Almas Trigêmeas
24 O dia depois de amanhã 1ª Parte
Notas iniciais
Anteriormente:
– Já derreteram a arma? – perguntou Dean no celular
– Pelo que eu saiba não – respondeu Cass – Se ainda quiser matar o diabo, vamos matá-lo assim.
(...)
– Um momento. Você tem alguma foto dela?
– De quem? Da Victoria?
– Não, da minha mãe. Claro, né, Cass? De quem mais a gente tá falando?
– Cara, sinto muito falta desse velho Dean sempre com suas tiradas.
– OK, OK... Deixe o momento saudades de lado e me mostre alguma foto dela.
– Infelizmente, não tenho nenhuma.
– Nada?
– Não. Ela não era do tipo que gostava de aparecer em fotos... mas adorava fotografar. Tirou muitos retratos do acampamento e das pessoas que viviam lá, mas não aparece em nenhum. Foi um custo até convencê-la a posar pra foto do próprio casamento.
(...)
– Não quero saber de nada! – cortou Bobby – Eu só quero lhes dar um aviso: fiquem longe da Vic. Não pensem em nenhuma gracinha com ela. Ela não precisa de nada disso. Não tenho que explicar nada sobre ela pra vocês, mas quero esclarecer que a Vic já penou muito na vida e o que menos precisa é de mais sofrimento. Eu só resolvi juntar ela com vocês porque como eu disse, precisam de toda ajuda necessária e ela é tão boa caçadora quanto vocês e tem muito conhecimento. Isso eu posso garantir que é uma das poucas verdades das coisas que contam sobre ela – fez uma pausa – E também, devo admitir, me preocupo com ela, não a quero sozinha por aí com esse monte de complicações que vão vir por causa do Apocalipse. Mas não pensem em ter qualquer tipo de envolvimento com ela seja apenas um caso... – olhou para Dean –... seja um compromisso mais sério – olhou para Sam – Vocês são bons garotos, eu gosto de vocês, mas não são o tipo de homem que eu quero com ela, ainda mais por estarem no meio dessa batalha de Lúcifer e Miguel. Pode ser machista da minha parte, mas eu espero que a Vic um dia abandone essa vida de caçadas, encontre alguém normal, se case e tenha uma vida segura, longe de problemas. Não quero que... que ela termine como a mãe dela.
(...)
– Mas como eu tava dizendo, já sabemos com quem está a Colt. E quem nos informou foi o próprio Chuck.
– O profeta? Mas por que ele não disse nada antes?
– O seu profeta como sempre se esquece de mencionar detalhes importantes. Mas o caso é que a Colt foi parar nas mãos de um tal demônio chamado Crowley, parceiro da Lilith.
– Crowley? Já ouvi falar.
– Então pode encontrar ele pra gente?
– Posso, mas não sei quanto tempo isso pode levar.
Capítulo 23
O dia depois de amanhã (1ª parte)
– Meu Deus, quando contarmos pro Bobby, ele vai querer me exorcizar. – disse Sam respirando fundo de pé no meio do quarto de hotel
– Sam, não se preocupe, titio vai acabar aceitando. Ele não tem muita escolha – respondeu Vic se aproximando do namorado com um sorriso tranquilizador. Pegou em suas duas mãos – Nós dois somos adultos e sabemos o que fazemos.
– É, mas você não estava na hora quando ele me alertou que mantivesse as mãos longe de você mesmo que minhas intenções fossem sérias.
Collins riu.
– Eu até imagino a sua cara nessa hora que o Bobby bancou o terrorista pra cima de você... e de Dean. Na época em que morei com ele, era do tipo que afugentava qualquer caçador que se aproximasse de mim nos lugares em que encontrávamos algum. Ele queria que eu me casasse com um cara normal. – ela suspirou saudosa dos tempos em que morava com o velho caçador – Meu tio sempre foi protetor comigo.
– Eu não o culpo por querer uma vida diferente pra você. E se eu tivesse sido menos egoísta e mais racional, teria seguido o conselho dele. Me envolver com você sabendo que Lúcifer...
– Shhhh! – ela tapou os lábios dele com a mão – Não diga mais nada, Sammy. Agora é tarde para arrependimentos.
– Aí é que está – ele retirou a mão dela delicadamente e olhou-a com ternura – Não me arrependo nem um pouco do que estamos vivendo. Nem se o Bobby apontar uma arma para mim vou desistir de você.
Eles riram.
– Ainda bem – ela replicou enquanto se olhavam com adoração
Sam a puxou delicadamente pela cintura e beijou-a da maneira envolvente e profunda que a enlouquecia. Eram esses momentos que os faziam se esquecer de todo mal que enfrentariam.
As mãos do Winchester percorriam com suavidade as costas da namorada e os braços dela se perdiam entre a nuca e o cabelo dele. Ambos suspiravam.
– Ei, ei! Vamos logo! – pela terceira vez, Dean os chamava do lado de fora e batia na porta do quarto
O momento foi interrompido. Eles desgrudaram as bocas com relutância.
– Tá legal, Dean! Já estamos indo! – respondeu Sam um pouco ríspido sem soltar a namorada. – Dean, sabe ser inconveniente mesmo sem querer.
– Concordo, mas... se ele não nos interrompesse, eu acho que ia me esquecer da hora – ela sorriu
– É, eu também – ele devolveu o sorriso. E deu um beijo mais suave nos lábios dela antes de soltá-la – Bem... vamos.
– Vamos.
Pegaram a bagagem e saíram de mãos dadas.
– 0 –
Os três caçadores haviam ficado num belo hotel de uma pequena cidade de Dell Rapids, em Dakota do Sul, para resolverem um corriqueiro caso de espíritos vingadores.
Bobby, que sempre ligava para saber notícias, ao se inteirar que estavam no Estado a apenas 52 Km de Sioux Falls, pediu que eles fossem vê-lo. Além de estar com saudades, tinha notícias sobre outros eventos apocalípticos.
E era para lá que os dois Impalas se dirigiam a grande velocidade. Em dado momento, Dean — que ia na frente — fez sinal com o braço na janela de seu veículo para que Collins encostasse o carro dela. Estacionaram num trecho onde havia uma pequena ponte sob um córrego e algumas árvores.
Sam e Vic desceram do carro e aproximaram-se do Impala do loiro. Ele retirava uma pequena caixa de isopor de uma sacola de papel do assento de passageiro. Na caixa, havia um cheeseburguer com bacon.
– Já, Dean? — indagou Vic — Nem tem nem duas horas que nós tomamos café.
– Diga isso pra meu estômago — retrucou ele — E depois, daqui a pouco a gente chega no Bobby. Uns minutos a mais não vai fazer diferença.
Exatamente por isso não precisavam parar já que estavam próximos de chegar a Sioux Falls e podiam comer na casa de Singer. Contudo, Victoria não quis discutir com o loiro. Trocou apenas um olhar com Sam ao balançar a cabeça para os lados.
– OK — disse ela — Vou comer um pouco então. Você quer alguma coisa, Sam?
– Não, Vic, obrigado.
– Eu já volto — ela deu um rápido beijo nele e afastou-se para pegar o lanche no carro.
Sam encostou-se na lateral da parte da frente do Impala preto. Dean estava a ponto de abocanhar seu sanduíche quando seu celular chamou.
– Droga! Logo agora? – reclamou e colocou o lanche de volta no saco. O aparelho chamava sem cessar – Já vai! Já vai! – ao ver o número no visor sua impaciência sumiu – É o Cass.
– Então atenda – disse Sam se virando para ele com ansiedade.
Fazia quase três semanas que não viam o anjo desde a confusão com a trickster. Ele prometera só retornar se tivesse notícias concretas sobre o demônio Crowley.
– Diga Cass – Dean atendeu
– Achei ele – respondeu o anjo do outro lado da linha
– Uau! Já não era sem tempo – o loiro levantou o braço e fez um sinal positivo com o polegar para o irmão e para Vic que tinha regressado junto a eles. – E onde ele está?
– Crowley está fazendo um acordo.
Castiel estava escondido atrás de uma coluna de um dos viadutos que se intercruzavam num dos pontos principais de Lincoln¹, capital de Nebraska. Ele observava o demônio beijando a boca de um banqueiro – que parecia querer morrer de desgosto por se submeter a uma situação tão degradante para seu amor próprio.
Crowley possuía o corpo de um sujeito baixo, meio calvo, cabelo preto e costeletas, rosto quadrado e queixo proeminente. Usava um longo sobretudo preto.
– Neste exato momento, está... rolando – continuou o anjo
– “Rolando?” – indagou Dean, mas não quis nem saber a resposta – Só não o perca de vista.
– Não vou perdê-lo de vista – garantiu Cass e desligou o celular.
– Seu maldito! – esbravejou o banqueiro, um sujeito já de idade, gordo e careca.
Afastou-se do demônio com repugnância. Iria lavar a boca umas mil vezes quando chegasse em casa.
– Desfrute da riqueza obscena! – tornou Crowley com cinismo e um sorriso de zombaria – Vejo você daqui a dez anos!
Pegou um celular para fazer uma ligação e foi embora do local. Cass o seguiu. Logo o demônio despareceu dali. O anjo também, sempre em sua cola. Não iria mesmo perdê-lo de vista. Não depois de a custo achá-lo. Não conseguia entender como levou tanto tempo para encontrar tal entidade.
A resposta se apresentou diante dele. Viu Crowley entrar numa imensa e luxuosa mansão. Em seus muros altos, estavam pintados símbolos enoquianos por todas as partes.
– Eu o segui. Não fica muito longe, mas... é guardada por magia enoquiana – disse ao celular para Dean – Não posso entrar.
– Já está ótimo. Nós assumimos daqui. Só nos diga o lugar onde você está.
Após ouvir as instruções de Castiel e passá-las para Sam que anotou rapidamente, Dean se despediu do anjo e virou-se para seus companheiros:
– Mudança de plano, pessoal! Temos que ir imediatamente encontrar com o Cass neste endereço.
– Mas... e o tio? O que eu digo pra ele? – indagou Collins.
– Conte pra ele e fale que a gente vai resolver isso primeiro e depois passamos por lá.
Vic assentiu , pegou o celular e afastou-se para fazer a ligação. Dean abriu a porta do carro. Antes de entrar, disse para o irmão em tom de zombaria, pois sabia que este estava apreensivo pelo encontro com Bobby:
– Salvo pelo gongo, Sammy. Ou melhor... pelo Crowley.
Sam balançou a cabeça e foi atrás da namorada de volta para o Impala branco.
– 0 –
Já era perto de umas oito da noite quando se encontraram com Castiel no local indicado. Ocultaram-se atrás de um muro de outra mansão.
– Então essa é a fortaleza – disse Dean observando a mansão de Crowley – Com razão você custou a achar o cara, Cass.
– E o que faremos? – questionou Sam – Pelo visto o lugar está bem guardado.
Era verdade. Além dos altos muros com símbolos enoquianos, a residência possuía um avançado sistema de segurança, além de vigias de terno preto que circundavam a área.
– Daqui a pouco já vai anoitecer. Talvez devêssemos surpreender os seguranças – sugeriu Vic
– Duvido muito. Esses caras devem ser demônios já que vigiam a casa de um. – retrucou o loiro – Mas... eu acho que podemos distraí-los de alguma forma pra baixar a guarda deles.
– Ótimo. Nós esperamos anoitecer e eu os distraio. Coloco meu vestido mais sensual, me maquio toda e finjo que sou uma pobre moça perdida com o carro quebrado.
– Hum... gostei do plano, Vic. Mas acho que você não seria a pessoa ideal pra fazer o papel da mocinha.
– Posso saber por que não? – Collins colocou os braços na cintura
– Não me entenda mal e... com todo o respeito, você tem um belo corpo e rosto que chama a atenção, mas... exatamente por isso você não pode dar as caras por lá. A Indomável já é uma figura lendária entre caçadores e os demônios, e a essa altura esses bastardos já devem saber que você está trabalhando com a gente.
– É verdade, Vic – concordou Sam – Devem ter até sua descrição física.
– E o que fazemos então?
– Como eu falei, gostei do seu plano, mas... tenho em mente outra pessoa ideal pra colocá-lo em ação – tornou o loiro.
– 0 –
– Oi, rapazes. Como estão? Demorei muito?
Era Joanna Harvelle. Uma jovem caçadora magra, loira, olhos castanhos escuros e um rosto de proporções finas. Era também filha de grandes caçadores e estava no ramo há pelo menos três anos. Antigamente, morava com a mãe viúva e possuíam um bar que servia de encontro para outros caçadores. Todavia, a moça decidiu seguir o próprio caminho, um pouco antes de o estabelecimento ser destruído por demônios. Depois, por insistência da mãe, voltou a morar com ela e a caçarem juntas.
Os Winchesters a contataram por ela morar numa cidade perto da capital. Jo levou cerca de duas horas para chegar ali. Foi de ônibus, pois além de seu carro estar no concerto, não comunicou sua saída para a mãe e não podia pegar o carro desta emprestado.
Os caçadores esperavam por ela numa lanchonete a algumas quadras da casa de Crowley. Já era cerca de dez da noite.
– Não, você chegou bem mais rápido do que o esperado – respondeu Dean à pergunta dela. – É bom vê-la de novo.
Sorriu para ela. Observou como estava mais bonita do que a última vez que a viu há seis meses quando confrontaram o cavaleiro Guerra. Se bem que, na ocasião, com todo o caos que enfrentaram, não houve tempo para que ele prestasse atenção.
Jo parecia mais mulher vestida numa calça jeans e blusa preta sem mangas. Seus longos cabelos estavam mais cheios e anelados.
– É bom te ver de novo também, Dean – disse a moça com satisfação.
Desde a primeira vez que o viu, ela era completamente apaixonada pelo caçador. Todavia, depois de anos sem se verem – sem contar o breve encontro do ano passado² –, conseguia disfarçar melhor seu sentimento. O loiro também percebera aquilo. Mesmo assim, os dois trocaram um olhar intenso.
– Ah, este é o Castiel – Sam se prontificou a apresentar o amigo celestial.
– Você é o tal anjo que cegou a Emma Barnes, a amiga paranormal do Bobby? – a jovem o olhou admirada e apontou o dedo para ele
–Bom, fui eu mesmo. Mas não se preocupe eu não costumo fazer isso. – replicou Cass um pouco embaraçado. Estendeu a mão – Prazer.
Jo apertou a mão dele.
– Jo Harvelle, quanto tempo! – Vic a saudou entusiasmada. Havia ido ao banheiro feminino e regressava naquele instante.
– Victoria Collins, como vai?
As duas se cumprimentaram com um amistoso aperto.
– Então os boatos são verdadeiros. Você tem caçado com os Winchesters.
– Sim, eu... finalmente me integrei.
– Você parece tão... tão...
– Amigável? Sociável?
– É... e radiante também.
Collins esboçou um sorriso e trocou olhares com Sam. Jo não pôde deixar de perceber.
– Eu soube que você entrou pro ramo das caçadas e que tem se saído muito bem – tornou Collins.
A moça ia responder o comentário, porém, Dean as interrompeu:
– Meninas, não quero ser desmancha-prazeres, mas temos trabalho a fazer. Dá pra vocês colocarem o papo em dia outra hora?
– Ok – concordou Jo – O que exatamente eu tenho que fazer?
– 0 –
Jo havia se trocado no banheiro feminino da lanchonete. Usava um vestido preto e curto que lhe deixava as pernas à mostra. Uma tentação para qualquer demônio e também homens, incluindo Dean Winchester.
Desde que a moça chegara, o loiro não parava de secá-la. Como uma pessoa podia ficar tão linda de uma hora para outra?
Não que antes ele não visse beleza na Harvelle, porém, ela tinha um jeito mais meigo, de garotinha, que não lhe permitia enxergá-la mais do que uma simples amiga atraente. Ou até uma irmã mais nova.
A moça fingiu não notar, mas percebeu com disfarçada satisfação o efeito que estava causando no homem. Não só ela havia percebido como também Victoria. Esta havia notado também o interesse da Harvelle pelo loiro.
Embora não pudesse evitar sentir ciúmes, resolveu que não ia se incomodar caso acontecesse algo entre os dois. Afinal, ela tinha Sam. Só esperava que Jo não se machucasse com o Winchester.
As duas caçadoras não eram exatamente amigas íntimas, contudo, simpatizavam-se uma com a outra. Collins costumava frequentar bastante o Harvelle's Roadhouse, antes de este ser destruído. Era o local em que se sentia realmente “em casa”, fora a residência do tio.
Apesar dos caçadores abusados que por lá encontrava, havia Jo e a mãe dela, Ellen. As duas eram uma das poucas pessoas com as quais ela mantinha certa amizade. Talvez fosse pelo fato de serem mulheres ou porque a relação de mãe e filha das Harvelles lhe fizesse baixar a guarda, pois lhe recordava como era bom ter uma mãe.
Por sua vez, Jo admirava muito a figura de Victoria tão destemida e comentada entre os caçadores. Ela queria muito se tornar uma lenda como a Indomável .
Embora houvesse um grande número de mulheres na caçada contra o mal, o ramo ainda era de domínio dos homens e, como tal, havia ainda certo preconceito de grande parte deles quanto à inclusão de “fêmeas”. Entretanto, Collins fechou a boca de muitos provando que uma mulher era tão capaz quanto qualquer homem ou até mais de se dar bem nessa área.
– Pronto. Está perfeito. – disse Collins após ajeitar o cabelo de Harvelle num coque. – Nenhum demônio vai ser capaz de resistir a você, “uma pobre moça indefesa e sozinha” no meio do nada.
As duas riram da ironia. Dean continuava olhando a jovem como se ela fosse uma presa.
– Está pronta? – indagou Vic
– Sim – respondeu Harvelle
– Vocês estão prontos? – inquiriu Collins para os Winchesters
– Sim, Vic, estou. – respondeu Sam
– Dean? Dean! – Collins o chamou
– Ah, tá. Eu... estou – replicou o loiro após sair de sua contemplação das pernas e do corpo de Jo.
Collins bufou ao notar o estado de espírito do loiro, porém, não disse nada.
– Então vamos – disse ela.
Os dois moços se levantaram da mesa e pagaram a conta.
– Cass, nos espere aqui. Voltamos logo – pediu Dean.
O anjo assentiu.
Os quatro caçadores caminharam alguns quarteirões até chegarem perto do mesmo muro onde se ocultavam do local em que pretendiam invadir.
– Agora é a sua deixa, Jo – instruiu Dean – Não se preocupe que estaremos aqui de olho em você e a qualquer sinal de perigo, entramos em ação.
– Pode deixar – ela disse confiante – Aí vou eu.
A moça atravessou a rua olhando para os dois lados. Estava de saltos altos. Não gostava desse tipo de calçados, mas conseguia se equilibrar bem. Chegou no portão da casa. Havia uma câmera de segurança. A caçadora estava envolvida pelos próprios braços, pois sentia um pouco de frio. Tocou o interfone.
– Alô? – falou uma voz no dispositivo.
– Alô! Meu carro quebrou! Preciso de ajuda! – ela solicitou imprimindo uma falsa nota de aflição.
– Já vou descer.
Ela aguardou. Viu o sinal que seus companheiros fizeram de longe de que estava indo bem. O portão foi aberto. Dois seguranças altos de terno – um louro e outro moreno claro – se aproximaram um tempo depois.
– Boa noite, moça bonita! – disse o loiro – Entre aqui.
– Só preciso fazer uma ligação – disse ela sorridente ao se acercar deles.
– Não precisa ligar para ninguém – ele olhou seu colega – Somos a única ajuda de que precisa.
– Quer saber? – ela fingiu os olhar com receio – Vou esperar no meu carro.
Jo se virou, mas o loiro a deteve colocando a mão em seu ombro.
– Nós dissemos pra você entrar aqui – os olhos dele ficaram escuros.
Para a surpresa da criatura, a moça se virou e derrubou-o com um golpe. Nesse ínterim, Vic, Sam e Dean — que já tinham entrado de modo esgueirado – surpreenderam o outro segurança. Sam enfiou a faca especial no pescoço dele e, em seguida, nas costas do loiro. Os dois caíram mortos.
– Muito bom, Jo – disse Dean jogando a mochila dela em suas mãos.
– Valeu – ela disse e tirou um alicate de dentro da bolsa – Vamos?
Os quatro foram para parte de trás da mansão onde estava a caixa do sistema elétrico. Jo pretendia cortar os fios com o alicate.
– Nós duas assumimos daqui, rapazes – disse Collins – Podem entrar que aguardamos por vocês.
– Fique com isso... só por precaução – disse Sam entregando a faca de matar demônios para a namorada
– OK, meninas. A gente não demora – declarou Dean.
– 0 –
Numa ampla e luxuosa sala, com uma lareira onde o fogo crepitava, estava Crowley. Assistia em seu confortável sofá um documentário sobre a Segunda Guerra Mundial. Ele podia ser um dos piores de sua raça, mas ninguém podia negar que possuía bom gosto e estilo – o que era comprovado na decoração de sua residência.
De repente, a eletricidade foi cortada. Crowley sorriu como se o contratempo não o incomodasse. Ou melhor, como se estivesse até esperando por aquilo. Levantou-se, andou pelo corredor que se ligava na frente da casa e parou.
– É Crowley, né? – perguntou Dean apontando uma espingarda com sal grosso
– Os garotos finalmente me encontraram. – ele não estava mesmo surpreso – Vocês demoraram.
Os Winchesters estavam parados a considerável distância do demônio. Ele caminhou em sua direção, mas se deteve ao ver o tapete um pouco desarrumado. Sabia que seu adorno nunca ficava daquele jeito, por isso, estranhou. Abaixou-se, levantou a parte inferior e examinou-a. Havia uma Chave de Salomão pintada. Os caçadores se frustraram ao verem que seu plano de capturar Crowley havia falhado.
– Fazem ideia de quanto custa este tapete? – indagou ao se levantar
Dois demônios surpreenderam os rapazes os agarrando por trás. O que segurava Dean, desarmou-o.
– É isso, não é? – Crowley mostrou a Colt – É isso que vocês querem.
E apontou a arma em direção a seus rostos.
– 0 –
– Mas e aí, Joe? Como vai no ramo de caçadas? – inquiriu Vic querendo retomar a conversa no ponto interrompido. – Você chegou a caçar sozinha por um tempo, não é?
As duas caçadoras ainda estavam nos fundos da casa aguardando os moços.
– Sim, depois de uma briga com minha mãe que insistia a me tratar como criança. Resolvi seguir meu próprio caminho. Eu te disse que faria isso algum dia.
– É, e eu te falei que a melhor coisa seria você se manter longe desse tipo de trabalho e que sua mãe só estava querendo te proteger.
– E eu te falei que não era nenhuma bonequinha de luxo para ser protegida.
Vic riu.
– É, não mesmo. Mas... depois você voltou atrás e começou a caçar com a Ellen.
– Isso, foi depois que o nosso bar foi destruído. Minha mãe ficou arrasada. Era a herança que papai nos deixou, um elo com os outros caçadores. E também a morte do Ash... foi o que mais a abalou. Quando eu soube o que aconteceu, fui pra nossa casa e aí... ela me pediu que eu voltasse a morar com ela e que não ia tentar me impedir de caçar.
– E desde então vocês tem atuado juntas. Como tem sido?
– Confesso que melhor do que quando eu agia por minha própria conta. O ruim é que mamãe ainda banca a superprotetora comigo.
– Não se chateie. É... coisa de mãe.
– Eu sei. – ela esboçou um sorriso condescendente – Mas, por outro lado, é bom contar com um parceiro nesse tipo de trabalho. É bom saber que tem uma pessoa se preocupando com você e vice-versa.
– Nisso sou obrigada a concordar.
– E quem diria? A Indomável trabalhando com os Winchesters. – o sorriso de Jo se alargou – Logo você que me disse que não tinha a menor vontade de conhecê-los e que eles deviam se achar o centro do universo por tantas coisas que se dizia sobre o pai deles.
– Pois é, paguei com a língua.
– Eu ouvi comentários de alguns caçadores que encontraram com vocês. Estão dizendo que... você e o Sam...?
– Sim, estamos juntos. E é bem sério.
Dessa vez, Jo não conteve a risada irônica.
–É, o mundo está acabando mesmo.
Collins também riu. Após uma pausa, Harvelle comentou:
– Onde será que estão os outros demônios? É estranho que só esses dois que matamos, estavam vigiando a casa.
– Você sabe como essa raça é arrogante por natureza. Devem se achar suficientes demais.
–É, mas está um pouco parado aqui. Eu esperava um pouco mais de ação.
Não tinha acabado de falar, quando uns doze ou treze demônios as encontraram. Aproximaram-se e formaram um círculo em torno delas. As duas encostaram as costas uma na outra, cada qual observando uma parte do grupo. Um deles olhou Victoria de cima a baixo e disse:
– Você deve ser a tal famosa Indomável . O jeito que falam de você não é exagero.– ele lambeu os próprios lábios. Examinou Jo da mesma forma – Hum... E trouxe uma amiguinha que também parece bastante deliciosa. Se vocês duas se renderem, prometemos não machucá-las. Pelo menos não muito.
Todos eles riram.
– O que vocês estava dizendo mesmo sobre aqui estar parado, Jo? – comentou Victoria sem se perturbar. Olhou com desprezo o demônio que tinha lhe falado enquanto pegava a faca especial que Sam lhe emprestou. – Está feliz agora?
– E como! Hora de diversão para nós garotas.
– 0 –
Para a surpresa dos Winchesters, Crowley atirou na cabeça de seus captores. Estes caíram mortos no chão.
– Precisamos conversar – disse o demônio – A sós.
Os rapazes se entreolharam. Seguiram o sujeito até o escritório da casa.
– O que é isso? – inquiriu Sam tentando entender o gesto da entidade.
– Eu poderia ter enterrado essa coisa bem fundo – referia-se à Colt. Atrás de sua escrivaninha, com um só gesto de mão, fechou a porta – Não tem motivo para alguém sequer saber que essa arma existe. Mas eu contei.
– Contou?
– Boatos, insinuações, espalhados por aí.
– Por quê? Por que nos contar alguma coisa?
Crowley não respondeu de imediato. Apontou a arma para eles.
– Quero que levem esta coisa a Lúcifer e esvaziem o cartucho na cara dele – esclareceu
– E por que, exatamente, você quer ver o diabo morto? – Dean piscou os olhos longamente ao indagar
A criatura pôs a arma na escrivaninha.
– Isso se chama... sobrevivência. Mas esqueci que são idiotas funcionais – retrucou com cinismo
– E você é um idiota “funcionante”, fun... – Dean tentou revidar o insulto, porém, enrolou-se nas próprias palavras. Sem graça, abaixou um pouco o rosto.
– Lúcifer não é um demônio, lembra? Ele é um anjo famoso por ter ódio pela humanidade. Para ele, vocês são só sacos de pus – ele se virou de costas por um breve momento ao encher um copo de uísque enquanto Dean observava a arma deixada no móvel – Se é isso o que ele pensa de vocês, imaginem o que ele pensa de nós.
Bebericou o uísque e voltou a encarar os caçadores.
– Mas ele criou vocês – tornou Sam
– Para ele, somos só servos. Bolas de canhão. Se Lúcifer conseguir exterminar a humanidade, nós seremos os próximos. Então... ajudem-me. Vamos todos voltar a tempos melhores! De volta a quando podíamos seguir nossos instintos. Eu faço pactos, caramba! O que acham? E se... eu lhes der esta coisa... – estendeu a Colt –... e vocês matam o diabo?
Os caçadores hesitaram como se esperassem algum truque do sujeito. Por fim, Sam tomou a arma.
– Está bem – disse.
– Ótimo.
– Por acaso, você sabe onde o diabo está?
– É quinta-feira, não é? Um passarinho verde me contou que ele tem um encontro em Carthage, Missouri.
– Ótimo. Valeu – disse o Winchester despreocupado.
A seguir, apontou o revólver no olho esquerdo de Crowley. Todavia, não disparou. Estava sem balas.
– Ah, sim, claro. Vão precisar de mais munição – o demônio falou sem se afetar. Abriu uma gaveta da escrivaninha para pegar balas
– Você não estaria assinando sua sentença de morte? – questionou Dean – Tipo, o que acontece com você se formos tentar matar o diabo e perdermos?
– Um: ele vai nos matar mesmo assim. Dois: depois que saírem daqui, eu vou sair de férias a qualquer lugar. E três: que tal vocês não perderem? – esbravejou na última frase – Está bem? Antas!
Jogou-lhes a munição e sumiu na mesma hora.
– 0 –
– Garotas, vamos que... – Dean parou de falar assim que viu a cena diante de si.
Jo e Victoria conversavam tranquilamente. E aos seus pés, os demônios que tentaram atacá-las estavam caídos e mortos.
O loiro e Sam se entreolharam.
– Algum problema, Dean? – indagou Jo com um sorriso.
– Er... vamos pegar o Cass que no caminho a gente explica.
– 0 –
No caminho de volta, Jo ligou para a mãe. Esta ficou furiosa em saber que a filha saiu sem avisá-la que iria ajudar os Winchesters. Após conseguir acalmar Ellen, a moça explicou a situação e pediu que fosse encontrá-la na casa de Bobby.
– Ah, minha mãe! – suspirou ela no banco de passageiro do carro de Vic.
Ela e Victoria foram juntas no carro desta enquanto os rapazes e Cass iam no Impala preto. As duas queriam ter “um papo de mulheres caçadoras”.
Depois, os caçadores pernoitaram em um motel à beira da estrada – as mulheres no quarto e os irmãos em outro. Castiel já tinha partido e pediu que o chamassem assim que chegassem à casa de Bobby.
De manhã, bem cedo, retomaram viagem e só chegaram ao seu destino por volta de umas cinco da tarde. Foi Ellen quem os recebeu na porta.
– Oi, mamãe – cumprimentou Jo dando uma olhada para baixo e um sorriso sem graça.
– Muito bonito, hein, mocinha? – ironizou a caçadora cruzando os braços com expressão repressiva. – Tomando decisões pelas minhas costas? E não é a primeira vez.
– Mãe, por favor, agora não.
Ellen suspirou. Em seguida, cumprimentou as demais pessoas:
– Oi, rapazes. Oi, Victoria.
– Oi, Ellen – os moços a saudaram ao mesmo tempo
– Oi, Ellen, é um prazer te rever depois de tanto tempo.
– Nem tanto. Faz só uns dois anos mais ou menos.
– É, desde... – Collins parou de repente. Quase tocava num assunto delicado.
– Desde que o Harvelle’s explodiu e... o Ash morreu – completou a outra
Collins assentiu.
– Bem, vamos, entrem. Bobby está à espera.
Os quatro passaram pela soleira da porta e foram até a sala. Bobby estava lá com cara de poucos amigos.
– Oi, Bobby. A gente demorou, mas... chegamos – saudou Dean
O velho caçador não respondeu. Seu olhar era raivoso e estava fixo em Sam. Este ficou constrangido e desviou os olhos.
– Oi, tio! Que saudades! – Vic se aproximou de Singer e ia beijá-lo no rosto, mas com um gesto de mão, ele mandou que ela permanecesse onde estava. Collins o olhou sem entender.
– É verdade? – ele perguntou inquirindo-a com o olhar
– Do que você está falando?
– É verdade o que a Ellen me contou sobre você... e o Sam?
Harvelle fechou os olhos e tapou o rosto com a mão.
– Me desculpem, Victoria e Sam – ela disse sem graça quando os dois olharam para ela ao mesmo tempo – Eu só comentei o que ouvi de alguns caçadores que encontraram com vocês e que disseram ter notado haver alguma coisa. Eu pensei que o Bobby soubesse disso e sem querer mencionei.
– E aí? – tornou o velho caçador – É só lorota de caçador... ou tem algum fundo de verdade?
Collins olhou para Sam. Este assentiu. A moça foi até ele e pegou em sua mão. A expressão de Singer foi um misto de surpresa e desagrado.
– Sim, Bobby, é verdade – confirmou Victoria – Sam e eu estamos namorando.
O ar ficou carregado de um silêncio tenso. Dean trocou olhares com Jo e Ellen. Sam e Vic permaneceram mudos encarando Bobby. Por fim, este se pronunciou:
– Podem deixar suas bagagens aqui na sala que depois a gente vê onde coloca. Se estiverem com fome, a geladeira está bem abastecida. Podem ir todos pra lá – apontou o dedo para Sam que já se preparava para sair com o resto – Menos você, meu chapa. Vamos ter uma conversa bem séria.
– Tio, você não pode... – Vic tentou protestar
– Vá pra cozinha, mocinha! – ele esbravejou. Não iria admitir discussão – Depois, será a sua vez. Quero ficar a sós com Sam.
Victoria ia insistir, entretanto, Sam apertou sua mão para que ela não o fizesse. Eles se olharam.
– Está tudo bem, Vic – ele procurou tranquilizá-la.
Collins balançou a cabeça em sinal afirmativo. Olhou Bobby com expressão de súplica, mas ele a ignorou. Ela foi para o cômodo como os outros.
– Agora somos só nós dois, Sam Winchester – afirmou Bobby fuzilando o moço com os olhos
– 0 –
Victoria estava aflita encostada no umbral da cozinha. Não queria perder nenhuma palavra da conversa entre o tio e o namorado, por isso, tentava escutar. Se Bobby exagerasse com Sam...
– Calma, Vic, relaxe – disse Dean se aproximando com um sanduíche bem caprichado nas mãos – O Sammy vai acabar levando o velho no bico.
A moça nada disse.
– Vai um sanduba aí? – indagou o loiro tentando chamar sua atenção.
Collins fez um gesto de recusa e também sinal para que o moço se calasse. Este deu de ombros e foi sentar-se à mesa da cozinha. O som das vozes na sala chegavam aos seus ouvidos:
– Bobby, eu não vou terminar com a Vic! Nós estamos apaixonados!
– Uma ova! Eu não permito esse... esse relacionamento inconsequente entre vocês!
Jo estava sentada em outra mesa junto com sua mãe. Ela saboreava uma comida simples e esquentada no micro-ondas. Na verdade, a moça apenas remexia a comida com o garfo. Quase não tinha apetite.
A fome da jovem ao chegar à casa havia desaparecido no momento em que percebeu o interesse de Dean por Victoria.
Fazia alguns minutos desde que começou a conversa entre Bobby e Sam. E desde que se iniciou, Collins não desgrudava do umbral da porta da cozinha. Seus olhos estavam fitos na direção da sala. E os olhos de Dean estavam presos em sua figura quase sem se desviar. Só no momento de ele preparar o lanche que parou de olhá-la por alguns momentos. Mas, depois, voltou a contemplá-la. E achava que ninguém o estava observando.
Mas Jo observava tudo. E constatou o interesse do moço.
A jovem levantou os olhos de seu prato para examinar os dois mais uma vez. Vic sequer dirigia um olhar para Dean; sua preocupação com o namorado era evidente. Quanto ao caçador, mal parecia engolir o sanduíche de tanto que admirava Victoria ali parada.
Jo esboçou um sorriso triste. Estava enganada. Dean não estava interessado em Victoria. Estava completamente apaixonado. E o fato de a caçadora ser a namorada do irmão não parecia ser motivo suficiente para o loiro desencanar.
Victoria não tinha culpa no fim das contas. Pelo menos nada em sua postura revelava um incentivo para os sentimentos do loiro. Mesmo assim, Jo não pôde deixar de sentir inveja da outra.
Aliás, desde que soube que a Indomável estava caçando ao lado dos Winchesters, sentiu certa inveja. E também ciúmes. Ciúmes porque Vic estaria ao lado de “seu Dean”.
“Seu Dean” nada. Nunca fora. Só nos seus sonhos mais íntimos. Nestes, ela sonhava que o loiro se declarava e era o homem que tirava sua virgindade.
Virgindade. Nem isso. Embora tivesse beijado muitos rapazes , ainda era virgem quando conheceu o Winchester. Depois que o viu, teve a certeza que sua primeira vez seria com ele. Contudo, depois da única caçada que fez ao lado dele e de Sam – que resultou numa discussão com a mãe e a revelação desta de que por culpa de John Winchester, seu pai, Bill Harvelle, estava morto – , a moça mudou de ideia. Depois, foi embora de casa por um tempo.
Nos poucos meses em que morou sozinha, resolveu esquecer de Dean e de acreditar em príncipes encantados. Procurou além de caçar, curtir a vida. Teve dois ou três casos com caçadores que não duraram mais do que três meses. Mas descobriu como sexo era bom. Claro, a primeira vez não foi aquela maravilha que idealizou, porém, depois de outras vezes viu como sexo podia ser excitante.
Achou que tivesse superado seus sentimentos por Dean, mas ao revê-lo depois de três anos lá em River Pass, sua paixão voltou à tona. E quando ele lhe telefonou para pedir ajuda em recuperar a Colt, seu coração bateu acelerado. Porém, ela havia decidido a não se mostrar muito entusiasmada com o loiro, pois já sabia de seu comportamento bastante safado. E também porque ele nunca demonstrou um forte interesse por ela.
Só que ficou entusiasmada ao ver a reação que provocou nele logo que os encontrou. E mais ainda quando ele a viu de vestido. Parecia um lobo querendo atacar. Sempre quis que ele a olhasse diferente.
Entretanto, ao observar o jeito bobo como o Winchester admirava Victoria, Jo notou que era daquela forma que queria que ele a enxergasse. Não como mais uma mulher em sua longa lista, mas como a mulher que ocuparia seus pensamentos de uma forma constante.
– Não vale a pena, Jo – a voz de Ellen a despertou de suas divagações. A moça olhou para ela. – Você merece muito mais.
Jo nunca havia conversado com Ellen sobre seu sentimento por Dean, mas sua mãe com certeza sabia. Nada lhe escapava. Ela também devia ter notado o que ocorria ali na cozinha.
Sua mãe sorriu para ela e apertou sua mão. Jo também sorriu. No fim das contas, nem dez Deans Winchesters valiam o que Ellen representava para ela.
– 0 –
Nesse meio tempo em que os outros estavam na cozinha, Bobby conversava com Sam. Bom, “conversar” não seria bem o termo adequado. O velho caçador fazia um verdadeiro inquérito com o pobre rapaz.
– Sente-se! – começou Singer
– Er... obrigado, mas acho melhor ficar de pé – replicou Sam bastante desconfortável
– Pois eu não acho. Duas pessoas pra conversar tem que estar no mesmo nível. E como você já percebeu não tenho condições de me colocar à sua altura – tornou com sarcasmo apontando as próprias pernas na cadeira de rodas. – Então trate de se sentar agora.
– OK. OK. Estou sentando – disse o moço levantando os dois braços em sinal de trégua. Acomodou-se no sofá.
Bobby o olhou durante um bom tempo sem emitir nenhuma palavra. Sam não conseguia encará-lo por muito tempo. Sentia-se sufocar. Remexeu um pouco a gola da camisa. Queria que o Singer começasse a despejar todos os impropérios que deviam estar se passando em sua cabeça, ao invés de continuar naquele silêncio longo e angustiante. Porém, o homem permanecia calado. Conhecendo o velho caçador, o Winchester suspeitou que era justamente para aterrorizá-lo mais ainda.
– Você se lembra da última vez que pisou na minha casa? – disparou Bobby de uma vez
– Er... sim, claro.
– Se lembra do motivo pelo qual eu insisti pra que você e o Dean viessem pra cá? Antes de começaram sua jornada contra tudo que implicasse o Apocalipse?
– Sim, me lembro.
– E o que foi que eu disse? Pode me refrescar a memória?
– Bom, você... sugeriu que Dean e eu tivéssemos mais uma pessoa caçando ao nosso lado.
– Isso. E foi nessa ocasião que lhes apresentei minha sobrinha Victoria Collins.
– Ah... é... é...
– Vocês contaram a ela tudo o que tinha lhes acontecido até culminar no Apocalipse. E aí perguntaram se ela queria participar dessa grande caçada.
– E ela topou.
– Sim, Sam. Ela topou. Estou satisfeito em saber que você tem boa memória.
– Claro, Bobby.
– Então continue a refrescando. O que eu disse pra você e pro Dean na manhã do dia seguinte sobre a Vic?
– Bem... você disse que.... que...
– Eu disse que só tinha chamado vocês para trabalharem com ela porque além de ser de grande ajuda pra vocês, eu queria garantir a proteção dela. Não a queria caçando por aí com as coisas piorando por causa do Apocalipse.
– Er... foi mais ou menos isso que você disse.
– Que mais?
– Que mais o quê?
– Que mais eu disse? A minha principal recomendação?
O moço suspirou antes de responder.
– Você falou pra nós... ficarmos bem longe da Vic, pra... não pensarmos em nenhuma gracinha com ela.
– Hum, continue.
– Disse que ela já tinha penado muito na vida e o que menos precisava era de sofrimento. Que não queria que nem eu nem o Dean nos envolvêssemos com ela fosse só um caso ou um compromisso mais sério.
– Bom garoto, continue.
– Disse também que mesmo gostando de nós dois, não queria a gente com ela. Que esperava que algum dia ela deixasse essa vida de caçadas, encontrasse alguém normal e... se casasse com ele formando uma família.
– Ah, muito bem. Chegamos onde eu queria.
– Bobby, olha...
– Silêncio! Eu por acaso dei permissão pra você falar sem ser interrogado? – esbravejou de uma vez
– Não, mas...
– Então só fale quando eu deixar. Eu é quem vou falar agora.
Sam engoliu em seco.
– OK.
O velho caçador discorreu bastante sobre lealdade e família. Relembrou todos os momentos vividos entre ele e os Winchesters. Tudo o que haviam passado até chegar ali. Singer não era um homem prolixo, dado a longos discursos, porém, se tal ocorria era porque estava realmente furioso com o relacionamento entre a sobrinha e o Winchester.
Bobby ficou pelo menos dez minutos falando sobre o quanto os Winchesters e Collins representavam em sua vida. Sam não o interrompia, só balançava a cabeça. Por fim, o velho caçador se voltou para ele:
– E depois de tudo isso que passamos, de você ter concordado em não se meter com a Vic... como pôde me trair dessa maneira?
– Bobby, eu...
– Como pôde ser tão irresponsável, Sam? E logo você que eu considerava o mais sensato dos dois!
– Mas...
– De Dean eu esperava algo assim. Mas... de você!
– Só que, Bobby...
– E o que me dá mais raiva é que eu fui o último a saber! – apertou os punhos – Foi a Ellen quem me falou acreditando que eu já sabia disso, que era um fato dado como certo e de que todos os caçadores comentavam. Não sabe como me senti um idiota. A cara que eu devo ter feito.
– Bobby, por favor...
– Há quanto tempo vocês estão juntos?
– Ahn... er... vai fazer três meses.
– Três meses!? – os olhos de Singer pareciam querer saltar pelas órbitas – Vocês estão juntos há três meses, eu ligo pra vocês quase todos os dias e nem pensaram em me comunicar?
– Não é o tipo de coisa pra se falar no telefone, Bobby – justificou-se o moço
– Ah, não me venha com essa!
– Faria alguma diferença se nós tivéssemos te contado logo que começamos?
– É claro que não! Mas eu teria colocado um pouco de juízo nessa sua cabeça e essa história não teria ido adiante.
– Bobby, por favor, não é o fim do mundo... quer dizer, não o que está acontecendo entre a Victoria e eu. Nós não planejamos isso. Simplesmente aconteceu. Foi... mais forte do que a gente.
– Pois então seja mais forte e termine esse relacionamento com ela agora.
– Quê? Você está brincando, não é?
– Sim, estou brincando. Estou com um humor daqueles para brincar. – Bobby abriu um largo sorriso com evidente sarcasmo. Depois, fechou o rosto – É claro que estou falando sério!
– Bobby, eu não vou terminar com a Vic! Nós estamos apaixonados! – Sam levantou o tom de voz
– Uma ova! Eu não permito esse... esse relacionamento inconsequente entre vocês!
– Com todo o respeito, Bobby, você não tem direito de permitir ou deixar de permitir! – Sam não se conteve e ergueu-se do sofá – A Vic eu somos adultos, sabemos muito bem o que estamos fazendo!
– Escute aqui, garoto! Abaixe seu tom quando falar comigo! E sente-se! Não mandei você levantar.
– OK. Desculpe – o moço se acalmou e sentou-se outra vez.
– Você é potencialmente o homem mais perigoso pra se envolver com minha sobrinha – Sam ia retrucar, mas Bobby fez gesto para se calar – Já se esqueceu de que Lúcifer quer usar você?
– Eu não me esqueci, Bobby. Mas eu não pretendo dizer ”sim” para ele.
– Eu espero que não. Mas certamente ele vai tentar fazer de tudo pra te obrigar. E vai usar quem for pra isso. Ele usaria Dean se pudesse, mas seu irmão tem certa proteção do Miguel e dos anjos, então por isso ele tem uma chance. – fez uma pausa – Só que a Vic não! Ela vai acabar se ferrando nessa história por sua causa!
– Bobby, eu...
– Quer que ela termine como a Jessica?
Antes que o Winchester respondesse, Victoria entrou na sala. Não ia tolerar mais aquela situação. Ela se colocou no meio deles.
– Chega, Bobby! Sam já ouviu suficiente e eu também.
– Eu ainda não terminei com ele! Aguarde sua vez pra conversarmos!
– Não, tio, não tem mais conversa. Sam eu nos amamos e vamos ficar juntos goste você ou não.
– Pelo amor de Deus, menina! Tenha juízo!
– Se juízo para o senhor é eu passar o resto da minha vida sozinha sem amor, eu prefiro não ter.
– É claro que não é isso que quero pra você! Por Deus, sou eu quem mais te falo pra encontrar alguém e refazer sua vida!
– E é isso o que estou fazendo.
– Com Sam? –apontou o Winchester – Um caçador! Escolha alguém normal com uma vida normal!
– Como o Henry, por exemplo? Pra terminar do jeito que terminou? Do que adiantou eu me envolver com alguém na sua opinião “normal”? Acabou mal da mesma forma.
Contra aquele argumento, Singer não achou resposta.
– Não se iluda, tio. Ninguém que é caçador consegue sair dessa vida sem mais nem menos – continuou a moça – É como uma maldição! Te persegue aonde você for. São poucos os que conseguem chegar na sua idade e mesmo assim... não chegam tão bem. Olha o senhor nessa cadeira, olha o Rufus fugindo de credores e envolto com bebida. – ela suspirou – Eu não tenho a ilusão de chegar aos meus sessenta anos mesmo se acabarmos com essa coisa do Apocalipse, mas... pelo menos eu quero estar ao lado da pessoa que amo... e feliz.
– Mas com o Sam talvez você não passe nem do Apocalipse! – Bobby tentava argumentar com ela – Eu só estou preocupado com você!
– Então pare de se preocupar! Eu já sou adulta! Sei cuidar de mim mesma! – ela se impacientou de vez – E você não é meu pai, Bobby!
Ela sabia que o tinha ferido, porém, estava cansada de ele tratá-la como uma menina a ser protegida. E não queria que a intervenção dele afetasse seu relacionamento com Sam.
O silêncio na sala era pesado. Sam olhava ora para a namorada, ora para Bobby. Não tinha coragem de pronunciar nenhuma palavra.
– Está bem – disse o velho caçador com cabeça baixa e tom magoado – Me desculpe por me intrometer na sua vida porque me importo demais com você.
Collins fechou os olhos e suspirou. Estava pronta para se desculpar, todavia, Singer não permitiu e disse:
– Chame o Dean e os outros. Temos um assunto mais importante para tratar.
– 0 –
Após chamar Castiel por telefone, Dean especificou para todos a situação sobre a Colt e a informação de que o Diabo estaria em Carthage. Seria uma ótima oportunidade para acabar com o arcanjo, embora também fosse uma missão suicida. Ainda assim, todos se puseram de acordo em empreender tal jornada. Como não poderia ir com eles, Bobby ficaria de apoio para qualquer emergência e também passaria outras informações que conseguisse.
Por outro lado, sugeriu que se fizesse uma pesquisa a respeito a fim de confirmar a veracidade da informação.
Depois de um relaxante banho, todos foram para a cozinha. Vic, Dean e Sam se debruçaram sobre livros, mapas e outras fontes de pesquisa na mesa maior.
Quanto a Ellen e Jo, puseram-se a conversar com Castiel em outra mesa. O anjo as intrigava. A Harvelle mais velha o desafiou a testar sua resistência a bebidas.
Vic não conseguia se focar muito bem no que estava pesquisando. Sentia-se péssima por Bobby mal lhe dirigir a palavra.
– Vá lá conversar com ele, Vic – disse Sam em seu ouvido. Havia percebido o estado de espírito da namorada. – Você não vai conseguir se concentrar em nada assim.
– É, você tem razão. Vou tentar erguer a bandeira da paz com o tio.
– Ele vai te perdoar, não se preocupe.
Ela assentiu e levantou-se. Deu um rápido beijo nos lábios de Sam e foi conversar com Singer que estava na sala.
– Vamos lá, garotão. Beba – desafiou Ellen após tomar de uma vez a cerveja no copo.
Ela, a filha e Castiel estavam sentados diante de um monte de copos cheios da bebida. Jo não participava da competição entre sua mãe e o anjo, apenas observava.
Cass bebeu cinco copos seguidos de uma vez para espanto de sua oponente.
– Acho que estou começando a sentir algo – disse com relativa calma.
Mãe e filha se entreolharam. Jo sorriu.
– Deve ser uma cilada, né? – indagou Sam bebendo em sua garrafa de cerveja.
– Sam tendo problemas de confiança com um demônio – disse o loiro com ironia enquanto examinava um mapa – Antes tarde do que nunca.
– Obrigado pelo seu apoio – retrucou com um sorriso forçado
Brindaram com as garrafas e beberam um gole.
– Sendo uma cilada ou não, temos uma chance e é bom pegarmos, né? – tornou Dean
– Acho que sim – deu de ombros
– E não sei se é uma cilada. Olhe – indicou uma região do mapa – Carthage está cheia de presságios do Apocalipse. E olhe isto: tem seis pessoas desaparecidas lá desde domingo – mostrou seis cartazes com fotos de pessoas e a legenda “Desaparecido”. Pegou a cerveja – O diabo deve estar lá mesmo.
–Então beleza.
– Pensando bem, você não pode vir.
– Dean... – Sam ia protestar
– Se eu ir contra o diabo e vacilar, está tudo bem. Nós aguentamos sem uma peça do jogo, mas se você for... estaríamos dando o recipiente do diabo para ele. Não seria esperto.
– Já fizemos algo esperto?
– Estou falando sério.
– Também estou. Nunca aprendemos nada? Se formos fazer, vamos fazer juntos.
– E a Vic?
– O que tem ela?
– Eu escutei o que Bobby te disse sobre o Lúcifer querer usá-la pra te obrigar a dizer “sim” pra ele. Sou obrigado a concordar e no fundo você sabe que existe essa possibilidade. Se você for, ela irá junto. E se o diabo a vir e você não quiser fazer o que ele quer, ele pode matá-la.
– Ele não irá! Eu... não vou deixar.
– É? E o que você vai fazer pra impedir isso?
– Vou dar um tiro na cara dele com a Colt antes mesmo que dê uma única olhada na Vic.
– Que bom que alguém aqui é otimista.
– Olhe, eu... posso conversar com ela hoje e pedir pra que fique aqui com Bobby nos dando apoio.
– Boa sorte, Sammy. Em se tratando da Indomável, você vai conseguir mesmo convencê-la.
– Que droga, Dean! Deixe de ser tão pessimista! – esbravejou
Cass, Joe e Ellen olharam para eles da outra mesa. Os dois sorriram sem graça em resposta. Sam voltou a falar aos sussurros:
– Olhe, deixe que da Vic cuido eu. Independente se eu conseguir convencê-la ou não a ficar, eu quero ir junto. Eu devo ir. – olhou para o irmão com súplica – Por favor.
– Está bem – disse Dean após um suspiro e uma longa pausa entre eles – É uma ideia muito ruim.
De repente, os olhos do loiro se prenderam em algo. Sam acompanhou a direção do olhar do irmão. Seu rosto assumiu um ar desaprovador.
Era Jo que estava de pé e de costas para os rapazes. Ela vestia a mesma calça jeans apertada e blusa preta da noite anterior em que os encontrou. A roupa emoldurava bem os contornos de seu corpo. Ela estava mesmo sexy!
A moça pediu licença à sua mãe e a Cass para ir à geladeira pegar uma cerveja.
– Falando de ideias ruins – comentou Sam.
– Minha Nossa! – sussurrou o loiro sem desviar os olhos da silhueta da moça – Ideia ruim mesmo.
Ele se levantou e foi até ela.
No caminho à casa de Bobby, em seu Impala, Dean havia comentado com Sam o quanto Jo parecia mais mulher. Havia perdido o jeito “menina” de ser. Estava mais decidida, sensual e confiante.
O caçador declarou que na primeira oportunidade, investiria na moça. Quando pararam para descansar no motel, achou que teria sua chance, mas ficou desapontado por ela ter decidido pernoitar num quarto com Victoria. Mas agora iria aproveitar. E não perdeu tempo.
Jo estava pegando outra cerveja na geladeira. Ela se abaixou o suficiente para que o Winchester tivesse uma bela visão de sua bunda. Ao se virar, surpreendeu-se ao ver Dean parado atrás dela.
– Oi – disse ele
– Oi – respondeu ela tirando uma mecha do rosto.
– Então... Missão perigosa amanhã – ele se encostou no armário e ficou ao lado dela naquela postura de conquistador que atraía as mulheres – Acho que é hora... de comer, beber e, sabe... se divertir.
– Isso é aquele negócio de “último dia na Terra?”
– Quê? — ele se fez de desentendido
– Quê? — devolveu ela
– Não – ele riu desdenhando a insinuação – Mas... e se fosse? Será que daria?
Jo sorriu, colocou a garrafa na banqueta do armário e olhou bem fundo nos olhos de Dean. Suas mãos foram até a nuca dele enquanto aproximava seu rosto. Ele aguardou com expectativa. Os lábios da moça estavam quase próximos aos seus, ele podia sentir seu suave perfume e seu hálito doce. Fechou os olhos.
– Não – ela disse e afastou o rosto. O Winchester abriu os olhos surpreso – Se for o nosso último dia, então quero passá-lo com uma coisa que chamo de “respeito próprio.”
E se distanciou do caçador o deixando completamente sem graça.
Sim. Ela se amava o suficiente para não se permitir ficar com um homem que claramente estava afim de outra pessoa e que, com certeza, só a queria como segunda opção. E mesmo que não fosse esse o caso, não ia ser mais uma na lista do caçador e tampouco só uma “despedida de fim da vida”.
– Se você curte isso – disse Dean amuado pelo fora e bebeu um gole de sua cerveja.
– 0 -
Na sala, Bobby ajeitava uma câmera no suporte. Victoria surgiu nesse momento. Ele estava de costas para ela.
– Tio, podemos conversar?
– Alguma pista sobre o que está acontecendo em Carthage? — ele nem se virou
– Não é sobre isso que quero falar.
– Então não sei o que pode ser – disse aparentando indiferença
– Bobby, por favor. As coisas entre nós não tem que ser assim – ela se aproximou dele e colocou a mão sobre seu ombro – Me desculpe pelo que falei.
– Sobre o quê? De eu parar de me preocupar ou de não ser seu pai?
– Os dois. Você sabe que eu não quis colocar as coisas dessa maneira. Eu apenas... não podia deixar você continuar massacrando o Sam.
– Só não quero que nada de mal aconteça a você! – ele disse e virou a cadeira de frente para ela – Não desejo que você termine como a sua mãe. Sabe como eu fiquei arrasado com a morte dela?
– Eu sei, tio. Eu sei. Mas como eu disse... sou uma caçadora e estou sujeita aos mesmos riscos que qualquer um. Eu vou estar com eles amanhã enfrentando o Diabo. E sabe que isso de tentarmos levar uma vida normal é pura ilusão. Veja o que aconteceu com meus pais, Luke e todos meus outros parentes. Todos caçadores ou filhos de caçadores.
– Sim, no fundo sei que você está certa – ele foi obrigado a concordar – Só que... toda regra tem exceção e... eu espero sinceramente que você seja essa exceção. Mas com Sam, você...
– Eu amo ele, Bobby! Amo muito mais do que já amei o Luke ou o Henry. Eu nunca me senti tão feliz assim em toda minha vida.
– A coisa é séria mesmo. Posso ver em seus olhos.
– Então, por favor, não fique aborrecido nem comigo e nem com ele. Nos dê sua benção.
– Ah, por favor, quem dá bênção é quem é avô e estou longe de me tornar isso. — olhou-a com advertência – E eu espero que vocês estejam sendo cuidadosos a esse respeito.
– Ah, Bobby, só você mesmo – ela riu e o beijou no rosto – Te adoro!
– OK. OK. Chega dessa pegação e se apronte por ali – apontou um canto da sala – Vou tirar uma foto de todos.
– Foto? Nem pensar! Você sabe que não tiro fotos desde... a morte do Luke.
– Ai, menina, pelo amor de Deus! Uma vez que você quebrar essa regra não vai matar ninguém.
– Não, nem pensar. Eu prefiro tirar a foto. Você sabe que adoro fazer isso. Só não estou tirando mais como antes por falta de tempo.
Singer revirou os olhos.
– Ah, está bem, teimosa. Você é quem sabe. Prepare a câmera que eu chamo os outros. — Todos, venham cá!
Imediatamente, Castiel e os outros caçadores foram até a sala.
– É hora da organização – continuou ele e apontou os Winchesters – Suspeitos comuns para o canto!
– Qual é, Bobby. Ninguém quer tirar foto – afiançou Ellen
– Ouça: cale a boca, está bebendo da minha breja. Enfim, vou precisar de algo para guardar de recordação.
Ele se posicionou entre o grupo formado enquanto Collins aguardava.
– É sempre bom ter um otimista – tornou a Harvelle
– Ei, a Victoria não vem? — observou Jo
– É que ela detesta tirar fotos – respondeu Dean.
– Como você sabe? — inquiriu a caçadora – Eu só contei isso pro Sam. Ele te falou?
Sam balançou a cabeça. Também estranhou.
– Er... foi só um palpite – desconversou o loiro. Não iria explicar que tal informação ele obteve no futuro. — Mas, Vic, você deveria tirar também. Não seja tão... antissocial.
– É, Vic, vem. — pediu Sam – Nós dois não temos nenhuma foto juntos.
– Não, meninos, nem pensar. Não se incomodem comigo – retrucou Vic e olhou o grupo pela objetiva da câmera – OK, gente, façam uma cara feliz.
Entretanto, ninguém conseguia esboçar o menor sorriso. Collins tentou animá-los:
– Por favor, pessoal. Só um sorriso nessas caras. Esqueçam por um minuto que possa ser nosso último dia na Terra.
Aquilo só fez com que a expressão de desalento deles se acentuasse. Vic suspirou. E tirou a foto assim mesmo. Da esquerda para a direita estavam Cass, Sam, Ellen, Dean, Jo e, Bobby na frente da jovem, com o braço dela em seu ombro esquerdo.
Uma foto para recordar o grande embate do dia seguinte. E eles esperavam sobreviver a esse dia.

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