Alma de Vidro |HIATUS|
23 Capítulo 23. Quando Dois E Dois São Cinco
Notas iniciais
Assim que solto a pergunta, fixo o olhar aflito no sujeito de terno, observando bem suas feições, sua roupa, os olhos claros...
– Espera um minutinho aí. – Digo completamente incrédula ao me erguer. – Eu conheço você.
Ele continua a me encarar com a mesma expressão que parece não mudar nunca: aquela que diz “eu sou a definição de confiança”, mas não como Loki, mais como alguém modesto o suficiente para esconder o prazer que tem em saber de segredos que ninguém mais sabe ao mesmo tempo em que faz questão de demonstrar que conhece os tais segredos. É difícil de explicar, mas, quando o olho, tenho a impressão de que ele me conhece apesar de eu não saber praticamente nada a seu respeito. E eu não decidi ainda se gosto da sensação ou não.
– Coulson, certo? – Prossigo, segura, ao menos, de que é este o seu nome.
O agente joga nos olhos um brilho de aprovação quando se afasta de Loki como se este não fosse mais que mais uma das paredes que nos rodeia. Apoiando-se na real pedra gelada – irônica situação –, ele leva seu próprio tempo em uma respiração profunda, claramente sentindo o corpo mais do que deveria, fechando e abrindo os olhos enquanto se recompõe.
– Eu estava me perguntando quando você lembraria. – Admite ao focar as orbes azuis nas minhas castanhas. A sombra de adrenalina de quem se sente feliz antes de pular de um trem em movimento está estampada em seu rosto como a vontade que eu tenho de me libertar da prisão está evidente em mim, o que, de alguma forma, me conforta só um pouco.
– Você e eu vamos ter uma conversinha depois que sairmos daqui, 007. – Advirto, voltando a atenção para Dalton, abaixando-me outra vez à altura dele sob o olhar atento de Loki.
– Alguma chance de existir um alarme de incêndio aqui perto, bro?
Dalton se encolhe contra a parede, forçando as costas largas a tocar o encosto gélido e escuro atrás de si, parecendo cada vez mais perdido no mar de paradoxos em que está embalado. Ele não olha para mim e nem acho que esteja realmente visualizando qualquer coisa dentro da cela ao encarar desnorteado o piso.
– Dalton, eu preciso que me responda.
Mas ele não diz nada. E eu o entendo.
– Onde eles estão? – Pergunto. – Sua família. – Os olhos de Dalton subitamente se fecham e ele comprime as pálpebras exageradamente, recusando-se de todas as formas a responder à minha pergunta. – Estão aqui? – As mãos fortes e grandes de Dalton vão para suas orelhas, tapando-as enquanto ele começa a bater a cabeça contra a parede de leve, virando o corpo para uma posição mais apropriada para tentar me evitar.
Minhas costas, ao contrário das dele, estão queimando com a presença das perguntas não feitas de Loki e Coulson pairando no ar e me concentro para ignorá-las.
– Você pode tapar os ouvidos e fechar os olhos o quanto quiser, mas isso não ajuda sua família, Dalton. – Digo com firmeza ao ser abertamente ignorada pelo perturbado homem. – Ela continuará desprotegida enquanto você continuar enjaulado aqui.
– Você é a prisioneira aqui, não eu! – Ele rapidamente rebate, as mãos de repente afastadas das orelhas, mas os olhos ainda fechados como uma cortina antes de uma peça importantíssima.
– Isso pode ser no sentido literal das coisas, mas me responda com sinceridade: você sente que está livre por aqui? – E como ele não se manifesta, continuo: – É, parece que nós dois fomos pegos pela rede de pesca, hein? A diferença é que eu estou te oferecendo a faca para cortar essa rede e o fogo para queimá-la depois.
– Queimá-la? – Dalton pergunta inesperadamente, os olhos se abrindo em pequenas frestas tímidas.
– O que você diria sobre incendiar um pouco a vida dessas pessoas que pensam que podem nos amarrar? – Proponho em uma expressão significativa, os olhos tão semicerrados quanto os dele, porém, de modo astuto.
– Eu não posso incendiar nada. – O homem se apressa em negar. – Não posso, não posso...
Diante de seu olhar perdido, eu me sinto dialogando com alguém com problemas mentais e me pergunto a que ponto se é capaz de chegar por conta da maldita opressão.
– Sim, você pode. Você só está com medo. E eu entendo, afinal, família é família e não se pode dar as costas a ela. Mas é o que você está fazendo agora, permitindo que essa gente a faça de refém.
– Eu não...
– Você está recebendo ordens deles e nem sequer pensa em fazer nada para mudar isso. – Interrompo, orando para que meus argumentos cheguem até o capanga que odeia seu emprego. – Acha que sua família está feliz? Acha que os faria orgulhosos saber sobre o que você se tornou? Aliás, o que é que te garante que estão bem? Que ainda estão vivos?
– Elas estão vivas. – Ele diz com um olhar vidrado, gelado e distante, sem a menor convicção.
– Você não sabe disso. – Loki e eu dizemos ao mesmo tempo e, com os olhos em Dalton, luto contra a vontade esmagadora de olhar para trás, para o deus, para o verde mágico dos olhos ardilosos dele.
– Elas têm que estar. – Dalton insiste.
– Se você quer ter certeza e se quer tirá-las deste lugar – Digo, sem nem ao menos saber de quem estamos falando. –, vai me dizer onde é o alarme de incêndio para que eu o acione. Assim, as celas se abrirão e é aí que o fogo do qual te falei começa a se alastrar.
– Eu nunca disse que existe um...
– Não, mas você não precisa. Eu sei que existe. – Respiro fundo, começando a ficar bastante impaciente. – Tudo o que você tem que fazer é me levar até lá.
– Você acha que só abrir as portas é o suficiente para escapar daqui? – Dalton pergunta, de repente sombrio e amargurado, duvidando. Duvidando de mim o tempo todo.
– Não. Mas algo me diz que todas essas pessoas não estão aqui por crimes hediondos. Se eu abrir as portas, eles cuidarão do resto, você não acha?
Dalton reflete em uma máscara de desentendimento e uma fraca esperança.
– Quem é você? – Questiona um tanto aéreo.
– Eu sou eles.
Sei que não preciso dizer mais nada. Ele entende. Ele sabe que eu sei que os prisioneiros – com a exceção de Coulson – são mutantes e acabo de confirmar que também o sou, apesar de ter certeza que ele já sabia. Afinal, por que outra razão Ellendra trancaria crianças em jaulas dessa maneira? Isso é HIDRA em sua mais pura essência, querendo escravizar mutantes com lavagem cerebral e sabe-se o que mais. De algum modo, é como se o sujeito tivesse aprendido algo diferente.
– Eu posso ver porque ela te quer tanto. Você é aquela que deveria liderá-los. E eu espero que um dia você o faça. Como deveria ser. Não assim.
– O que isso quer dizer?
– Que há um alarme de incêndio no último andar. – Dalton suspira sem olhar para mim, os olhos levemente arregalados fixos no chão, novamente como um animal assustado. – Você vai vê-lo no final do corredor, perto de uma porta de madeira, a única daquele andar.
Meus olhos voam rapidamente para a chave na mão de Loki, com a qual ele libertou Coulson das algemas. No braço do deus, dando várias voltas em sua carne, está um chaveiro que entrelaça diversas chaves, como uma corrente comprida que ele provavelmente retirou das vestes do carcereiro desacordado sem que na hora eu percebesse. É como se ele soubesse que eu, mais cedo ou mais tarde, voltaria minha atenção para os cantos da cela atrás daquele chaveiro e tivesse resolvido deixar bem à minha vista disfarçadamente, sem dar destaque ou importância ao objeto quase todo encoberto por sua capa.
E é isso, senhoras e senhores, o que eu chamo de sorte.
Uma coisa curiosa sobre Dalton é que, desde a primeira pergunta que lhe fiz, ele se mostrou assustado quando o questionamento era algo que ele não queria responder. Quando lhe perguntei sobre sua família, ele ficou assustado, assim como quando perguntei sobre o alarme de incêndio. Coincidentemente, quando ele mentiu sobre a família – sobre não ter uma –, sua expressão foi exatamente a mesma de quando me deu a localização do alarme de incêndio. Também é muito suspeito que ele tenha decidido de uma hora para outra, me ajudar por motivo nenhum. Quero dizer, é muito improvável que ele, durante sabe-se lá quanto tempo neste lugar, nunca tenha se perguntado se a família está de fato viva. Interpretando sua reação durante aquele momento, eu diria que o homem estava nada mais que surpreso por eu ter levantado a hipótese, e não de repente chocado como quis me fazer acreditar. Eu não acho que Dalton arriscaria a vida da família porque uma desconhecida mutante caiu do céu com a promessa de que tudo ficaria bem.
Outra coisa errada que não está certa: o modo como ele disse “você vai vê-lo no final do corredor...”, como se quisesse me instigar a ir eu mesma e ainda sozinha até o tal alarme.
Se eu não conhecesse Dalton, diria que ele está arquitetando uma armadilha para mim na tal rede de pesca.
– Ok. – Digo, voltando o olhar para Dalton, colocando-me de pé e limpando as mãos na calça, mantendo a mesma pose de antes. – Eu vou até o alarme e, quando ele tocar e as celas se abrirem, vocês conduzem todo mundo para fora daqui, tudo bem? – Proponho, fingindo-me me esquecer de que todos os prisioneiros estão acorrentados dentro de suas gaiolas, quando a chave para essa empreitada está no braço de Loki.
– Eu conheço a saída. – Loki lembra automaticamente, assentindo para mim e, como uma garrafa de cachaça na cabeça em uma briga de bar, a percepção de que ele está ciente do plano de Dalton para me enganar me acerta em uma pancada judiciosa. É o mais lógico na situação, já que, se Dalton trabalha para Ellendra e Loki finge ser amigo da Loira Cretina, não vai querer criar problemas com ela atrevendo-se a me alertar correndo o risco de ser dedurado, hein?
Faço que sim com a cabeça, incapaz de não trincar os dentes para o deus quando o encaro, dizendo a ele que eu sei, que ele não vai me passar para trás. Aproximo meu corpo do dele em passos lentos e propositalmente imprecisos, erguendo a cabeça para olhá-lo melhor enquanto a distância entre meu rosto e o dele vai encurtando. Em um movimento perfeitamente executado de sincronia comigo, a cabeça do deus se abaixa em direção à minha e seu nariz primeiro roça no meu, depois acaricia suavemente minha pele quando ele fecha os olhos. Meu peito sobe sem minha permissão em uma respiração rebelde e minhas mãos buscam alívio no cabelo dele, segurando-o próximas à sua nuca, içando-me na direção daquele corpo alto e tão belo.
Eu o beijo antes que ele tenha a chance de me beijar porque não tenho sua paciência ou sua calma. E isso, de algum modo, torna o beijo mais significativo do que ele seria se não houvesse pressa. Eu sinto seus lábios finos e macios com os meus próprios, depois seu hálito na minha boca e então sua língua na minha. A sensação de contraste entre seu corpo frio e o hálito quente me arrasta para uma dormência psicológica, onde, apesar de saber que estou de pé rente ao corpo de Loki, tenho a impressão de estar derretendo sobre o corpo dele. Suas mãos de dedos longos e ágeis chegam até minha cintura e descem para o quadril, que ele molda como quem segura algo delicadamente frágil. Não sei se isso faz parte das regalias de ser um deus, mas um gosto maravilhoso de erva preenche minha boca, permitindo que eu saboreie o prazer que a hortelã me proporciona desde que eu era uma criança. Chego até a pensar que Loki é quem está mexendo com a minha cabeça para que eu sinta nele um gosto conhecido que me agrada, mas é tudo tão nítido – a brandura de seu cabelo, a firmeza doce de suas mãos, os movimentos tranquilos de sua língua, o quanto o frio de sua pele me conforta – que logo descarto tal pensamento.
Quando volta a existir o espaço entre a boca dele e a minha, nossos narizes permanecem colados e nossos olhos, fechados.
– Você vai ceder ao fogo por mim? – Pergunto com segundas, terceiras, quartas intenções. Loki sabe o que quero e sabe que preciso de uma resposta.
– De que tipo de fogo estamos falando? – Ele fala baixo de encontro aos meus lábios, depositando um leve beijo na minha mandíbula.
– Fogo da paixão. – Abro os olhos e encontro os dele já em mim. – Como o da lareira do nosso quarto. – Pisco um único olho, sorrindo sacana em seguida, fazendo referência à lareira branca bem trabalhada e apagada que há na sala onde acordei.
– Não se preocupe. – Loki acaricia minha bochecha com o polegar enquanto segura meu rosto com as mãos. Ele sorri, só que, diferente de mim e de frente para Dalton, docemente, não maroto. Ele entende que quero que literalmente coloque fogo na prisão para que as portas se abram sem dependência da localização que Dalton me deu. Continuo crendo que o sistema se faz presente de acordo com a tecnologia das grades, que são novas. E também porque, dependendo dos poderes dos mutantes que Ellendra mantém aqui, alguém certamente seria capaz de incendiar o lugar todo e alguma garantia de que isso não aconteça tem que existir. – Nós acenderemos esse fogo juntos.
Assim espero, penso sob o olhar criterioso e categórico do agente Coulson. Ele há de convir que, seja por um alarme de incêndio ou por um incêndio real, de um jeito ou de outro, todas as grades que ameaçam me prender vão se abrir.
Minhas mãos deslizam pelos braços de Loki em busca do chaveiro, que toco com facilidade enquanto ele toca os lábios nos meus em uma despedida silenciosa. Lanço a Coulson um olhar sério e impenetrável, para o que ele assente quase imperceptivelmente, o que espero que queira dizer que ele fará o que tiver que fazer para que o plano dê certo.
– Você vem comigo. – Digo a Dalton, que, confuso e culpado, me segue pelo corredor, deixando o Deus da Trapaça e o Agente da SHIELD para trás.
Sigo-o de volta até a sala da lareira, ignorando os indícios de que já estive lá antes, atenta aos movimentos do homem, que agarra a ponta do tapete e o joga para longe, revelando um alçapão que me dá vontade de me enforcar por não ter percebido antes. É uma pequena e quadrada porta de madeira no chão com uma depressão que forma uma trava para ser puxada. Não está trancado, somente escondido aos olhos por conta do pano que o cobria. Pensando bem, bastante imperceptível.
Dalton mais do que depressa – suando como um porco –, pula no escuro abaixo de si, provando que conhece bem o caminho com sua confiança ao adentrar a passagem secreta.
Minha visão periférica sinaliza uma presença que não me permite parar um segundo para pensar sobre a minha segurança.
Loki está na porta da sala, sem realmente entrar no cômodo, fitando minha figura estática próxima ao alçapão. Sinto que ele tem um milhão de coisas a me dizer, mas as únicas palavras que saem de seus lábios são “boa sorte”.
– Eu ia dizer o mesmo para você, mas... Não haverá erros nisso, certo? – Pressiono.
– Dependendo de mim? – Ele sorri um sorriso de cobra. – Eu não deixo pedra sobre pedra, Doke.
– Doke? – Sorrio sem me controlar.
– Achei que fosse assim em Midgard. – Ele responde inocentemente. – Domino Kevia Hepburn. “Do” de Domino e “Ke” de Kevia.
– Espero que tenha memorizado bem minha ficha. – Digo divertida.
– Há muito mais tempo do que você imagina, Garota Quente.
E lá está ele fazendo alusão ao nosso primeiro encontro. Se é que posso chamar assim uma situação tão turbulenta quanto ser refém de um truque mental de uma telepata descontrolada.
– Bem, isso não é muito justo. – Aponto descontraída. – Você me deve algumas informações sobre si mesmo, então.
– Você me deverá mais, no final. – Loki afirma com absoluta convicção e não me atrevo a contradizê-lo, preferindo levar a conversa com a maior naturalidade possível.
– Se você der conta do trabalho, talvez. – Digo com a mesma certeza que ele, instigando-o a se esforçar em meus objetivos, para o que o deus pisca assim como pisquei para ele minutos antes. – Se me dá licença, eu tenho um encontro com a escuridão.
Penso em dizer a ele para tomar conta de Coulson, mas eu sei que os mutantes precisam ser libertos independentemente do bem estar do agente e isso pesa em minha consciência, mas não é algo discutível; os mutantes precisam dessa fuga, assim como o próprio Phil.
Sendo assim, me jogo no buraco, pulando literalmente no desconhecido que me aguarda no subsolo.
Agora, a única coisa em minha mente é uma outra coisa importante que preciso fazer sem contar com a ajuda de Loki, já que entendi que não é algo em que ele queira tomar parte. Como sei que Dalton está me conduzindo até uma cilada, espero com todas as minhas forças que isso envolva Ellendra, porque já passa da hora de ela me dizer onde demônios foi esconder o corpo do Capitão América, que continua desaparecido e, como ela envolveu o pobre Dalton em seus esquemas, tenho fé de que esteja aqui pessoalmente para me impedir de fazer qualquer coisa que estrague seus planos na Mansão Mal Assombrada.
Tudo o que vejo assim que meus pés tocam o chão é penumbra.
Não tenho certeza se Dalton está ou não presente quando o mesmo resolve abrir o bico:
– Domino? – A voz vem de trás de mim e me causa arrepios desconfortáveis por me sentir vulnerável sem minha visão. Também é estranho ouvi-lo dizer meu nome espontaneamente depois do homem apavorado que ele pintou, mesmo notando seu tom trêmulo.
– Presente. – Soo mais confiante do que me sinto.
– Eu preciso te contar uma coisa.
Minha vista fica inquieta diante da afirmação, movendo-se freneticamente sem poder enxergar nada.
– E precisou esperar até estarmos sozinhos no escuro? – Questiono inquieta.
– Eu não confio em seus amigos.
– Não são meus amigos e também não confio neles. – Trato de esclarecer. – Confio menos ainda em você.
O ar vai ficando cada vez mais frio à medida que sinto Dalton caminhando ao meu lado até parar em algum lugar à minha frente.
– Você está em uma ilha. – Como permaneço silenciosa diante da constatação, ele continua a explicar: – Domino Hepburn, a prioridade máxima de Ellendra Silken, não pode ficar em um lugar do qual consiga escapar tão facilmente, não é?
– Como você sabe quem eu sou? – Pergunto tensa, lembrando-me do sujeito dizendo que eu deveria ser uma líder. Além dissso, nada poderia ser pior do que uma ilha, da qual eu só poderia escapar usando algum meio de transporte. Isto é, se não quisesse ter meus órgãos devorados por Moby Dick.
– Eu também estaria nervosa se estivesse no seu lugar. — Ele continua com o tom frágil e evidentemente assustado. — Você é um alto risco.
– Está me dizendo que sou Al Capone e isso aqui é Alcatraz? – Pergunto com as mãos na cintura de forma cômica, tentando miseravelmente fazer piada da minha atual situação degradante.
– É exatamente isso que estou dizendo. — Confirma em um sussurro amedrontado.
Comprimindo os olhos, penso na pergunta que não quer calar. Afinal, esse cara não estava contra mim?
– E por que está me dizendo isso?
– Acredite você ou não, eu acho que minhas chances são melhores apostando em você. Mas as paredes têm ouvidos e não posso demonstrar isso em público. E me agrada ver que está preparada para o pior. Afinal, você sabia que eu a estava levando para uma armadilha, não sabia?
Reviro os olhos. O medo se faz mais presente do que nunca, mas ainda assim, mesmo arriscando a própria pele para me ajudar, o cara insiste em me testar.
– É o que está fazendo, não é?
– Sim. Não tenho escolha. — O desespero goteja de sua voz, tornando-se cem por cento nítido e penso, cheia de culpa, na família de Dalton e em como tenho vontade de ajudá-lo. — Mas não é sobre esta ilha que quero falar.
Bufo irritada com o rumo da conversa. Se ele tem algo de útil para me dizer, que vomite tudo de uma vez, afinal. Meus nervos estão prestes a tomar o melhor de mim com tanto suspense no alçapão secreto e, aparentemente, só posso ajudá-lo se ele me ajudar primeiro.
– Sobre que ilha quer falar? Madagascar?
– A que está bem em frente a esta. – Dalton responde rápido, atropelando as palavras com pressa. – Capitão América está lá.
A coisa começa a ficar interessante.
– Como eu chego lá? – Coloco para fora a primeira coisa que me vem à cabeça.
– Você nada. – Ele confirma que é perto o suficiente para que eu assim faça. – Comece um caos e distraia a segurança. Não deve ser tão difícil, você vai pensar em alguma coisa. Vai ter tempo para observar a funcionalidade das coisas.
Respiro fundo, já sabendo que, se quero resgatar o Capitão, sou obrigada a passar mais um tempinho aqui. Isso não me garante que o herói do século sobreviva até lá, mas que outra escolha eu tenho? Certo. Nenhuma. Como Dalton diz, eu vou pensar em alguma coisa.
Por outro lado, o plano do incêndio já está em andamento, o que quer dizer que, se os mutantes escaparem, eu estarei sozinha em minha futura fuga. Ótimo.
– Para onde vamos agora?
– Há um elevador aqui embaixo, longe das celas, escondido para que ninguém pense em procurar uma saída por aqui. Vamos subir até o andar que te falei e Ellendra estará lá.
– Como é que ela não está nos ouvindo agora?
Dalton perde segundos preciosos em silêncio.
– Você vai saber algum dia.
É. Supondo que eu viva até o “algum dia”.
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