Almas Destruídas em Corações de Cristal
1 Tristeza
Notas iniciais
Marinette estava arrumando os curativos em seu braço direito, usando a mão esquerda e a boca.
Havia conseguido aquele sangramento naquela manhã ao tentar fugir dos agentes do governo. Ser uma rebelde não era fácil, ela sabia disso, mas não se importou quando decidiu seu destino.
"— Eu quero trazer a paz de volta para esse lugar — ela gritou, batendo a mão na mesa de pedra que compartilhava com outros líderes da força. —, se a única maneira de fazer isso é explodir todas as construções do governo, é isso que irei fazer, e farei com orgulho! Por isso sou uma rebelde, e é por isso que vocês devem confiar em mim!"
De toda forma, ela tinha que parar de pensar no passado, ou imaginar que os bons tempos voltariam, apenas não conseguia.
A gangue na qual participava, e à qual tinha como líder, era a trupe da joaninha. Era conhecida como Ladybug, mas isso não importava no momento.
— Mari, vamos logo — seu amigo, Kim, lhe chamou. Ela calçou seus coturnos e colocou sua máscara vermelha com bolinhas pretas e prendeu seus cabelos em pigtails rapidamente.
Ela pegou sua bolsa cheia de munições e quantas armas conseguiu carregar, a colocando em seu ombro. — Vamos — falou, saindo de sua sala.
Eles começaram a andar pelo corredor, Ladybug era admirada de longe por vários rebeldes. Alguns, aqueles que participariam da invasão do dia, começaram a segui-los.
Chegaram na escada presa à parede, onde a garota de cabelos escuros começou a subir. Ela parou no meio do caminho e olhou para toda aquela pequena cidade subterrânea que havia conseguido construir. Respirou fundo.
— Amigos rebeldes — ela começou, fazendo algumas pessoas que estavam escondidas saírem de suas pequenas casas e a encararem. — Há três anos essa batalha começou. Pode ser que ela não acabe hoje, mas uma coisa é certa, traremos o maldito filho daquele maldito homem que decidiu fuder com as nossas vidas! — gritos de admiração foram ouvidos por todo o local. — Alguns de nós podem não voltar, inclusive eu. Porém, caso eu não volte, deixarei esse legado com meu aprendiz mais bem sucedido até hoje, Kim. Quero agradecer à todos aqui, por tudo que já fizeram nesse lugar é por tudo que irão fazer. Tentarei voltar, isso é uma certeza, mas, por ora, adeus!
Mais gritos de admiração foram ouvidos.
Certo, aquele não era um típico discurso que ela faria para toda e qualquer missão, porém, sabia que dessa vez ele seria necessário.
Iriam às propriedades dos Agreste, os locais mais bem protegidos de todo o mundo, com o exército mais forte e com os mais bem treinados.
O objetivo principal do ataque de hoje seria o sequestro do único herdeiro do governo, Adrien Agreste.
Ladybug o odiava. Mal o conhecia, mas não podia ser boa gente, afinal, o governo matou seus pais.
Seu amado, Nathanael, também havia sido morto. Ela mesma não sabia como tinha conseguido sobreviver.
Gabriel Agreste, esse maldito homem de alto calão, ele havia sido aquele que matara as três pessoas mais importantes para si.
Ela se lembrava das bombas caindo, do som do desespero e do cheiro das cinzas. Das explosões e das lágrimas.
Queria, mais que tudo, que seus pais não tivessem decidido sair naquele dia, mas desejava ainda que seu lindo ruivo não tivesse saído para procurá-los.
Ela estava triste, havia perdido tudo que prezava, só lhe restava sua melhor amiga e seus brincos que recebera quando era pequena. Aqueles eram os únicos resquícios de que algum dia fora feliz.
De toda forma, a noite era uma criança, e devia se apoderar dela enquanto ainda podia.
~~
A madrugada fria, com os céus cobertos por nuvens de poeira, os deixando levemente avermelhados, era extremamente atraente.
Sem estrelas, sem luas de prata, sem luz alguma, como o mundo há muito tempo havia sido tomado.
Ela olhava para aquele céu. Para os olhos de muitos, aquilo era o pior tipo de visão que poderiam ter de um mundo que, supostamente, deveria ser muito bonito. Por outro lado, Mari o achava extremamente encantador.
— Marinette, chegamos — Nino, o navegador, avisou, liberando a garota de seus pensamentos.
— Certo... Max, me passe a planta do local, Juleka, Alya, examinem o perímetro. Kim, venha comigo, vamos procurar uma entrada — a líder falou, segurando na mão do mais alto.
— Não está meio tensa, Marinette? — Kim falou.
— Longe do esconderijo, é Ladybug.
— Líder, aqui está a planta que você pediu — Max falou, lhe entregando o mapa de papel sujo.
— Obrigada, Max — ela respondeu, o abrindo. Kim aproximou seu rosto do de Marinette, procurando uma passagem junto com ela. Alya chegou perto dos dois.
— A área com menos guardas é a ala Sul, tem algo em torno de quinze seguranças e alguns snipers.
— Mas a passagem será possível se usarmos os dardos calmantes — Juleka completou. — Claro, ainda teríamos o helicóptero, mas nada que mísseis não resolvam — ela soltou um sorrisinho sádico.
— Sem explosivos hoje, Jule — Max falou. — Creio que se utilizarmos armamento pesado, será questão de , de acordo com meus cálculos, algo em torno de dois minutos e vinte e sete segundos antes que as tropas inimigas tentem nos alcançar.
— Então só temos que explodir tudo da entrada do local e sair correndo — a gótica sorriu.
— Certo, você pode explodir a partir da entrada — Marinette falou. — Apenas tome cuidado.
A garota abriu um sorriso enorme e fez que sim com a cabeça. Nino se aproximou da conversa.
— Mari, acho melhor você e Kim seguirem pela tubulação com o mapa. Eu e Alya vamos tentar despistar alguns guardas pelo leste, enquanto Max e Juleka seguirão pelo oeste — o moreno falou. — Já que nós dois sabemos o mapa de cor, será mais fácil para nós, então não o perca.
— Colocamos todas as entradas, passagens de ar, armadilhas e câmeras que encontramos. O quarto do principezinho fica no segundo andar, na zona Norte, vão ter que correr bastante para chegar lá — Max continuou.
— Sabe que correr é nossa especialidade — Kim falou, se gabando levemente.
— De toda forma, vamos invadir esse lugar logo, estou louca para explodir alguma coisa e ver miolos voando! — Jule falou, animada. Ladybug sorriu.
— Vamos então — os seis se entreolharam, sorrindo. — Lembrem-se, se alguma coisa acontecer com algum de vocês, recuem na hora. Saiam pela janela, achem alguma porta, eu não sei, mas não fiquem lá dentro. Se alguém desse grupo for morrer, tem que ser eu. Fui eu quem meti todos vocês nessa, e eu não deixarei nenhum para trás. Agora, vamos arrombar esse lugar!
Os cinco comemoraram, pegando suas armas.
Juleka possuía um grande fuzil em suas costas, e carregava uma metralhadora em mãos. Alya possuía duas pistolas em seu cinto, e era a sniper principal. Max era um hacker, carregava em suas costas alguns aparelhos tecnológicos para destruir equipamentos de segurança.
Nino possuía uma espingarda em mãos e uma pistola em seu cinto. Kim tinha facas e pequenas pistolas guardadas por todo seu corpo, ainda carregando uma arma em mãos.
Já Marinette, honrando seu nome como líder, levava uma bolsa grande em seu ombro direito, cheia de equipamentos médicos, munição e todos os tipos de arma imagináveis, guardando, como sempre, uma adaga em seu coturnos para o caso de uma emergência. Era sempre bom se precaver.
O céu ainda estava escuro, o que facilitou um pouco a entrada do grupo.
Como todas as armas do grupo possuíam silenciadores, a primeira invasão foi bem sucedida, mas Mari sabia que a paz seria momentânea. — Juleka, agora — ela mandou.
A garota de cabelos bicolores sacou seu fuzil, com um sorriso enorme nos lábios, e atirou. O estrondo incrivelmente alto levantou uma boa dose de poeira, enquanto a que havia atirado ria sadicamente da desgraça alheia.
Assim que ela parou de rir, todos adentraram o local e foram juntos até o ponto de divisão.
Nino e Alya seguiram para leste, Max e Juleka para oeste, Marinette e Kim foram pela tubulação, rezando para que as outras duplas ficassem bem.
— Mas então, Lady — Kim começou. — Qual é o plano?
— Vamos nos arrastando pelas tubulações até aqui — ela disse, apontando em um local na ala noroeste. — Subiremos pela tubulação até o segundo andar e sairemos no quarto do príncipe. Vamos jogar uma granada com sonífero pra que ele realmente não acorde, amarra-lo e sair do local, deixando nossa marca em algum lugar visível.
— Bom plano — o garoto respondeu. — Como chamaremos os outros?
— Kim, esqueceu que temos oki-tokis?
— Ah, é verdade... Vamos começar então — ele falou, sorrindo.
Enquanto ambos engatinhavam pelas tubulações, vários tiros e gritos eram ouvidos. Passando por um local que possuía uma espécie de janelinha, Marinette conseguiu ver Juleka sorrindo e metralhando tudo o que via pela frente, aquilo era um bom sinal.
— Estamos chegando, agora só falta subir daqui duas entradas — a de cabelos negros falou.
— Líder, líder, s.o.s, câmbio — ela escutou a voz cortante de Nino em seu oki-tolki.
— Diga, Nino, câmbio — ela respondeu.
— Fomos atacados com armamento pesado, Alya não consegue respirar, câmbio — ele retrucou.
O mundo de Marinette caiu. — Onde vocês estão?! — ela gritou.
— Ala Nordeste, líder — ele completou. Ladybug sentiu a dor das palavras de Nino mesmo do outro lado da ligação.
— Juleka, Max, destruam o máximo de coisas possível e corram — a líder falou, com arder em sua voz.
— Como quiser, líder — Juleka falou. Um barulho de estouro pôde ser ouvido. — Estamos indo então.
— Kim, pegue Nino e Alya e vão todos embora daqui.
— Mas, Ladybug, e você?
— Tenho que cumprir meu papel aqui, não tenho o direito de envolvê-los em tudo que faço, mas, por favor, leve-os pra fora daqui. É meu último pedido.
— Marinette, eu... — a garota pegou uma pequena motosserra em sua bolsa e fez um buraco na tubulação.
— Como ordem de sua líder, vá.
Kim a encarou, depois olhou para o buraco. Ele percebeu os olhos marejados da garota, e então, a abraçou. — Adeus, milady...
Ele pulou da tubulação e foi fazer o que sua líder havia mandado. Ele era apaixonado por ela, ela já sabia disso, mas dizia não querer envolver pessoas próximas novamente.
Mesmo que aquilo pudesse ter sido evitado.
Ela sabia que Alya havia morrido, mas a esperança de que ela estivesse viva ainda a dominava.
Ela não queria sentir aquilo de novo, mas não tinha escolha.
Ela se rastejou até o segundo andar, e começou a chorar. Abraçou suas pernas, tirou a bolsa de seu ombro, colocou sua arma de lado...
Ela não queria que ninguém a visse nesse estado deplorável, e já imaginava que seria muito melhor se alguém a matasse ali mesmo, mas suas preces não foram ouvidas.
Para um suicida, todas aquelas armas lhe pareceriam extremamente tentadoras, mas Marinette era medrosa.
Medrosa de mais para sair de seu esconderijo e ajudar seus amigos, medrosa de mais para dizer que sabia dos sentimentos de Kim para com ela, medrosa de mais para cometer um suicídio egotista.
O choro foi ficando cada vez mais alto.
Ela se lembrava das bombas. Se lembrava do gosto da poeira e do concreto de sua casa que entravam pela sua boca ao tentar respirar.
Se lembrava também de fugir, de arranjar um local para ficar, e de começar a construir sua pequena cidade.
O desespero estava tomando conta de todo o seu ser, enquanto ela cantarolava uma música para lhe acalmar.
— I'm froasting, I don't need a men to make my life sweet... Prince Charming, just isn't the one that I think I need — ela soluçava em meio à letra, se abraçando e esfregando suas mãos em seus braços, enquanto as lágrimas corriam por suas bochechas, fazendo seus olhos arderem.
— Quem está aí? — ela escutou ao longe. Se achou patética.
Havia feito tudo que fez para ser pega por um guarda qualquer? Não conseguia acreditar nisso.
Ela tentou ficar quieta, mas os soluços ainda predominavam. Ela viu a portinhola ao seu lado ser aberta, e encarou um par de olhos tão verdes quanto a mais brilhante esmeralda. Ela arregalou os próprios olhos e tentou pegar uma arma dentro da bolsa, com suas mãos tremendo.
O garoto pegou a bolsa e a jogou no chão do quarto do lado de fora da tubulação. Ladybug se assustou.
Ele pegou em suas mãos e a puxou para dentro do quarto, fechando a saída de ar em seguida.
Ela o olhou de cima a baixo. Aquele cabelo loiro como ouro, os dentes da boca levemente separados, o corpo esbelto e os olhos verdes como nada no mundo.
Aquele era o filho de seu maior inimigo, Adrien Agreste.
Se viu como um rato em uma casa protegida por gatos e ratoeiras, se achou inútil. — Quem é você? — ele perguntou, empurrando a bolsa contra a parede. Sua voz incrivelmente bonita e aveludada a enjoava.
— Ah, então essa é a maldita serenidade no rosto de quem não precisa lutar pra conseguir o que quer? É interessante — falou, ainda chorando. — Vá, chame os guardas — ela riu. — Mande que me matem, meu espírito te acompanhará até o inferno.
— Não vou chamar guarda nenhum — ele se sentou no chão, em frente à ela. — Quem é você, o que quer na minha casa?
— Isso é uma casa, uau, é maior que a cidade que eu moro — ela ironizou, enquanto olhava em volta. Se encontrava em um quarto enorme, uma cama com cochoadas pretas e vários travesseiros lhe parecia extremamente tentadora, assim como a estante de livros limpinhos ou a porta que visava para um banheiro de água quente. Ela engoliu em seco.
— Responda minhas perguntas — ele falou.
— Não te devo nada, vá, me mate de uma vez, faça um favor para seu pai.
— O que meu pai tem a ver com essa história? Apenas vejo uma rebelde indefesa que se perdeu de seu grupinho.
Aquilo foi a gota d'água.
Marinette sacou sua adaga rapidamente, pulando para cima do maldito loiro e colocando a lâmina em seu pescoço.
—Escuta aqui, seu mimadinho de um caralho, eu trabalhei duro para construir uma pequena nação no esgoto, percorri cidades destruídas e desertos incrivelmente frios para chegar nessa porra desse lugar para que? Para um garoto que nunca saiu dessa casa me dizer que eu sou uma inútil? — ela começou a rir. — Achei que te sequestrar fosse ser difícil, mas me parece que você é mais indefeso do que uma princesinha em uma torre!
Ele sorriu. Por que ele estava sorrindo?! Aquilo definitivamente não estava no roteiro!!
Marinette o viu prendendo a respiração, e logo percebeu uma fumaça azul percorrer sua volta. A bomba sonífera.
Então o maldito era inteligente?
Ela viu tudo ficar turvo e, em questão de segundos, quase atingiu o chão, se não tivesse sentido dois braços a segurarem antes do baque.
Fale com o autor