Almas Trigêmeas

51 Os deuses devem estar loucos 1ª parte


Notas iniciais
Sim, sei. Aleluia! Finalmente posto mais um capítulo. Por favor, não me joguem pedras. Eu sou a primeira a praguejar pela demora em postar a fic. Esse capítulo contém partes do episódio 19, O martelo dos deuses. Enfim, espero que ainda tenha leitores e que vcs não sejam maus se vingando em não comentar. Sejam bonzinhos. OK? Rsrsrs... Divirtam-se!

Anteriormente:

– É um trickster – disse Bobby

– É um espírito, demônio? — indagou Dean

– São semideuses. São imortais e podem criar coisas do nada, geralmente com senso de humor. Piadas mortais.

(...)

– Mas não foram meus torturadores que me soltaram. Eu fui resgatada por um grupo de anjos.

– Qual grupo? Por acaso alguns partidários de Lúcifer?

– Não. Nem partidários de Lúcifer nem de Miguel.

– Então de quem?

– Isabel.

O anjo abriu a boca incapaz de acreditar.

– Sim. Isabel. A terceira arcanjo mais poderosa, irmã direta deles.

– Impossível – ele sussurrou num fio de voz – Ela é só uma lenda.

– Era o que eu pensava até ser salva por ela e pelos anjos que a apoiam. E sabe o que significa ela existir, não é?

– Não – ele lhe deu as costas – É absurdo demais.

– Não é. E você sabe no fundo que digo a verdade.

– O que quer dizer?

– Victoria Collins. Sim. Você sabe o que ela representa. E sabe também que Dean e Sam são mais do que meros recipientes escolhidos por Miguel e Lúcifer.

(...)

– Sam, eu me lembrei! Me lembrei! – dizia ela aflita

– Calma, Vic. Relaxe – Dean se aproximou – Do que você está falando?

– Eu me lembrei, Dean, do que aconteceu comigo e minha família. Eu sei agora quem foi que matou eles e tentou acabar comigo. – ela o fitou

Ele e Sam se entreolharam. Pareceu-lhes como se ela estivesse ouvindo a conversa deles.

– Quem? – inquiriu Dean, mas quase podia adivinhar a resposta.

– Miguel.

Os deuses devem estar loucos (1ª parte)

Numa noite chuvosa, Dean conduzia o Impala com bastante atenção. Não era uma chuva qualquer, mas um temporal que parecia querer derrubar o mundo. No banco do passageiro, ia Sam; atrás, Victoria. Viajavam num total silêncio.

Collins estava muito aborrecida com eles. O motivo? Quase fracassaram numa caçada que fizeram a um simples espírito vingativo, devido à recente síndrome de superproteção – como a própria Vic definiu – que os Winchesters desenvolveram com relação a ela. Estavam mais preocupados em vigiar cada passo seu do que se aterem ao trabalho que deveriam fazer.

Se soubesse que ia ser assim, Victoria nunca teria contado a eles acerca de sua recente descoberta sobre a culpabilidade de Miguel na morte de sua família e de quase assassiná-la junto.

Haviam debatido a questão, haviam até comunicado o fato a Bobby – ele quase surtou ao saber – e concluíram que realmente Miguel estava por trás do massacre dos Collins.

Bom, os Collins para Dean; Vic ainda não havia contado para ele sobre seus verdadeiros pais e sua verdadeira identidade (e nem achava que devesse), apesar da insistência de Sam.

– Não há mais razão de esconder isso dele – disse Sam – Você estava crente que era algo relacionado a alguma maldição e que por isso seu pai te pediu pra não contar, mas já sabemos que não é assim. O segredo era mais por causa de sua identidade, pra você não se revelar a ninguém. Agora sabemos que se trata de Miguel e ele não tem interesse algum em destruir o Dean... Ou pelo menos não tinha... antes de pegar o Adam. – a expressão de Sam se anuviou ao se recordar do fato – De qualquer jeito não há mais motivo pra você esconder isso dele.

Contudo, Vic não concordava. Já havia mentido para Dean e temia sua reação; ele não era tão compreensivo quanto Sam. Além disso, que relevância tinha ele saber ou não? Foi sua resposta. Disse o mesmo para o Bobby quando ele a questionou. Os dois resolveram não falar mais nada; sabiam o quão teimosa era.

De qualquer jeito, a questão era que Miguel pretendia eliminá-la tanto quanto Lúcifer e isso era, no mínimo, preocupante. Se com um arcanjo, as coisas estavam difíceis, imagine com dois.

Todos sabiam (ou supunham) o motivo do Diabo querer eliminar Victoria: por causa de sua influência sobre Sam. Mas e Miguel? A resposta mais evidente era por causa de “sua amizade” com Dean (não se comentou, óbvio, a profundidade dos sentimentos do caçador). Porém, era absurdo imaginar que um arcanjo ia querer acabar com uma criança e sua família só porque futuramente ela teria certa influência na decisão de seu recipiente. Se bem que com esses arcanjos, vai lá discutir alguma coisa sobre lógica. De qualquer jeito, cogitavam que deveria ter um motivo muito mais além.

Precisavam interrogar Castiel a respeito. No entanto, ele não havia dado sinal de vida há uma semana desde “a operação Adam.” Só restava esperar.

Enquanto isso, Dean e Sam continuariam “a caçar” com Vic. Claro, ela sabia que o termo correto era proteger. Negou-se a ficar encarcerada com Bobby – ameaçou sair e a procurar sozinha pelos sinais do Apocalipse se insistissem – e, por isso, os Winchesters não tiveram opção a não ser concordar que continuasse com eles. Por mais que Sam a quisesse por perto, agora mais do que nunca, sabia que ela estava em total perigo. Mas convencê-la do contrário era perda de tempo.

Por isso, mantinham-na por perto, porém, mais vigilantes do que nunca, o que lhes distraiu bastante da última caçada em que trabalharam por dois dias – além do fato de também estarem preocupados em encontrar Adam (gastaram os primeiros cinco dias da semana em encontrar qualquer pista sobre seu paradeiro sem sucesso). Não havia perigo de Apocalipse na tal caçada; era algo pequeno, contudo, ainda assim não conseguiram se concentrar totalmente, focados em vigiá-la e protege-la de qualquer coisa. Vic que teve que tomar as rédeas do trabalho – por mais irritada que estivesse. E depois esculachou a ambos – não poupou nem a Sam – e se recusou a lhes dirigir a palavra até que repensassem sua própria atitude.

Agora estavam ali, os três amuados naquela viagem; Sam e Dean nem trocavam palavras entre si. Vic suspirou. Ela não queria permanecer chateada com eles, não depois de tudo o que passaram nos últimos dias. Queria estar bem com eles, sobretudo com Sam. Ela olhou distraidamente para a imagem de São Cristóvão que Dean colocou no painel do carro. Seu coração se aqueceu.

– Vic, não posso te devolver seu carro. Nem mesmo com todo o dinheiro do mundo eu poderia te dar um igual. Sei que ele era único – declarou Dean no primeiro dia em que iam viajar para aquela caçada – Mas posso ao menos te oferecer o melhor do meu. Você pode considerar que é seu também

– Olha, que eu acredito – brincou ela.

– Falo sério mesmo. Eu... te deixo até dirigir de vez em quando.

– Sério mesmo? – ela se animou.

– É, mas sem abuso.

Ela riu.

– Claro, Dean, sem abuso.

– E pra te mostrar que é sério, olha lá – ele apontou para o painel do carro. Vic estreitou os olhos para poder enxergar o que Dean apontava – Está vendo?

– Não, eu... – começou a falar, mas depois conseguiu distinguir o que ele mostrava – É o meu santinho!

– É. Eu... vejo que você sempre anda com ele na mão e pedi ao Sam pra me entregar. Coloquei no carro. Uma forma de você se lembrar do seu.

– Dean, muito obrigada! – ela o abraçou entusiasmada

– Ei, ei! Sei que sou irresistível, mas não precisa se animar demais. Sam pode ficar enciumado.

– Bobão! – ela lhe deu um tapa no ombro após se afastarem

Riram-se. Não havia mais constrangimento entre eles.

Como poderia ficar zangada com Dean?

E ainda havia Sam. Seu coração se apertou. Ele não a questionou sobre o beijo com Dean. Não quis saber seus motivos, não lhe pediu explicação. Ele simplesmente a perdoou e queria continuar a seu lado.

– Eu te amo – disse Sam ao beijá-la terna e suavemente enquanto deslizava as mãos sobre seu corpo nu.

Desde a luta contra a Prostituta até o ataque de Vic após o enfrentamento com Miguel, não faziam amor. Embora se passassem apenas quatro dias, foi um tempo longo para eles depois de tudo o que lhes aconteceu.

Agora nos braços um do outro, era como encontrar o oásis depois de atravessar um grande deserto.

– Eu também te amo – Vic respondeu à declaração olhando bem no fundo dos olhos de Sam.

Queria que ele soubesse que o amava. Precisava, após se inteirar que ele sabia sobre seu beijo com Dean.

Talvez devessem conversar a respeito. Não queria estragar um momento lindo como aquele, mas ela não se sentiria aliviada até conversar com ele.

– Sam, eu... – ela tentou falar, mas ele a silenciou com dois dedos.

– Não fale nada, Vic. Não estrague esse momento, por favor.

– Mas, Sam...

Não conseguiu falar porque a boca do namorado cobriu a sua e estreitou-a mais forte em seus braços. Collins se deixou envolver por ele como sempre acontecia e mergulhou nas ondas do prazer e do amor, esquecida de tudo.

Como poderia se aborrecer com Sam?

Pensando em tudo isso, por fim, ela lhes dirigiu palavras.

– OK, rapazes, vamos parar com isso. Esse clima entre nós está me matando.

– Ouviu alguma coisa, Sam? – perguntou Dean zombeteiro após curta pausa – Parece que alguém falou com a gente.

– Dean. – havia uma leve repreensão na voz de Sam

– Tá, Dean, sei que falei horrores com vocês – Vic revirou os olhos – Mas, por favor, vocês estão me tratando como se eu fosse uma amadora. Pior, como uma donzela indefesa.

– É, Vic, nós estamos – admitiu Dean com rispidez sem tirar os olhos da estrada – Olhe, donzela você não é, mas indefesa sim – acrescentou com deboche. Collins estreitou os olhos – Você queria o quê? Está na mira de dois babacas do mais alto grau do exército dos Céus e espera que a gente encare isso como nada?

– Sim, eu espero. – retrucou ela – Desde antes de conhecer e trabalhar com vocês, sempre enfrentei coisas perigosas. Estive perto da morte várias vezes e sobrevivi a todas.

– Mas você não estava andando com a gente e Miguel acreditava que você estava morta. Depois que te viu desde que começamos a caçar juntos, já descobriu quem você é. – replicou Sam com cuidado para não revelar o segredo dela perto de Dean – E Lúcifer também.

– E até a gente saber o que você tem de tão especial para quererem acabar com você, vamos vigiá-la sim. Goste você ou não – Dean foi taxativo – A opção foi sua. Você preferiu continuar com a gente do que com o Bobby, agora aguenta.

– Ah, é? Pois se vocês continuarem a agirem assim comigo, eu desapareço e volto a caçar sozinha – ela ameaçou.

– Essa ameaça de novo pra cima da gente? Sei – desdenhou Dean – Você não aguentaria ficar longe do Sam. Pelo menos com Bobby você teria mais contato.

Era verdade num certo ponto. Porém, Vic não daria o braço a torcer.

– Se você duvida que eu possa fazer isso, Dean Winchester, então por que estou aqui? – devolveu. Dean não retrucou nem Sam. Ela assentiu com um sorriso presunçoso – Está vendo?

– Droga, Vic! Você não vê que a gente só está preocupado com você? Sam, ajuda aí! A namorada é sua!

– Vic, sei que está aborrecida, mas nós...

– Não, não e não! – Victoria o interrompeu – Não quero saber! Antes de ser sua namorada, Sam, e amiga de Dean, sou e sempre fui uma caçadora. E exijo que me tratem como tal! – os dois suspiram derrotados – Rapazes, nós não podemos nos dar o luxo de nos distrair. Já basta a preocupação com o Adam. Temos que nos concentrar em achar uma solução para o Apocalipse. Então por favor, parem de querer me proteger! Do que adianta se vocês continuarem a agir assim se o Mundo acabar? Até aqui vocês confiaram na minha capacidade antes de saberem do que Miguel ou mesmo Lúcifer fizeram comigo. Então peço que continuem a confiar que vou sobreviver. Pelo amor de Deus, corremos risco a toda hora! Quem garante que não serei morta por um simples espírito vingativo ou que não morrerei sufocada por um osso de frango?

– Não fale assim – Sam a repreendeu.

– Você entendeu o que eu quis dizer – declarou Vic com um suspiro – Nós estamos juntos nisso desde o começo. Agora, se preferirem... posso me afastar. Vou eu mesma sozinha procurar sinais do Apocalipse. O que me dizem?

Nenhum dos dois contestou nada a princípio. Era verdade que achavam melhor Vic se manter à distância de tudo aquilo (embora não o desejassem), mas no conforto e segurança da casa de Bobby. Não que fosse um lugar cem por cento, mas era a melhor chance para Collins. Porém, sabiam de sua teimosia se continuassem a agir da maneira superprotetora nos últimos dias.

– OK, Vic – foi Dean que concordou depois de bufar – Vai ser como você quer... vamos voltar a agir normalmente com você. Pelo menos a gente vai tentar.

– Yes! – soltou Vic erguendo os punhos

– Mas só se você prometer que se pintar o Diabo ou Miguel em pessoa na área, você vai se mandar.

– Há, nem a pau! – protestou Vic

– Vic, se você quer que confiemos na sua capacidade, então tem que demonstrar que é digna dela– interveio Sam – Sabemos que você é uma excelente caçadora, mas também já mostrou certa imprudência. Lembra-se de quando fomos enfrentar o Diabo em Carthage e você ficou na minha frente quando te pedimos que fosse embora se as coisas se complicassem? – inquiriu Sam quando ela abriu a boca para protestar.

– Sam, isso é golpe sujo – reclamou – Estava te defendendo. Não podia ficar parada vendo você talvez ser morto ou ferido por Ele... o que acabou não acontecendo.

– É esse justamente o problema, Vic. Dean e eu somos os alvos deles. Bem, talvez mais eu se o Adam... – Sam não completou a frase. Um nó se formou em sua garganta – De qualquer jeito, é por isso que estamos preocupados com você. Sim, de forma exagerada, admito... mas você também tem que saber a hora de se retirar de uma luta. Se você estiver no meio de um embate com eles, podem te usar para nos atingir. E isso seria terrível. Entende isso?

– Tá, Sam, entendo – ela concordou a contragosto.

– Então a senhorita promete que vai ficar quietinha no seu canto quando formos enfrentar o Diabo ou Miguel?

– Tá, Dean, prometo.

– Palavra de caçadora?

– Sim – ela revirou os olhos e levantou a mão – Palavra de caçadora. Mas prometam que vão parar de bancar meus guarda-costas.

– OK, prometo.

– Não vai ser fácil para mim – Sam disse com sinceridade – Mas prometo.

– É isso aí, rapazes. – Vic se aproximou de seus assentos e lhes deu tapinhas nos ombros – Agora podemos continuar falando na mesma língua.

– E tem alguém aqui que falou em enoquiano? Que eu saiba só o Cass – troçou Dean

– Há-há – retrucou Vic com uma careta e tornou a se recostar no assento de trás.

Pairou um silêncio entre eles, mas, dessa vez, era confortável, daqueles que você se sente em harmonia com as pessoas ao seu redor e não precisa de palavras para se expressar.

– Poxa, essa chuva não é normal. Nunca vi uma tormenta assim – comentou Sam após meia hora. A tempestade havia aumentado

– Será mais um sinal do Apocalipse? – indagou Collins olhando pela janela. Do lado de fora, não se conseguia ver a paisagem.

– E o que não é nesses últimos tempos? – retrucou Dean. A visão que tinha pela frente mal dava para divisar a estrada. – Não vamos poder fazer muita coisa de qualquer jeito perdidos no meio do nada.

– Espero que encontremos algum lugar pra ficar... e logo. Não sei quanto a vocês, mas estou faminta e exausta. Estamos rodando um bom tempo desde a última parada. Não quero dormir dentro do carro com o estômago vazio, ainda mais nesse temporal.

– Nem me fale. Garanto a você que posso rodar a noite toda, mas não vou fechar os olhos enquanto não encher o bucho com uma boa quantidade de cheeseburguer com bacon. – respondeu Dean. Em seguida, como se fosse um desejo concedido dos deuses (mais tarde, literalmente constatariam que sim, de certa forma), divisou luzes e logo se lhes apresentou um estabelecimento com uma bela decoração externa – Ei, parece que tem algo ali.

De fato. Era o hotel Campos Elísios cujo letreiro luminoso destacava o nome do local.

– Beleza, tem vaga pra estacionar – tornou Dean com um sorriso de orelha a orelha.

Estacionou o Impala. Os três saíram correndo, Sam com o braço em volta da cintura de Vic querendo protege-la da tormenta com seu casaco que mal o cobria.

Entraram no hotel. O estabelecimento possuía um saguão bastante amplo e requintado; até lareira possuía. Era estranho um lugar como aquele no meio do nada. E estava apinhado de gente. Uma música ambiente ressoava pelo local.

Os três se entreolharam. Sacudiram os respingos das roupas e das cabeças.Dean fez uma careta de apreciação do lugar.

– Hotel bom pra variar.

– Bom até demais – comentou Vic com desconfiança

– Conheço esse tom – replicou Dean – É o mesmo que uso e que também costumam chamar de paranoia – Vic o fuzilou com os olhos – Vamos lá, gente, por que tudo tem que ser ruim?

Sam trocou um olhar com Vic. Deram de ombros. Aproximaram-se da recepção onde estava um homem franzino, moreno claro, de meia-idade num terno cor de vinho. Ele os atendeu. Algo no indivíduo não agradava a Collins, mas resolveu relaxar. Por hora.

– Então um quarto de solteiro e outro de casal – era mais uma pergunta do que afirmação e dirigida a Dean.

– Pode ser só um para os três, caso não puder ser dois – sorriu Dean. – Não somos gananciosos.

– Não se preocupe. Estão com sorte essa noite.

Devolveu o sorriso, mas causou algo desagradável em Dean que não soube explicar.

Nada de paranoia, repetiu o conselho para si mesmo. Era um milagre conseguirem dois quartos naquele hotel. Havia muita gente só no saguão.

O atendente permaneceu em silêncio digitando o preenchimento de ocupação em seu computador.

– Noite cheia – comentou Dean para quebrar o incômodo silêncio

– Como um porto na tempestade – replicou o homem e apontou dois formulários em direção a Dean e a Sam – Por favor, preencham.

– Certo – respondeu Dean

Enquanto ambos assinavam, Vic observava o recepcionista. Este notou, mas não pareceu incomodado. Apenas sorriu. Ela desviou os olhos consciente de sua indiscrição. Só voltou a encará-lo quando ele chamou a atenção de Dean:

– Senhor. – esperou que o loiro erguesse a vista – O senhor se cortou, fazendo a barba. – apontou a própria base do pescoço para indicar o local do corte do Winchester. Em seguida, deu-lhe um lenço

Dean passou o lenço no local indicado e surpreendeu-se com o sangue.

– Como você se machucou, Dean? – estranhou Vic.

– Vá saber – o Winchester deu de ombros sem dar maior importância ao fato

– Suas chaves – tornou o atendente e estendeu-lhes os objetos.

– Obrigado – disseram os Winchesters ao mesmo tempo

– Aqui não tem uma lanchonete. Tem? – indagou Dean ansioso

– Bufê. Coma o quanto quiser. – apontou-lhes uma direção – A melhor torta da área dos três estados.

– Não me diga. – o sorriso de Dean foi de orelha a orelha.

Vic nada disse. Aquilo era realmente estranho.

– 0 –

Sam e Vic já haviam escolhido seus pratos, algo bem leve, e instalaram-se imediatamente numa mesa. Quanto a Dean, enchia o que podia em seus pratos. Mal acabou a refeição, tratou de procurar a sobremesa. Dean se levantou e foi em direção à mesa dos doces, bolos e tortas. Em dois pequenos pratos, colocou em cada um pedaço da torta recomendada pelo atendente.

– É o céu, não é? – comentou um homem claro, baixinho, calvo e de óculos ao seu lado.

– Acredite, cara. É melhor.

Apanhou uma trufa no alto de outra torta e engoliu-a. No meio do trajeto de volta à sua mesa, reparou numa mulher de pele bem escura, cabelo curto e liso, olhos escuros, magra e bem vestida de vermelho, que se encontrava sentada sozinha em outra mesa mexendo com uma cereja da bebida da taça. Ela era seu tipo. Parou e deu alguns passos atrás para encará-la.

– Como vai? – disse com seu sorriso mais sacana

– Não – respondeu a mulher sem nem sequer desviar os olhos de sua taça

– Mas... – Dean ficou embaraçado. Seu sorriso se desfez

– Não. – ela o cortou novamente. Só aí que direcionou seu olhar para ele sem mexer um milímetro a cabeça

– Moça, eu só...

– Eu entendi. – ela inclinou a cabeça – E não.

Dean engoliu em seco sem saber onde enfiar a cabeça. Era raro ser dispensado por uma mulher. E nunca estava preparado para isso.

– Saquei, certo.

E se afastou. A misteriosa mulher esboçou um leve sorriso de satisfação. Dean se aproximou da mesa em que estava. Reparou que tanto Vic e Sam reprimiam o riso.

– O que foi? – indagou intrigado

– Como foi o ataque, Dean? – zombou Vic

E disparou a rir junto com Sam. Algumas pessoas os olharam, mas eles não ligaram.

– Legal. Fiquem à vontade, se divirtam às minhas custas – ergueu os braços com sarcasmo. Sentou-se – E quer saber? Estou tão feliz com essa comida toda, que nem ligo.

– Foi mal, Dean. –Vic parou de atormentá-lo

Sam suspirou. Sua expressão se fechou. Tanto Dean como Vic o notaram.

– Ainda pensando no Adam, amor? – Vic colocou a mão sobre a dele adivinhando seus pensamentos. – Você mal tocou na comida.

– Sam, sai dessa, cara. – sugeriu Dean – Coma alguma coisa.

– Temos que pegar a estrada, gente.

– Nesta tempestade? Qual é...

– É bíblica. – cortou – Exato. A droga da arca de Noé lá fora e nós comendo torta.

– Quantas horas você dormiu esta semana? Diga, três? Quatro? – olhou Collins de esguelha – Deu pra tirar uma com a Vic?

Em resposta, Vic lhe espetou o braço fortemente com o garfo.

– Au! – berrou Dean chamando a atenção dos outros. Fitou-a com cautela – Qualé? Foi só uma brincadeira.

Vic continuou segurando o garfo com olhar assassino. Sam sorriu contra à vontade. Dean se voltou para ele:

– Bobby pôs a turma nisso, certo? Nós já falamos com todos os hudus e feiticeiras de doze estados.

– Até de gnomos fomos atrás – completou Vic.

– Até isso – concordou Dean. – Esforço é o que não falta.

– É, mas não vou desistir.

– Ninguém vai desistir. Muito menos eu. – Dean encarou o irmão com segurança.

– Nem eu, Sam – declarou Vic.

Sam alternou o olhar de um para o outro.

– Nós vamos achar um jeito de acabar com o diabo – garantiu Dean – E logo, eu sinto isso. E vamos achar Cass e Adam. – olhou para Vic – E ainda tem esse problema com Miguel. – tornou a fitar Sam – Temos que poupar energia.

Vic assentiu.

– Certo – concordou Sam – É, tudo bem.

– Nós temos uma noite de folga. – Dean sorriu para seus companheiros – Vamos tentar curtir.

Terminaram o resto do jantar e após se esquentarem um pouco diante da lareira do hall, dirigiram-se aos quartos. Quando passaram pelo corredor, contemplaram um casal se agarrando aos beijos ali mesmo sem se importar com quem vinha. Vic e Sam se constrangeram pelo espetáculo, mas Dean apontou o estridente casal com sorriso malicioso.

– Ah, quantos anos você tem? – Vic se voltou para Dean balançando a cabeça.

– Deve ter doze – completou Sam.

– O coração não envelhece. – redarguiu Dean

– Bem, Dean, é aqui que nos despedimos – disse Vic agarrando Sam pelo pescoço, mas sem a desinibição do outro casal – Vou ajudar Sam a relaxar um pouco hoje, como você disse... tirar uma.

Dean apenas lhe dirigiu uma careta. Sam nada disse, apenas sorriu um pouco constrangido.

– Divirta-se! – Vic lhe deu tchauzinho enquanto puxava Sam pela mão.

Dean ficou ali parado no mesmo lugar fazendo várias caretas até os dois destrancarem a porta do quarto e entrarem. Ele também entrou em seu quarto após dar mais uma olhada maliciosa para o casal que ainda dava seu show de carícias e beijos no corredor para quem quisesse assistir.

Ao entrar, o Winchester soltou um assobio. O cômodo era um luxo, tamanho o refinamento da decoração e dos móveis. Tanto a colcha como os travesseiros, o carpete e as cortinas eram de um tom vinho.

– Eu sou mesmo o Batman – comentou para si e encaminhou-se até a cama. Apanhou uma pequena forma arredondada envolvida por um papel dourado – Chocolate. – na cômoda, havia um DVD que também pegou. Leu o rótulo. – Casa erótica treze disponível. É o paraíso!

De repente, começou a ouvir os gemidos e sussurros do casal. O quarto deles era ao lado do seu. Não pôde deixar de soltar o riso. É, só ele quem ficou na mão, mas não estava muito aborrecido com isso. Bom, se não podia ter uma mulher naquela noite, podia curtir o pornô do DVD ou aquele ao vivo do seu lado. Pensou em se aproximar da parede para ouvir melhor, mas antes que desse um passo, ouviu um estrondo, algo se chocalhando com a mesma, quase derrubando os móveis de seu quarto.

Imediatamente saiu. Sam e Vic também.

– Ouviu isso? – perguntou-lhe Vic da porta do quarto dela

Dean só assentiu

– Que será que aconteceu? – indagou Sam

– Não vamos descobrir ficando aqui parados – Dean já foi abrindo a porta do quarto do casal.

Por sorte, não estava trancada. Os três entraram. Nada. Nem sinal do casal ou de que alguma coisa acontecera.

– Olá? – disse Dean em alto e bom som.

Ninguém respondeu. Entreolharam-se e separaram-se para verificar. Sam foi para onde estava a cama, Dean percorria a sala e Vic foi olhar o banheiro.

– Alô? – foi a vez de Sam chamar.

Dean olhou distraidamente para o tapete branco no chão e notou um objeto caído. Vic e Sam se juntaram a ele e convergiram o olhar para a mesma direção.

Dean se abaixou e apanhou o objeto que brilhava. Mostrou-o aos seus companheiros. Era um anel de noivado. Sam e Vic arregalaram os olhos.

– Sabia que havia alguma coisa de errado com esse lugar – comentou Vic

– 0 –

Estavam diante do atendente da recepção. Eles o fitava com postura disponível.

– O quarto vizinho ao meu – disse Dean

– De frente para o nosso – acrescentou Vic apontando a si mesma e a Sam.

– É, o daquele casal beijoqueiro – tornou o Winchester – Você viu os dois?

– Senhor e Senhora Logan? Que estão em lua de mel? – indagou o recepcionista. Digitou o teclado para acessar o banco de dados do computador. Voltou a encarar os caçadores com um sorriso tranquilo – Eles foram embora.

Como os três o fitassem com ar de descrença, sobretudo Victoria, perguntou:

– Algum problema?

– Eles foram embora? – questionou Sam

– Há pouco.

– Sério? Porque parecia que eles estavam no meio de uma coisa.

– É. Meio estranho recém-casados irem embora sem isto. – Dean mostrou o anel

– Puxa! Vou deixar nos achados e perdidos – apanhou o objeto – Não se preocupe.

– Acredite. Estamos mais do que preocupados... Estamos atentos. – declarou Collins com um leve tom de ameaça na voz. Sam a cutucou.

– Perdão? – o recepcionista fez ar de desentendido

– Nada. Bobagem.

– Eu posso ajudar em mais alguma coisa?

– Não, não – despistou Dean – Tudo bem.

– Super fantástico.

E esboçou um largo sorriso servil. Os três emularam um sorriso amarelo, deram-lhe as costas e afastaram-se.

– Sinistro – sussurrou Sam

– Tem algo de errado, já disse – insistiu Vic

– É, e disse mesmo. – Dean se voltou para ela com semblante irônico – Você não é a senhorita discrição e sutileza? “Estamos mais do que preocupados... estamos atentos.” – Dean imitou o tom de voz de Vic – Sério?

– OK, admito, não era para tanto. Mas o sorrisinho desse cara, essa postura toda serviçal... não deu pra segurar.

– Tudo bem. – Dean deu de ombros – Eu dou busca no lugar. Vocês ficam de olho no Norman Bates ali. – suspirou – Puxa, uma noite de folga. Era pedir demais?

– 0 –

Vic e Sam se acomodaram num sofá do saguão a fim de vigiar o atendente sem despertar suas suspeitas. Depois de algum tempo, o homem saiu do posto. O casal se levantou e seguiu-o a considerável distância.

O recepcionista adentrou um corredor que se dividia em dois lados. Ele dobrou a direita. Vic e Sam tomaram a mesma direção, porém, surpreenderam-se ao não encontra-lo e constatarem que o corredor da direita não tinha nenhuma saída ou porta; terminava numa máquina de refrigerantes encostada à parede. À esquerda, havia apenas uma ampla porta fechada.

– Ai! – gemeu Vic ao sentir uma picada no pescoço.

– O que foi? – Sam se inclinou para ela, porém, deteve-se ao sentir também uma picada no pescoço. Pôs a mão na parte afetada e viu que havia sangue.

– Que isso? – indagou Vic ao fazer o mesmo – Por acaso algum tipo de pernilongo superdesenvolvido?

Por sua parte, Dean havia subido um andar pelo elevador. Tirou do bolso da jaqueta o medidor de atividade fantasmagórica e percorreu um corredor. Ao passar na frente de um quarto, apesar de seu olhar convergir adiante, sua visão periférica captou o que parecia... um elefante. Até o som era similar. Deu alguns passos atrás para conferir o que viu, contudo, surpreendeu-se ao ver apenas um homem gordo, careca, negro e nu enrolado apenas numa toalha branca.

– Não é para espiar, cara. – reclamou o sujeito e dirigiu-se até a porta, fechando-a na cara do Winchester.

Tratou de encontrar seus companheiros para trocarem informações e relatou-lhes o que viu.

– Um elefante? – VIc perguntou para conferir se não escutara demais

–É – confirmou Dean

– Tipo, um elefante – foi a vez de Sam

– É. De tromba e tudo.

– O que está...

Sam se interrompeu ao chegaram novamente ao saguão de entrada. Não havia ninguém. E há pouco o lugar estava com pelo menos uma dúzia de pessoas. Era como se houvessem desaparecido repentinamente.

– Cadê todo mundo? – perguntou Collins

Nenhum dos dois respondeu. Olharam para todos os lados. Sam foi até a porta de saída. Não conseguiu abri-la.

– Só um palpite. Está trancado. – Dean falou o óbvio

– Por que não estou surpresa? – comentou Victoria – Um lugar todo chique, com todo conforto e comida no meio do nada. Eu sabia...

– Por favor, Vic, troca o CD! Já sei: você sabia que havia algo errado. – Collins assentiu. Dean suspirou – E então, os otários entram e não conseguem sair?

– Lembram como chegamos aqui? – tornou Vic como se recordasse algo

– Sim – a expressão de Sam foi de entendimento – Retorno na I-90? A droga do furacão?

– Vocês acham que nos atraíram para cá? – questionou Dean

– Como ratos atrás do queijo.

– 0 –

Foram verificar a cozinha a ver se encontravam algo suspeito ou um indício daquela gente.

O lugar era amplo, cheio de grandes prateleiras contendo vasilhas, panelas, condimentos e outros ingredientes. Num imenso fogão, havia uma panela grande e destampada que fervilhava o que parecia uma sopa. Vermelha. Os três se aproximaram.

– É sopa de tomate. Por favor, é sopa de tomate – Dean estava apreensivo.

Ao remexer na sopa com a colher que estava dentro, apareceu um par de olhos humanos. Os três reviraram o rosto.

– Motel infernal – disse ele

– Se eu vir mais alguma coisa assim, acho que vou pegar uma panela e vomitar – comentou Vic com a mão na boca.

Encostou na ponta de uma mesa enquanto Dean examinava o resto do cômodo. Quanto a Sam, seu olhar convergiu para uma porta de ferro nos fundos que estava fechada. Foi se aproximando aos poucos. Havia uma minúscula portinhola com vidro no centro. Ao chegar seu rosto para tentar enxergar o que havia dentro, assustou-se com o rosto apavorado de um homem de óculos, o mesmo que havia trocado algumas palavras com Dean no buffet.

– Socorro! Estamos presos aqui! – ele gritou

Outros bateram na porta. Sam tentou abrir, mas a trava era forte. Dean e Vic se acercaram prontos a acudi-los.

– Rápido. – ordenou Dean

– É o mais rápido que posso. – declarou Sam enquanto procurava um canivete em sua carteira. Porém, deteve-se ao se virar e ver três sujeitos, atrás de seu irmão e de sua namorada. Um era alto, magro, calvo e negro; outro, baixo, gordo e com traços orientais e o terceiro era o indivíduo que Dean viu no quarto do suposto elefante.

– Sam, não estou gostando desse seu olhar – comentou Vic com expressão receosa.

– Eu também não – disse Dean com a mesma expressão — Tem alguém atrás da gente, não tem?

Sam apenas acenou com a cabeça. Antes que os dois se virassem ou mesmo lutassem junto com Sam, foram apanhados. Tentaram se soltar, mas os sujeitos pareciam muito fortes. O oriental levou Dean, o sujeito negro mais alto agarrou Sam e o mais baixo “conduziu” Vic.

– Me solta, seu brutamontes – esbravejou Vic

Dean e Sam também se debatiam, mas nada. Os homens eram bem mais fortes do que aparentavam. Levaram os três para o salão de baile do hotel.

Lá, encontraram outras pessoas. Bom, não exatamente isso como imediatamente descobririam. Todos usavam um crachá que os identificavam. O homem que segurava Vic a soltou e postou-se à frente deles sem nada lhes dizer. Sua expressão não era nada amigável

Dean viu o nome dele no crachá: Ganesh, o deus elefante do hinduísmo. Mais atrás, estava um velho claro e barbudo com trajes para um frio intenso e com um crachá que o identificava como Odin, o deus nórdico, rei dos deuses. A mulher que Dean havia paquerado era Kali, outra deusa do hinduísmo que era representada com quatro braços e pele azul.

Quase ao mesmo tempo, os três caçadores observaram o crachá do que havia trazido Sam: Barão Samedi, um deus do Vodu.

Todos ali pareciam estar relacionados com algum tipo de deus de diferentes credos. Ou isso ou... Não, absurdo.

– Algo me diz que isto não é uma convenção de fãs. – sussurrou Dean

O suposto recepcionista – cujo nome era Mercúrio – adentrou o salão trazendo num carrinho uma imensa bandeja contendo salada e algum grande prato que estava tampado. Parou no meio do salão.

– O jantar está servido – disse e ergueu a tampa.

Era a cabeça e todos os órgãos de um homem. Era o vigia daquele local que, na verdade, era um prédio velho abandonado, mas fora convertido magicamente no luxuoso hotel.

Todos bateram palmas bastante satisfeitos, exceto Dean, Sam e Vic que ficaram boquiabertos.

– Acho... acho que vou pegar aquela panela na cozinha... gente – disse Vic contendo a ânsia de vômito. Fez menção de voltar, mas foi impedida pelo tal Barão que se postou à sua frente. Ela se esgueirou de volta com um sorriso amarelo para perto de seus companheiros. Uma luz de holofote se acendeu sobre eles.

– Senhoras e senhores... nossos convidados de honra chegaram. – comentou um sujeito alto e moreno claro ao lado de Kali. Era Baldur, outro deus nórdico e seu namorado.

Os três foram “gentilmente conduzidos” a três cadeiras no meio das mesas. Os outros convivas se acomodaram, cada qual em seu lugar; Baldur ao centro. Vários murmúrios ecoavam pelo salão. Dean, Vic e Sam se entreolharam por diversas vezes, mas não conseguiam sequer comentar o que se passava tal seu espanto e confusão. Não sabiam o que aqueles seres (fosse o que fossem) pretendiam. Se servi-los também em seu jantar ou não. Só suspeitavam que não devia ser nada bom.

Após se servirem do jantar e de champanhe – até ofereceram por cortesia aos caçadores, mas estes, é claro, recusaram –, Baldur se levantou e tocou várias vezes sua taça com o garfo pedindo silêncio aos presentes.

– Senhoras e senhores, obrigado por sua presença. Em meus séculos de vida, nunca pensei em ver isto. Tantos deuses sob o mesmo teto.

– Deuses? – indagou Sam num murmúrio aos seus companheiros, mal se atrevendo a encará-los.

Difícil de acreditar, mas era verdade. Deuses. E todos reunidos ali tendo os caçadores como “seus convidados”. O que faziam com convidados como eles? Não queriam descobrir tão cedo.

– E antes de irmos ao que interessa, algumas regras básicas – prosseguiu o nórdico – Não vale matar o outro, contenham sua ira. E fiquem longe das virgens do lugar. Estamos tentando ser discretos aqui.

– Nós estamos muito ferrados – sussurrou Sam

– Agora que percebeu, amor? – retrucou Vic num murmúrio e esboçando um sorriso amarelo

– Nós todos sabemos porque estamos aqui. O apocalipse Judaico-cristão paira sobre nós. Eu sei, nós tivemos diferenças no passado... mas chegou a hora de esquecer tudo e pensar no futuro. Porque se não o fizermos, nós não teremos um. Agora, nós temos dois trunfos valiosos de barganha... as cascas de Miguel e Lúcifer. – Baldur levantou os braços apontando os dois caçadores. Em seguida, apontou Victoria – E mais um bônus: a mulher que, segundo pesquisa do nosso caro Mercúrio, por algum motivo parece ser um obstáculo para os planos dos já citados Arcanjos. – os olhares dos deuses convergiram para os três que se remexeram com desconforto – A questão é: o que fazemos agora? Alguém tem uma ideia brilhante? Pode falar. Esta sala é segura.

– O que fazemos agora? Nós os matamos – replicou o deus chinês, Kui Xing, em seu idioma original ao se levantar.

– O que será que ele disse? – sussurrou Vic

– Não sei. Mas não gostei do tom dele. – replicou Dean

– Podem deixar a mulher para mim – continuou o deus dirigindo um olhar de interesse a Vic o qual ela não gostou nada. Depois, sentou-se – Mas matamos os dois!

– Matá-los? Para quê? Os anjos vão trazê-los de volta mesmo! – redarguiu Ganesh. Isso os três compreenderam e não gostaram

– Eu não sei por que todo mundo está ficando tão estressado – interveio Odin desdenhoso – É só uma dupla de anjos tendo uma briga de tapas. Não é o Armageddon. Todo mundo sabe que no fim do mundo... a grande serpente Jörmungandr vai aparecer... e eu mesmo serei devorado por um lobo.

– Lá vamos nós... – Kui Xing balançou a cabeça com desprezo

– Ah, é? E por quê? Suas crenças são tão realistas – ironizou com um riso de escárnio – O mundo inteiro...nas costas de uma tartaruga gigante. Dá um tempo.

– Não zombe da minha tartaruga.

– O que você vai fazer a respeito? – Odin se levantou possesso

Nisso, iniciou-se uma acalorada discussão entre os dois. Enquanto isso, Vic, Sam e Dean trataram de esgueirar de suas cadeiras, dar meia-volta e caminharem de mansinho. Contudo, antes que dessem o segundo ou terceiro passo, o lustre do salão caiu diante deles, espatifou-se e interceptou o caminho. O estrondo interrompeu a discussão e atraiu a atenção dos deuses

– Parem. – ordenou Kali ao se pôr de pé. Os caçadores se voltaram para ela num misto de raiva e pavor. A deusa se dirigiu aos demais – Nós temos que lutar. Os arcanjos? A única coisa que eles entendem é a violência. Vai acabar em sangue. Não tem outro jeito. Ou eles ou nós.

– Com todo o respeito, senhora... – Mercúrio levantou a o braço um pouco receoso –... nós nem tentamos falar com eles.

De repente, calou-se. A um olhar da deusa, começou a engasgar e vomitar sangue.

– Kali – interveio Baldur

– Quem pediu sua opinião? – retrucou ela num tom suave para Mercúrio e parou de sufocá-lo.

Súbito, as portas do salão se abriram e para a surpresa de todos – principalmente, dos três caçadores – Trickster, ou melhor, Gabriel entrou.

– Não podemos nos entender? – disse a plenos pulmões com seus braços abertos.

– Gab... – os três caçadores quase sussurraram ao mesmo tempo a verdadeira identidade do arcanjo, mas com um só gesto com um dedo ele travou suas gargantas para que se calassem.

Todavia, em suas mentes ecoava a pergunta: o que ele fazia ali?

Notas finais
Bom, é isso aí! No próximo capítulo, a conclusão. Mas o desfecho será um pouco diferente. Curiosos? Aguardem. Até lá.