Almas Perdidas
4 3. Instinto Materno
Notas iniciais

A jovem respirou fundo quando se deu conta que estava diante da porta da biblioteca. Tentava criar um rápido diálogo em sua mente, dizendo o porquê de estar abandonado o seu posto, concedido pela Rainha. Enumerou vários pontos do encontro, nada agradável, com o Príncipe Loki e os explanaria para Frigga, assim que tivesse um tempo.
Deixou o ar escapar de seus pulmões antes de abrir a porta e encontrar a Mãe de Todos sentada em uma cadeira, de frente para uma mesa onde continha inúmeros livros, canetas, papeis e afins. Ela realmente estava disposta a seguir com aquela história de ensinar a menina a ler.
— Deu tudo certo? — Perguntou. Sigyn esqueceu completamente o que foi ensaiando durante o percurso até o lugar. Confirmou com a cabeça e abaixou o olhar. Frigga notou que tinha alguma coisa errada e por isso levantou-se. Aproximou-se da menina e segurou-a pela mão. — O que ele falou para você?
— Por favor, Majestade, não me faça voltar lá. Eu imploro. — Pediu com os olhos marejando-se de lágrimas e forçando o corpo para ajoelhar-se.
— O que ele lhe disse, Sigyn? — Frigga a segurou antes que seus joelhos tocassem o chão e a colocou de pé outra vez, encarando-a seriamente. Era visível que estava desapontada com o comportamento do filho mais novo.
— Ele é... — A jovem mordeu os lábios antes de prosseguir. Não queria deixar a Rainha triste com seus comentários. Pensou em palavras como insensível, monstro ou coisa pior, mas se conteve. —... rude, frio e me dá medo.
— Sente-se, por favor, criança. — Mandou apontando um sofá de cor creme, com algumas almofadas douradas. — Eu entendo que esteja com medo agora, mas isso é exatamente o que ele quer. Quer que pense que ele é mal e que por isso se afaste. A real razão disso tudo é que Loki é muito orgulhoso e sempre foi, desde pequeno. Estar em uma cela, trancado como um dos criminosos de guerra, é quase insuportável para ele. Principalmente se uma serva ou guardas o virem daquela forma. Por isso as amedronta. Entende como é para um Príncipe, que vivia com todas as regalias em um palácio, descobrir que terá que passar o resto de seus dias trancado em uma cela como um bandido?
— Me desculpe a franqueza, senhora, mas ele auto-infligiu essa punição. Se o que ouvi for verdade, o Pai de Todos foi generoso demais com ele. — Frigga abaixou o olhar tristemente. — Desculpe, não queria que a senhora ficasse assim.
— É difícil, para uma mãe, ouvir essas palavras.
— Eu não falo mais nada, prometo. — A jovem envergonhou-se e olhou para as próprias mãos, em seu colo. Frigga as agarrou em seguida.
— Eu só posso contar com você, Sigyn. Não posso ir vê-lo sempre, porque um dos castigos foi privá-lo de minha companhia. Eu sei que ele se sente só e eu esperava que você pudesse ser alguém com que ele desabafasse algumas vezes. Loki é bom, acredite em mim.
— A senhora é mãe e não consegue ver maldade em seu filho.
— Posso então te pedir que tente, apenas mais uma vez? Eu vou dar um jeito de conversar com ele e pedir para que não faça nada que possa lhe causar um novo desconforto. Se mesmo assim ele continuar, não precisa mais voltar lá. Está bem?
— Sim, senhora. Tento mais uma vez. — A morena a olhou de soslaio, tentando assimilar aquele pedido desesperado da Rainha, antes de confirmar. Levaria a refeição dele novamente. Se Loki ouvisse a mãe e não a fizesse mal, ela até poderia continuar indo ali.
— Obrigada. — Agradeceu a Rainha, trocando a fisionomia triste por uma mais relaxada. — Agora que conversamos, precisamos começar logo a lhe ensinar. Não temos muito tempo.
— A Senhora tem sido muito generosa comigo. Agradeço imensamente.
— É um prazer, menina. — Frigga sorriu para ela e as duas sentaram na mesa. Passaram o resto da manhã e tarde estudando. O almoço e o jantar de Loki, naquele dia, foi um soldado que levou.
...
Faltava pouco mais de meia hora para que o Sol de Asgard desaparecesse no horizonte, quando ela surgiu na cela do Príncipe. Frigga usava um feitiço muito difundido na magia, quando queriam se comunicar sem deixar rastros: A aparição através das chamas.
Lançava um feitiço no fogo de uma lareira e sua imagem era refletida onde quer que desejasse. Assim como a imagem da pessoa a quem encontraria também aparecia através das chamas.
Frigga olhou para o filho, que estava deitado em sua cama, jogando o que parecia ser um copo para cima e o apanhando em seguida, para novamente jogá-lo no ar. Quando percebeu a presença da mãe, sentou-se na cama.
— Eu pensei que estivesse proibida de me ver. — comentou encarando-a. Frigga sorriu para ele rapidamente e deu um passo à frente.
— Jamais deixaria que isso realmente acontecesse. Sabe muito bem de quem herdou sua teimosia. — Completou dando uma olhada rápida no lugar e percebendo a bandeja, com o jantar ainda intocado. — Por que não tem se alimentado?
— Não tenho sentido fome. — Respondeu de supetão.
— Mas precisa comer. Se não o fizer, definhará.
— É um destino melhor do que viver o resto dos meus dias nesse lugar. — Comentou o homem seriamente. Frigga aproximou-se dele, o suficiente para ficar em pé em sua frente. Loki ergueu a cabeça para encará-la.
— Não diga uma coisa dessas. Apenas me machuca com suas palavras. — Frigga pediu e ele abaixou o olhar. — E mudando desse assunto desagradável, precisamos conversar. — Interrompeu o pensamento do filho. Imaginar perde-lo doía imensamente. — O que fez com a menina que veio trazer-lhe o café?
— Já foi lhe fazer queixa? — Loki levantou-se e afastou-se dela. — Não deveria ter mandado uma de suas Damas.
— Eu não mandaria se parasse de expulsar todos os servos que veem aqui. — Rebateu a Mãe de Todos. — E sim, ela foi até mim dizer que a tratou mal.
— Eu não fiz nada. Apenas perguntei onde a senhora a havia encontrado. Ela começou a chorar como uma criança mimada.
— Sigyn tem um passado muito cruel, Loki.
— Então ela tem um nome? Porque nem isso foi capaz de me dizer. — Respondeu ainda seriamente. Encarou a Rainha por um tempo e suspirou pesadamente quando percebeu a feição de desaprovação — O que aconteceu com ela?
— Há poucos dias, presenciou o assassinato de sua avó. Foi sequestrada e vendida ao mercado de escravos. Se o seu irmão não a tivesse encontrado, não saberíamos onde estaria agora.
— O poderoso Thor. — Loki olhou para Frigga com um ar de deboche. — Sempre salvando o dia. Deve estar orgulhosa dele, assim como transborda de orgulho por mim.
— Não seja irônico, Loki. A culpa de estar aqui é somente sua.
— Eu só tentei ter aquilo que era meu, por direito.
— Não vamos discutir. — Frigga aproximou-se dele outra vez e parou em sua frente. — Por favor, eu peço que seja gentil com ela. Não ficará vindo aqui por muito tempo. É só até achar alguém que o faça, mas até lá trate-a bem. Por mim. Ela já sofreu demais nessa vida, não merece mais chorar. — Loki apertou o maxilar com um pouco de força, sendo visível por baixo de suas bochechas e então assentiu. — Obrigada, filho. — agradeceu enquanto tentava tocar o rosto do moreno.
Ele fechou os olhos, para sentir a carícia da mãe, mas assim que ela o tocou, o feitiço se desfez e Loki se viu novamente sozinho em sua cela.
...
Sigyn encarava a bandeja dourada há mais de cinco minutos e tentava criar coragem para descer até aquele lugar e encarar o Príncipe Loki. A Mãe de Todos havia lhe falado na noite anterior e dito que havia conversado com o filho, sobre os modos dele, e por isso ela tentaria mais uma vez. Não por ela, não por Loki, mas por Frigga.
Respirou fundo e pegou a bandeja, tomando cuidado para não derramar a jarra de suco que estava nela. Desceu devagar as escadas das masmorras e novamente respirou aliviada ao ver os soldados na porta. Identificou apenas aquele que estava com Tyr, no dia anterior. Como o homem já sabia quem era ela, não a barrou e informou para o seu parceiro também não fazê-lo. Sigyn sorriu para ele e passou pela porta, voltando no minuto seguinte.
— Onde está Tyr? — perguntou para o soldado que já conhecia. Ele ergueu uma de suas sobrancelhas.
— Tyr não é um soldado de posto fíxo. Ele fica alternando. Ontem ele vigiou as masmorras, hoje está nos corredores dos quartos e amanhã pode estar em outro lugar.
— E quando ele volta às masmorras? — perguntou envergonhando-se. O soldado sorriu para ela.
— Eu não faço ideia. — respondeu. — mas porque não o procura na troca de turno? Ele vai estar na sala dos soldados ao cair da noite.
— Está bem. Obrigada. — agradeceu sorrindo e continuou descendo as escadas, seguindo até o final do corredor onde estava a cela do Príncipe de Asgard. Respirou profundamente antes de se colocar em foco. — Bom dia, alteza. — inclinou a cabeça em uma rápida reverência, mas quando a ergueu, não viu ninguém na cela.
Sabia sobre a fama ilusionista do Príncipe e pressupôs que aquele era o caso. Loki havia se envolvido em uma ilusão. Não comentou nada, apenas subiu as escadas e entrou na cela, através da barreira de energia. Colocou a comida em cima da mesma mesinha do dia anterior e deu as costas.
Antes de descer, ele apareceu sentado na cama
— Você foi a primeira que não saiu correndo para avisar aos guardas que eu não estava aqui. — pronunciou-se.
— A fama o precede, alteza. Suas ilusões são conhecidas por todos os Nove Reinos. Só um tolo cai em uma delas.
— Eu acredito em você. — Loki sussurrou no ouvido da moça, no mesmo instante em que o outro desaparecia da cama. O deus sorriu enquanto pegava uma uva da bandeja que Sigyn trouxe e sentava-se no mesmo lugar que sua cópia estava.
— Deseja algo mais? — Perguntou a Deusa da Fidelidade. Loki sorriu para ela abertamente. Adoraria provoca-la ou pregar-lhe uma peça, mas lembrou-se do pedido feito por sua mãe.
— Não. Pode ir. — Respondeu por fim. Sigyn assentiu.
— Com sua licença. — Pediu e deixou a cela rapidamente. Dessa vez seguiu pelo corredor não tão apavorada, como no dia anterior. Ainda se atreveu a olhar para trás antes de virar em direção as escadas e viu que o Príncipe a observava de longe.
...
— Como foi hoje? — Perguntou Frigga. As duas estavam, novamente, na biblioteca para o segundo dia de aula. A Mãe de Todos observava Sigyn copiar as letras que ela previamente havia escrito em um papel.
— Foi tranquilo. — Respondeu terminando de copiar a letra “a”. — Ele comportou-se razoavelmente bem.
— Fico feliz em ouvir isso. — Ela sorriu e encarou a jovem a sua frente. O lugar ficou em silêncio até quando a menina concluiu uma carreira completa de letras “a” e “b”. — Sigyn, posso te fazer uma pergunta?
— Mas é claro, senhora.
— Você pensa em formar uma família? — Frigga estava muito curiosa com relação a aquilo. Sigyn ergueu os olhos do papel e encarou a Rainha.
— Desde muito jovem, sempre tive vontade de ser mãe e ter alguém que me amasse e que eu pudesse amar também. Juro que até pensei que isso havia acabado, quando me levaram ao mercado de escravos.
— E deixou alguém em Vanaheim? — Frigga a interrogava gentilmente. Sigyn sequer percebeu. — Uma mulher tão bonita quanto você deveria ter alguém que a fascinasse.
— Não. A minha vida inteira ajudei a minha avó. Todos os dias e o dia todo. Não tive tempo para essas coisas.
— E agora? Pensa em alguém? — Frigga continuava a perguntar. Sigyn encolheu-se, sem querer, na cadeira. O guarda veio em sua mente quando ouviu a pergunta da Rainha. Mas aquilo era ridículo, ela o havia visto apenas uma vez e nada sabia sobre ele.
— Não. — Sigyn enrubesceu quase que instantaneamente. Estava visivelmente constrangida com as perguntas. Frigga ergueu uma de suas sobrancelhas. — Bem, tem alguém. Eu mal o conheço, mas deve ser coisa da minha cabeça.
— Quem é ele? — Perguntou a Mãe de Todos. O sorriso formando-se em seus lábios.
— O nome é Tyr. Ele é um soldado do palácio. — Frigga franziu o cenho enquanto ela falava. — Não se preocupe, senhora, não deixarei nada acontecer aqui dentro.
— Um soldado?
— É. Ele estava fazendo a guarda das masmorras ontem, quando fui levar a comida do Príncipe. — Sigyn começou a falar animadamente, com um sorriso nos lábios, mas assim que se lembrou de Loki e do que ele fez, o sorriso desapareceu.
— Então esse soldado lhe roubou o coração?
— Ainda não sei. É cedo demais para dizer, mas eu gostei dele. Vamos ver o que destino me reserva. — Sigyn sorriu e Frigga também. A Mãe de Todos havia visto todo o futuro da jovem Dama e podia garantir que Tyr não estava nele, mas ela tinha que se precaver. O destino é feito de escolhas e é mutável por conta disso. As decisões da jovem poderiam levá-la ao futuro que Frigga viu ou a outro completamente diferente. A Rainha só tinha que ajudá-la a seguir no caminho certo e já sabia qual seria o próximo passo para isso.
...
As luas de Asgard estavam no céu na hora em que a Deusa da Fidelidade saiu do palácio e sentou-se em um dos bancos do jardim. Havia ido levar o jantar de Loki e já estava liberada de suas obrigações. Agora estava livre para fazer o que queria.
O vestido verde parecia flutuar enquanto a jovem sacudia as pernas rapidamente. O banco era um pouco mais alto e por isso ela não alcançava o chão com os pés.
Terminava de comer uma maça suculenta quando a rosa pousou diante de seus olhos. Seguiu o braço do homem até dar de cara com o sorriso largo de Tyr.
— Onde está sua armadura, soldado? — Perguntou ela, pegando a rosa, cheirando e dando espaço no banco para que ele sentasse. Tyr usava uma roupa simples, sem nenhuma peça metálica, e uma capa marrom escura nas costas.
— Estou em meu tempo livre. — Comentou sorrindo. — Só volto a usá-la amanhã.
— Você fica melhor sem ela. — Sigyn deixou escapar e enrubesceu imediatamente. Tyr sorriu ainda mais.
— Obrigado. — Agradeceu. Olhou para as suas mãos quando o silêncio se tornou longo o suficiente para ser considerado constrangedor. — E como tem se saído com o Príncipe?
— Bem. — Respondeu ficando séria. — Mas podemos não falar sobre isso?
— Claro que sim. Desculpe por ter perguntado. — Ele respirou fundo e a jovem apertou-lhe a mão para dizer que estava tudo bem. — Fiquei sabendo que estava à minha procura.
— Confesso que estava sim, mas era mesmo para agradecer. Não estava bem ontem e acho que acabei sendo indelicada com você. Desculpe e obrigada por ter sido gentil comigo, sem nem mesmo me conhecer.
— Não se preocupe, Sigyn. — Pronunciou o nome da jovem com tanta ênfase que a fez rir. — Você não foi indelicada. De maneira alguma. E fico feliz em ter sido útil de alguma forma. — A jovem mordeu delicadamente os lábios e sorriu com aquilo. Cheirou novamente a flor, antes que o campanário tocasse e revelasse que já estava mais do que na hora da deusa entrar.
— Desculpe, Tyr, mas eu tenho que ir. — Levantou-se do banco em um salto. — Eu divido o quarto com as outras Damas e elas já devem estar se perguntando onde eu estou.
— Tudo bem, eu entendo. — Ele levantou-se também. — Mas posso te pedir uma coisa?
— Claro que sim.
— Me encontra amanhã aqui, no mesmo horário? — Pediu com os olhos castanhos mirando-a sem desviar. Sigyn sorriu abertamente.
— Porque quer que eu venha, soldado?
— Porque eu queria uns conselhos. — Comentou respirando de maneira profunda.
— Conselhos? — Sigyn franziu o cenho. — Sobre o que?
— Acho que me apaixonei por uma das Damas da Rainha e eu gostaria muito de saber o que eu faço agora. Não consigo tirá-la de meus pensamentos.
— A primeira coisa a se fazer é saber se essa Dama também gostou de você.
— E ela gostou?
— Muito! Mas isso é assunto para amanhã, não acha?
— Eu concordo plenamente. — A felicidade estava estampada no rosto do homem. — Durma bem, Sigyn.
— Você também, Tyr. — Aproximou-se do homem e beijou-lhe a bochecha. — Durma bem.
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