convidados.” falou.
Mônica e Nik se entreolharam, cedendo.
“Tá…” ela falou.
“Ótimo! Não marquem nada para sábado à noite!” o noivo pediu risonho.
Nikolas o olhou sem entender, mas preferiu não comentar.
“Bom, então fechamos a festa de noivado. Escolheu as figuras, Cebola?” Mônica perguntou.
“É melhor deixar só os quadrinhos. Se me dão licença, tenho que ir agora. Até mais, pessoal!” Cebola disse saindo em seguida.
“Vou nessa também, tenho coisas pra fazer na Dream. Obrigada, Nik! A gente pode ver aquilo outro dia.” Mônica agradeceu e também saiu.
“Vai insistir no erro e sair com a pessoa que te ignorou?” Carmem perguntou ao amigo.
“Você ‘tá indo se casar por causa de uma competição.” rebateu e Denise riu alto.
“Agora ele te pegou!” ela comentou.
A loira deu de ombros.
“Depois não adianta chorar. Vamos, Denise, temos unha marcada. Tchau, Nik.” despediu-se.
Denise acenou ainda rindo e acompanhou a amiga.
Nikolas respirou fundo.
“Será que esse encontro é uma boa ideia?” questionou-se.
*
Agnes estava deitada em sua cama enquanto encarava o teto.
“Não é possível que os três médicos disseram que ‘tô bem!” exclamou.
De repente, sua campainha tocou. Estava sozinha, então ela mesma tinha que ir. Ao abrir a porta, viu ser Cascão com uma sacola em mãos.
“Oi, Cascão! Aconteceu alguma coisa?” disse ajeitando sua máscara facial.
“Fiquei preocupado com a ida ao médico. ‘Tá tudo bem?” perguntou e ela riu.
“Nada demais. Não se preocupe.” respondeu.
“Vou confiar. Te trouxe um suco de cenoura com beterraba, é bom pra imunidade. Relaxa que não fui eu que fiz, foi comprado num lugar confiável.” entregou a sacola.
Agnes se surpreendeu com o gesto.
“Obrigada… eu… você quer entrar?” perguntou e ele negou.
“Não, tenho um trampo agora. Foi só pra isso mesmo. Melhoras, Agnes! Precisando, sabe onde me achar.” desejou e logo saiu.
Agnes fechou a porta com uma interrogação na cabeça.
“Isso foi… estranhamente fofo.” comentou antes de olhar o suco e sorrir, sentindo-se acolhida.
Aquilo a fez lembrar de Sofia, ainda não havia falado com ela. Diante disso, pegou seu celular.
“Oi, Sofia! Tudo bem? Soube que voltou de viagem. Quer vir aqui no sábado pra… pra jogar conversa fora?” enviou um áudio e se surpreendeu pela resposta rápida.
“Vai ser um prazer.” leu e acabou sorrindo.
O tempo pareceu passar mais depressa depois daquilo. Em um piscar de olhos, o sábado havia chegado, recheado de momentos importantes.
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