Jimin nunca se sentiu tão nervoso por causa de um jantar. E isso porque ele nem sequer gostava de jantares formais – ou dos informais, também. Ou, até mesmo, de jantar com pessoas que ele já chamou de "idiota" no aeroporto. Mas lá estava ele, em frente ao espelho, arrumando a gola da camisa pela sexta vez. Ou será que já era a sétima?

— Você vai jantar, não se casar, Park Jimin — disse para si mesmo, franzindo o cenho ao ver Taehyung surgir no reflexo da porta.

— Mas e se for um pedido de casamento disfarçado de fondue de chocolate? — o Kim questionou, sentando-se na cama com um sorrisinho debochado.

— Vai embora, Taehyung. — O jogou um travesseiro.

Do outro lado do hotel, Jungkook também encarava o espelho, mexendo no cabelo como se estivesse tentando dominar um exército rebelde. Ele já havia trocado de roupa duas vezes e agora estava parado, segurando o celular com a notificação da mensagem de Jimin: "Tô descendo".

Respira, Jeon. É só um jantar com o garoto que você implicou no aeroporto, quis discutiu no avião e que agora é sua alma gêmea. Tranquilo.

Ele desceu para o saguão do hotel com a coragem de quem vai enfrentar um chefe de fase final de RPG. E lá estava Jimin, encostado na parede com um blazer claro e as mãos no bolso.

— Oi. — disse Jungkook.

— Oi. — respondeu Jimin, corando um pouco. — Tá bonito... Para um idiota.

— Você também tá bonito... Para um babaca metido.

Eles riram. Primeiro educadamente. Depois genuinamente. E assim, foram jantar.

O restaurante do hotel era sofisticado, daqueles que servem pratos que você não sabe pronunciar e vêm decorados com flores comestíveis que parecem arrancadas de um jardim da Barbie. Eles tentaram manter a compostura, mas isso durou, no máximo, por cinco minutos.

— Você sabe o que é ceviche de polvo em emulsão cítrica com crocante de inhame? — Jimin perguntou, franzindo a testa para o cardápio.

— Parece um feitiço. — Jungkook respondeu. — Se eu comer isso, tenho certeza de que viro um polvo também.

Eles acabaram pedindo pratos diferentes e, no fim, dividiram tudo como bons inimigos que agora fingem que se amam. Até que veio a sobremesa.

— Tem uma opção aqui chamada "A explosão da paixão". — disse Jimin, lendo em voz alta.

— Isso é sobremesa ou o título de um dorama?

Mas, claro, foi exatamente essa que pediram.

Veio uma espécie de esfera de chocolate que, ao receber uma calda quente, explodia revelando frutas, sorvete e uma quantidade desnecessária de chantilly. Só que a tal "explosão" veio mais intensa do que o previsto, e um pedaço voou bem no colarinho da camisa de Jungkook.

— Ai! A paixão explodiu em mim. — ele disse, encarando a camisa manchada.

— Já começou a sujar as roupas? A gente nem se beijou ainda. — Jimin riu tanto que quase chorou.

— É, e eu achei que o reality show tinha sido o momento mais humilhante da minha vida.

— Calma, podemos superar. Vamos fingir que é um batom. Fica sexy. — Jimin piscou.

Depois do jantar desastroso e perfeito, voltaram andando pelo hotel. Pararam em frente ao elevador, e a tensão entre eles finalmente fez sentido. Estavam ali, sozinhos, com cinco episódios de alfinetadas, provocações e uma sintonia inexplicável.

— Então... — Jungkook começou, coçando a nuca. — Se eu disser que quero tentar isso de verdade... ser sua alma gêmea e não só uma edição de verão... você foge?

— Não, mas só se você prometer não pedir "explosão da paixão" de novo. — Jimin respondeu, sorrindo.

— Prometo. Mas só se puder tentar outra explosão com você.

— ...Jungkook!

Eles riram de novo, e, dessa vez, se beijaram.

Um beijo real. Sem câmeras. Sem plateia. Só dois caras que se esbarraram no aeroporto, se xingaram no avião, e se apaixonaram entre perguntas de um programa maluco.

E, por mais irônico que parecesse... talvez fosse mesmo coisa de alma gêmea.

○ ○ ○ ○ ○ ○

O quarto ainda estava na penumbra, a cortina grossa filtrando os primeiros raios do sol da ilha de Jeju. Jungkook piscou devagar, sentindo um braço atravessado sobre sua barriga e o cheiro inconfundível de shampoo de camomila, algo que ele agora associava a Park Jimin.

Ele realmente dormiu aqui, pensou, com um sorriso bobo.

O Jeon virou o rosto de leve e se deparou com Jimin totalmente espalhado na cama, deitado de barriga para baixo, com o rosto afundado no travesseiro e o cabelo bagunçado cobrindo metade da testa. A perna do loiro estava sobre a dele como se Jimin tivesse certeza de que Jungkook não escaparia dali nem se tentasse.

— Você dorme igual uma estrela do mar emburrada. — Jungkook murmurou, rindo baixinho.

— E você fala sozinho igual velho. — Jimin respondeu, a voz abafada pelo travesseiro.

Jungkook se assustou.

— Você estava acordado?!

— Desde a hora que você me cheirou feito um cachorro. — Jimin virou de lado lentamente, ainda com sono. — Mas foi fofo.

Jungkook riu, passando a mão carinhosamente nos fios bagunçados do loiro.

— Eu só estava conferindo se isso tudo foi um sonho... ou se você ainda está aqui mesmo, na minha cama, depois daquele beijo incrível.

Jimin cobriu o rosto com o travesseiro.

— Aish... Não fala assim logo de manhã! Eu ainda estou processando o fato de ter dormido com minha alma gêmea, que até ontem eu queria empurrar escada abaixo no aeroporto.

— Ei, minha companhia é ótima! Olha só, você está sorrindo enquanto reclama. Isso é amor.

— Isso é sonambulismo. — Jimin bufou, mas estava visivelmente tentando não sorrir. — E nem ouse contar para o Taehyung. Ele vai fazer um cartaz e colar no elevador.

— Tarde demais. Já tirei uma selfie com você babando no travesseiro. Está no grupo com os amigos do programa.

Jimin se sentou em um pulo, os olhos arregalados.

— Jungkook! Você não fez isso!

— Brincadeirinha... — ele respondeu, jogando um travesseiro no loiro. — Mas você ficou fofo. De um jeito bem... dorminhoco e manhoso.

Jimin, ainda meio sonolento, se ajeitou novamente na cama e suspirou.

— Não acredito que a minha alma gêmea é um debochado narcisista com trauma de sobremesa explosiva.

— E eu não acredito que a minha alma gêmea é um adorável carrapato que toma 80% da cama. — Jungkook se virou para ele, apoiando o rosto na mão. — Mas olha só onde a gente chegou.

Jimin o olhou de volta por alguns segundos, os olhos mais leves, sem as barreiras e implicâncias. Apenas... contentamento. E talvez um pouco de medo bobo. Aquilo era novo para ambos.

— Você quer mesmo tentar isso? — perguntou baixinho. — Fora das câmeras, dos roteiros... tipo, de verdade?

Jungkook se aproximou e encostou a testa na dele.

— Sim. Quero você. Suas ironias, suas caras feias, sua risada baixinha e até esse pé gelado encostando no meu agora.

— Eu não estou encostando! — Jimin protestou, envergonhado.

— Está sim, e eu deixo.

Eles riram juntos, se abraçando debaixo das cobertas.

Do lado de fora, o sol subia no céu de Jeju. E do lado de dentro, duas almas gêmeas recém-descobertas trocavam carinhos tímidos e provocações que, agora, tinham gosto de afeto.

Era um novo começo.

E dessa vez, sem reality show, sem apostas... só eles, de verdade.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!