Alma de Dragão
11 X - Segredos travessos
Olhares aflitos, temerosos e preocupados, misturados com relances de curiosidade em descobrir quem ou o que havia feito aquilo. Eram assim que todos os estudantes do Instituto Novo Amanhecer se encontravam no Salão das Chamas do Prédio do Conselho. Murmúrios sobre boatos, lendas e mitos de alguém do passado que se rebelara e dera início aos então conhecidos como “Renegados”, se misturavam com zumbidos de vozes amedrontadas entre aqueles menos confiantes de suas habilidades.
Ninguém surgia para dar uma explicação plausível ao que acontecera. Os Septos Auxiliares vestidos em seus sobretudos negros, se mantinham eretos com fendas da máscara marfim atentas aos novatos e formandos. Todos aguardavam a volta dos Moustres.
— Onde eles estão? Será que não entendem que podemos adoecer se ficarmos muito tempo com estas roupas molhadas? – Perguntou Emily, em pé próxima da porta do salão, a qualquer pessoa a sua volta que pudesse responder.
— Imagino que reunidos na Sala dos Moustres. – Respondeu Nathan, para a garota que atraía seu olhar, recebendo como agradecimento apenas uma revirada de olhos. – Devem estar discutindo se entregarão os Doze a sabe-se lá quem fez aquilo.
— O primeiro rebelado... – Disse Taylor ríspido, quase como um sussurro, recostado na parede.
— Então você também ouviu o Moustre Heyg dizer? – Perguntou Nathan, não se importando com a revolta de Taylor contra seu pai, pois nem ele se importava. – Quem fora o primeiro rebelado?
— É claro que ouvi, estava bem ao seu lado. – Respondeu. – Por que não pergunta a seu pai? Ah é, me esqueci, ele está ocupado usurpando o lugar do meu.
— Acho que temos problemas muito maiores do que o que houve no passado. Até por que, não fui eu quem tomou o posto de seu pai e tão pouco me importo se irá tomá-lo de volta. Me importo tanto com meu pai, quanto ele parece se importar comigo.
— Palavras de Sidrake, o Esquecido por seu pai. Agora sabemos de onde veio tal título. – Ironizou Taylor. – Não me venha com dramas. Pode não ter sido o usurpador, mas tem o mesmo sangue que ele, o que o torna um verme miserável como seu pai.
— Você não sabe o que fala. Por mim eu jamais teria tal sangue. Sou mais filho da minha mãe do que desse homem que todos admiram e que eu não conheço.
— Quem sabe ela seja tão verme quanto ele... – O garoto loiro desejava iniciar sua vingança pelo filho do homem que odiava e parecia ter conseguido.
— Agora você passou dos limites. – Disse Nathan partindo pra cima dele, o empurrando, e foi segurado por Monkey o pedindo para se acalmar. – Retire o que disse sobre minha mãe ou o farei cuspir sangue como desculpas.
Taylor deu um sorriso torto e malévolo.
— Você apanhou em seu primeiro dia aqui, quer que sua vergonha se repita?
— Deixa isso pra lá, Nate. Não é lugar e nem hora. – Dizia Monkey, tentando evitar alvoroço, chamando Kath para apoiá-lo.
— Largue ele, órfão. Deixe que venha, darei uma surra maior que a dos ArtDaves.
— Agora tu mexeu comigo também, loirinho. – Monkey odiava ser chamado de órfão.
— Algum problema, senhores? – Perguntou um Septo Auxiliar surgindo ao lado deles bem quando Kath se preparava para impedi-los.
Os garotos não tiveram a chance de responder, nem o Auxiliar de os parar pois os Moustres subiam as escadas da bancada e se assentavam em suas cadeiras de poltronas escarlates. Madhayra gesticulou para que todos fizessem o mesmo e se calassem, seus rostos estavam tensos, mesmo que tentassem não transparecer.
Expressavam o mesmo cenho preocupado, porém firme, enquanto estiveram na Torre dos Doze frente a Myrael, Mykael e Andryw. Depois que o sacerdote da serpente se retirara para evocar o primeiro e segundo batalhão, eles ainda esperavam mais respostas da pequena sábia.
— Acho que buscam mais de você, Myrael. – Disse Andryw, entrelaçando os dedos com os cotovelos recostados nos braços do trono.
— Não há necessidade em falar sobre os herdeiros, eles mesmos se revelarão nos próximos dias, meses, anos ou décadas. Quando se revelarem deveremos agir rápidos, antes que Qmwy os destrua.
— Por que ele os destruiria? – Questionou Tabbys, especulando em seguida com sua voz rouca em tom ríspido. – Não seria mais vantajoso a ele os converter ao seu lado?
— Ele não os quer do seu lado. – Respondeu Mykael. – Ele nem se quer os deixaria nascer se soubesse onde e de quem nasceriam. Seu ódio está além de suas compreensões.
— E você o compreende? – Rebateu Tabbys, retirando os óculos redondos e limpando as lentes com seu lenço verde-esmeralda.
— Bem mais do que imagina, Moustre... – Mykael esperou a resposta de seu nome, mas foi Myrael quem respondera por Tabbys.
— É este seu nome, certo?
— Sim, pequena sábia. Vejo que és muito informada sobre tudo que acontece nos termos do Instituto. Enquanto que nós nem se quer sabíamos que vocês existiam. Fomos enganados por anos.... Isso me parece meio injusto. – Ele ergueu os óculos, para olhar se as lentes estavam bem limpas e em seguida os arrumou em seu rosto carrancudo. — Como você disse, não há mais nada encoberto, então por que nãos nos revelam o que já imagino que Qmwy saiba?
— Se os revelar a vocês, coloco a vida de todos aqui em perigo, o mesmo acontece se contarem a mais alguém.
— Imagino que já estamos em perigo, pois como você mesmo disse, Qmwy está vindo em busca dos herdeiros. – Expôs Heyg. – E creio que não é somente vocês três que ele quer, o que me leva a pensar que os outros nove estão no Instituto.
— Concordo com você, Heyg. – Disse Tabbys. – Em minha humilde opinião, deve nos contar quem são os herdeiros que estão aqui, pois acredito que nem mesmo eles saibam que são receptáculos de um grande ser.
— O que Tabbys disse faz sentido... – concordou Milie. – Myrael...
— Senhora Myrael, Moustre. Tenha mais respeito. – Exclamou um ancião ao lado da pequena garota, o que houvera sido o porta-voz do Grande Ser Águia antes que Myrael pudesse tomar seu lugar de direito.
— Perdão... – respondeu Milie, receosa. – Como eu dizia, a Senhora Myrael disse que é necessário que protejamos os herdeiros de Qmwy, pois ele os deseja destruir antes que tomem consciência de seus dons. Ou seja, os herdeiros ainda não sabem sobre esses... O que seriam os dons?
— Muito bem, sei que o que farei a partir de agora é um erro, mas se assim desejam eu irei revelar o que querem saber. Sim, Moustres, alguns dos herdeiros estão no Instituto, porém nada mais direi sobre eles, pois ainda não tomaram consciência de quem são ou foram. Iremos esperar que as memorias do Grande Ser fale com eles.
— Myrael... – chamou Mykael, ao lado da pequena criança. – Posso?
— Sim, por favor. – Respondeu com um sorriso aliviado.
Myrael não queria de forma alguma revelar nada sobre os herdeiros, ela sabia muito bem no que isso ia dar. Porém se não contasse, também tinha consequências e ela não queria sentir o peso da responsabilidade de ter revelado tudo, pois via que no futuro alguém lhe apontaria o dedo a culpando. Mesmo sendo uma herdeira, era uma criança.
— Como podem ver, Myrael sabe muito mais que todos nesta sala, mesmo tendo somente nove anos. Este é seu dom. – Mykael se arrumou em uma postura mais firme e rígida em seu trono. – Não só nascemos com as almas, como também herdamos dons peculiares dos Grandes Seres. Myrael possui o Swpremos Vizeon, o dom de Grywphon que permite ver a tudo e todos em qualquer espaço e tempo.
— Isso é incrivelmente maravilhoso e vantajoso. – Comentou Yzzys.
— Bem verdade, significa que ela sabe onde Qmwy está, sendo assim só precisamos atacá-lo e eliminá-lo. – Concluiu Heyg.
— Não é assim que funciona. – Discordou Andryw. – Também disse a mesma coisa, a questão é que ela não pode enxergá-lo a.... O que? Um ano?
— Quatro... – respondeu Mykael, com decepção. – Além disso, mesmo sendo dons extraordinários, eles possuem limitações. Ela pode ver qualquer coisa no passado, pois é inalterado, mas no presente e futuro, seu dom fica limitado as decisões que o indivíduo toma. Por isso ela sabe seus nomes e sabiam que vinham aqui no momento que decidiram e veria se decidissem mudar de ideia no momento que cogitassem isto. Andryw por sua vez possui o dom de Bharldwn, o Phorse Ympetus que lhe garante uma força física descomunal, mas que perde para o dom que herdei de Arwen, Vox Awtorytae. – ele sorriu para Andryw. – Não é?
— Acho que já foi revelado demais. – Respondeu Andryw, frustrado.
— Concordo plenamente, Andryw. – Correspondeu Myrael, balançando a cabeça. – Os formandos e novatos precisam de uma explicação de vocês, precisam ir agora. E não se preocupe, Tabbys e Heyg, iremos responder as demais perguntas em um outro momento. Por agora, vocês devem ir.
***
Monkey, Kath e Nathan caminhavam no bosque em que Bounce estava, pensativos nas palavras dos Moustres de semanas atrás. Nathan com as mãos nos bolsos, olhar caído e frustrado chutava os pedregulhos que via, e o vento quando não tinha o que chutar. Monkey observava os céus da tarde com as brisas que traziam o crepúsculo, as mãos por trás da cabeça em desleixo e um sorriso simples nos lábios. Nenhum dizia uma palavra enquanto iam até o enfeite de abrigo que Monkey fizera ao cavalo marrom de crinas peroladas. Se os garotos não falavam, quem dirá Kath, que olhava de canto de olho para Nathan ao seu lado, e sempre desviava quando ele ameaçava virar os olhos em sua direção. Isto até mesmo a ruborizava.
— Acreditaram mesmo nas palavras de Madhayra? – Perguntou Nathan, olhando para os outros como um cão confuso. Monkey deu de ombros. Kath só pensou em responder, então Nathan voltando a chutar as pedrinhas, continuou. – Eu não fiquei convencido de que tudo está sob controle só por que os batalhões estarão a postos em Barsest. Quem dirá com o fato de que as aulas seriam ministradas normalmente.
— Aposto que não sairemos de dentro das salas até os batalhões saírem da capital. – Comentou Monkey, pegando uma folha verde que caía bem a sua frente.
— Temos que entender que estão pensando em nossa segurança. – Concluiu Kath, indo até Bounce para acariciar sua crina. – Não saímos para treinar no campo, mas também não tivemos aulas que exigissem isto.
— Mas e se ele conseguir invadir os termos do Instituto? – Instigou Nathan. – Não temos condições de enfrentar alguém com tamanho poder. Eu não sei se lembram, mas um rosto apareceu nos céus! – Ele levantou as mãos ao lado de sua cabeça. – Se conseguiu fazer aquilo, estando sabe-se lá onde, imaginem o que pode fazer se quebrar o perímetro e entrar. Além do mais, duvido que venha sozinho.
— Com certeza não virá sozinho. — Monkey respondeu sentando no chão e recostando-se nas raízes de uma árvore. – Estará com todos os seus Renegados, e serão muitos se ele libertar os de Endlesfyn.
— Não era para ele estar preso lá? – Retrucou Nathan.
— Meu tio me contou que não chegou a passar um mês. Até onde sei, Endlesfyn fora construída para os seres místicos de Woodland Blank caso um dia retornassem e fossemos capazes de fazer prisioneiros, mas foi o primeiro rebelado quem a inaugurou, junto com aqueles que seguiam seus ideais.
— Moustre Madhayra disse que é uma fortaleza.... Se fora capaz de fugir, não duvido que possa invadir.
— Mas por que agora? – Perguntou Kath, entrando na discussão. – O que ele busca? Ele estava sumido por quase uma década e resolve voltar do nada querendo os Doze sacerdotes, por que?
— Vai ver ele quer a benção dos Grandes Seres para fazer o mal. – Ironizou Monkey, sorrindo.
— Minha avó dizia que os Doze não passam de fachada, velhos loucos que se dizem porta-vozes dos Grandes Seres para poder controlar os Mox em suas decisões. Não são e nunca foram Septos, mas se dizem sábios e escolhidos, e quando estão à beira da morte escolhem outro ainda mais louco para assumir seus lugares.
— Sua avó me parece bem revoltada com eles... – comentou Nathan, rindo, enquanto acariciava Bounce, sussurrando para o animal sobre entender sua saudade de casa. – Eu, como simplório, sabia pouco da existência dos Doze, minha única certeza é que eram conselheiros e sacerdotes.
Monkey fez um sinal para que se calassem e ouvissem atentos. Algum som entre as árvores lhe chamou atenção. Nathan e Kath não deram importância, imaginando que ele estava brincando, mas ele fez ‘shhh’ novamente, dessa vez mais sério. O crepúsculo já se formava, a luz do sol já estava baixa no Oeste deixando o bosque mais escuro que quando chegaram. Eles esperaram, atentos e escondidos atrás das enormes raízes de uma Silveira, por qualquer coisa que viesse aparecer. Chiados de folhagens e som de galhos balançando ficavam mais altos e nítidos, agora para Nathan e Kath, que antes não ouviam nada. Vultos rápidos cortam os escuros das sombras e passam bem acima deles, um pouco mais à frente de onde observavam — eram os ArtDaves. Saltando de galho em galho entre as árvores, mal usando as mãos, eles estavam tão focados em chegar até a fenda que não viram que estavam sendo observados.
— Para onde vão? – Sussurrou Kath.
— Não sei, mas irei descobrir. – Respondeu Nathan, levantando-se e correndo logo atrás dos irmãos, tentando não ser notado.
Kath rebateu receosa com um ‘O que? Não faça isso!’ E relutou em segui-lo, mas Monkey insistiu em chamá-la já bem atrás de Nathan. Em cima, feito macacos fugindo de predadores famintos, pulavam os irmãos. Bem abaixo, como os predadores, estavam os três com os olhos atentos para cima, tão atentos que não viram Taylor bem mais à frente e Nathan acabou se esbarrando nele, com Monkey tropeçando em seus corpos e caindo bolando mais à frente.
— Era só o que me faltava... – exclamou Taylor, mas Nathan pôs a mão em sua boca.
— Fale mais baixo ou seremos descobertos. – Alertou ele, num sussurro.
— Descobertos por quem, idiota?! – Respondeu Taylor, jogando Nathan de cima dele.
— Nathan! – Chamou Monkey, se levantando e apontando os ArtDaves que se distanciavam.
Foi quando Kath os alcançou, mas logo voltara a correr. O garoto esguio nem se deu ao trabalho de responder Taylor, só partiu atrás de Monkey sendo seguido pela menina que não tirava os olhos dele. Sem entender o que estava acontecendo, mas enraivecido por Nathan, o menino loiro os seguiu.
Em sua tarde de treinamento no bosque, ele com certeza não esperava ser surpreendido por uma trombada com seu rival, menos ainda que haveria alguém lhe observando nos galhos folhados de uma Miska. Emily, desde que soube dos treinamentos de fim de tarde do caçula dos Randall, passou a assisti-los escondida a uma distância segura, admirando-o com seus olhos azuis.
Do alto, ela viu tudo que acontecera e não relutou em seguir o garoto loiro. O circo estava formado. Os ArtDaves não se deram conta dos seguidores que vinham pelo solo, ou daquela que também saltava nos galhos. Eles seguiam, em segredo, ou assim acreditavam, para a parte da fenda que se ligava a muralha do Instituto. Tinham descoberto ali um segredo travesso – uma forma de sair do Instituto sem interferir no perímetro de ilusão e defesa.
— Tem certeza disso, Ray? – Perguntou Tobey, temeroso, quando pararam nos galhos das árvores a borda da fenda. – Depois do que houve hoje, não acho que seja uma boa ideia irmos ao centro da cidade.
— Deixe de frescura, Tob! Hoje é o Festival da Luz, não podemos deixar de participar. Pense nas delicias que iremos comer, nos lábios que iremos beijar e no que poderemos comprar. Agora, pare desfolhar o galho com suas penas bambas e vamos para a diversão! – Encorajou Ray, pulando do alto em um salto mortal e caindo firme no chão.
— Eles vão para a cidade, foi isso mesmo que ouvi? – Perguntou Nathan.
— Está pensando o mesmo que eu, Nate? – Monkey perguntou com um sorriso maléfico e Nathan logo entendeu que pensara em vingar-se dos ArtDaves.
— Não acho que seja uma boa ideia. – Comentou Kath, olhando nos olhos de Nathan. – Devemos voltar e contar aos Moustres sobre essa falha no perímetro.
— Podemos fazer isso depois que voltarmos. – Rebateu Nathan. – Pode ficar Kath, não precisa se sujar conosco. Mas e você, vem também ou tem medo da reprovação do seu pai? – perguntou a Taylor, na árvore ao lado.
O pequeno Randall, nem se deu ao trabalho de responder o Sidrake. Expirou forte e seguiu os ArtDaves assim que eles pularam na fenda. Nathan sorriu para Monkey e pulou as grossas raízes em que se escondiam, com ele bem atrás, mas Kath se manteve pensativa nos pós e contras de os segui-los e só tomou a decisão quando viu Emily pousar de uma salto da árvore em que estava, bem à sua frente.
A beira da fenda, encostada a muralha, os ArtDaves desceram um barranco que seguia por debaixo das bases da enorme defesa do Instituto. Do lado direito deles, uma alta parede de terra úmida, e a esquerda o abismo da fenda. O caminho que percorriam tinha possibilidades altíssimas de que um passo em falso os levaria a queda que com certeza seria fatal.
Bem atrás deles, sendo capaz de ser extremamente silencioso, estava Taylor. O menino caminhava sem preocupações, com uma maestria, como se estivesse em um caminho incrivelmente largo. Nathan, com dificuldades e evitando olhar para baixo, o seguia. Mais atrás estava Monkey, rindo para o perigo, vivendo tudo aquilo como uma brincadeira. As meninas vinham em passos lerdos e temerosos.
Eles nada diziam, as palavras poderiam causar eco em toda a fenda e alertar os ArtDaves.
A escuridão debaixo da muralha deixava a situação ainda mais mortal, mal podiam enxergar a si mesmos. Continuavam a caminhar com as mãos tocando a parede úmida e enlameada as suas direitas. A situação para os novatos parecia não ter fim, porém os irmãos já estavam acostumados aquele, como chamavam, atalho da liberdade.
Eles rapidamente atravessaram e saíram por uma brecha no chão do espaço exato de seus corpos, sujando seus uniformes. Do lado de fora do Instituto, onde estavam, havia um pequeno bosque.
Já era início de noite.
Os irmãos se esconderam entre as árvores e trocaram os uniformes sujos por roupas limpas que trouxeram em bolsas de couro que carregavam em suas costas, e foram rumo ao centro de Barsest atravessando a Estrada Uniões, que se iniciava ao norte da Província Leste, na cidade de Minor e ia até a cidade de Bothar, na Província Oeste, cortando pela Província Sul. Era a única rota para Bothar, já que a ferrovia terminava na capital Aryds.
Fogos estouraram nos céus de Barsest quando as crianças saíram pela brecha. Até parecia que era uma comemoração por terem sobrevivido. Estavam extremamente sujos, com exceção de Taylor, que tinha traços de lamas no punho da manga de sua mão direita e nas bordas da calça.
— Pelos Grandes Seres! – Expressou Emilly quando viu seu estado. – Se soubesse que ficaria desse jeito, jamais teria vindo.
Ela estava furiosa, mas Nathan abriu um largo sorriso por vê-la. Kath por outro lado, tentou não transparecer seu pequeno ciúme e inveja – queria que Nate a olhasse da mesma forma.
— Emily? De onde você surgiu? – Perguntou Monkey. – Não lembro de tê-la visto antes...
— Eu os vi e decidi segui-los. Imaginei que estavam aprontando algo. – Respondeu depois de uma longa pausa.
— Precisamos ir ou vamos perdê-los. – atentou Taylor para o real objetivo de estarem ali.
Nathan concordou, e todos voltaram a correr.
A capital do Sul estava cheia das pessoas de todos os tipos com um único objetivo em comum, aproveitar o Festival da Luz. Décadas antes ele fora comemorado em cada capital, mas o calor do sul e sua variedade de alimentos e sabores acabava por chamar muito mais a atenção dos habitantes da Ilha Extensa, que passavam a enfrentar dias na Estrada Uniões para poder aproveitar em demasiado os dois dias de festa.
A cidade não parava — nem os comerciantes fechavam suas portas, nem os clientes pareciam querer dormir. E eram também os dias em que ela mais ficava iluminada, justamente por ser o Festival do Grande Ser da Luz. Fogos estouravam nos céus durante toda a noite e madrugada, amontoados de pessoas se debatiam no Mercado Popular Sulista. A rua principal se enchia de barracas com especiarias e produtos das outras províncias. Aqueles mais cansados sentavam e deitavam em panos estendidos sobre o chão perto da Velha Árvore Ribeira.
Usando o braken os irmãos logo chegaram ao festival saindo por uma viela escura para não serem notados. As crianças, sujas, chegaram bem em seguida e subiram para o telhado das lojas.
— Lá estão eles. – Disse Nathan. – O que faremos?
— Travessuras. – Respondeu Monkey com um sorriso malicioso, puxando seu pergaminho da água do envolto em suas costas. — Começando com isso...
Invocando água, Monkey fez surgir uma pequena poça no caminho dos ArtDaves. Os garotos ficaram confusos, já que não havia chovido naquele dia, e com raiva por ter sujado seus sapatos. Nathan fez uma brisa forte o suficiente para jogar longe o chapéu que Tobey havia comprado.
— Vocês não irão participar? – Perguntou Monkey.
— Não estou nem um pouco afim... – Respondeu Emily.
— Acho que deveríamos voltar. – Sugeriu Kath.
— Concordo. – Disse Taylor. – Nem sei por que segui vocês...
— Qual é, Kath? – Rebateu Monkey. – Ajuda a gente. Invoque uns cascalhos e prometo que iremos embora em seguida.
— É, só mais essa invocação e vamos embora. – Completou Nathan.
Kath concordou em ajuda-los depois que Nathan pediu. Com a sugestão de Taylor, eles foram para o telhado da loja mais a frente já que os irmãos haviam saído de vista.
— Olhem, são os Doze lá no palanque. – Comentou Emily.
— Na verdade, só tem nove. – Disse Taylor, com os braços cruzados.
— Interessante, falamos sobre eles e a raiva da avó de Kath, mais cedo. – ironizou Monkey com um sorriso. – Rápido, os pedregulhos.
Kath concordou, relutante. Pôs a espada que nunca largava ao seu lado e abriu o pergaminho no chão, dizendo as palavras chancelas a areia do telhado foi se agrupando e se unindo ao lado dos garotos formando várias pedrinhas.
— Agora é contigo, Nate. – Disse Monkey e Nathan respondeu com um sorriso malicioso.
Usando o vento, ele tentou acertar as pequenas pedras nos ArtDaves, mas após cinco tentativas tinha conseguido apenas quebrar por duas vezes o vidro da padaria, o chapéu engraçado de uma senhora Coran, a panela de molho do vendedor de dôgun e as costas de um homem da Milícia.
— Caramba, como você é ruim. – Desdenhou Taylor, pegando um pedregulho. – Me dá uma aqui... Qual deles você quer acertar?
— Ray, o mais baixo de cabelos pretos.
— É assim que se faz... – Taylor mirou fechando um dos olhos e usando o vento lançou um pedregulho bem na orelha de Ray, que olhou em volta procurando o culpado, enquanto as crianças riam.
— Isso foi ótimo! – Disse Nathan, gargalhando com Monkey.
— Taylor é mesmo incrível. – Comentou Emily, mas o loirinho não lhe deu importância, pegou outro pedregulho e lançou novamente, agora em Tobey.
Até Flynt ria de seus irmãos, pois sabia que estavam sendo alvos de algum engraçadinho, mas o sorriso sumiu de seu rosto quando ele também passou a ser alvo. As crianças continuavam gargalhando no alto do prédio, se escondendo atrás mureta do telhado.
Depois do clima de tensão que passaram, aquela noite fora de longe uma das melhores que tiveram desde a ameaça do primeiro rebelado. Uma noite sem nuvens, com os Olhos do Lobo no céu, sorrisos e festividades, nada parecia que daria errado.
— Se divertindo, crianças? – Disse uma voz ranhosa vinda da penumbra atrás delas.
— Eu sabia, fomos pegos. – Disse Emily, sem olhar para trás.
— Ah, não se importem comigo. Por favor, continuem. – Um homem magro, de cabelos ondulados na altura dos ombros. Vestido em um sobretudo preto, velho e rasgado com fivelas grandes de ferro e o colarinho levantado que chegava as suas orelhas, surgiu da parte mais escura do telhado.
As crianças ficaram espantadas. Taylor se enrijeceu como se sentisse o perigo emanar daquele homem magro de pele pálida. Kathryne segurou firme a bainha de sua espada, enquanto Emily, Nathan e Monkey esperavam com os olhos assustados o próximo movimento daquela figura.
— O que houve? – Perguntou o homem magro. – Eu já disse, podem continuar. Não estou aqui para puni-los. Na verdade, sou até um simpatizante das travessuras.
— Quem é você? – Perguntou Emily.
— Isso não importa, eu só estou de passagem.
— E para onde está indo?
— Também não é importante... Pequenos Septos... – respondeu com um sorriso largo, malicioso e amarelo.
— Renegado... – Sussurrou Kath.
— Corram... – Disse Taylor, mas os outros não tiveram reação. – Corram!
Eles se preparam para fugir, mas a figura negra e esguia surgiu a frente deles assim que se viraram.
— Já estão de saída? Mas acabamos de nos conhecer.... Eu vou ter que insistir que fiquem mais um pouco. – Ironizou.
As crianças recuaram, com Taylor e Monkey de braços estendidos em frente aos outros, enquanto Taylor, com as mãos para trás, esticava os dedos com as unhas afiadas.
Lá em baixo, no meio da multidão, os irmãos ArtDaves buscavam os culpados das travessuras e acabaram notando o movimento incomum nos telhados. Sem saber o que estava acontecendo, subiram até lá.
— Vão se arrepender das gracinhas! – Ameaçou Ray atrás do Renegado, mas sua expressão de raivar logo se tornou em medo. – Renegado... – disse num sopro, deixando os outros mais tensos.
— Que ótimo, mais formandos para matar. Digo. Brincar.
— Seja lá o que esteja fazendo, vai se arrepender por ter vindo aqui. – Ameaçou Ray, largando a bolsa no chão. Flynt e Tobey, mesmo com receio, seguiram os movimentos do irmão.
— Acho que são vocês que devem ter se arrependido por ter fugido do Instituto. Se ainda não estão, irão ficar. – Ele deu as costas para as crianças, que aproveitaram para tentar fugir. Porém mais dois Renegados com as mesmas vestimentas, porém um de cabeça raspada e o outro com corte moicano, bem maiores e mais robustos, apareceram diante deles. – Nem adianta! A partir de agora, vocês entraram para nossa lista de alvos.
— Ray... – Chamou Flynt, olhando para a multidão abaixo que sem o perímetro de ilusão acabariam se envolvendo na confusão. Ray entendeu e olhou no horizonte em busca de um lugar distante do povo. E então se viu diante de duas escolhas, voltar rumo ao Instituto e torcer para que alguém os avistasse e ajudasse ou ir rumo ao Bosque da Alvorada ao sul da ponte, mais próximo e escondido da vista dos Simplórios.
— Vocês estão comigo? – Perguntou aos seus irmãos, que assentiram balançando a cabeça.
— Ayzaq! – Berrou o Renegado de cabelo moicano. – Pare de brincar, vamos mata-los e fazer o que nos mandaram.
— Calma, Griwvo... Estou sentindo que esses garotos vão nos divertir.
— Não estamos aqui por diversão. Qmwy nos mandou levar os Doze e é isso que já deveríamos ter feito. – Rebateu Dramyn, o renegado de cabeça raspada e um alargador maior do que a própria orelha.
— Viu, garotos? Meus amigos estão apressados. Então, seja lá o que estão planejando, façam rápido.
Os olhos amedrontados de Ray, se sublimaram em um cenho destemido. Ele mirou Nathan e movimentou a cabeça, discretamente, em direção ao Instituto.
— Agora! – Bradou, usando o braken para surgir no alto. – Busquem ajuda! – Ordenou a Nathan e os demais, então desapareceu novamente, junto com Tobey e Flynt, jogando seu corpo rumo ao sul.
As crianças fizeram o mesmo, se espalhando e se transportando através do braken em direção ao Instituto.
— Era só o que me faltava, você nunca consegue seguir ordens, Ayzaq? – Perguntou Dramyn.
— Ordens são cheias de regras, e eu odeio regras. Sigam as crianças que foram para o Instituto, eu pego os irmãos. – respondeu, com um sorriso e olhar insano. – Por que estão com essas caras de bunda? É agora que a diversão começa!
A gargalhada psicótica foi tão alta que ecoou até mesmo na rua festiva, impressionando alguns Simplórios. Era o fim de uma noite calma sobre os Olhos do Lobo.
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