Almas Trigêmeas
33 Otelo 1ª parte
Notas iniciais
Anteriormente:
— E o que você viu que tem a ver com o caso?
— Eu vi vários Tormentos. Era uma espécie de demônios responsáveis por punições mais específicas pra cada tipo de pessoa que estava lá. Um desses Tormentos se chamava o Vingador dos Anjinhos.
(...)
— Qual deles... é o seu Mestre?
— Ah, isso vocês vão descobrir logo, logo. Ah! E adianto que o escudeiro do Guerra não está nada contente em vocês terem acabado com o mestre dele. É um Tormento que vai lhes dar uma boa lição – voltou-se para Sam – Claro, ele... deve pegar leve com você se não quiser enfrentar a ira de Lúcifer.
(...)
— Que tipo de Tormento?
— O Tormento dos Medos. Ele... chegou a me torturar algumas vezes quando eu estava no Inferno – sorriu amargo – Alguns o apelidaram de Freddy Krueger. Mas acho que o Freddy perto desse demônio seria só um garoto levado tentando assustar os outros – Dean sentiu um arrepio só de recordar mais uma vez esse período negro de sua “vida” – Essa coisa faz com que todos os seus piores medos sejam mostrados pra você de forma intensa. Tudo o que você nunca quis escutar, tudo o que você nunca quis enfrentar e outros medos que teve na vida. Multiplicados em um milhão. Você prefere qualquer sofrimento, até as piores dores físicas do que ver seus medos mais profundos expostos ali diante de você.
(...)
— Os Tormentos atraem aqueles cujos sentimentos ruins são mais fortes – completou Castiel — Esse parece que desperta magoas mal resolvidas.
Um silêncio se fez por alguns instantes. O anjo havia dito algo que incomodou aos caçadores, sobretudo os dois irmãos. Ambos sabiam que havia magoas profundas entre eles nos últimos tempos, sobretudo em Dean.
— Esse camarada deve ser o Despeja Merda – informou o loiro para quebrar o clima constrangedor.
— O... o quê? – indagou Collins pensando ouvir mal
— O Despeja Merda. Eu vi o que ele fazia com aqueles que tinham morrido com muito ódio e sem ter perdoado os seus na Terra – disse sem muito ânimo – A punição que ele dava era fazer com que todos despejassem sem parar um monte de...
— Pare! – pediu Collins com repugnância – Não quero nem ouvir o resto.
(...)
— Me explica uma coisa, Cass – o anjo prestou atenção – Qual a relação dos Tormentos com os Cavaleiros do Apocalipse? – Dean e Sam ficaram atentos. Era algo que também queriam entender – Quer dizer, eu sei que são uma espécie de escudeiros, mas... o que mais? Eu pergunto isso porque o último Tormento afirmou servir o Fome. A sua destruição não afeta o Cavaleiro?
— Em parte. Os Tormentos são como uma espécie de força pra trazerem os Cavaleiros e os vincular neste mundo. Eles também podem servir para fortalecer os corpos e até apressar as vindas de seus mestres. Para isso, os Tormentos precisam da energia de suas vítimas. É por isso que trazem um monte de mortes consigo, como um sacrifício aos Cavaleiros. Mas quando um Tormento é destruído, dificulta um pouco as coisas.
(...)
Sam olhou para o irmão. Viu em seu olhar o horror e, depois a decepção estampada. Também olhou para Victoria. No olhar desta, havia espanto, incredulidade e certa repugnância.
(...)
Victoria se aproximou dele a passos rápidos e surpreendeu-o abraçando-o forte. Dean aceitou aquele conforto mandando para o inferno seu orgulho de macho. Vic continuou chorando com a cabeça mergulhada em seu ombro. Ele também chorava, embora não fizesse ruído como ela. Não disseram mais nada um para o outro. Não precisavam.
Capítulo 32
Otelo (1ª parte)
Somerset, Kentucky
— Jerry, por favor! Não! – implorava uma mulher de cabelos negros e olhos castanhos escuros de belo porte. Debruçava-se sobre o corpo do vizinho no chão, um homem ruivo e de aparência agradável. Ele estava baleado no peito e respirava com dificuldade, mas ainda vivia. – Você está enganado!
— Não, eu que fui enganado esses anos todos por minha esposa e por meu melhor amigo! – esbravejou um homem claro de cabelo preto que apontava uma espingarda para a esposa. Seus olhos verdes brilhavam de ódio – Mas isso acaba hoje!
— Jerry... por favor!
Sem dar ouvidos à esposa, ele atirou na cabeça do ruivo. A mulher se afastou aos berros. Fez menção de correr.
— Pare aí, Lily!
— Socorro! Alguém me ajude!
— Cale essa boca!
Ela se calou tremendo dos pés à cabeça. Seus olhos estavam lacrimosos e seu lábio tremia. Jerry se aproximou dela com o olhar ferido.
— Como pôde fazer isso comigo, Lily? Eu te amava tanto! Eu... ainda te amo!
— Eu nunca fiz nada! Nunca te traí! Juro!
— Mentira! – ele gritou – Eu vi, eu ouvi cada sussurro de você, cada gemido seu... com ele.
— Você... você está louco! – ela balançou a cabeça negando a hipótese
— Sim... louco de amor, de tristeza e... de dor. Mas isso logo vai passar. Eu te perdoo, Lily. A gente vai ficar junto do outro lado.
— Nãaaao!
Foi inútil. Jerry atirou várias vezes no peito da esposa. Ela caiu morta. Ele contemplou sua queda com o coração despedaçado. Não sabia qual dor era pior: a de se sentir traído ou de ver a mulher que tanto amava sem vida.
Jerry não parou muito para refletir sobre aquilo: virou o cano da espingarda sobre a própria cabeça e apertou o gatilho.
— 0 –

Dez dias.
Victoria calculou mentalmente deitada na cama. Dez dias.
Fazia dez dias que ela e Sam não se tocavam. Seis dias do isolamento dele no quarto do pânico e mais quatro em que saiu.
Estava “limpo” do sangue demoníaco, voltando a agir com pleno equilíbrio e racionalidade de seus atos. E só.
Desde que saiu, andava estranhando tanto a ela como a Dean. Estava taciturno. Falava com eles somente quando era interpelado e em poucas palavras. Victoria tentou conversar com ele a respeito do que lhe incomodava, mas Sam desconversava. Chegou apenas a dizer que precisava se acostumar com o fato de estar livre do período de reclusão.
Victoria sabia que o motivo alegado não era verdadeiro. Não ficou preso nem por uma semana. Tudo bem que para uma espécie de viciado aquele período era como uma eternidade, mas mesmo assim, não era um tempo considerável. Não. Aquilo era uma desculpa.
Também não faziam amor desde que ele saiu da cela. Antes do ocorrido, costumavam terem relações quase todos os dias. Obviamente, havia ocasiões em que ou por estarem esgotados devido a uma caçada ou ela estar “naqueles dias” se contentavam em apenas dormirem abraçados. Mas havia um contato físico entre eles. E agora... Deitavam-se juntos na mesma cama, porém, Sam dava um seco “boa noite”, virava-se de lado e dormia. Ou pelo menos parecia dormir. Sem nenhum beijo. Nem um abraço. E isso não só na hora de se deitar, mas em outros momentos do dia.
Não era por falta de iniciativa de Victoria, ela se aproximava, insinuava-se para Sam e até tentava simples gestos de carinho mesmo sem conotação sexual. Porém, ele se esquivava, fugia como se ela tivesse alguma moléstia contagiosa.
Aquilo a estava matando por dentro! Não. Não podia mais deixar as coisas assim. Ia confrontar Sam assim que ele saísse do banho matinal.
Após essa decisão, os pensamentos de Victoria tomaram outro rumo. Dean. Desde a crise de Sam, eles haviam se aproximado mais do que nunca. Haviam saído duas vezes como bons amigos para relaxarem de toda aquela tensão. Mas na maior parte do tempo, ficavam próximos à cela de Sam observando e ouvindo alguns dos gritos que emitia devido às suas alucinações.
Particularmente, o que os aproximou foi aquele abraço na primeira noite de internação de Sam. Foi mais do que um gesto de conforto, ambos sabiam. No entanto, nada mais aconteceu, além do fato de se unirem mais ainda e consolarem-se mutuamente.
É claro que estavam cientes mais do que nunca do forte sentimento que nutriam por causa do abraço e das insinuações do Cavaleiro Fome. Todavia, não fizeram nenhum comentário a respeito. Era como se houvesse uma espécie de acordo mútuo entre eles de não tocarem no assunto. Algo que haviam combinado sem palavras. Não havia sentido em fazê-lo porque não pretendiam assumir aquele sentimento; ela porque continuava amando Sam e queria ficar com ele; e Dean porque jamais faria algo que pudesse magoar seu irmão.
Victoria suspirou. Complicações. Estava tudo complicado mais do que nunca.
Finalmente, Sam abriu a porta e saiu do banheiro. Usava apenas uma toalha enrolada na cintura e o cabelo ainda estava molhado pelo banho.
Victoria se sentou na cama e prendeu a respiração ao vê-lo. Ele era tão lindo!
— Bom dia – foi tudo o que ele lhe disse sem encará-la diretamente nos olhos ao vê-la acordada.
Foi um cumprimento tão formal, frio. Tão diferente do que costumava lhe dar. Ou era acompanhado de uma relação de amor logo pela manhã ou apenas um beijo. E sempre com um lindo sorriso e um olhar de quem parecia ver o ser mais belo do mundo.
O ser mais belo. Era assim que Sam lhe fazia sentir todas as manhãs. Mas não naqueles dias. Ao contrário, ele estava fazendo-a se sentir um peso na vida dele. Alguém com quem se sentia na obrigação de dormir junto. Será que o maldito sangue demoníaco era a causa? Será que havia esfriado todo aquele sentimento que Sam dizia ter?
Parecia que nem desejo ele tinha mais. Ela vestia suas camisolas mais sexys, suas lingeries mais ousadas e até ficava nua diante dele, mas nem isso parecia dar resultado. Bom, via um brilho nos olhos de Sam e até notava um nervosismo, mas ele desviava o olhar ou dava um jeito de escapar. Era como se tivesse medo de tocá-la.
Também havia lhe ocorrido que Sam talvez estivesse a ignorando daquela maneira para castigá-la. Sim! Para se vingar por ela tê-lo deixado preso implorando por ajuda. Essa parecia ser a explicação mais lógica já que ele também estava arredio com Dean.
Victoria o observou tirar umas roupas da gaveta da cômoda e colocá-las na cama para se vestir. Ela estava angustiada e tensa. Viu uma gota d’água escorrer pelo pescoço dele, deslizar pelo peito e ir para a parte de baixo sob a toalha. Ela sentiu uma inveja imensa daquela gota e soltou um suspiro alto sem querer.
Sam olhou para ela. Por breves instantes, eles se fitaram intensamente. Era como se através daquele contato visual, conseguissem transmitir um para o outro tudo o que estavam sentindo naqueles dias: saudade, paixão, desejo, angústia, mágoa, medo, vergonha e tristeza. Mas logo o contato se desvaneceu; Sam foi o primeiro a desviar os olhos, abaixando a cabeça e procurando fixá-los na s roupas que tinha escolhido.
Vic suspirou. Ela colocou os pés para fora na lateral da cama e olhou para baixo. Levantou os olhos para o namorado, mas ele fingia prestar atenção no que fazia. Tirou a toalha e começou a vestir a cueca.
Vic ficou excitada ao vê-lo completamente nu por uns momentos. Não importava o número de vezes que ela e Sam haviam tido relações e ela o via sem roupa; a visão do corpo dele a incendiava por completo. Sem poder se conter, levantou-se, foi até ele e abraçou-o pelas costas. Sam prendeu a respiração ao sentir as mãos dela sobre seu peito nu. Ainda segurava uma calça para vestir, mas seu movimento congelou com o contato dela sobre seu corpo.
A eletricidade entre eles era palpável. Podiam sentir a respiração um do outro se acelerar por aquele simples abraço, os corações baterem. Ele podia simplesmente se virar e tomá-la nos braços como tanto queria. Só Deus sabia o quanto ele estava fazendo um esforço supremo naqueles dias para não se render às suas emoções. Mas ele não podia. Tinha medo. Por isso, sem se virar, disse num tom frio:
— Se você quer tomar banho, é melhor se apressar... Dean deve aparecer aqui a qualquer instante.
Ele sentiu o corpo de Victoria enrijecer na hora. Depois, ela se afastou bruscamente e foi para um lado do quarto, dando as costas para o namorado. Cruzou os braços. Fechou os olhos mais uma vez e mordeu os lábios para reprimir a vontade de gritar de frustração. Sam a olhou. Um nó se formou na sua garganta. Sentia-se mal por aquela situação, mas não sabia como desfazê-la. Collins não se conteve mais e virou-se para ele:
— Sam, o que está acontecendo?
Por instantes, ele permaneceu calado. Por fim, retrucou sem a encarar:
— Não está acontecendo nada. – disse procurando manter a voz neutra
— Pior que você tem toda a razão – ela descruzou os braços e aproximou-se intimidando-o com o olhar- Não está acontecendo nada mais entre a gente. Qual o problema?
— Não tem problema algum, Victoria – ele tornou impaciente enquanto vestia a calça jeans – Eu apenas estou me acostumando em estar livre depois desses dias.
— Sam, corta essa, por favor! Não engulo mais essa desculpa! – ela o segurou pelos ombros – Olha pra mim! Sam, olha pra mim!
Ele o fez contrariado com um suspiro.
— Sou eu o problema, não é? Você está com raiva de mim? – ela continuou. – Você está com raiva de mim, sim! Está com raiva porque eu deixei você preso naquele lugar ao invés de te soltar. – ele desviou o rosto sem querer responder – Sam, eu juro pra você eu não queria te deixar lá, eu quis te libertar, mas o Dean e o Cass, eles...
— Não, Vic, não é isso! – ele negou ao ouvir o tom choroso da voz dela. Dessa vez, encarava-a intensamente e pegou em seu rosto com as duas mãos. Ela ficou um pouco aliviada só de sentir esse simples toque – Eu sei que vocês só estavam fazendo o que era melhor pra mim. Eu precisava disso ou estaria ainda alucinado por sangue demoníaco.
— Então, por Deus, me diz por que você tem me tratado dessa maneira. Por que tem me afastado assim?
Sam mordeu os lábios. Ele hesitava em responder, mas devia. Não aguentava mais fazer aquilo com ela, nem consigo mesmo. Queria apenas escolher as palavras adequadas sem magoá-la. Quando ia começar a se explicar, ouviram batidas na porta.
— Ei, pessoal! Estão prontos? – Dean os chamou
O casal fechou os olhos em sincronia de frustração por serem interrompidos.
— Quase, Dean, espere uns quinze minutos que já saímos. – respondeu Sam
Ouviram os passos do Winchester se afastando.
— É melhor você se arrumar – disse Sam tirando as mãos do rosto dela e direcionando seu olhar para a camisa na cama. Ele se abaixou para pegá-la.
Victoria esboçou um sorriso de escárnio e disse sem se importar de esconder seu tom de mágoa:
— Quer saber? Esquece! Eu não vou ficar implorando pra você se abrir comigo. Vai ser como você quiser, Winchester! – ela lhe deu as costas e foi pegar as roupas que vestiria. Sam ficou mexendo na camisa, mas atento a cada movimento dela com o rabo-do-olho. Vic se aproximou da porta do banheiro, mas se voltou para o namorado uma última vez – Aliás, pra facilitar a sua vida e a minha, talvez você devesse considerar voltar a dormir com seu irmão no mesmo quarto. Não precisa se sacrificar e dormir comigo!
Ele ia redarguir aquela resposta, todavia, Victoria entrou e bateu a porta com estrondo.
— Droga. – Sam praguejou baixinho e atirou a camisa na cama.
— 0 –
— Sam, o que você tem, cara? – questionou Dean enquanto dirigia o Impala pela autoestrada.
— Nada. – retrucou Sam taciturno.
— Não diga que não é nada. Você tem agido estranho comigo e com a Vic desde... – ele se interrompeu. Apertou os lábios – ... desde que te colocamos lá no quarto do pânico.
Sam não respondeu, mas se remexeu inquieto.
— Qualé, Sammy? Você tá com raiva da gente por ter te colocado lá? É isso?
— Não.
— Cara, a gente não teve escolha, você sabe... Achei que depois de tudo você fosse entender que era pro seu bem...
— Não é nada disso, Dean! – ele se impacientou – Qual o problema de você e da Victoria? Se estou dizendo que não tem nada, por que vocês ficam insistindo?
— Porque você não costuma agir assim, Sam, nem quando está de mau humor. E você e a Vic parecem estar distantes.... eu reparei.
— Pra variar. – tornou com sarcasmo — Você sempre repara na minha relação com a Vic
— Sam, não precisa se bolar por isso. Só estou comentando.
— Por quê? Ela foi desabafar que está insatisfeita comigo pra você?
— Cara, nem precisa disso. Qualquer um nota. Só o fato de você estar aqui viajando comigo e não com ela. Isso sem contar a cara de vocês dois...
— Olha, Dean... sério. Eu... me desculpe, mas não quero conversar agora. – passou as mãos no rosto – É, a Vic e eu estamos nos estranhando. Tivemos uma briga agora. Mas... não quero falar sobre isso.
— OK. – respondeu Dean com ar preocupado
Fazia dois dias que viajavam rumo à cidade de Somerset para investigar alguns estranhos casos relacionados a crimes passionais ocorridos nos últimos meses. O que lhes chamou a atenção não eram os crimes em si, mas a grande quantidade de ocorrências durante um curto período de dias de um assassinato para o outro.
Começaram a investigar o último ocorrido há dois dias de um homem chamado Jerry que matou a esposa e o vizinho na casa deste e, logo em seguida, suicidou-se. E deste crime puxaram pelo menos registros de uns quinze. Detalhe que antes a cidade era considerada um dos lugares mais pacíficos para se viver.
Haviam chegado à conclusão de que era algo relacionado a algum Tormento pelas mortes em massa. Contudo, Dean admitiu não se lembrar de nenhum que seguisse aquele padrão.
Faltavam apenas algumas horas para chegarem. Pelo caminho, fizeram duas paradas em lanchonetes. Victoria não quis comer na companhia dos dois; pedia o lanche e comia dentro do carro. Dean percebeu, mas não disse nada, muito menos Sam. O Winchester mais novo sabia que ela ainda estava magoada pela conversa que tiveram mais cedo e por ele se manter distante.
Finalmente, chegaram à pequena cidade. Depois de colocarem suas coisas num motel – Sam resolveu dormir no mesmo quarto que o irmão conforme Vic havia “sugerido” –, decidiram rumar para o hospital público da cidade.
Ao chegarem ao local, entraram e foram à recepção onde havia uma senhora de meia idade de óculos que lhes atendeu.
— Boa tarde. – cumprimentou Sam
— Boa tarde – respondeu ela com expressão séria – Em que posso ajudá-los?
— Onde fica o necrotério?
— E quem quer saber? – disse ríspida
Os três mostraram as falsas identidades de federais.
— O FBI mais uma vez? – ela tornou com desdém – Vocês não se cansam mesmo, hein? Desçam dois lances de escada, à esquerda de vocês está um longo corredor e só seguir em frente que vocês encontram o necrotério no final dele.
— Obrigado – retrucou Sam
— Simpática ela, hein? – comentou Dean após se afastarem
Seguiram conforme as indicações da mulher. Desceram as escadas e andaram por um corredor. Victoria e Dean iam mais à frente conversando sobre trivialidades; Sam ia calado atrás deles com expressão indefinida como se ruminasse algo. Soltou um leve suspiro para desvanecer qualquer tipo de pensamento incômodo. Não que estivesse sendo ignorado de propósito pelos dois – pelo menos não por Dean – mas sabia que sua própria atitude contribuía para que seus companheiros não o incluíssem em sua conversa.
Viram um homem magro segurando um esfregão e jogando alvejante no chão. Era um faxineiro magricela, baixo, pele clara e seu cabelo negro tinha costeletas dos dois lados do rosto e um pequeno começo de calvície no topo da cabeça. Usava um uniforme verde-limão e um crachá no lado esquerdo da roupa com seu nome e o da firma: Dave Forbes. Alliance Empreendimentos. Encarou-os como se eles fossem intrusos.
— Com licença, meu chapa – Dean ignorou o modo que o sujeito o fitava – Aquele é o necrotério? – apontou uma grande porta.
— Parece – disse o homem secamente e afastou-se.
— Nossa, parece que o pessoal daqui deve ter tomado o mesmo tipo de leite azedo pela manhã. – comentou o Winchester novamente
Victoria riu. Quanto a Sam, permaneceu sério.
Entraram no necrotério. No lugar, não encontraram nada de relevante. O legista que os atendeu, Doutor Tyson, mostrou-lhes os corpos de Jerry Lawson, sua esposa Lily Lawson e o vizinho e amigo deles Christian Mirres. Não havia nada de anormal em seus cadáveres, a não ser pelas marcas das balas disparadas por Jerry.
Após isso, saíram do lugar.
— Para onde agora? – inquiriu Victoria se dirigindo mais a Dean
— Para a delegacia – respondeu ele – Devem ter algo nos registros sobre mais vítimas.
Retomaram o mesmo caminho, só que Victoria ia à frente deles. Dean não pôde deixar de observar os quadris dela se balançando com graça e elegância enquanto caminhava.
— Pare, Dean – murmurou Sam baixinho.
—Ahm... Parar o quê? – replicou o loiro saindo de seu estado meio abobado
— Pare de ficar observando o corpo da minha namorada. Dá até pra ver a baba escorrendo da sua boca.
— Eu... Eu não estava... – tentou disfarçar envergonhado
— Estava sim, não negue. – murmurou Sam mal contendo um pouco da irritação que sentia – Você sempre a observa, eu sei.
E deu alguns passos à frente deixando o irmão com cara de tacho. Sam se emparelhou com Victoria. Surpresa, ela o olhou meio de lado, mas fingiu não notar e seguiu prestando atenção à sua frente.
— Vai continuar me ignorando? – perguntou Sam.
Victoria se surpreendeu um pouco por ele tomar a iniciativa de uma conversa, mas procurou não demonstrar.
— Não estou te ignorando – retrucou ela.
— Ah,é?
— É. – ela voltou o rosto para ele – Estou te dando espaço. Não é o que quer?
— Não mesmo – afirmou e acercou-se dela colocando o braço em sua cintura.
Vic arfou. Estava faminta pelos toques dele, por seu corpo, mas não pretendia demonstrar o quanto. Ainda assim, não o afastou. Apenas permaneceu calada sem saber o que dizer. O moço sorriu consciente de seu efeito sobre a namorada.
Dean os observou, algo o incomodava. Não a aproximação deles, mas as palavras de Sam. E a impressão de uma leve ameaça velada empregada no seu tom de voz.
— 0 –
— Sam, eu não entendo. – desabafou Collins após entrarem no Impala branco. Ele insistiu em ir com ela
— O que você não entende? – ele indagou embora soubesse a resposta
— Achei que você quisesse ficar afastado de mim por esses dias que estava me evitando. Por que de repente aqui no hospital resolveu se aproximar?
— E quem disse que eu queria ficar afastado de você? – ela o olhou com cara de paisagem – Tá, eu sei que tenho agido estranho, mas acredite, Vic, o que menos quero é ficar longe de você
— Então me explica o seu comportamento.
— Poderíamos falar sobre isso mais tarde? – disse ele após uma pausa –. Agora não seria um bom momento já que você vai dirigir.
— Ah, você acha que eu vou perder o controle se me disser alguma coisa de que não vou gostar?
—Não, minha querida – ele sorriu e apertou a bochecha dela com carinho. Ela estremeceu – Mas eu acho que essa conversa requer mais tempo do que alguns minutos no carro. Devíamos falar sobre assuntos mais leves pelo caminho.
Vic fez um muxoxo.
— Nós vamos conversar, Vic, eu prometo – ele colocou a mão sobre a dela que estava no volante – Você sabe que, normalmente, eu não sou de fugir de conversas.
— Sim, normalmente— ela o encarou enfatizando a última palavra. Ligou o veículo – Mas tudo bem. Conversamos sobre isso depois.
Deu partida, seguindo o carro de Dean. Chegaram à delegacia da cidade e estacionaram. Entraram no estabelecimento. Era um prédio comprido de dois andares. Depois de se identificarem na recepção com um jovem policial, foram instruídos em como chegar à sala do delegado. Passaram por várias mesas, salas e divisórias.
Dean ia à frente, Vic ao meio e Sam atrás deles. O Winchester mais novo reparou que a maioria dos funcionários era formada por homens e que, muitos deles, viravam o rosto e olhavam longamente para Collins, o que o incomodou de forma intensa. Não que aquilo fosse incomum, ao contrário, Victoria sempre era alvo da atenção dos olhares masculinos aonde quer que fossem. Porém, Sam havia se habituado e conseguia lidar com aquilo. Todavia, dessa vez, a raiva fervia em seu sangue. Sentia uma vontade imensa de socar todos aqueles malditos policiais.
Qual era o problema daqueles caras? Victoria era sua!
Antes que partisse em cima de alguém, ele se acercou da namorada e colocou a mão sobre seus ombros com certa possessividade.
— Sam! – ela se sobressaltou. Olhou para os lados. Aquilo poderia estragar seus disfarces. – O que pensa que está fazendo?
— Apenas ... agindo com naturalidade – ele disse num tom carinhoso. Seus olhos fulminaram os que ainda se atreviam a secar Victoria e voltaram-se para ela. – Federais também namoram. Sabia?
Vic não pôde deixar de sorrir e balançou a cabeça para os lados. Mas estava gostando daquela aproximação. Sam parecia mais carinhoso e amoroso do que nunca, embora um pouco indiscreto e fora do protocolo profissional com que atuavam.
Os três subiram as escadas para o segundo andar e, no meio do corredor, estava a sala do delegado. Dean bateu na porta.
— Entrem – soou a voz grossa de um homem de meia-idade, cabelos grisalhos, pele clara, robusto e com um pouco de barriga. Estava sentado a uma escrivaninha de mogno que tinha uma borda com a ponta lascada. Seus olhos verdes e analíticos observavam o trio que entrou – Em que posso ajudá-los?
— Somos agentes. – adiantou Dean e mais uma vez mostraram suas falsas identificações – Podemos ver seus registros?
— 0 –
Louise acreditava piamente que seu marido tinha uma amante. Mas não havia evidência que confirmasse suas suspeitas. Ela até contratou um detetive gastando boa parte da poupança que havia em seu nome, porém, o profissional não havia encontrado nenhum fato relevante: nada de encontros em motéis, nem em restaurantes e nem em casas noturnas.
Ou seu marido era um homem muito esperto ou o detetive que era um incompetente. De qualquer forma, Louise tinha certeza que Morgan era infiel e que ela não podia mais conviver com aquela inquietação a consumindo por dentro.
Por isso, depois da hora em que atendeu aqueles últimos três agentes do FBI em seu turno na recepção do hospital, ela pediu para sair mais cedo do trabalho alegando assuntos urgentes. Pegou seu velho carro no estacionamento e dirigiu até a loja de ferramentas que seu marido possuía num bairro próximo ao que moravam.
Quando chegou lá, viu uma terrível cena: seu marido estava no balcão da loja e sorria para uma loira oxigenada! Era isso! Aquela era amante de que ela tanto desconfiava!
Sem nem pestanejar e ignorando o cumprimento de um dos empregados de seu esposo, Louise pegou uma picareta pendurada num mostruário, avançou a passos largos e meteu-a com toda força na cabeça da loira. A garota nem gritou já que estava de costas e nem teve tempo de presenciar o que lhe aconteceria. Seu corpo caiu ao chão instantaneamente.
O pânico e a gritaria foram gerais tanto da parte dos funcionários quanto de outros clientes! Morgan ficou perplexo e paralisado.
Alguns tentaram segurar a enlouquecida mulher, mas ela se libertou batendo com a ferramenta em quem se metesse em seu caminho. Louise parecia ter adquirido uma força descomunal tamanha era sua fúria!
Com determinação, avançou em seu marido. Morgan balançou os braços desesperado para que ela se acalmasse, mas inútil. Louise atacou-o sem dó! O corpo do homem caiu inerte sobre o balcão com a ponta da ferramenta enfiada na goela.
— 0 –
— Então... é isso – bufou Dean que conversava do lado de fora com Sam e Vic pela vidraça da porta lateral do Impala branco – Vocês em uma espécie de lua de mel num lugar paradisíaco e eu neste muquifo.
— Deixa de ser reclamão, Dean. Você sabe que é pra descobrir se temos ou não um Tormento aqui – declarou Victoria de dentro do carro
Era fim de tarde. Haviam ficado um bom tempo na delegacia. Conversaram com o delegado e leram os relatórios de diversos casos de homens e mulheres que mataram seus parceiros e os supostos amantes destes para logo se matarem. As mortes variavam de tiro para facada, mas nada anormal encontrado em seus corpos.
A lista de ocorrência era grande e havia começado quase na mesma época em que Lúcifer saiu de sua gaiola. Não havia a menor dúvida. Aquilo era coisa de um Tormento.
Decidiram se separar para investigarem melhor. Saíram do motel onde estavam para se hospedarem em diferentes locais: enquanto Dean ficaria num hotel de quinta categoria – um prédio de três andares que parecia que desabaria a qualquer momento de tão velho e decadente –, Sam e Victoria se hospedariam num lugar chamado Love Paradise, uma espécie de hotel para casais.
A escolha dos lugares se devia ao fato de o primeiro estar localizado na região de maior incidência daquelas mortes e, o segundo ser palco de pelo menos três delas.
— OK – ele revirou os olhos. – Vou ter que me acostumar com a companhia de ratos e baratos. Este lugar deve estar cheio delas.
— Você tem certeza que não se lembra de algum tipo de Tormento ligado a isso? – insistiu Collins
— Não. Eram muitos Tormentos para se ver mesmo em quarenta anos de inferno. Tinha muitos com castigos bem mais específicos. Este deve ser ligado a algo como traições pelo o que a gente viu naqueles relatórios, mas não consigo me lembrar de nada. O jeito é perguntar ao Cass.
— Ótimo. Faça isso – disse Sam esticando o corpo para fitar melhor o irmão da janela. Não estava gostando de ele estar tão próximo a Victoria – E agora se nos dá licença, temos que ir.
Dean encarou seu irmão por alguns instantes. Havia algo no olhar de Sam que o inquietava, além de seu tom de voz desgostoso.
— Certo – ele retrucou disfarçando seu incômodo – Eu entro em contato se tiver qualquer pista nova.
— Nós também – disse Vic e deu partida.
Dean ficou parado no meio da rua observando o carro se afastar. Depois, foi até seu Impala pegar a bagagem. Olhou mais uma vez o decadente prédio e soltou um suspiro.
— Baratas e ratos, aqui vou eu.
— 0 –
Vic deixou o carro numa vaga de um amplo estacionamento situado entre vários canteiros de gramas e alguns coqueiros.
— Bem, chegamos – ela disse após retirar o cinto.
Antes que saísse, Sam a puxou e deu-lhe um apaixonado beijo. Ela estremeceu ao sentir a boca quente dele sobre a sua, a língua exigente dele pedindo passagem e as mãos grandes e firmes acariciando sua face migrando do cabelo para o pescoço. Estava faminta pelos beijos dele, por seus toques. E o mesmo ocorria com ele já que deslizou uma das mãos com suavidade para um dos seios dela e apertou-o. Collins arfou. Em seguida, empurrou-o levemente com a palma para criar certa distância ao se lembrar de que estavam ainda no carro em pleno dia e em local aberto.
— Sam! – havia uma leve repreensão em sua voz, além do pouco fôlego causado pelo beijo. Ela o encarava com surpresa
— O que foi? – disse ele com sorriso malicioso sem se perturbar
— Como assim o que foi? – olhou para fora em duas direções.
Havia um carro estacionado quase à frente deles onde um jovem casal colocava sua bagagem, pois estavam de partida. E à direita, um homem idoso ajudava sua esposa também idosa a descer. Aparentemente nenhum deles havia notado a cena entretidos no que faziam.
— Não estamos sozinhos aqui. – tornou Collins
— E daí? Esse hotel é um local para casais apaixonados esquecerem o mundo lá fora – afirmou com serenidade e aproximou-se para abraçá-la e continuar o que haviam interrompido, porém, Vic se afastou.
— Certo, mas não precisamos mostrar um show para todos logo aqui no estacionamento – ela retrucou olhando para ele com estranheza – E depois estamos aqui mais para investigar.
— Eu sei, Vic, é o nosso trabalho e vamos cumpri-lo – redarguiu e sustentou um olhar penetrante que provocou calor em Collins – Mas isso não quer dizer que não podemos aproveitar a nossa estadia aqui como um verdadeiro casal que somos. Ainda somos um casal, não é? – ele a olhou com certa dúvida mesclada com imposição. Ficou um pouco tenso.
— Somos, seu bobo.– ela disse sem poder conter um sorriso. Ele se tranquilizou. – Podemos ter as nossas discussões e brigas de vez em quando, mas ainda somos um casal. Mas vamos aproveitar só lá dentro – ela apontou o dedo para o local e depois para ele – E você me deve uma longa conversa antes. Está lembrado, Winchester? Você me prometeu.
— E vou cumprir. Palavra de escoteiro – ele levantou a palma da mão em juramento em tom brincalhão
Vic riu.
— Vamos entrar então. – ela disse
Saíram do carro, pegaram a bagagem – apenas o básico – e andaram de mãos dadas até a recepção.
Embora Vic estivesse intimamente satisfeita por eles voltarem às boas, algo a intrigava. Sam agia um pouco fora do seu habitual. Seu modo de falar, de atuar estava... ela não sabia bem o quê definir. Atencioso. Não. Era uma definição mais exata. Protetor. Talvez. Mas isso ele sempre foi. Cuidadoso. Sim, era essa a palavra. Bastante cuidadoso. E aquilo a atraía e confortava-a. Por outro lado, também a inquietava. Contudo, resolveu não pensar ou sentir nada que pudesse levantar um muro entre eles outra vez.
Do estacionamento, Sam e Vic entraram por uma porta de vidro que se abria automaticamente em duas partes que se deslocavam para os lados ao menor sinal de aproximação de pessoas.
A recepção apresentava certo luxo com sua pintura creme, poltrona e sofás da mesma cor. Havia uma mesinha ao centro, uma imitação da pintura O nascimento de Venus na parede principal, um carpete de boa qualidade que cobria todo o chão e pequenas lâmpadas fosforescentes em forma de globo. O balcão era feito de carvalho revestido com tinta da mesma cor que as das paredes.
Um recepcionista negro num terno branco se dirigiu ao casal com sorrisos e simpatia assim que se aproximaram.
— Boa tarde. Em que posso servi-los?
— Um quarto, por favor – pediu Sam
— Hum... Na verdade não temos quartos, mas chalés.
— Chalés?
— Sim, senhor, com todo o conforto e separados a uma boa distância um do outro. Para o casal ter mais privacidade.
— Tudo bem, pode ser.
— Mas temos diferenças de preços devido à localização. Deixe-me mostrar – ele se abaixou para pegar uma cartela de preços em capa dura.
— Até outro dia, Adam! – um homem claro e alto de cabelos castanho claro se despediu. Vic e Sam olharam para trás instintivamente. Notaram que o homem vestia um conjunto de calça e terno verde limão. Levava uma prancheta na mão e alguns papéis. Saiu pela portaria principal.
— Até outro dia, senhor Hanks. – respondeu o recepcionista com um aceno de mão. – Aqui está a tabela de preços.
— Deixe-me ver... – os olhos dela vislumbravam uma longa lista enquanto o dedo deslizava sobre a cartela. Ficou um bom tempo lendo a descrição das comodidades de cada chalé até apontar um item. Ela levantou o rosto para seu companheiro – Sam, que tal este?
Entretanto, o Winchester estava distraído olhando para trás. Desde o momento em que havia se virado para observar o homem de terno verde, ele havia reparado em outro de cabelo preto e bigode sentado numa poltrona junto com uma mulher loira, talvez sua esposa ou namorada. Ela folheava uma revista sem perceber que seu companheiro olhava descaradamente para o corpo de Victoria.
O sangue de Sam ferveu. O patife tinha mulher e ousava olhar para a sua na maior cara de pau?
Ao notar o olhar assassino do Winchester, o homem desviou o rosto e olhou para a frente. Um jovem rapaz chegou empurrando um carrinho e colocou as malas do casal sobre o objeto.
— Sam? – a voz de Vic captou a atenção do Winchester
— Ahn... O que foi? – por fim, ele voltou sua atenção para a namorada
Ela o olhou intrigada, mas disse:
— Pra você está bom este chalé? – mostrou para ele
— Sim... pode ser.
— Bem, nesse caso, assinem aqui, por favor. – pediu o recepcionista
Ele lhes passou um formulário e um contrato. Depois, entregou-lhes a chave e chamou um serviçal para levar a bagagem deles num carrinho. Nesse meio tempo, Sam havia observado o casal sentado na poltrona se levantar, acompanhar o outro serviçal, descer uma rampa a alguns metros e separarem-se; a mulher continuou seguindo o funcionário enquanto o homem se dirigia a uma construção circular no meio do caminho. Era um sanitário público.
— Queiram me acompanhar, por favor – disse o atendente que os conduziria.
Eles o seguiram.
— Vic, pode ir na frente – disse Sam quando eles passaram perto do sanitário
— Aonde você vai?
—No banheiro. Eu acho o chalé depois.
Deu um rápido beijo no rosto dela e entrou no local.
O sanitário era amplo e não havia ninguém em seu interior, exceto Sam e o sujeito da recepção. Este acabava de sair de um dos boxes após dar descarga. Foi até a pia e, ao olhar para o espelho, tomou um susto ao ver o reflexo de Sam. O Winchester o fitava com extremo ódio. O homem ficou nervoso, mas tentou disfarçar e tratou de lavar as mãos rapidamente.
Assim que se virou para ir embora, Sam interceptou seu caminho.
— Com licença, por favor – disse tentando imprimir um tom de imposição na voz
— Está com pressa? – indagou Sam com sarcasmo.
— Você é algum maluco por acaso? Notei que desde a recepção não para de me observar.
— É, eu também notei que você não parava de devorar minha namorada com os olhos. – o homem engoliu em seco – Eu não sou maluco, mas se tem uma coisa que me deixa maluco é quando um cara se atreve a olhar pra minha mulher como se ela fosse uma qualquer.
O indivíduo estremeceu, mas procurou não se intimidar:
— Olha, se você não sair do meu caminho, eu vou...
Antes que dissesse qualquer outra coisa, Sam o calou dando um soco em seu estômago e empurrou-o com os dois braços contra parede segurando em sua gola. O homem tossiu.
— Ca... cara... você é louco... – disse quase sem fôlego
— Da próxima vez que olhar pra minha mulher daquela forma, eu te mato – disse num tom baixo e raivoso imprensando o rosto do sujeito entre as mãos. O homem arregalou os olhos. Teve a certeza que Sam não blefava. – E acho melhor você não contar para ninguém sobre a nossa conversa. Isso acabaria chegando aos ouvidos de sua acompanhante e ela, imagino, ficaria muito zangada. E acho que você também não vai querer me ver zangado.
Ele largou o sujeito que permaneceu paralisado com as costas na parede. Sam deu alguns passos para trás antes de se virar e sair. Foi um custo para ele não acabar ali mesmo com aquele homem que representava uma ameaça à sua relação com Victoria.
Ninguém tiraria Vic dele. Ninguém.
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