Alma de Vidro |HIATUS|
5 Capítulo 05. Retirada Estratégica
Notas iniciais
Eu não sei se estou girando ao redor de mim mesma ou se é o mundo à minha volta que gira.
Algo macio abaixo de mim dá asas ao pensamento de estar flutuando sobre algodão doce. Algodão doce branco e nada pegajoso. Um algodão doce que balança quase imperceptivelmente como um barco sobre a água calma. Ele me leva para lá e para cá enquanto permaneço deitada de olhos fechados e imaginação aberta. Estou sobrevoando um campo verde repleto de grama sem nenhuma flor. O espaço abaixo de mim é infinito e o céu acima é do mais puro e delicado azul, com nuvens tão claras e fofas quanto o algodão doce que me sustenta.
De repente, um trovão corta o céu e meu algodão doce despenca subitamente no vazio frio que é o chão.
E eu abro meus olhos.
Minhas pálpebras demoram a se manter firmes para que eu possa voltar a enxergar o mundo tangente e, quando o vejo, desejo não vê-lo.
O quarto ao meu redor é uma vastidão branca e melancólica, a cama onde estou deitada da mesma cor que meu algodão doce imaginário e o ar impregnado com o cheiro infeliz e amargurado da depressão que hospitais me causam.
Meu corpo inteiro está tão dormente que mal o sinto e as partes que consigo sentir doem. Minha cabeça está aérea e sei que estou enfrentando uma medicação violenta.
Mas só me lembro dos eventos anteriores quando focalizo o bilionário adormecido no sofá ao lado da minha cama, a cabeça jogada para trás e as mãos caídas sobre as coxas em uma posição nada estratégica ou confortável.
Stark. C4. Minha casa. A cobra. A mulher de branco. Minha mãe.
Pulo para fora da cama com a rapidez de um raio e com a delicadeza de um hipopótamo. Aterrisso no chão com louvor, espatifando-me em um baque escandaloso, sentindo uma forte pontada no lado esquerdo do abdome. Espio por debaixo da cama e constato que Stark continua dormindo imóvel – esse aí deve ter sido atropelado por um caminhão.
Minhas pernas estão tão dormentes que mal sentiram a queda, apesar de ter certeza que as dores viriam depois.
Respiro fundo e me coloco deitada de costas no chão frio, olhando o teto branco ignorando a irritação que a luz causa em meus olhos. Concentro-me em meus membros, esforçando-me para começar a senti-los, forçando-os e esticando-os, contraindo-os calmamente até que consiga movimentá-los sem maiores dificuldades.
Aí, então, apoio-me na cama para ficar de pé, olhando para meu corpo e torcendo o nariz para o típico vestidinho branco de hospital que estou usando. Mas que falta de privacidade...
Olho novamente para Stark, pesarosa por abandoná-lo e, ainda assim, determinada a fazê-lo. Vou até ele e puxo lentamente seu corpo para baixo, deitando-o no sofá de modo que sua cabeça fique apoiada em um dos braços do móvel. Uma vez que acho que ele está bem acomodado, roubo o cobertor da cama e coloco sobre seu corpo, estremecendo eu mesma com o ar gelado que circula pelo quarto.
– A gente se vê por aí. – Digo rapidamente ao Homem de Ferro antes de deixar o quarto.
No corredor, deparo-me com uma louca movimentação. Há enfermeiras e enfermeiros para todos os lados, doutores e doutoras andando apressadamente para lá e para cá, pacientes desde empurrados em macas em estado crítico até uns sendo liberados e conduzidos por cadeiras de rodas até a saída.
Olho para os lados perdida e finjo estar acompanhando o fluxo, passando meu braço no de um senhor de cabelos brancos que está caminhando feito uma tartaruga empurrando um suporte para o soro que está entrando em seu organismo pela agulha que está em seu braço presa por uma atadura.
– É, vovô, eu disse a você que aquele carrinho de golf era uma péssima ideia... – Digo ao velho quando uma enfermeira me olha desconfiada pelo canto dos olhos. Ela parece satisfeita e segue seu caminho sem parar para me barrar. – Na próxima vez, – continuo dizendo ao idoso. – Pegue leve, extremista.
O coitado me olha meio confuso, meio interessado na conversa e eu rapidamente me afasto, deixando-o lá com olhar de peixe morto enquanto me apresso para fazer a curva do fim do corredor, chegando a uma fileira de portas dos dois lados das paredes onde o fluxo está menos intenso.
Uni duni tê e...
Entro na quinta porta do lado direito, fechando-a com urgência e postando-me em frente à mesma durante alguns segundos, segurando-a de costas sentindo-me dentro de um desenho animado, como o Jerry em plena perseguição escondendo-se do Tom.
Assim que reparo na paciente deitada sobre a cama, reparo em sua perna pendurada para cima sobre três travesseiros, cuidadosamente enfaixada. Vislumbro a poltrona ao lado esquerdo da cama, onde há uma roupa de freira coberta por plástico, enfiada em um cabide cor de rosa.
É isso aí!
Cinco minutos depois, cá estou eu, saindo do quarto sorrateiramente, esgueirando-me pelo corredor, vestida como uma freira, as costas na parede branca e os olhos alarmados e atentos. Assim que um enfermeiro surge na curva do início do corredor, afasto-me da parede em um salto e começo a andar devagar, a cabeça baixa e as mãos juntas, como que orando em silêncio, sem me preocupar por ter acabado de roubar uma freira acidentada.
O enfermeiro me cumprimenta com um aceno de cabeça.
– Deus te abençoe, meu filho. – Respondo sem levantar os olhos, apertando o passo na ansiedade de me ver livre deste lugar.
Aquela mulher de branco e o rapaz-cobra estavam com certeza atrás de mim. Eu a vi matando minha mãe. O olhar de Jordana antes que ela puxasse o gatilho era louco, perturbado, como se não fosse ela mesma e, por algum motivo, eu sei que a loira vadia tem algo a ver com o motivo pelo qual minha mãe está morta. E o loiro? Se ele tentou me matar, é porque eles me querem morta. Mas não pretendo dar esse prazer aos dois. E, se Stark conhecia minha mãe e estava a caminho para salvá-la – no que ele fracassou, assim como eu –, aposto o que restou da minha vida que, assim como Jordana, ele me esconderá a verdade pelo tempo que achar conveniente. Também não pretendo dar a ele esse prazer.
Assim, vejo-me do lado de fora do hospital, respirando fundo aliviada e tensa ao mesmo tempo.
E agora?
Caminho discretamente pelos veículos quando alcanço o estacionamento, perguntando-me para onde ir em seguida.
– Estar dentro de um evento desses... É por isso que a SHIELD existe... – Ouço o comentário que vem de um senhor que está contornando uma van para entrar no banco do carona. Ele parece um tanto transtornado ao falar consigo mesmo enquanto balança a cabeça e fecha do veículo.
SHIELD. Lá está a filha da mãe outra vez.
SHIELD. SHIELD, SHIELD, SHIELD, SHIELD, SHIELD...
Descobrir o que é SHIELD está na minha Lista De Coisas A Fazer. A mulher de branco mencionou esse nome para minha mãe na cozinha da minha casa. Deve significar alguma coisa.
Disparo em direção à van e ela de repente começa a se mover, andando para trás. E atropelando um sujeito loiro grandalhão que tomba feito um saco de batatas.
– Ai. – Resmungo com uma careta, observando o senhor e duas mulheres descendo da van.
Espere aí. Se o brutamonte é importante para os outros três e eu preciso me aproximar do senhor descobrir o que é SHIELD e o senhor é um dos três,...
Corro até o loiro e ajoelho-me ao lado dele, erguendo as mãos para o céu enquanto os donos da van se aproximam.
– Oh, Deus Todo Poderoso, o que foi que eu fiz para despertar a Sua ira? – Grito atormentada. – Por que dificultas tanto o meu trabalho divino na Terra? O que é essa maré de azar? A Sétima Praga do Egito? – Elevo a voz a um berro manhoso: – Por quê?!
A mulher de cabelo castanho claro magricela dá dois passos hesitantes na minha direção, como se tivesse medo de ser algum tipo de vítima da minha loucura.
– Com licença. – Diz incerta. – Você o conhece?
Ergo a cabeça para ela, encarando-a com descaso.
– Se o conheço? Se o conheço? – Repito exaltada. – Esse senhor é o infortúnio, a desventura em pessoa! Para não dizer nada pior, sabe. Fui encarregada pelo Magistério a ficar incumbida de tomar conta deste indivíduo trôpego porque ele está em recuperação.
A essa altura, os três desconhecidos já estão me lançando olhares furtivos de descrença e medo, assustados com minha performance pouco convencional.
– Re-recuperação? – Gagueja a mulher diante de mim.
– É, é sim. – Minto descaradamente, tendo em mente que situações desesperadas pedem medidas desesperadas. – Periclitante a situação deste cidadão. Mas todos somos filhos de Deus e todos temos direito à redenção. – Pigarreio. – Remissão. Remissão dos pecados, foi o que eu disse.
– Que tipo de pecados ele cometeu? – Pergunta a outra mulher, a de cabelo escuro ondulado que está usando touca.
– Substâncias ilícitas. Latrocínio. Nudez Pública. E no inverno! Devem imaginar o quanto foi desconfortável.
– Oh, imagino. – Responde maliciosamente a moça de touca, mordendo o lábio inferior e balançando o corpo para frente e para trás.
– De qualquer modo, devo acompanhá-lo na jornada pela purificação. – Digo de modo solene, fazendo em seguida o sinal da cruz e olhando para o céu. Os três, confusos, seguem meu olhar e ficamos fitando as nuvens por alguns segundos.
– Você não é um pouco jovem para ser freira, querida? – Pergunta o senhor, intrigado.
– Nunca se é jovem demais para fazer o serviço do Senhor, meu bom homem. – Respondo com um sorriso. – E, além disso, ficar encarregada deste ser errôneo aqui foi um presente de formatura, pro assim dizer. Uma espécie de prova final. Minha primeira boa ação para poder me juntar ao Clero.
Não faço ideia do que estou dizendo porque nunca entendi muito de hierarquias de igreja, mas, logo vejo que, pela expressão completamente perdida no rosto dos três, eles tampouco – pelo que agradeço imensamente.
– E o que esse “ser errôneo” estava fazendo ontem à noite perdido no deserto? – Indaga o senhor.
Mas que droga. Como é que vou saber o que o maluco estava aprontando ontem à noite perdido no deserto?
– Eu lhe disse. – Improviso com expressão sofrida. – Ele é um caso em andamento. A recuperação nem sempre é imediata, meu senhor. E recaídas podem ocorrer. Muito provavelmente, ele cedeu mais uma vez às substâncias ilícitas... – Suspiro pesarosa, voltando o olhar para o sujeito desmaiado. Pobre coitado. – Não se preocupe, Ovelha de Deus. Daremos um jeito em você. O Senhor tudo pode. Ele é a luz na escuridão.
Ouço um fungo e de repente vejo lágrimas cintilando no rosto da moça de touca, as quais ela se apressa em secar, fungando mais uma vez.
– A fé é uma coisa linda. – Ela se explica.
– Meu nome é Jane Foster. – A moça magricela se apresenta com um sorriso amarelo e aponta para o senhor. – Este é Erik Selvig e aquela é Darcy. Somos cientistas e estamos estudando um evento muito importante no qual... Seu amigo disse que o nome dele é Thor.
– E este é mesmo o nome dele. – Confirmo, torcendo para que o sujeito tenha mesmo dado o nome certo. – Ou, pelo menos o nome que ele nos deu lá na igreja. – Faço o sinal da cruz novamente.
– Bom, eu estava me perguntando se... – Jane Foster respira fundo, agora, passado o susto da minha história de freira, claramente ansiosa. – Se podem vir conosco até nossas instalações para que possamos nos aprofundar em nossa pesquisa. O testemunho de Thor seria realmente importante.
– Bom... – Finjo pensar, já que definitivamente aceitarei a proposta para me mandar desse hospital rapidinho, sumir da vista de Stark e tentar fugir da vista de qualquer um que queira me matar e descobrir que raio é essa SHIELD. – Em protocolos tradicionais, eu não teria permissão para esse tipo de procedimento, mas... Já que vocês tiveram um encontro inesperado com Thor na noite passada e parecem tê-lo ajudado trazendo-o para cá... – Jane confirma minha dedução com acenos frenéticos de cabeça. – Acho que não tem problema.
– Isso! – Ela grita e dá um pulinho.
Darcy permanece com sua postura vaga que eu imagino ser típica dela e Erik Selvig me encara desconfiado e tenho a impressão de que ele, apesar de suspeitar de minha verdadeira identidade, está tão curioso a meu respeito quanto eu a respeito do que ele sabe.
Thor não acorda durante o caminho e fico feliz por isso. Planejo e planejo em minha cabeça a cena na qual explicarei a ele sobre o motivo pelo qual estou fingindo ser sua guarda costas religiosa, mas nenhum script parece bom o bastante. Não posso contar a ele sobre a morte da minha mãe, nem que conheci Tony Stark, muito menos sobre o rapaz que se transforma em cobra. No mínimo, ele pensará que sou lunática e me desmascarará diante de todos, acabando com todas as minhas chances de investigar a SHIELD.
Então, após nossa chegada às instalações de Jane Foster, Erik Selvig e Darcy, nós quatro carregamos o armário que se chama Thor até uma cama em um quarto ensolarado e satisfatoriamente arejado.
Foram poucos minutos até ele começar a abris os olhos.
Fico nervosa de imediato, não pelo fato de que ele pode, em um piscar de olhos, estragar meu plano, mas sim por estar envolvendo-o descaradamente na minha teia de mentiras na intenção de beneficiar a mim mesma.
Thor logo se coloca sentado na cama e fixa seus grandes olhos azuis em mim. São de início olhos confusos e até magoados, mas logo se tornam irritadiços.
– Onde eu estou? – Pergunta mal humorado.
Lá vamos nós.
– Chama-se Planeta Terra. Novo México, para ser específica. Mas nem fica no México. Fica nos Estados Unidos. Arriba.
Ele me olha minuciosamente, reparando em cada detalhe que consegue absorver, depois me rodeia como se eu fosse parte de alguma exposição, o que me deixa irritada também. Mas ainda estou usando-o para propósitos maiores, então, procuro me controlar.
– Terra? Estou em Midgard?
– Mi quem? – Repito incrédula. – Olhe, Thor: de acordo com a história que ouvi, você caiu do céu ontem à noite diretamente na direção de Jane Foster e seus amigos. Eles te levaram ao hospital e você estava saindo foragido pelo estacionamento quando eles te encontraram novamente. Eu entro na história também saindo foragida do hospital. Juntei-me a vocês porque acredito que Erik Selvig pode me ajudar a entender algo sobre a minha família. Mas, para me juntar a vocês, eu tive que dizer que nós nos conhecemos. Mas não nos conhecemos. Mas preciso da sua ajuda.
A irritabilidade de Thor é lentamente substituída por curiosidade e interesse ao longo da minha narração e ele se coloca de pé, surpreendendo-me com sua estatura, agora que reparo no quanto ele é alto e – ainda com aquele vestidinho branco típico de hospital –, de alguma forma imponente.
– Então... Estamos todos juntos por um propósito. – Ele divaga lentamente, tentando juntar as peças do quebra cabeça que foi minha explicação.
– Exatamente. – Reforço. – Jane Foster acredita que você pode ajudá-la a entender qualquer coisa sobre um fenômeno que ela está estudando, porque a mulher é uma cientista e insiste que você pode ter vindo de outra dimensão.
Falo cada palavra como se fosse completa loucura, mas, depois de saber que um ser humano pode tomar a forma de uma serpente gigantesca, minha mente se tornou bem mais aberta do que um dia já fora em relação a fantasias. Talvez, só talvez...
Não. Jane Foster está exagerando em sua busca implacável pela pesquisa da vida dela. Afinal, eu ainda não acredito em outras dimensões. Acredito?
– E o que você acha? – Thor me pergunta de repente, pegando-me desprevenida.
Olhando-o nos olhos, sinto a repentina necessidade de ser pelo menos meio sincera com alguém. Mentir é cansativo. E sufocante.
Então, respiro fundo e, sob o olhar atento de Thor, elaboro a resposta mais sincera que consigo:
– Eu acho que ela acredita cegamente que você pode ajudá-la. E acho que você pode me ajudar.
– Se eu ajudar você, você me ajudaria?
Meus olhos desconfiados vagam pela expressão ansiosamente divertida no rosto de Thor e penso que devo me informar bem mais a respeito dele antes de fazermos qualquer acordo.
– Eu ajudaria. – Digo, mesmo assim. Não tenho tempo para a pesquisa.
– Há algo de que eu preciso. Que acredito que foi banido junto comigo. – Ele continua.
– Banido? Você foi banido? – Sorrio. – De onde?
– Asgard. Meu pai, Odin, me baniu depois da batalha que lutei em Jotunheim. Ele deve ter mandado Mjolnir também. Tem que ter mandado...
A excitação vai crescendo e crescendo na voz de Thor e seu rosto vai ficando cada vez mais iluminado com os pensamentos malucos que deve estar formulando em sua cabecinha desajustada. E eu cada vez mais começo a pensar que estava fortuitamente certa sobre as substâncias ilícitas.
– Asgard... – Repito, anotando mentalmente o nome em meu cérebro para que possa averiguar tal nome depois. De todas as pessoas que eu poderia fingir conhecer, me apareceu justo um louco de nove metros de altura que acredita que veio de outro mundo e que quer minha ajuda para achar qualquer coisa imaginária que é com certeza “inachável”. – Fechado.
– Então, você me ajudará na minha busca por Mjolnir? – Pergunta o loiro, todo animado. – Temos um acordo?
– Temos um acordo. – Respondo contrariada, tentando mostrar pelo menos metade da animação de Thor. – Contanto que você finja que me conhece para que eu resolva assuntos pessoais com a ajuda de Selvig.
– Temos um acordo. – Thor assente com um sorriso radiante e, por um momento, ele me lembra uma criança prestes a pintar o set, por assim dizer.
– Eu ainda não sei seu nome, minha dama. – Ressalta em um tom educado e formal, porém, descontraído, como se ele se sentisse confortavelmente à vontade perguntando por aí para inúmeras donzelas seus nomes.
– Domino Hepburn, meu senhor. – Digo de brincadeira. Não que Thor tenha percebido. Ele se ajoelha e segura delicadamente uma de minhas mão, beijando-a em seguida.
– Estou encantado.
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