Almas Perdidas
5 O Momento
Notas iniciais
Quase um mês depois do ocorrido, eu estava tranquilamente caminhando pelo campus com a Teodora.
– Sabe, eu acho que vou entrar no curso de japonês que começou a pouco tempo perto da minha casa – indagou a Téo.
– Por quê?
– Não sei, eu acabei o curso de inglês ano passado, até então não estudei outras línguas.
– E aí? – cumprimentou Murilo aparecendo do nada pelas nossas costas.
– Você andou fazendo curso de assombração?! Por que pelo jeito que você aparece, acho que é o primeiro da classe – falou Teodora após se recuperar do pequeno susto.
– Engraçadinha, acho que é você que anda com a cabeça nas nuvens – retrucou.
– Vocês dois gostam de falar idiotices, né?! – me inclui no diálogo.
– Desculpe senhorita “Idiotice Camuflada”, é que nem todos tem o seu dom – falou Murilo me provocando.
– Olha aqui garoto, idiota é você!
– Somos dois, então.
– Dois nada, você que...
– Acho que vou dar no pé, os pombinhos então ocupados, não quero segurar vela – falou Teodora interrompendo e saindo para longe.
– Espera, não! – Já era tarde demais, ela já havia se afastado. – A Téo é sem noção!
Voltei o olhar para Murilo, e ele havia se aproximado sem eu nem perceber.
– Você é meio irritadinha, não?!
– Eu diria que gosto de justificar o meu lado.
– Eu diria que você é nervosinha demais. Eu só estava brincando – falou aproximando-se ainda mais.
– As suas brincadeiras... – ele havia ficado mais perto, então eu desviei o olhar e comecei a afastar-me. Quando ele segurou o meu braço de repente.
– Eu não mordo, tá?!
– Eu nem havia cogitado essa possibilidade.
A mão dele, que a pouco estava segurando meu braço, passou para o meu rosto, em um leve movimento carinhoso.
– Para com isso! – Segurei a mão dele.
– Desculpa – ele baixou o olhar. – Eu não queria...
– Tudo bem. Vamos?
Andamos lado a lado pelo campus em um silêncio constrangedor e desconfortável. De repente ele parou sem dizer uma palavra.
– O que foi? – perguntei.
Ele olhou para o chão pensativo, respirou fundo e rapidamente me beijou, não dando tempo para reação. Eu o empurrei depois de alguns segundos.
– O que está fazendo?
– Eu só achei que... Eu não sei, eu só fiz qualquer coisa que veio a minha cabeça.
– Seu imbecil, tem sorte de eu não arrebentar a sua cara!
– Você não teria coragem.
– Eu teria coragem até de arrancar as suas orelhas e costura-las na sua testa, se necessário! – gritei descontrolada.
– Fala sério!
– Estou falando sério.
– Você gosta de mim? – perguntou ele diretamente.
– E-eu, eu...
– Responda!
– Por que você quer saber? Eu não ligo para você! – Dei de ombros e segui a passos acelerados.
– Essa é sua resposta final? – Ele seguiu-me.
– Minha resposta é “me deixa em paz”!
– Medrosa!
Parei de caminhar assim que escutei essa palavra saindo da boca dele.
– O quê? – perguntei ardendo de raiva e virando-me.
– Sua medrosa! Tem medo de falar a verdade, é isso?! Tem medo de ser sincera, né?
– A verdade é que eu quero me dedicar aos estudos, e só isso – respondi tentando controlar-me para não pular com as unhas na garganta dele.
– Isso não significa nem que não e nem que sim.
– Eu não gosto, satisfeito?
Ele baixou a cabeça e concordou.
– Entendi. – E saiu mais rápido do que havia aparecido.
Eu não sei se falei a verdade, simplesmente dei uma resposta curta para ele deixar-me em paz.
Voltei para casa, comi alguma coisa e esperei a Carol se aprontar, decidimos antes que iríamos comprar algumas roupas para o bebê.
De repente, no meio da rua, ela começou a sentir umas dores estranhas.
– Você está bem?
– Sim, eu só... Ah! Eu acho que... – Ela ficou ofegante – Cathy, a bolsa estourou! Esse pequenino está prestes a nascer!
– Ah, meu Deus!
Por pura sorte, na próxima quadra havia um hospital público. Eu fiquei super nervosa e a ajudei a caminhar até lá. Entramos sem rodeios e fomos até o balcão. Eu estava com pressa, não reparei muito na balconista, apenas vi uma mulher de olhos caídos, rosto cumprido e cabelos castanhos, presos em um coque mal feito. Tirou os óculos após nos ver.
– Em que posso ajudar? – perguntou ela num tom desanimado.
– Rápido, a minha irmã está grávida, o bebê está prestes a nascer! – respondi rapidamente.
– Qual o nome da paciente? – indagou folheando alguns papéis.
– Carolina, Carolina Guimarães! Vamos logo, não temos tempo para isso!
– Vocês podem sentar ali e esperar só um segundo, o doutor já vai recebê-las – murmurou a senhora com uma calma incompreensível.
– Tá. – Sentei-me ao lado de uma jovem mulher loira com um pequeno bebê aconchegado em seus braços.
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