Alma de Vidro |HIATUS|
6 Capítulo 06. Para Mau Entendedor, Um Soco Vale Mais Que Mil Palavras
Notas iniciais
No movimentado entardecer da cidade de Nova York, Jane Foster e Pepper Potts fitam desconfortáveis cada uma sua xícara de chá. A cafeteria está com baixo movimento e as pessoas ao redor conversam baixo, envoltas em suas próprias bolhas particulares sem se preocupar com a perda de memória de um ente querido – ao contrário das duas mulheres silenciosamente tensas cujas bebidas permanecem intocadas.
– Eles já conversaram sobre tudo, certo? – Pergunta Jane Foster de repente, as mãos deliberadamente agarrando a xícara à sua frente de modo que a porcelana treme e o chá quase transborda.
Pepper Potts ergue seus olhos para a cientista com sua expressão tranquilizadora, apesar de não estar se sentindo remotamente calma.
– Agora... – A ruiva consulta seu relógio de pulso dourado. – Já devem ter recapitulado boa parte da história.
– Então, o que estamos fazendo aqui? – Jane rebate claramente nervosa, pegando a colher ao lado do pires e mexendo freneticamente o chá no qual nem colocou açúcar algum.
Pepper suspira e recosta o corpo na cadeira, fitando por um momento os carros circulando na avenida ao lado da cafeteria.
– Eu não sei. – Admite. – Talvez seja mais fácil estar aqui e não ter que lidar com as dificuldades da Domino do que estar lá na presença dela sabendo que ela não faz ideia de tudo que já aconteceu.
É a vez de Jane suspirar. Ela larga a colher dentro da xícara e coloca algumas mechas do cabelo atrás das orelhas, respirando fundo.
– Ela não pode ficar assim. – Diz decididamente.
– Não pode? – Pepper indaga reflexiva. – Seria tão ruim assim se ela não lembrasse nunca de tudo que perdeu? De tudo o que passou?
– E quanto ao que ela conquistou, Pepper? – Jane eleva o tom de voz, indignada com a insinuação da outra. – Ela não pode simplesmente dar as costas a tudo. Ela é... – Respira fundo outra vez, olhando em volta rapidamente, depois aproximando o rosto do centro da mesa, inclinando-se para frente e sussurrando: – Ela é uma bomba relógio. E ela precisa saber disso. Você acha que contaram isso a ela?
Pepper balança a cabeça de um lado para o outro, abrindo exageradamente os olhos por um segundo, como se o gesto a ajudasse a enxergar melhor.
– DNA alterado é instável, você tem razão. Como ela pode controlar se não se lembra de nada?
Ambas voltam a suspirar e pegam suas respectivas xícaras ao mesmo tempo, tomando um gole de modo sincronizado e as depositando sobre o pires depois.
– Stark sabia? – Questiona Jane, constrangida pela pergunta, mas incapaz de se conter. – Sobre a mãe dela?
– Não, ele não sabia sobre Jordana. – Pepper esclarece direta e quase orgulhosa, sem se importar com a pergunta. – Só soube depois que Nick Fury lhe disse.
Um indício de sorriso começa a surgir nos lábios de Jane Foster até se metamorfosear em um sorriso enorme e nostálgico.
– Ela é única, não é? Eu nunca havia ouvido falar de nada igual.
Pepper também sorri.
– É. – Concorda e volta a se ajeitar na cadeira, endireitando-se. – Ela é, sim. – Morde o lábio pensativa e fixa um olhar sombrio cheio de devaneios em Jane. – Você acha que ele pode ajudar?
– Se alguém pode ajudar, é ele. – Jane admite à contragosto.
– Não. – Diz Pepper. – Eu quero dizer você acha que ele é capaz de ajudar? Que ele realmente faria isso?
– Por ela? Eu tenho esperança.
– Esperança é a última que morre, não é isso que vocês mortais costumam dizer? – A voz vem de trás de Jane Foster e a faz pular na cadeira de susto. Ela e Pepper encaram o homem alto e bonito parado ao lado da mesa. Ele está vestindo um elegante terno preto com camisa social branca e uma gravata verde com um nó cuidadosamente feito e olha de uma para outra com uma superioridade elegante e sedutora. – Ouvi dizer que estou sendo procurado. Aqui estou. – Ele se permite um sorriso. – Vamos?
–x-
– Eu posso garantir a você que não estou morta. – Informo a Thor pela milésima vez.
Apresentações feitas, explicações dadas, café servido, já é madrugada e estamos Stark, Steve, Thor e eu na sala de estar, cada um com uma xícara em mãos, apesar de Tony ser o único realmente bebendo alguma coisa. Eu me coloquei de pé há um tempinho, logo depois de Thor ter dito que o conheci fingindo ser uma freira. Ele fez qualquer comentário sobre ter gostado da minha iniciativa determinada para ir atrás do que queria descobrir e por isso propôs o acordo de me ajudar fingindo que me conhecia em troca de minha ajuda para encontrar seu martelo.
– Então quer dizer que para fingir que éramos conhecidos, você me obrigou a te ajudar a achar essa sua marreta do Chapolin Colorado? – Perguntei incrédula, para o que Thor assentiu vigorosamente, um sorrisinho cretino brincando nos lábios. – E eu concordei com isso? Madre Teresa, como eu devia estar desesperada!
Coloquei meu chá sobre a mesinha de centro e os três fizeram o mesmo.
– E isso não é tudo. – O suposto deus prosseguiu: – Como eu disse, na última vez em que vi você, seu coração realmente parou. Nós ouvimos. Loki também ouviu o silêncio dentro do seu peito. – O olhar do loiro se perdeu em algum ponto no chão e sua aura iluminada pareceu tremeluzir por um instante, amedrontada e vulnerável. – Foi a primeira vez que o vi tão desesperado...
Loki.
É engraçado como a mera menção ao nome acelera meu batimento cardíaco e faz minha pele esquentar, o rubor subir por meu pescoço e me faz imaginar coisas aleatórias e sem sentido, como a floresta de folhas no tom amarelo vivo, a textura incrivelmente macia de cobertores e travesseiros brancos, o cheiro delicioso de ervas, a temperatura quente da minha pele contra o frio confortável de algo que eu não consigo identificar, a luz suave de velas na escuridão...
De todos os nomes que ouvi sem relacionar às pessoas a quem eles pertencem, Loki é o único que me traz visões à mente, que me conduz até um doce naufrágio de prazer onde não sei a rota, mas não preciso saber para estar envolvida no mar de maravilhas que a viagem me traz.
– Vocês continuam falando e falando sobre Loki – digo, interrompendo qualquer tagarelice que Stark está promovendo. – Mas até agora ninguém me explicou quem ele era para mim. E porque estão tão receosos em pedir ajuda a ele.
Diante dos olhares desconfortáveis dos três homens, cruzo os braços revoltada, esperando um esclarecimento.
No exato instante em que Stark abre a boca, ouvimos o barulho da porta se abrindo, depois fechando e passos vindo em direção à sala.
Pepper é a primeira a aparecer em meu campo de visão. Está andando normalmente, mas parece de alguma forma desajustada, como se o esforço para permanecer ereta fosse surreal. Seu rosto está aflito e ela mantém os olhos em Stark, como se eles quisessem gritar alguma coisa que ela não pode por em palavras. Depois vem Jane Foster, segurando nervosamente a barra da camisa xadrez e lançando olhadelas para trás vez e outra, como que para se assegurar de que há alguém atrás de si.
E de fato há.
A terceira pessoa a aparecer é um homem incrivelmente bonito. Em algum lugar da minha cabeça, sei que não é educado ficar encarando as pessoas da maneira como estou fazendo, mas não conheço um mundo no qual alguém seja capaz de não babar na presença de um sujeito assim. Quando ele adentra a sala, seus olhos verdes se fixam nos meus de modo que parece que não há mais ninguém no cômodo – no mundo.
Sinto uma vertigem inexplicável e um rolo de visões se desenrola na minha frente, dentro da minha mente, prendendo-me e sugando-me para o interior das memórias que quero alcançar. Luto para ficar de pé e sou forçada a abaixar a cabeça e piscar freneticamente na intenção de me livrar do torpor que ameaça me embalar.
– Aí está. – Diz Stark. – Um Rudolph no ponto bem na hora da entrega. Estávamos justamente falando de você, Nariz Vermelho. Como vai o maravilhoso mundo dos fora da lei?
– Está melhor agora. – Responde o sujeito que só pode ser Loki, com um sorriso significativo dirigido a mim.
Tony avança abruptamente um passo na direção de Loki, mas Steve o segura pelo braço, puxando-o para trás.
– Isso não vai ajudar. – Ele justifica, para o que Stark o encara mal humorado e puxa de volta o braço, mantendo o olhar desgostoso em Loki.
– Loki, – Thor toma a palavra com certo tom receoso, como se já soubesse de todas as mil dificuldades que envolviam pedir a ajuda do irmão. – nós precisamos de você aqui para ajudar, não para causar discórdia, irmão.
O deus aperta os olhos em falsa expressão de desentendimento e minha atenção é desoladamente voltada para o quanto o rosto dele é delicado e o quanto ficaria ainda mais lindo em uma expressão verdadeira de inocência.
– Depois de tudo o que aconteceu, você ainda duvida do meu comprometimento, filho de Odin? – Pergunta ele, sentindo-se tremendamente à vontade em um lugar onde todos claramente no mínimo não o julgam digno de qualquer confiança.
Thor suspira como se pensasse na palavra “irremediável” e reparo de repente na carranca não característica de Steve. Por alguma razão, tenho-o em mente como a pessoa mais simpática do mundo e a careta de aborrecimento que está esboçando não combina com seu jeito gentil.
Mas o que foi que Loki fez para ser tão odiado?
Stark não fica atrás. Apesar do costumeiro toque irônico em seu rosto, sua expressão não é brincalhona, tampouco boa-praça. Seu semblante está fechado como um dia de chuva e há uma vermelhidão em seu rosto típica de momentos de raiva. Pepper e Jane são as únicas que, ao invés de sentirem ódio, parecem mais deslocadas do que qualquer outra coisa, assim como Thor, que me parece imensamente frustrado.
– Disseram-me que não se lembra de muita coisa, Doke. – Loki continua, sempre dirigindo-se diretamente a mim, avançando alguns passos despreocupados e ainda assim de alguma forma bem calculados em minha direção. – É verdade? – Quanto mais ele chega perto, mais me perco no tempo e no espaço, mergulhando em uma água gelada que aos poucos congela meu corpo, mantendo-me na realidade alternativa que agora são minhas lembranças. – Faça um desejo.
Estou em uma floresta e está chovendo. Um vestido longo e branco toma forma em meu corpo e estou encharcada bem como o cenário à minha volta. Loki está lá. Os braços dele estão ao meu redor e nossos rostos estão próximos o suficiente para que eu o beije. E é exatamente o que sei que quero fazer. Ao invés disso, enquanto olho com carinho o rosto dele, coloco uma mecha de seu cabelo atrás da orelha e sorrio.
– Faça um desejo. – Sussurro contra os lábios dele antes de me afastar, segurar rapidamente a cauda do vestido e sair correndo pela terra com ele atrás de mim.
Voltar a mim é como receber um empurrão que me joga violentamente para trás.
Eu caio.
Alguém me segura e começa a falar comigo, mas não consigo distinguir palavra de palavra e formar frases certas. Só fico caída, deitada, me afogando deliciosamente na cena onde estive segundos atrás.
Era verdade? Foi há muito tempo? As coisas estão tão mudadas desde quando aquilo aconteceu? Se Loki é um cara tão detestável, como é possível que eu tivesse um vínculo tão forte com ele? Como eu já o olhei com tamanha afeição? Por que acho a reação de todos a ele exagerada? Por que não consigo entender essa reação?
Forço minhas pálpebras a se erguerem e vejo que Jane Foster foi quem me segurou antes que eu chegasse ao chão. O rosto ansioso dela e de Pepper logo entram em foco diante do meu próprio e vejo Thor na frente de Loki discutindo qualquer coisa com Stark e Steve, como que defendendo o irmão dos outros dois que pareciam querer estrangulá-lo.
– O Bambi mal chegou aqui e a pirralha já está caindo dura. – Stark ralha com Thor. – Essa foi a pior ideia que poderíamos ter tido. Eu voto no plano B.
– Não temos um plano B. – Diz Thor entediado. A essa altura, Pepper e Jane também estão antenadas no bate-boca à nossa frente.
– Então temos que traçar um plano B, porque a ajuda desse Cervo Desgarrado está fora de cogitação. – Tony insiste.
– Está se esquecendo de que foi Loki quem ajudou Domino quando ninguém mais ajudou, Homem de Metal. – Thor fala com um desdém que me diz que é capaz de jogar qualquer coisa na cara de qualquer um para manter a paz ao redor do irmão.
– Isso porque Domino é uma quadrada! – Stark se irrita, praticamente gritando a plenos pulmões, ainda sem perder totalmente o controle, porque ainda posso identificar a ironia divertida por trás de cada palavra, especialmente quando ele me dirige xingamentos light como “quadrada”. – Se ela não tivesse fugido do hospital enquanto eu estava inconsciente, não teria esbarrado na Rena.
Sento-me no chão entre as duas mulheres atônitas com a confusão e apoio os braços no joelho, fitando os três homens com interesse. Quem sabe a conversa não desperta qualquer coisa adormecida nas profundezas escuras da minha mente?
– E se ela tivesse esperado você acordar, você teria dito a ela toda a verdade? – Thor rebate, para o que Loki sorri discretamente, fitando o olhar inteligente e provocador no Homem de Ferro, desafiando-o a responder com sinceridade.
Aliás, Loki parece estar amando o tumulto que armou. Está certamente bastante satisfeito em sua postura impecável observando os outros gritarem entre si.
– Está me confundindo com Nick Fury, Polly Pocket. – Diz Stark subitamente sério.
Um breve silêncio se instala na sala enquanto Thor e Tony se encaram irritados.
– Você não respondeu à pergunta. – Diz Loki, não deixando a observação passar despercebida, assim como eu não havia deixado. Mas é isso que Loki faz, não é? Ele faz você pensar que o pensamento ruim é seu uma vez que ele o instalou em sua cabeça. Até ele fazer o comentário, eu estava pensando que a intenção de Stark em fugir da pergunta era não despejar de uma vez em cima de mim alguma revelação que fosse forte, considerando que há pouco quase desmaiei, mas, agora, não posso evitar teorizar sobre algum outro motivo não tão genuíno para que ele não tenha respondido à pergunta de Thor.
– Responda você. – Diz o Capitão, entrando com classe na discussão, falando com Loki. O deus volta os olhos para Steve com descaso, como se não fosse digno de sua figura perder tempo com tal diálogo. – Está aqui porque, no fundo, em algum lugar da sua pessoa egoísta e mimada, se importa com a Domino, ou porque tem um plano em mente e precisa dela para conclui-lo? Porque não seria a primeira vez.
– Mas ela sabia disso. – Loki se apressa em dizer. A mesma falsa expressão de inocência presente em seu rosto, mas agora com um quê de sinceridade. Ele está dizendo a verdade, mas sem jamais tolerar perder a pose de trapaceiro que lhe dá a fama de vilão. – Ela soube disso desde o momento em que nos conhecemos. E ela me usou antes que eu tivesse a chance de usá-la. – Ele sorri e faísca o olhar na minha direção, apreciando em meu rosto a forma física da pessoa que acaba de mencionar. – Domino é esperta. – Ele declara, olhando de um em um que estão presentes na sala, como se discursasse perante uma nação inteira e, por um momento, invejo sua imponência, a facilidade de articular diante dos outros. – Ela não precisa do circo que vocês estão armando em volta dela. – Seus olhos prendem-se aos do Capitão e os dois lutam uma batalha interna na troca de olhares. – Então, eu vou lhe perguntar, soldado: por que você está aqui? É para ajudá-la? Ou por que acha que tem alguma chance agora que ela não se lembra de nada?
Foi o que bastou para que Steve perdesse a paciência.
O Capitão simplesmente se lançou para frente, empurrando Thor para fora do caminho mais rápido do que qualquer um esperava e acertando em cheio o queixo de Loki com um soco.
O deus, não esperando o ataque, se desequilibrou e foi obrigado a ziguezaguear três passos para trás, parando com a cabeça baixa e uma das mãos no queixo atingido.
Ponho-me de pé na velocidade da luz e me detenho antes de caminhar em qualquer direção porque não tenho ideia de quem devo conferir. Não sei para quem eu correria se tivesse minha memória intacta. Não sei se ficaria parada, não sei se sairia da sala, não sei se xingaria todos e os mandaria para o inferno...
Apenas fico parada, espantada, chocada. Assombrada pela pessoa que um dia eu fui, a pessoa da qual sinto tanta falta.
Loki se endireita rindo, tomando gosto pelo caos, amando a situação em que nos colocou. Como se tudo não estivesse complicado o bastante desde o início.
Tenho vontade de chorar. Vontade de gritar e de arrancar meus cabelos um a um enquanto choro, mas continuo estática, perdida sem saber que atitude tomar.
Não me preocupo em prestar atenção em Thor observando atentamente o irmão à procura de maiores danos ou no olhar incrédulo e aprovador que Stark lança a Steve, nem na respiração falha e alterada do Capitão.
Respiro fundo e digo a Pepper e a Jane que está na minha hora. Digo que a vista da lua da praia deve estar bonita.
Começo a me dirigir para fora da sala, mas paro no meio do caminho sem me virar ou olhar para ninguém.
– Espero que tenha sido a primeira e última vez que vocês criam esse banzé. Caso não tenham notado, temos problemas maiores do que qualquer disputa ou inimizade entre vocês. Se quiserem me ajudar, ótimo, eu agradeço. Mas... – Balanço a cabeça comigo mesma, ponderando as palavras. – Eu não vou ser o centro de nenhuma confusão que qualquer um de vocês queira criar.
Estou no corredor da porta de saída quando ouço um único comentário no ar:
– Mas foi um belo gancho de direita, Capitão. – Diz Stark ridiculamente animado.
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