Almas Trigêmeas
36 Otelo 4ª parte - Final
Notas iniciais
Anteriormente:
– Então, quem é você? – perguntou Sam amarrado na cadeira
– Eis uma dica – o homem se sentou defronte ele – Eu estava na Alemanha, depois na Alemanha, depois no Oriente Médio... Estava em Darfur quando meu Pager apitou. E vou sair com os meus irmãos. Eu tenho três – enumerou nos dedos – Vamos nos divertir muito.
(...)
– Como assim, Dean? – perguntou Sam intrigado.
– A Victoria não teve intenção de abortar, mas mesmo assim houve um aborto... e ela se sente culpada pelo o que aconteceu. E esse Vingador, esse demônio se alimenta disso. Ele se alimenta da culpa das mulheres que tiveram um aborto, não importa se foi intencional ou não. Aliás, todos os Tormentos que eu vi no inferno, o que dava força a eles eram os sentimentos ruins mais profundos que extraíam de suas vítimas.
(...)
– Pois é, maninho. Então desencane – ele se aproximou e deu um tapinha amigo no ombro do irmão – Espero... mesmo que você e a Vic se acertem. Vai ser interessante ter ela... como cunhadinha.
O sorriso de Dean se alargou mais ainda e ele riu da própria piada. Ainda que uma parte de Sam não se convencesse da aceitação do loiro, ele se sentiu aliviado pelo irmão apoiá-lo.
– Tá certo – ele também sorriu – Fico feliz por você concordar.
– Sam – Dean o encarou sério – Só tome cuidado. Não deixe que ninguém a machuque.
– Certo – ele concordou – Eu vou protegê-la de qualquer coisa, até do Diabo se for preciso.
(...)
– Eu só queria dizer que espero que dê tudo certo para vocês dois. Quero que entenda que se fui contra o relacionamento de vocês foi por temer pela segurança dela. Ela... é como uma filha pra mim.
– Eu sei.
– Mas você também é como um filho pra mim. E eu quero que você seja muito feliz, o máximo possível para um caçador.
– Obrigado, Bobby – o moço sorriu comovido – Significa muito pra mim ouvir isso de você.
– Só prometa que vai tomar cuidado e que vai protegê-la mais do que nunca. Bom... er... pelo menos, tentem sair vivos do combate de amanhã.
– Eu prometo. A Vic não vai terminar como... a Jess. Isso eu garanto, não importa o que eu tiver que fazer.
(...)
– Eu só não entendo porque esse Tormento afetaria o Sam já que ele é o receptáculo de Lúcifer.
– Pelo que o Vingador dos Anjinhos nos disse, o Tormento do Guerra queria se vingar de mim e do Sam por termos matado seu chefe.
– Você acha que esse é o Tormento do Guerra?
– Espero que sim se isso significar que é o último pra gente lidar. Porque se são quatro cavaleiros, então são quatro Tormentos. E se ele está mesmo zangado... pode ser que faça o Sam me matar e a você também e... aí na última hora livra o Sam do feitiço.
(...)
– Eu não te abandonei, Sam. Jamais faria isso. E muito menos te trairia com Dean ou qualquer outro homem. Você não está pensando com clareza porque... você também foi afetado como os outros.
Ela teve o cuidado de escolher bem as palavras por causa das pessoas à volta, embora não se importasse que presenciassem a cena. Mas Sam compreendeu. Por instantes, parou de se debater.
– No fundo você deve saber a verdade. O seu ciúme por mim não é normal. É... isso que está provocando tudo.
Capítulo 35
Otelo (4ª Parte) — Final
– Posso lhes garantir, senhores, que minha empresa nada a tem a ver com tais crimes.
Afiançou um homem na faixa dos quarenta anos, porte elegante, moreno claro, um perfil muito belo.
Era o presidente da Alliance Empreendimentos e estava sentado à escrivaninha de seu escritório. Não se poderia dizer que fosse um lugar amplo e luxuoso porque a empresa ainda era pequena, mas era bem arejado e apresentava certa sobriedade com um toque de elegância.
Os belos olhos azuis do empresário vagueavam de um para o outro de seus interlocutores, detendo-se sobre o segundo com acentuado interesse. Victoria.
– A questão, senhor Carmichael é que... – começou Vic
– Pode me chamar de Irving. – interrompeu com um insinuante sorriso.
Dean revirou os olhos.
–A questão, Irving... – Victoria fez uma pausa e devolveu o sorriso –... É que todos os crimes estão relacionados com lugares onde sempre tinha algum funcionário seu. Aliás, pelo que podemos investigar essa onda de crimes passionais começou... desde que sua empresa se instalou na cidade.
– E a que conclusão chegou, senhorita... Plum? – ele continuava sorrindo, embora estreitasse os olhos.
–É isso que queremos entender. Nós... estamos investigando todos os ângulos possíveis até chegar a uma conclusão definitiva.
– Espero que não cheguem à conclusão errada de que meus empregados estão incitando esses crimes por ordem minha. Isso seria, no mínimo, um absurdo.
– Cara, eu não sei quanto a vocês, mas... estou com uma sede daquelas – interrompeu Dean se esticando na cadeira
– Perdão... Me desculpem pela falta de atenção – Irving fechou os olhos numa clara demonstração de constrangimento – Fiquei tão surpreso com... a visita dos senhores que esqueci de pedir à minha secretária que lhes trouxessem café e água.
– Não, obrigado, não se incomode. – o Winchester o interrompeu com um aceno da mão e tirou uma pequena garrafa de metal da bolsa – Eu sempre trago comigo pra uma emergência.
Destampou o recipiente e sorveu um gole.
– Claro. É bom ser precavido – concordou o empresário mal disfarçando seu desagrado pelos modos do suposto federal.
Collins reprimiu um riso.
– E a senhorita? – indagou Irving se voltando para ela. – Deseja algo?
– Não, obrigada.
– Há mais alguma pergunta que queiram fazer?
– Não, já acabamos.
– Nesse caso, me desculpem, mas vou ter que dispensá-los – declarou o empresário e levantou-se – Tenho muitos negócios para resolver.
– Não se preocupe, Irving, nós entendemos. Desculpe-nos por tomar seu tempo.
– Que isso, senhorita Plum. Foi um prazer – esboçou um sincero e galanteador sorriso.
– Obrigada por sua atenção – ela estendeu a mão para cumprimenta-lo. Ele a pegou e beijou o dorso.
– Voltem se precisar.
Mas a sentença era mais dirigida a Collins com outro significado. Ele ainda segurava a mão dela.
– Claro
Ela soltou a mão com delicadeza.
– Até mais, senhor Castle – disse o empresário estendendo a mão para Dean com um forçado sorriso.
– Até.
Dean apertou a mão do homem, porém, derrubou o líquido da garrafa em cima de sua camisa.
Irving recuou pelo movimento inesperado e pegou na parte molhada. Contudo, não esboçou nenhuma reação explosiva.
– Cristo! – exclamou Dean – Me desculpe. Sou mesmo um desastrado. – o Winchester fez uma expressão de lamento, não muito convincente. – Por favor, me deixe te ajudar a secar essa bagunça.
– Não, tudo bem – Irving o afastou com a mão ostentando o sorriso forçado – Acidentes acontecem.
– Tem certeza?
– Tenho – alterou um pouco o tom de voz, mas continuava com expressão simpática e tratou de tirar um lenço do bolso para se enxugar – Então... até mais.
– Até... E me desculpe.
Irving acenou com a cabeça ainda com o sorrisinho.
Após fecharem a porta e passarem pela secretária, Dean comentou no corredor com um sorriso convencido:
– Sou um perfeito ator, não?
– Sim. Você seria bom pra comédias – Vic soltou um leve riso – De qualquer jeito, comprovamos que o presidente da empresa não é nosso Tormento. A não ser que seja um tipo especial de demônio que resiste à água benta e a ouvir o nome de Cristo.
– Acredito que não, mas... que droga! Eu tinha tanta certeza que devia ser ele. Sempre os chefões estão por trás desses esquemas.
Eles desciam a escada que os levaria à portaria principal da empresa. À distância, Vic reconheceu Leoanard Hanks, o gerente dos funcionários da firma que trabalhavam no hotel Love Paradise. Ele caminhava para uma porta de um setor qualquer.
– Hum... Pela nossa experiência com Tormentos, eles podem ser qualquer um. – comentou ela de olho no gerente – Mas... podemos testar outros chefões menores.
– 0-
–Este homem está hospedado aqui? – indagou Sam batendo com força no balcão ao colocar uma foto de Dean sob os olhos do recepcionista com a cabeça debruçada sobre uma revista pornô.
O Winchester não perderia tempo em indagar sobre o verdadeiro nome do irmão, afinal, como ele e Victoria, Dean devia ter indicado um nome falso. Mas precisava saber se ele ainda se encontrava ali.
O recepcionista era um sujeito claro, com um longo cabelo preto e anelado que ia até os ombros e um topete no alto da cabeça; olhos negros e cansados e expressão de tédio. Era magro, mas os braços eram musculosos indicando que malhava. Um deles mostrava uma tatuagem grande de um dragão verde.
Ergueu seus olhos da revista o mínimo possível para encarar seu interlocutor. Fitou-o sem o menor interesse. Mascava um chiclete.
– Pode ser. Aqui vem tudo quanto é tipo – replicou com voz enfadonha
–Está ou não está?
– Sei lá – deu de ombros – Talvez.
O Winchester estreitou os olhos e comprimiu os lábios. Isso fez o recepcionista abandonar um pouco sua postura reticente. Teve a impressão de que o “gigante” à sua frente não era alguém com quem quisesse se envolver em problemas.
– Er... Me lembrei que ele se hospedou sim.
– Em que quarto?
– Olha... essa informação não posso dar não, meu chapa – viu o brilho no olhos de Sam – Mas de qualquer jeito, ele não tá lá agora não. Tem um tempinho que saiu – apressou-se em dizer.
– Saiu sozinho... ou acompanhado?
– Saiu... e muito bem acompanhado por sinal – alargou o sorriso ao se recordar de Victoria. – Pô, cê tinha que ver a modelo que saiu com ele. Gostosa é pouco pra descrever a mina.
Sam teve que se segurar para não esmurrar o sujeito. Havia coisas mais importantes a fazer.
– Quero a chave do quarto onde ele está. – exigiu
– Cara, já falei... Seu amigo saiu.
– Não importa! – gritou Sam – Quero a chave! Agora.
– Peraí, mano... – o sujeito ia protestar, mas se calou.
Sam levantou a espingarda de cano duplo que até o momento estava abaixada. O sujeito engoliu a saliva e arregalou os olhos.
– Me dê... a.... maldita... chave – Sam pronunciou a sentença pausadamente
– C... calma... irmão. Calma...
– Anda! Não vou pedir de novo!
Imediatamente, com as pernas trêmulas, o rapaz virou o corpo de lado – mas não totalmente, pois temia um tiro nas costas – e tirou a chave original de uma das muitas pequenas caixas do compartimento de madeira que guardava diversas chaves. Com a mão tremendo, entregou o objeto para Sam.
– É... o quarto 207... no... segundo andar – contestou mal respirando.
– Obrigado – retrucou Sam com sarcasmo ao pegar a chave num movimento rápido. O homem quase pulou ao sentir a ponta dos dedos do Winchester. – Não preciso dizer pra não avisar a polícia.
– N... não, claro que... não – o indivíduo soltou um riso sem graça – Polícia?
– Só quero conferir sua informação e algumas coisas. Depois vou embora. Não sou ladrão ou algo do tipo
– Certo – o homem assentiu nervoso várias vezes.
Sam lhe deu as costas e foi-se. Ouviu um suspiro de alívio. Sua recomendação para o outro de não chamar a polícia era desnecessária, pois o homem, digamos que, no mínimo, não era do tipo que se enquadrava na categoria de um cidadão respeitável.
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Após o expediente de mais um dia de trabalho, Leonard Hanks entrou assobiando em seu carro no estacionamento da empresa. Mal conseguia esconder um sorriso de satisfação no rosto. Mas seu sorriso morreu quando ao dar partida no veículo, este simplesmente não saiu do lugar.
O estranho era que o motor do carro estava roncando, porém, o automóvel simplesmente permanecia parado.
Raios! O que estava acontecendo?, praguejou mentalmente
Resolveu verificar se havia algo no pneu ou talvez alguma coisa que estivesse segurando o carro (talvez uma corrente atrás, brincadeira de moleque). Abriu a porta. Mas não conseguiu sair.
Que merda era aquela?
Tentava ultrapassar a abertura da porta, mas era como se uma força invisível o retivesse. Paralisou. Sentiu uma respiração atrás de si. Antes que se virasse, alguém havia colocado rapidamente uma espécie de coleira em seu pescoço.
– Mas o quê...? –
Ele tentou arrancar o acessório com as mãos, porém, de forma ágil, Dean conseguiu prendê-las nas algemas mesmo estando no banco de trás.
– Ei, seu maluco, o que pensa que está fazendo? – Hanks praguejou. – Solte-me ou vou gritar por ajuda.
– Poupe seu fôlego, demônio. Já descobrimos quem é você.
– Não sei do que você está falando e nem sei quem você é.
– Ah, sim, você sabe muito bem quem eu sou. E se você sabe, pode adivinhar porque não conseguiu arrancar esse carro e nem sair dele.
Os olhos do homem se enegreceram.
– Armadilha de demônio.
– Ah, agora sim, você tá falando a minha língua. –ele deu tapinhas “amigáveis” no pescoço da criatura – Ah! E só pra te poupar o fôlego, não perca seu tempo tentando tirar essa coleira e as algemas. Elas também estão com o pequeno símbolo da armadilha gravado nelas
Hanks xingou o Winchester numa língua desconhecida.
– Que modos, hein? Bem, é melhor eu chamar minha parceira pra tomar parte na brincadeira.
Ele fez sinal para Victoria que estava escondida atrás de outro carro a alguns metros. Ela correu até eles, desfez com a faca um pedacinho da armadilha oculta sob o carro, abriu a porta e entrou pelo lado do motorista. Empurrou o demônio, obrigando-o a se deslocar para o banco de passageiro.
– Vá pra aí, seu monstro! – disse ela com desprezo – E não tente nenhuma gracinha. Como se você pudesse... – acrescentou com sorrisinho cruel.
O demônio, porém, devolveu com um sorriso mais perverso o qual não agradou a Vic
–Ah, minha cara, eu já fiz minha gracinha com vocês. Sam que o diga!
A fúria se apossou de Collins e ela acertou de lado o rosto de Hanks com a mão fechada.
– Desgraçado! – esbravejou e começou a esmurrar o demônio que se encolheu, mas se ria dela.
– Pare! Chega, Vic! – Dean precisou segurá-la pelos braços – Aqui não! Alguém pode nos ver! Dê a partida.
Collins ainda tremia de raiva. Leonard a fitava com olhos zombeteiros e um sorriso de escárnio
– Vamos logo, Vic! Estamos perdendo tempo. – insistia Dean
Ela assentiu sem emitir nenhuma palavra. Deu a partida com os olhos chispando fogo sobre a criatura, virou de frente, suspirou e tirou-os dali.
De uma das janelas da empresa, uma mulher loira de olhos verdes observou o que se passava. Seus olhos ficaram pretos.
– 0 –
Lágrimas quentes escorriam dos olhos de Sam. Ele observava o quarto de Dean à procura de evidências da infidelidade dele e de Victoria.
A prova estava ali nos lençóis desarrumados, na cama bagunçada. Dean e Vic haviam transado!
Era essa conclusão simplista a que sua mente chegou sem se deter sobre a maleta de primeiros socorros que ainda estava sobre a cômoda que indicava o verdadeiro motivo deles terem estado por lá. Sua perturbação era tão grande que se esquecia de que arrumar a cama não era a atividade favorita de seu irmão.
A dor em seu peito era enorme. Ele sentia dificuldade de respirar. De que lhe valia a vida se não tinha mais Victoria? Se ela não o amava mais? Se ela havia preferido ficar com seu irmão?
Suas mãos apertaram a espingarda com fúria com o cano encostado na cabeça e entre suas pernas dobradas. Estava ali sentado sobre o chão com a cabeça baixa não sabia a quanto tempo. Não se importava com o estado do lugar e nem com o seu fedor. Só queria, precisava encontrar Dean e Victoria e feri-los da mesma forma que haviam ferido a ele.
Só que não tinha a menor ideia de onde estavam e quanto mais tentava pensar nisso, mais lhe vinha à mente imagens dos beijos deles, das carícias, de seus corpos nus, dos gemidos que Dean havia arrancado de Victoria.
Dor. Ódio. Tristeza. Mais dor. Mais ódio, Mais tristeza.
Seu celular começou a tocar. Ele o pegou na hora. Com certeza era o filho da mãe de seu irmão. Só podia ser. Era raro Bobby ou Cass ligarem.
Ele olhou o visor e a tela confirmou sua suposição. Já tinha todas as acusações e ameaças na ponta da língua contra Dean. Antes que apertasse a tecla, refletiu. Não adiantaria nada se descontrolar, isso dificultaria as coisas para ele. Resolveu se acalmar. Fingir que estava tudo bem. Só assim poderia conseguir saber onde estavam e encontra-los.
– Fale, Dean – respondeu numa voz sombria, mas controlada
– Sam... você está bem? – indagou com cautela.
Pergunta idiota, sabia. Claro que seu irmão não estava bem, preso numa paranoia infernal criada por um Tormento. Dean podia compreender o que se passava com ele, talvez não o sentimento, mas a intensidade de se sentir a pior criatura do mundo que preferia a morte. Dois Tormentos haviam deixado aquele lembrete constante nele.
– Você sabe que não – Sam resolveu admitir. Negar geraria desconfiança no irmão. – Mas pensei no que... a Vic me disse. Eu não estou bem, algo está me afetando. É o Tormento, não? O mesmo que está agindo contra essa cidade.
– Isso, Sammy! Que bom que você ainda está tentando manter a cabeça no lugar!– exclamou Dean sem perceber de imediato o blefe – Escute, a Vic e eu pegamos o maldito filho da mãe que está bagunçando a sua cabeça.
– É mesmo? – Sam se fez de interessado
– É. E... você sabe que a única maneira de se livrar da influência de um Tormento é você mesmo enfrentando a fera.
– Vocês descobriram como eu devo destruí-lo?
– Sim e não. O Cass nos ligou falando como... mas não explicou direito. Ele estava no Tibete... sabe... buscando uma pista pra tentar encontra Deus, mas a droga da ligação caiu... e nem ele nem a gente conseguiu contato.
– E o que ele disse?
– Disse que... o atormentado... a pessoa que estiver sob a influência do demônio tem que nascer de novo pra matar o desgraçado. Eu tô quebrando a cabeça pra entender o que ele quis dizer. Nem mesmo a Vic conseguiu descobrir. Te sugere algo?
– Não, mas... posso pesquisar algo.
– Faça isso.
– Onde vocês estão?
A pergunta crucial. A que esteve se segurando para fazer somente no momento adequado. Notou certa hesitação de Dean do outro lado da linha.
– Ei, Dean, não vai me dizer? Você mesmo não falou que sou eu que tenho que mata-lo depois que resolver a charada de como fazer?
–OK– concordou o Winchester – Estamos num matagal no meio do nada pra evitar a presença de curiosos. Anote aí.
Sam largou a espingarda, levantou-se com mais ânimo e tentou achar algum papel e algo que escrevesse no meio das coisas do irmão.
– Pronto, Sam? – tornou ele – Posso falar?
– Pode – disse Sam ao achar um bloco e um toco de lápis numa mochila. Começou a anotar as indicações de Dean – Certo, Dean. Daqui a pouco eu encontro com vocês.
– A gente te espera – fez uma pausa – Sam, por favor, não se deixe levar pelas ideias erradas que sua mente tentar te provocar. Eu e a Vic já passamos por isso. Os Tormentos sabem bem como mexer com a nossa cabeça. Você sabe bem lá no fundo que estou dizendo a verdade.
Sam apertou o aparelho com fúria ao ouvir as palavras “Eu e a Vic”. Além da colocação errada, era irritante o modo como eram pronunciadas por Dean e o significado que ganhavam.
Eu e a Vic. Como se já fossem um casal. Miseráveis!
Contudo, Sam se conteve e apenas disse:
– Tudo bem, Dean, eu entendo.
– Então... até daqui a pouco.
Desligou. Sam crispou os olhos.
Era óbvio que aquilo era só uma encenação para enganá-lo. Talvez houvessem capturado um demônio qualquer para fazê-lo acreditar que era um Tormento que o estava dominando e, assim, desviar suas suspeitas.
Mas ele não era burro como queriam fazê-lo passar. Havia descoberto a farsa deles antes mesmo de encontra-la. Seu olhar convergiu para a espingarda no chão.
Agora sim. Eles vão me pagar.
– 0 –
– Falou com ele? – inquiriu Victoria
– Falei – respondeu Dean caminhando até onde ela estava.
Como havia dito a Sam, encontravam-se no meio de um matagal alto cujo centro havia um espaço aberto. Levaram o Tormento para lá a fim de destruí-lo sem a presença de testemunhas que pudessem os delatar como assassinos de um “homem inocente”.
Hanks estava ajoelhado com as mãos sobre as coxas. A coleira e as algemas ainda o prendiam e limitavam seus movimentos e poderes. Mesmo assim, sua cabeça estava erguida numa postura de desdém.
– E... o que você achou? Ele ainda está zangado? – tornou Collins.
– Parecia mais calmo – disse meio incrédulo – Mas... pode ser um blefe pra tentar nos encontrar. Quem sabe? De qualquer jeito, a gente tem que arriscar. Sam é o único que pode acabar com isso. Falei a ele sobre a instrução do Cass.
– Estão perdendo seu tempo. O ciúme do Sam é mais forte do que qualquer pensamento racional que possa vir a ter – avisou Hanks e suspirou com falso lamento – Pobrezinho!
– Me empreste a faca, Dean – pediu Vic num sussurro reprimido de raiva.
O caçador emprestou o objeto sem questioná-la.
Victoria se aproximou de Hanks e desferiu um chute em suas costas que o fez cair curvado para frente. Depois, pegou a lâmina especial, puxou a cabeça dele para trás e enfiou em seu pescoço.O instrumento atravessou a garganta do demônio que apertou os dentes, mas não soltou nenhum ruído. Dean, impassível, apenas observava a cena.
O Tormento riu apesar da dor que a faca lhe causava.
– Sua tola! Isso não pode me matar. – disse com a voz esganiçada por causa do objeto em sua laringe.
– Eu sei que não. – a voz da caçadora saiu num tom falsamente doce. Seus lábios estavam próximos de um dos ouvidos do Tormento – Mas sei que isso dói em você. E é o suficiente pra me deixar um pouco satisfeita. Só um pouco! – elevou o tom de voz – Porque não compensa o que você está fazendo com meu namorado, seu filho da mãe!
– Vic, deixe pra lá. – sugeriu Dean numa voz monótona, apesar de gostar de ver Collins golpear o demônio (coisa que também adoraria fazer) – Não lhe dê esse gostinho.
Collins retirou o objeto do pescoço dele e afastou-se. Precisava se controlar. Não adiantava mesmo o que estava fazendo. Só ia se desgastar perdendo as estribeiras com a criatura.
Hanks pigarreou por alguns instantes. Alternou seu olhar entre Dean e Victoria com expressão curiosa.
– Como vocês adivinharam que eu estava nesse corpo? – inquiriu
– Não foi muito difícil, é claro que não acertamos de primeira – replicou Dean com sorriso maroto – A gente sacou que a firma tinha muito a ver com as mortes. Tudo conferia... os funcionários presentes nos lugares das cenas dos crimes, o fato de serem vocês a oferecerem seus serviços e também vocês terem se instalado pela cidade na mesma época em que o Diabo saiu lá de baixo.
– Hum... é claro que eu sabia que cedo ou tarde vocês chegariam a essas conclusões, mas ainda assim não responde à minha pergunta.
– Calma que já estou chegando lá – disse como se explicasse a uma criança – Já que uma empresa estava envolvida, havia alguém mexendo seus pauzinhos por trás. Então só podia ser o presidente... foi nossa primeira conclusão. Mas... fizemos o teste pra ver se ele era um demônio e é claro ele não passou. Daí a Vic te viu por lá hoje e lembrou que você mandava no seu pessoal lá no hotel em que ela está com o Sam.
– O raciocínio de Dean de que o chefão estava por trás disso não era completamente errado. – Vic tomou a palavra – Você não é o chefão da empresa, mas um dos chefes, pelo menos da supervisão no hotel. Investigamos os arquivos sobre seu receptáculo lá mesmo na firma e descobrimos que ele é tio do presidente por parte de mãe. Não foi difícil deduzir que você sugeriu a ideia desse negócio para o Carmichael. Influenciar as pessoas em suas casas ou comércio através dos funcionários... Que melhor maneira de ter acesso a suas mentes! Admito que seu poder de alcance é bem grande assim como o último Tormento que encontramos.
– Obrigado – retrucou com cinismo
– Foi aí que matamos a charada – Victoria ignorou o tom dele – É claro, poderia ser só uma coincidência você estar justo no hotel em que Sam e eu nos hospedamos e justo no dia em que nos registramos.
– Mas a gente não costuma acreditar em coincidências– tornou Dean – Você com certeza já sabia que a gente estava na cidade e quis logo pegar o Sam de cara. Lá no hospital, tem um faxineiro da firma. Ele deve ter sido o canal que você começou atuar sobre o Sam. Mas pelo que eu andei investigando nos outros casos, pro efeito durar mais tempo era preciso que suas vítimas estivessem em permanente contato com gente da empresa. De alguma forma, você conseguiu fazer com que o Sam fosse até você justo pro hotel.
– A ideia de nos separarmos e ir para o hotel foi do Sam – explicou Victoria – Nós estávamos num motel em que não vimos nenhum empregado da Alliance. Por que irmos justo para um local onde tinha pelo menos uns cinco deles e mais o gerente? E que também foi palco concentrado de três ocorrências? Não, muita coincidência.
– E foi aí que você errou, meu chapa! Você se entregou a partir do momento em que acelerou seu processo com o Sam. As outras vítimas levavam pelo menos uns dias pra começarem a pirar de vez. Mas com o Sam foi de um dia pro outro. Isso só podia indicar que você estava mais perto dele do que qualquer outro.
– Então para testar sua teoria, vocês descobriram qual era o meu carro e armaram aquela prisão de demônios – concluiu o Tormento mais cínico – Brilhante!
– A gente perguntou por aí – o ar de troça sumiu do rosto de Dean. Ele apertou os punhos – Você não podia perder a chance de manipulá-lo, não é? De ter meu irmão em suas mãos. De fazê-lo se voltar contra mim.
– Sabe como é, né? Sou chegado num confronto em família.
– Miserável! – Collins o socou
– Sabe, minha querida, golpes vindos de você são como carícias para mim – replicou imperturbável
Collins estreitou os olhos.
– O que você pretende? – tornou Dean – Se vingar de mim e do meu irmão por termos cortado os dedinhos de seu Mestre?
– Oh, não, estou acima dessas pequenas coisas. Não sou do tipo sentimental.
– Acho que sei o que ele pretende – respondeu Victoria – Ele quer seguir o padrão, quer fazer o Sam matar nós dois e... depois fazer com que ele se mate. Mas neste caso, ao invés dele se suicidar, ele...
– Diria sim pro Diabo! – completou Dean arregalando os olhos ao compreender – Canalha!
– Não é brilhante? Seria uma bela performance de O canto do cisne do seu irmão. Lúcifer ficará tão agradecido por eu ter me mostrado mais útil do que o esperado.
– Acha que ele vai lhe dar algum posto como general? – Dean riu com sarcasmo – Vai sonhando!
– Oh, sim, eu sonho bastante para um demônio.
– Chega de conversa! – tornou Vic com impaciência – Vamos lhe dar uma chance. Liberte Sam da sua influência ou é você que vai sofrer as consequências quando ele descobrir como te matar e te destruir!
O Tormento gargalhou. Vic e Dean o fitaram com ódio.
– Você é muito otimista, Victoria Collins! Confia cegamente assim que seu namorado vai conseguir agir com sensatez? Ah, você não conhece o poder do ciúme! É um sentimento que cega, que entorpece os sentidos e o raciocínio. A tênue linha entre o amor e o ódio numa relação.
– Sam, vai sair dessa, eu sei. – replicou Vic sem hesitação.
Quanto a Dean, permaneceu calado. Não se sentia tão seguro como ela. Sua confiança no irmão havia começado a diminuir desde que este voltou a sucumbir ao vício do sangue demoníaco. Mas preferiu guardar sua opinião para si.
– Se você quer esperar aqui para ver, problema seu – disse. Seu sorriso aumentou– Mas enquanto o Sam não chega, acho que vocês deveriam matar o tempo.
– É verdade. Poderíamos torturar você um pouco. – Collins esboçou um sorriso travesso e passou a faca suavemente sobre o rosto de Hanks. Fitou seu companheiro – Que tal, Dean?
– Boa! Gostei da ideia – Dean também sorriu maldosamente.
– Creio que uma diversão mais agitada seria o ideal pra vocês – Leonard replicou impassível. Olhou a paisagem à sua volta – Pessoal, vamos à festa!
De repente, um grupo de uns dez demônios saiu do matagal e rodeou-os.
– Puta merda! – exclamou Dean olhando ao seu redor assim como Collins.
Os demônios estavam vestidos com uniformes verdes de diversas funções.
– Como vocês mesmo disseram, sou um chefão. E todo chefão que se preze, tem seguranças que zelam pelo seu bem-estar.
A um aceno de cabeça de Hanks, os demônios avançaram. Apesar de serem minoria, Vic e Dean lutaram contra eles lhes desferindo chutes e socos e revezaram entre si a lâmina especial para matar as entidades.
– Já acabou? – indagou Dean sarcástico. Estava parado lado a lado com Victoria. Ofegavam. Fitavam o Tormento de frente.
– Não – ele disse imperturbável – Isso foi só o aperitivo.
Assobiou. Mais demônios surgiram, um grupo bem maior, cerca de trinta a quarenta demônios. Sem perda de tempo, atacaram os caçadores. Infelizmente, dessa vez, Vic e Dean não foram capazes de derrotar a todos – apenas uns sete – mesmo com toda coragem, destreza e força. As criaturas os agarraram pelos braços.
– Solte a gente, seu covarde! – gritou Dean
Um demônio foi até ele e deu-lhe um tapa no rosto. O Winchester o encarou com raiva. Com um sorriso superior, a criatura apalpou suas calças até encontrar as chaves que prendiam as algemas do Tormento. Dean se debateu, mas não pôde fazer nada para impedi-lo já que era segurado por mais dois demônios.
A entidade se afastou dele, libertou Hanks do par de algemas e usou uma faca para cortar a coleira que prendia seu pescoço.
– Vou soltá-los, não se preocupe. – retrucou Leonard esfregando os punhos e o pescoço – Assim que Sam chegar.
– Miserável dos infernos! Deixe o Sam em paz! – gritou Victoria.
– Vou deixá-lo em paz, querida, vou deixar. Quando ele tiver matado vocês dois, ele vai se sentir melhor para se entregar a Lúcifer. Ou será pior?
Hanks riu. Dean e Vic tentavam se soltar, mas inútil. Tudo o que puderam fazer foi trocar um olhar entre si de apreensão.
Todos ficaram ali um bom tempo à espera de Sam.
– Chefe, acho que é ele – avisou um demônio que se aproximou e estava de vigia na estrada.
– Ahm... agora a diversão realmente começa – comentou Hanks.
Rapidamente, foi conferir e avistou um carro à distância. Era um velho Chevrolet cor bege. Sam o havia roubado numa rua deserta a dois quarteirões do hotel. Ele quis pegar o Impala de Vic, mas além de ela estar com as chaves, o veículo estava sem gasolina. Resolveu roubar outro carro, mas num lugar sem muita segurança, em que ninguém pudesse impedi-lo.
Leonard conseguiu distinguir os contornos de Sam no veículo. Voltou onde estavam seus comparsas e os caçadores
– Pessoal, é hora de irmos. A briga agora é só entre eles três. – suspirou – Pena que só vou poder assistir de camarote.
O Tormento fez um aceno com a cabeça. Os demônios que seguravam Dean e Vic os jogaram no chão. Em seguida, foram imprensados de bruços pela força emanada da palma do Tormento.
– Me... solte – ordenou Collins com voz estrangulada
–Espera... até eu poder me mexer! – praguejou Dean
– Quando isso acontecer, já estaremos fora de cena – retrucou o Tormento com desdém
Ele e os outros demônios pegaram os corpos dos que estavam mortos, correram mata adentro e sumiram. Em poucos minutos, Dean e Vic ficaram livres do aperto, mas nem um pouco aliviados. Eles se ergueram.
– E agora? O que faremos? – indagou Vic
– É melhor irmos até o Sammy, explicar pra ele – replicou Dean sem muita segurança.
– Tudo bem.
– Mas fique atrás de mim.
– Dean...
– Faça o que tô dizendo, Vic. Por favor.
Collins assentiu.
Caminharam por aquele matagal, Dean à frente. Não trocaram nenhuma palavra. A ansiedade e a tensão os calavam. Puderam ouvir o som do motor de um carro encostar. O celular do Winchester tocou. Ele o atendeu.
– Pode falar, Sam – sua voz era controlada.
– Já cheguei. Onde vocês estão?
– Estamos indo até você. Espere aí.
Dean desligou. Não comentou nada com Victoria que ia atrás dele. Não precisava, ela ouviu tudo. Também não fez nenhum comentário.
Por fim, saíram do matagal e pisaram no meio-fio da estrada. A alguns metros, estava o veículo. Sam se encontrava fora dele de pé, encostado de lado no carro. Seu olhar era sombrio e vagueava do irmão para a namorada. Tanto Vic e Dean engoliram em seco. Aproximaram-se cautelosamente, mas não pararam tão perto de Sam. Ele podia notar a cautela deles. Crispou os lábios.
– E então? – inquiriu com voz desdenhosa – Onde está o tal Tormento?
– Ele... escapuliu – respondeu Dean. – A gente conseguiu pegá-lo... mas... os comparsas dele nos seguiram.
Sam nada disse. Apenas estreitou os olhos.
– Eram muitos, Sam. – continuou Dean – A gente... vai ter que capturá-lo de novo... Sinto muito.
– Eu também.
Num movimento rápido, Sam apontou a espingarda que escondia atrás de si e atirou contra o irmão. Contudo, Victoria, mais perspicaz, já havia notado a postura dele e foi mais rápida em desviar Dean, empurrando-o de lado.
– Abaixe-se, Dean! – gritou ela.
Ambos se curvaram.
– Sam!? – Dean o encarou incrédulo. Esperava uma atitude violenta do irmão, mas não àquele ponto.
– Corre, Dean! Rápido! – Vic o obrigou a se embrenhar novamente pela mata e foi junto com ele.
– Voltem aqui, seus traidores! – gritou Sam dando outro tiro, mas sem conseguir acertá-los. Ele também entrou no matagal no encalço deles.
O Winchester procurou localizá-los através da movimentação que percebia na mata.
– Por aqui. – sussurrou Dean apontando uma direção e puxando Vic.
Sam os perseguia a poucos metros.
– Vai! Vai! – Dean impelia Vic a continuar
Conseguiram despistar Sam e correram um bom tempo até chegarem ao mesmo local descampado onde estiveram com o Tormento. Pararam uns momentos para recuperar o fôlego. Podiam ouvir as passadas de Sam por entre o mato.
– Não podemos correr assim do Sam pra sempre – cochichou Victoria – Temos que fazer alguma coisa.
Dean ia responder, porém, seu irmão os encontrou.
– Cuidado! – gritou Vic
Eles se abaixaram juntos. Por pouco, uma bala não os acerta.
– Fiquem parados aí mesmo ou eu juro que atiro! – Sam apontava a arma para a cabeça de Dean, embora a ameaça fosse dirigida aos dois.
Dean e Vic não tiveram alternativa senão obedecerem. Levantaram as mãos.
– Isso mesmo – disse ele. – Agora vocês não vão fugir de mim de novo.
– Sam, está cometendo um grande erro... – Dean tentou conversar. Deu alguns passos à frente
– Cale essa boca! – deu um tiro que acertou no chão aos pés de Dean. Este pulou assim como Vic – Eu não mandei você se mexer!
– Sam...
– Já disse pra você se calar! Pensaram que iam me enganar com essa história do Tormento? – ele alternava a pontaria de um para o outro – Era um truque o tempo todo, eu devia saber! Vocês pretendiam me atrair pra cá numa emboscada e acabarem comigo pra ficarem juntos.
– Sam... – Vic balançou a cabeça – Como pode se deixar enganar assim?
– Tem razão, Vic, eu me deixei enganar durante muito tempo por vocês. Enquanto supostamente você e eu tínhamos uma relação séria, por trás você me traía com meu próprio irmão.
– Sam, eu nunca...
– Quieta! – sibilou ele. Voltou-se para Dean – Você sempre teve todas as mulheres que quis. Não era difícil para o “Grande Batman” estalar os dedos e conseguir uma conquista por dia – ironizou. Dean engoliu em seco – Mas pra você não era suficiente, não é? Você cismou com a Victoria, a “Indomável”. A desejou desde a primeira vez que pôs os olhos nela. Era só um desafio pra você, não importando se ela se tornou minha namorada, aliás... isso tornava tudo um desafio maior. – fez uma pausa. Seus companheiros não ousaram interrompê-lo – Você não se conformou por ver que foi a mim que ela preferiu. Você quis conquistá-la, tirá-la de mim! E tanto fez que conseguiu... a ponto de tramarem juntos a minha morte.
– Você está confuso, Sammy. – murmurou Dean – É o Tormento que tá fazendo isso com você. Lute contra...
Não concluiu a frase porque Sam o derrubou com um golpe da espingarda em seu rosto. Dean caiu de joelhos com as palmas na terra.
– Sam! – Vic gritou
– E você não se mexa! – ameaçou Sam com a arma. Ele tremia – Afaste-se, Vic! Eu vou acabar com ele! E depois... será a sua vez.
– Sammy, não... – pediu Dean baixinho inutilmente.
– Vamos, Vic, se afaste! – ordenou Sam outra vez.
– Não – ela se recusou.
– Não vou falar de novo, Vic. Se você não se afastar, eu...
– É em mim que vai atirar primeiro? Pois faça, Sam – replicou serena – Faça isso se você for se sentir melhor.
– Vic, o que você tá fazendo? – indagou Dean erguendo os olhos para ela
– Não se meta, Dean. Isso é entre meu namorado e eu.
– O que é isso, hein, Vic? – tornou Sam com um sorriso amargo – Por acaso é algum truque pra me distrair?
– Não, Sam, estou me colocando em suas mãos se você quiser me matar.
– Você está se oferecendo pra morrer pelo meu irmão? – indagou com um tom dolorido na voz – Você seria capaz disso?
– Sim, eu seria capaz de morrer pelo seu irmão, assim como seria capaz de morrer pelo Bobby e até pelo Cass. Mas... acima de todos eles, eu seria capaz de morrer por você... porque eu te amo. Eu te amo, Sam!
O moço não disse nada. Ele tremia. Um nó se formou em sua garganta.
– Você sabe que é verdade – prosseguiu Vic quase chorando – Por mais que sua mente tente te enganar, seu coração sabe que não minto. Esse tempo todo que estamos juntos, esses meses todos...têm sido os melhores da minha vida, apesar do Apocalipse que vamos enfrentar – ela sorriu – Como você acha que eu poderia te trair? Eu nunca fui tão feliz como sou com você!
Sam ainda apontava a espingarda para ela, porém, sua determinação vacilava.
– Mas se mesmo assim, você duvida... –ela fez uma pausa – Se mesmo assim, você não acredita em mim, então pode atirar – uma lágrima escorreu do rosto dela – Se isso for te dar alguma paz, então me mate, Sam. Não vou te odiar por isso.
As mãos de Sam tremeram e seu olhar era de dor. Vic respirou fundo e fechou os olhos à espera. Dean prendeu a respiração.
– Vic... – sussurrou Sam com voz rouca
Collins abriu os olhos, mas não pronunciou nenhuma palavra. Seu coração batia descompassado.
– Dean... – ele olhou minimamente para seu irmão. Este o encarou tenso, com o maxilar apertado.
Sam não desviou a espingarda, segurou-a apenas com a mão esquerda como se uma força o impelisse a prosseguir com sua intenção assassina. A outra mão pegou o revólver do coldre de sua calça e tirou-a lentamente.
A princípio, seus parceiros não entenderam o que ele pretendia.
– Me perdoem. – murmurou Sam.
Subitamente, compreenderam o que ele ia fazer.
– Sammy, não! – gritou Dean e levantou-se para impedir o irmão
– Sam! – berrou Vic desesperada e correu até ele
Tarde demais. Não estavam nem a um metro dele, entretanto, não puderam detê-lo. Sam apertou o gatilho e acertou na lateral da própria cabeça. A bala atravessou o outro lado.
Ia cair estatelado no chão junto com as armas que largou, porém, Dean o segurou junto com Vic. Eles se abaixaram para melhor apará-lo.
–Sam! Sam! – Dean gritava em pânico balançando o irmão em seus braços
– Sam! Por que... você... fez... isso? – Vic gaguejava as palavras com dificuldade. Ela apoiava a cabeça do namorado sem se importar com o sangue que escorria. As lágrimas desciam pelo rosto dela sem parar. Aquilo parecia um pesadelo – Por quê?
– Ele... preferiu fazer isso em si mesmo do que nos ferir. – respondeu Dean. O tom de voz firme não correspondia com seu estado de espírito. Não podia acreditar que seu irmão havia morrido estupidamente outra vez depois de tudo o que passaram. Sua mente se recusava aceitar aquilo. De novo.
– S... S... Sam! – Vic não se conteve e desandou a chorar com agonia. Encostou sua testa na dele. Seu corpo tremia com os soluços altos.
Dean apenas apertou os olhos com dor. Não havia como salvar seu irmão. Os únicos que poderiam trazê-lo de volta eram dois arcanjos babacas que disputavam entre si. Um só o faria para se apossar do corpo do irmão. O outro, sob a condição de ele, Dean, aceitar ser possuído.
Então era assim que tudo deveria acabar?
Sentiu o corpo do irmão se mexer. Achou que fosse pelo impulso do corpo de Collins sobre ele. Contudo, surpreendeu-se ao ouvir Sam gemer:
– Ai... Ai.
Vic ergueu a cabeça tão espantada quanto Dean ao ouvir os gemidos de dor de Sam e o movimento de sua cabeça. Fitou o rosto dele. Estava meio contorcido de dor.
– Sam! – gritaram Dean e Vic ao mesmo tempo de espanto e alegria
– Ai, pes... pessoal... Por favor... não gritem no meu ouvido.... Minha cabeça ainda dói... – ele se apoiou em seus parceiros até se sentar.
Sem poderem se conter, Vic e Dean o abraçaram ao mesmo tempo, apertando-o até demais.
– Ai! Dean, Vic... sei que vocês estão felizes em me ver bem, mas... assim não consigo... respirar direito.
– Desculpe – os dois falaram e afastaram-se em sincronia.
– Obrigado... ai... – sussurrou ele massageando o local da ferida. Havia parado de sangrar. O buraco por onde saiu a bala também havia se fechado.
Victoria afastou a mão de Sam para tocar na ferida e constatou o fato.
– Você tá legal, Sam? – indagou Dean num misto de alívio e descrença
– Sim... está melhorando.
– Eu... não entendo... – disse Vic ainda perplexa.
– Nem eu. – replicou Dean
– Lembra-se do que você me contou sobre o que o Cass disse? – voltou-se para Dean que assentiu – Eu só poderia matar o Tormento se nascesse de novo. E... pra nascer, eu teria que morrer.
– E você pesquisou isso? – inquiriu Dean
– Não... apenas deduzi.
– E se... você estivesse errado? – foi a vez de Victoria perguntar.
Sam não respondeu, mas seu silêncio dizia tudo. Ele preferiria morrer a matar as duas pessoas que mais amava no mundo.
– Ah, Sam! – Collins voltou a soluçar.
– Ei, querida, está tudo bem – ele sorriu colocando a mão sobre o rosto dela. Isso só a fez chorar mais – Vem cá.
Ele a puxou num abraço forte. Dean afastou o corpo um pouco para lhes dar privacidade. Sorria. Mais uma vez seu irmãozinho escapava da morte. Sam devia ter sido um gato em outra encarnação para ter tantas vidas.
Vic se desgrudou do abraço do namorado e beijou-o várias vezes no rosto e nos lábios. Depois, deu-lhe um murro forte no braço.
– Que isso, Vic? – ele riu – Quer me matar?
–Nunca mais faça isso comigo, Sam Winchester! É a segunda vez que você morre na minha frente! Você não tem ideia de como me senti!
– OK. Mas estou bem agora. Certo? –ele enxugou as lágrimas dela com os dedos e passou a mão numa mecha de cabelo dela. Em seguida, olhou para o irmão – Dean...
– Seja bem-vindo outra vez, Sammy – retrucou
Os Winchesters trocaram um forte abraço e deram tapas amigáveis nas costas um do outro. O mais velho ajudou o mais novo a se colocar de pé.
– Tudo bem, pessoal. Estou bem – declarou Sam ao se separar do irmão. Seu rosto assumiu uma expressão furiosa – Agora... onde está o maldito Tormento que me fez de marionete?
– Pois é... Como a gente te disse, ele escapuliu pela mata – respondeu Dean coçando a cabeça
– Ele e um bando de demônios – completou Vic
– Vamos encontra-lo nem que seja a última coisa que eu faça. – tornou Sam
– Pode apostar que sim, Sammy. – concordou Dean
De repente, os três foram lançados de costas no chão. Eles tentaram se libertar, mas a força que os prensava era maior.
– Ai...De novo... não – gemeu Dean
– Iam me procurar?– disse o Tormento surgindo da mata com seus auxiliares. – Vou lhes poupar tempo.
–Can... canalha! – praguejou Sam
– Sam, Sam, Sam... Que decepção! – disse Hanks se aproximando do Winchester com expressão desapontada – Eu esperava tanto de você.
– Solte... a Vic e... o Dean... agora...
– Resposta errada! – esbravejou o Tormento e chutou o Winchester – Você tinha que mata-los! Uma coisa tão simples... – estendeu os braços e olhou para o alto – Mas não, preferiu se sacrificar pelo brinquedinho de Miguel e a vadia esquentada. – chutou o caçador outra vez – Você é mesmo deprimente! Me admira Lúcifer precisar de alguém tão patético como você.
– O único patético aqui... é você... bastardo! – soltou Collins.
Hanks esboçou um sorriso de canto para ela. Em seguida, aproximou-se e chutou-a forte. Vic sentiu dor, mas conteve o grito.
– Deixa ela em paz... maldito! – gritou Sam colérico
– Isso, Sam! Isso! – ele apertou os punhos eufórico – Mostre essa raiva! É isso que nosso Grande Deus Lúcifer deseja.
– Nunca
Hanks revirou os olhos e suspirou.
– É, tô vendo que vou ter que ser mais convincente. Levantem eles!
Tirou a pressão que exercia sobre os caçadores. Seus subordinados não tiveram dificuldades em subjuga-los apesar da resistência deles. Eles colocaram Dean e Victoria lado a lado e Sam de frente para eles a curta distância.
Leonard se aproximou de Victoria a passos lentos. Alisou os cabelos dela.
– Se afaste dela! – gritou Sam
Collins mordeu a mão do Tormento. Ele recuou sem expressar dor.
– Não... me... toque — Vic pronunciou as palavras pausadamente.
– Hum... você morde, hein? – estapeou-a – É por isso que é uma cadela!
– Seu veado dos infernos! – esbravejou Dean – Bata em mim, se for homem!
Hanks o fez imediatamente com um soco.
– Oh, bati! – exclamou com deboche. Seus subordinados riram – Mas não porque eu seja um homem e sim, um demônio.
– Vai pagar por isso... – murmurou Dean o fitando com ódio
– Silêncio! – deu outro soco em Dean
– Ei, deixa eles em paz! – trovejou Sam
– Deixo, Sam... se fizermos um acordo.
– Não faço acordos com demônios.
– Hum... Não é o que me contaram. Pelo o que sei você esteve um longo tempo associado com a que foi a responsável por você nos trazer nosso Grande Mestre.
Sam rangeu os dentes.
– Nós vamos fazer isso – continuou o Tormento – Eu vou convocar Lúcifer até nós, você vai dizer “Sim” pra ele e aí, eu solto a sua namorada e o seu irmão. O que você acha?
– Não, Sam! – gritou Vic.
– Acha que vou confiar na sua palavra? – retrucou Sam – Como você mesmo disse, já fui associado a um demônio e sei “o quanto” vocês costumam agir honestamente. Nunca vou concordar com isso! Na primeira oportunidade você ou mesmo Lúcifer irão matar os dois.
– Sam, você não está me entendendo – ele se acercou do Winchester e esbofeteou-o – Você não tem escolha, idiota!
Sam esboçou um sorriso zombeteiro.
– Você que é idiota. Assim que Lúcifer tiver a mim, não só mataria o Dean e a Vic como destruiria todos vocês.
O Tormento o socou com fúria.
– Fecha essa boca maldita antes de falar do nosso Criador! Minha paciência já está se esgotando! Acha que eu acredito nessa conversa, uma fofoca de velha do imprestável do Crowley? Não, meu caro – ele balançou a cabeça – Sabe como meus três irmãos e eu fomos escolhidos? Tivemos que lutar entre outros milhares de Tormentos para sermos designados como braço direito de cada Cavaleiro. Uma competição do mais forte. Foi mais difícil do que as batalhas na Arena de Roma. Mas nenhum desses Cavaleiros mostrava sequer um pingo de respeito pela gente. Éramos menos do que vermes para eles. Mas Lúcifer não! Sempre nos tratou como um bom Pai, o bom Criador de que tanto falavam, ao contrário de seu Deus que abandonou os anjos e o resto da humanidade.
Sam não retrucou. Apenas sorriu com desdém.
– Há milhares de anos que estou preso no inferno. Os Tormentos são mais poderosos que demônios comuns, mas justamente por serem especiais, somos obrigados a ficar enclausurados sem poder vir à superfície e possuir um mísero humano. Somos como... uma espécie de gerentes que enviam os piores sentimentos através dos demônios menores pra que eles atormentem os homens. Mas nunca podemos sair da administração. – voltou-se para Dean – Você esteve lá, Winchester, sabe como é. Mesmo para demônios, o inferno se torna... pesado demais. É bom respirar ar puro depois de tanto tempo – ele suspirou. Depois, dirigiu-se outra vez para Sam – E graças a você e ao seu irmão meu Cavaleiro foi destruído. Vocês me confinaram nesta cidade! Um Tormento só consegue se expandir na terra por causa da força de um Cavaleiro. Nós somos uma ferramenta necessária para os Cavaleiros se vincularem aqui e até um reforço para seus receptáculos. Mas eles são mais necessários ainda pra nossa permanência aqui. Depois que eu acabasse com toda a população dessa cidade, não haveria mais a quem atingir e não teria como sair da cidade e... teria que voltar pro inferno uma vez que me tornei inútil. E acham que depois de tanto trabalho, tanto esforço pra estar aqui fora, eu ia querer voltar pra aquele lugar? Não, Sam Winchester, não.
– E o que faz pensar que Lúcifer não o descartará?
– Fé. – retrucou. Sam alargou o sorriso de desdém – E também eficiência, lealdade e criatividade – respondeu ele – Soube que são qualidades que ele admira muito em quem trabalha pra ele. E é isso que vou demonstrar com todo o esquema que elaborei para dar a ele seu receptáculo. – apontou Sam – Ou seja... você!
– Nunca. – afirmou Sam com determinação
– Veremos – ele sacou um punhal do bolso e acercou-se de Vic.
– Não! Deixe ela em paz! – gritou desesperado.
– Sai fora, seu monstro! – esbravejou Collins – Você não me mete medo!
Hanks encostou a lâmina no pescoço de Vic, porém, ela não demonstrou medo.
– Corajosa, hein? – ironizou Leonard
Tanto Dean e Sam tentaram se soltar para acudi-la, mas os demônios os apertaram. Um deles, entretanto, que segurava Dean de um lado, sussurrou no ouvido deste:
– Calma aí, meu chapa. Aguente firme.
O loiro o olhou com expressão confusa. O demônio piscou para ele e tirou a faca especial de sua cintura.
Alheio a isso, Hanks prosseguiu:
– O negócio é o seguinte, Sam: ou você concorda que eu chame Lúcifer pra dizer sim a ele ou eu mato sua garota agora.
– Desgraçado! – esbravejou Sam – Não se atreva a machuca-la ou eu juro que...
– Não está em posição de me ameaçar, Winchester. Decida-se agora!
– Não, Sam, não faça isso! – gritou Vic – Não se importe comigo! Ai!
Ela gemeu de dor quando o Tormento fez um pequeno corte em seu pescoço.
– Não! Pare com isso! – gritou Sam
Dean apertou os punhos com fúria, mas se conteve. Podia sentir o demônio ao seu lado prestes a agir. Não sabia e nem queria saber por que a criatura pretendia ajudar, só queria que ele fizesse.
– Você pode não se importar com sua vida, minha querida... mas seu namorado sim. – disse Hanks ignorando o olhar raivoso de Collins. Voltou-se para Sam — E então, Sam, eu não quero ficar aqui o dia todo. O tempo está passando. O que me diz?
Sam não retrucou. Seu desejo de assassinar era grande, mas ele precisava manter o foco em pensar numa maneira de salvar Victoria sem ter que concordar com os termos de Leonard.
– Talvez se eu cortar uns dois ou três dedos dela fora, eu possa te convencer – retrucou o Tormento pegando na mão de Vic. Ela tentou resistir sem sucesso.
– Não, espere! – gritou Sam.
– Sim? –Hanks fez uma fingida expressão de tédio – Qual sua resposta?
Antes que Sam pudesse responder, o demônio que segurava Dean o chamou:
– Senhor?
– Agora não, imbecil! – replicou o Tormento com impaciência — Não vê que estou negociando?
– É importante.
– O que é? – suspirou
– Não devia ter chamado Crowley de imprestável.
– Como?
O demônio fez três coisas seguida e rapidamente: soltou Dean, jogou dois de seus colegas que seguravam Sam no chão com um só movimento da mão e lançou a faca especial no ar para ele.
– Pegue, Winchester! – gritou
Hanks, que foi pego de surpresa pela manobra da criatura, só teve tempo de reagir para jogá-lo no chão com um gesto. Sem tempo de refletir, Sam conseguiu apanhar a lâmina no ar e lançou-se de uma vez sobre o corpo do Tormento, trespassando seu coração com a ponta da arma.
– Eis minha resposta – sussurrou Sam em seu ouvido
Nesse meio tempo, Dean derrubou o outro demônio que o segurava e partiu em cima dos que mantinham Vic presa. Os outros demônios ficaram onde estavam ao contemplarem estáticos seu mestre ser morto. A expressão no rosto do Tormento era de choque mesclada com dor. Sam o empurrou no chão.
Na mesma hora, o Tormento foi consumido em chamas. Depois, explodiu.
Sam, Dean e Vic estavam ofegantes e olharam ao seu redor. Embora em maior número, nenhum demônio se atreveu a fazer um movimento para ataca-los. E logo eles se transformaram em grandes fumaças pretas e saíram dali. Os corpos que ocupavam caíram. Só restou o que havia os ajudado. Já estava de pé.
– Vocês estão bem? –indagou Sam aos seus parceiros
Eles assentiram. Voltaram-se para a criatura que os observava. Ocupava o corpo de um homem alto e negro de olhos verdes. Antes que qualquer um deles dissesse algo ou fizesse algum movimento para ataca-lo, ele disse:
– Não precisam agradecer. – fez uma rápida continência – Com os cumprimentos de Crowley.
E logo também saiu do corpo numa nuvem preta.
– 0-
Os caçadores saíram dali no Impala preto. Sam deixou o carro que roubou no mesmo lugar e fez uma ligação anônima à delegacia para que fossem busca-lo.
Se os policiais quisessem investigar os arredores e encontrassem, por acaso, o corpo de Hanks e um bando de pessoas possuídas confusas, os caçadores não ficariam ali para responder nenhum inquérito.
Os três passaram no prédio onde Dean estava para recolherem seus pertences e, depois, foram ao Love Paradise onde conseguiram alugar um chalé exclusivo para o Winchester. Partiriam no dia seguinte.
– Vou dizer uma coisa: ter grana de sobra é o bicho! – exclamou ele vendo a amplitude do terreno e a fachada do chalé. – Um dia ainda vou beijar o cara que abriu aquelas contas no nome da gente.
Vic esboçou um leve sorriso. Refletia sobre alguma coisa que achava engraçado.
Quanto a Sam, parecia um pouco constrangido. Dean se voltou para eles. Automaticamente seu olhar se fixou no irmão, notando seu estado de espírito.
No carro, não haviam conversado sobre tudo o que havia acontecido; apenas comentaram sobre a intervenção de Crowley. Embora estivessem satisfeitos com a ajuda de seu subordinado, não lhes agradava deverem aquele favor ao Rei do Inferno. Afinal, sentiam-se ludibriados pelo fracasso da missão em Carthage, com Lúcifer.
– É isso aí... O dia foi bastante agitado, então... é melhor descansarmos – comentou Dean se dirigindo mais ao irmão como se adivinhasse o que lhe passava no íntimo. Vic também fitou o namorado. – Sam, olha, sei como você se sente, mas...
– Por favor, Dean, Vic... não tentem me desculpar. Eu... me deixei levar por um Tormento... eu podia ter matado vocês dois.
– Mas não matou, Sam. É isso que importa – Vic enlaçou a mão na dele
– É, Sammy, ao invés disso você preferiu estourar os miolos pra que os parafusos voltassem a funcionar – zombou Dean, embora com uma nota de angústia na voz. Collins o olhou com reprovação sem achar a menor graça – Você conseguiu lutar contra isso.
– Isso, Sam. Não fique remoendo o que aconteceu. Tanto Dean como eu também fomos vítimas de Tormentos...
– Dois pra cada um – interrompeu o loiro – Dividimos o Freddy Gruger. Cara, esse foi um mala. Mas o Despeja Merda foi pior.
– E eu com o Vingador dos Anjinhos.
– Mas nenhum deles os afetou a ponto de vocês quererem me matar – retrucou Sam não se convencendo.
– Não importa, Sam – tornou Dean – Os Tormentos são uma praga que tentavam nos destruir mexendo com... nossa cabeça . E fomos fortes o suficiente pra lutar, pra resistir. – colocou a mão no ombro do irmão para tranquiliza-lo. – É isso que vale.
Vic balançou a cabeça em sinal de concordância ainda com olhos postos em Sam.
– OK – assentiu Sam olhando para ambos. – Vocês têm razão. O que importa é que tudo acabou.
– Graças a Deus! – exclamou Vic e o abraçou de lado encostando a cabeça no ombro dele – Sem mais Tormentos. Um problema a menos resolvido. – ergueu a cabeça e fitou o namorado – Vamos para o nosso chalé, Sam? Estou exausta.
– Vamos – concordou ele
– Esperem – pediu Dean – Vic, será que você podia ir na frente? Só queria trocar mais umas palavras com o Sam. Coisa de homem.
– Essas coisas de homens entre vocês... – ela torceu um pouco a boca – Tudo bem. Volte logo, amor.
Deu um selinho no namorado e afastou-se.
– Pode falar, Dean – Sam o fitou paciente com as mãos na cintura.
– É só algo que preciso esclarecer com você, Sam. Eu...
– Dean, tudo bem – ele ergueu a palma da mão – Sei o que vai dizer, mas não precisa.
– Preciso sim, Sam. E acho que no fundo você sempre soube. O Tormento só fez você externar o que tá martelando na sua cabeça um bom tempo.
– Tudo bem – suspirou – Diga.
– Eu só quero dizer uma coisa... Sam, eu nunca tiraria a Vic de você.
O outro não retrucou. Mas sua expressão se anuviou um pouco.
– Nunca ficaria entre vocês – continuou Dean – E mesmo... mesmo que algum dia a Vic não te quisesse, eu jamais... Ouviu, Sam? Jamais tentaria algo com ela.
Sam permanecia calado.
– Mas você pode ficar tranquilo porque isso nunca vai rolar. A Vic é louca por você. Até um cara como eu que não é nada sentimental, nota isso. Ela quer ficar é com você, Sam.
Calou-se. Aguardava uma resposta do irmão que não demorou a vir:
– Sei de tudo isso, Dean. Sei que você gosta dela bem antes até da Meg ter aberto a boca quando esteve dentro da Vic. – fez uma pausa. Dean engoliu em seco – Só não comentei porque não queria que você se sentisse mal com isso.
– Sam...
– Dean, não se preocupe. Eu... entendo. Juro pra você que entendo – riu com certa ironia – Só não posso evitar me sentir incomodado com o fato do meu irmão estar apaixonado por minha namorada.
Fitaram-se longamente sem dizerem nada por alguns instantes.
– E esses dias que... você ficou meio que sem conversar com a gente? – foi Dean que quebrou o silêncio – Não foi por pensar que enquanto você estava preso...
– Admito que... isso me passava pela cabeça diversas vezes enquanto alucinava lá na cela, que me vinham imagens de vocês juntos, mas...sabia que era tudo provocado pelo sangue. Então... Não. Não foi isso — fez uma pausa. –Foi por eu ter cedido ao vício do sangue demoníaco. Sei que os desapontei.
– Olha, Sam...
– Não negue, Dean. Eu pude ver no seu olhar depois que acabei com o Fome. Posso ver agora... mesmo depois de eu ter resistido a um Tormento – soltou um longo suspiro – Você voltou a duvidar de mim.
Dean não disse nada. Não sabia o que falar para desmentir o irmão porque ele estava certo.
– É melhor eu voltar para meu chalé. – disse Sam com ar cansado – Eu preciso ficar com a Vic.
– 0-
Num velho galpão abandonado nos arredores da cidade, um moço de traços orientais – descendente de japoneses – aguardava pacientemente em pé ao centro. Embora o corpo fosse outro, tratava-se nada menos do que o mesmo demônio que havia ajudado os Winchesters.
– Joshua? – uma voz feminina e angelical o chamou.
Ele se virou. Era Anna. Seu semblante estava sério,
– Como foi? – ela perguntou
– Fiz o que me pediu. Me infiltrei entre os ajudantes do Tormento e aguardei a chegada dos Winchesters para localizá-los e começar a vigiá-los.
– Correu tudo bem?
Ele tremeu um pouco com receio de Anna. Sabia que anjos podiam ser impiedosos, mais até do que demônios.
– A coisa... meio que saiu de controle eu... tive que intervir... tive que ajuda-los.
Anna permaneceu imperturbável.
– Só que... pra não ficar muito estranho... eu disse para os Winchesters e a Indomável que estava a serviço de Crowley – ele começou a gaguejar pelo silêncio de Anna – Sei que as instruções eram pra não me meter, somente começar a segui-los, mas...
– Tudo bem – Anna o interrompeu – Você fez bem.
– Sério? — indagou desconfiado – Quer dizer... Não vai me incinerar por isso?
– Não, fique sossegado.
Joshua teve a impressão de ver um brilho divertido nos olhos de Ana como se ela achasse graça no que ele havia perguntado. Deu de ombros.
– E... agora? – tornou o demônio
– Volte pra onde estão e não os perca de vista. E procure não fazer nada pra ajuda-los... se for algo com que realmente não puderem lidar.
– Certo.
Anna desapareceu da mesma forma como havia aparecido.
Joshua soltou um suspiro de alívio. Achou que fosse ser pulverizado, mas felizmente se enganou.
Anjos eram imprevisíveis. Por isso mesmo, tinha receio de negociar com eles.
Mas sabia que valeria a pena.
– 0-
– Oi – disse Sam ao passar pela porta do chalé e contemplar Victoria sentada sobre as duas pernas cruzadas uma na outra em cima do sofá.
–Oi. – ela virou o rosto em sua direção – Foi rápida a conversa de vocês.
– Foi... Não era importante. Só conversa de homem – ele deu de ombros como se não fosse nada
– Sei – ela fingiu acreditar. Sentia que havia algo mais, porém, resolveu não questionar. – Então acho que está na hora de termos a nossa conversa. Eu estou cansada, você está cansado, mas...
– Não, tudo bem. – ele foi se aproximando – Nós realmente precisamos conversar sobre tudo o que ocorreu nesses dias... e não falo só do Tormento... falo sobre antes também. Logo depois da minha crise com sangue demoníaco. Sei que te devo uma explicação.
O Winchester se sentou ao lado de Vic. Ela tirou os pés descalços do sofá e endireitou-se para melhor encarar o namorado. Sam pegou nas mãos dela, contemplou aqueles belos olhos especulativos, suspirou para se acalmar e disse:
– Vic, me desculpe pela maneira como eu estava agindo com você. Sei que te magoei, que me afastei, mas acredite... nunca foi minha intenção.
– Sam, seja sincero comigo. Você agiu assim por ciúmes, por achar mesmo que eu tenho algo com seu irmão?
– Não. É verdade que sinto ciúmes... por vocês... parecerem ter muita coisa em comum, mas...
– Sam, não há nada entre nós. Nada. E quando você esteve... em tratamento, ficamos quase o tempo todo perto da cela. Nós... só saímos umas duas vezes pra relaxar por sugestão de Dean que via como eu ficava péssima pelo seu estado. Mas foi só como bons amigos. Juro.
–Não, Vic, você não tem que jurar nada, eu acredito. Eu te falei sobre isso naquela hora em que briguei com o Dean foi só pra atingir. – ele fez uma pausa – O problema não era vocês, era eu.
– Como assim?
– Eu fui fraco, Vic. Eu cedi ao Fome, eu bebi sangue demoníaco.
– Não, Sam, você só fez isso pra nos salvar do Fome.
– Eu não sabia que vocês estavam em perigo quando bebi o sangue deles.
– Mas eles que foram atrás de você! Eles te atacaram, você só se defendeu.
– Eu podia simplesmente tê-los exorcizado ou me defendido de outra forma.
– Não dava tempo, Sam. Eram... dois pelo o que você contou. Você estava sem a faca.
– Pare, Vic. Pare, por favor. Não tente me justificar, sei bem o que fiz.
– Sam... – ela balançou a cabeça para contestá-lo.
– Vic, eu vi sua expressão depois que destruí o Fome. Era de espanto... e nojo.
– Sam, eu... me desculpe, eu me deixei levar. Eu... eu não esperava ver você daquele jeito como... como...
– Como um monstro.
– Eu não ia dizer isso.
– Mas algo parecido certamente passou em sua mente.
Ela passou as mãos no rosto com frustração. Em seguida, voltou a encará-lo.
– Sam, eu sei que não foi sua culpa. Em sã consciência você jamais teria cedido. Foi o Fome que provocou isso em você.
– E eu cedi. Já você e o Dean... foram fortes seja lá qual fosse a fome de vocês.
Vic se calou. Se ele soubesse...
– É por isso que eu estava assim com vocês. Me sentia um fraco. E estava te evitando por medo... e vergonha. Tinha medo de tocar, de que você quisesse apenas ficar comigo por dó, por me achar um ser digno de pena – os olhos de Collins se arregalaram com tal conclusão. – Eu... tinha medo de te desapontar, de ver aquele olhar em você de novo, Vic. Me sentia indigno de ficar com você.
– Agora, escute, Sam Winchester! – ela pegou no rosto dele com força com as duas mãos – Pare de ser tão idiota! E pare com essa mania de me colocar num pedestal. Eu não sou perfeita, Sam! Você sabe disso. Eu tenho os defeitos mais horrorosos do mundo! Não sei como você consegue me suportar.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ele riu com o último comentário.
– Sério, Sam. Não quero mais que pense assim. Eu te amo! Droga, Sam! Eu sou humana, tá? Eu... você já me tinha me contado sobre seu vício quando te conheci lá no Bobby. Eu confesso que fiquei chocada, mas não disse nada porque estávamos nos conhecendo... e eu não queria te julgar. – fez uma pausa – Mas é diferente de te contarem e você mesmo testemunhar. Você me assustou chegando com o sangue escorrendo na boca e o que fez com aqueles demônios e o Cavaleiro. Mas foi só por alguns momentos. Depois... eu me coloquei no seu lugar. Vi como foi difícil pra você.
– Vic...
– Eu não estou querendo te justificar. Apenas... quero que você saiba que te compreendo. E confio em você. Sei que não vai me desapontar... e nem ao Dean. Você é mais forte do que imagina. Eu sei disso.
– Você me julga melhor do que sou.
– Não, você que se julga menos do que é. Você pode ser viciado em sangue demoníaco, recipiente de Lúcifer ou qualquer coisa do tipo, mas não importa. Eu te amo mesmo assim. Você é perfeito pra mim.
– Ah, Vic, não sei o que faria sem você – ele relaxou a expressão e pegou no rosto dela
– E eu sem você... – a voz dela assumiu um tom angustiado — Sam, te pedi pra não fazer aquilo de novo. E você fez.
– O quê?
– Morrer. Você estava disposto a se matar à toa?
– Não era à toa, Vic. Eu me libertei do Tormento.
– Mas você nem tinha certeza de que ia dar certo.
– Não, mas matar você e Dean seria pior que morrer. E isso eu não podia permitir. – tomou fôlego – Vic, a maneira que você me olhou enquanto eu apontava a arma pra você... a confiança e o amor que vi nos seus olhos mesmo eu ameaçando sua vida... foi o que me deu forças pra me libertar. Acha que eu conseguiria suportar a ideia de te ferir? Não. Eu prometi a Bobby que te protegeria, prometi também ao meu irmão... e a mim mesmo. E vou cumprir isso não importa o que tiver que fazer.
Vic não retrucou. Sabia que Sam podia ser tão teimoso quanto ela quando queria.
– Tudo bem, Sam. Não vou discutir isso porque senão vamos ficar aqui até amanhã tentando convencer um ao outro o quanto é insuportável que um de nós morresse – ela estremeceu com tal pensamento – Mas tem uma coisa, Sam, isso você vai ter que me prometer e cumprir.
– E o que seria?
– Da próxima vez, me faça o favor de conversar comigo e não fugir de mim. Que raiva! – ela deu um tapa leve no ombro dele – Eu louca pra você me agarrar de beijos depois que saísse do quarto do pânico e você me ignorando, fugindo de mim. Isso foi cruel de sua parte!
Ele riu mais uma vez.
– Está certo, Vic. Não vou fazer isso, prometo. Se te serve de consolo, eu fiquei louco por não poder te tocar, foi difícil pra mim também.
– É, precisou de um Tormento pra te incentivar. E que incentivo! Você parecia tarado por mim!
–Eu já sou tarado por você, lembra? Mas... me contenho um pouco mais. E pelo menos, pra alguma coisa serviu aquele Tormento.
Ele a beijou levemente nos lábios.
– Eu te amo, Sam. Nunca se esqueça disso. –ela sussurrou afastando um pouco a boca
– Eu também te amo, Vic. Apesar dos seus defeitos “mais horrorosos do mundo” – zombou dela.
– Hãhãhã! – ela lhe deu murros de leve no peito.
Os dois riram juntos, abraçaram-se e ele a beijou ardentemente deitando-se sobre ela no sofá.
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