Alma Sombria

10 Capítulo 9


Notas iniciais
É, está acabando, porém Pata Partida ainda tem muitas coisas para enfrentar....

OS DIAS QUE SE PASSARAM CORRERAM CALMOS, A NÃO SER PELA ASSEMBLEIA QUE TODOS AGUARDAVAM ANSIOSAMENTE. O Clã das Sombras andavam inquietos desde o dia do ataque, e todos esperavam para sua fúria que parecia vir devagarzinho. Pata Partida e os outros aprendizes estavam cada vez mais ocupados, tendo de participar de patrulhas extras, sessões de treinamento e patrulhas de caça, tirando a parte de cuidar e suplir as necessidades dos anciãos. O renovo parecia durar várias e várias luas, o que não era ruim, que acabava por fartar o Clã com presas apetitosas e gordinhas. porém os dias amanheciam mais frios a cada dia que passava, indicando-os de que a breve Estação das Folhas Secas chegaria, preparando-os para o frio intenso da Estação sem Folhas, em que a lufada gélida fazia com que as presas se escondessem em seus ninhos quentinhos, trazendo a escassez para os Clãs. Os leitosos raios de luz atravessavam as copas das árvores esquentando a pelagem rala da aprendiz. Os sentidos estavam embalados pelo ar quente e os doces aromas da Estação do Renovo. Pata Partida colocou-se em tocaia e, quase flutuando, chegava cada vez mais perto do ingênuo pardal que bicava entre as folhagens no chão. Com um poderoso e ágil pulo ela o prendeu sobre as patas grossas, o pássaro, incapaz de se mover, esperava a morte. Pata Partida voltou com ele entre os dentes, deixando-o cair sobre as patas de Risco Branco e Estrela de Rocha.

— Perfeito! — Ronronou o líder — Agora, caçe o quanto puder e leve até o acampamento, eu e Risco Branco estaremos de olho em vocês. — Terminou ele, escalando uma árvore pequena, a pelagem chumbo camuflava-se com perfeição entre as folhagens e os galhos pontiagudos. Risco Branco desapareceu entre as samambaias. Pata Partida, com a cauda erguida, virou-se para trás, embalando a presa com algumas folhas secas no chão. Pata Listrada já havia desparado entre as amoreiras, tentando pegar sua cota. Pata Partida olhava em volta, as presas pareciam pular dos arbustos e render-se em suas patas. A aprendiz sentia, no fundo das orelhas, o pulsar de um pequenino coração de um rato silvestre. Tocaiando-o, a aprendiz o cercou, o rato de frente para sí roía uma semente, inconciente do perigo que corria. Com um rapido pulo a gata o prendeu no ar, jogando-o no chão com força. O camundongo debatia-se incontrolávelmente em quanto tentava fugir das garras da caçadora. Antes que desse o grito de alarme, Pata Partida acabou o trabalho com uma única patada. O sol subia lentamente sobre as copas das árvores, tomando seu auge no céu azul-claro, trazendo uma brisa fresca para a floresta. Pata Partida já havia pegado um bom bocado de presas, o suficiente para formar uma respeitosa pilha. Como Risco Branco nem Estrela de Rocha haviam aparecido ainda, ela decidiu continuar. Em quanto tocaiava um filhote de coelho que dera o azar de afastar-se do ninho, Pata Partida, escondida nos ramos de azevinho, ouviu um barulho acima de si. O coelho parecia ter ouvido também, pois elevou as grandes orelhas e, numa tentativa desesperada, tentou pular para longe dali. Pata Partida pulou na hora de onde estava, porém suas garras apenas roçaram contra o pelo fofo do jovem coelho, que fugiu entre os juncos.

— Obrigada Clã das Estrelas! — Pata partida miou irônica olhando para a ávore acima de si. Pata Listrada descia, quase escorregando, com um pássaro pendendo em sua boa.

— Me desculpe por isso — Ele sorriu, sem graça, jogando o pássaro no chão.

— Por nada, só me custou uma presa — Ela deu de ombros, a irritação logo se passando. — O que estava fazendo por aqui? você não tinha ido pelo outro lado? — Ela virou para o irmão, colocando a cauda arrumadinha sobre as patas, lavando-se.

— É.. mas queria encontrar você. — O olhar verde do irmão estava cheio, tentando encontrar o olhar da mesma. Pata Partida o fitou, o olhar bicolor velados em curiosidade.

— Para quê?

— Eu vi o papai diz..... — Ele ia completar a frase, mas Risco Branco pulou dos arbustos, assustando-os.

— O que estão fazendo aqui parados? — Indagou, o olhar amarelo sem culpá-los.

— Só paramos agora — Pata Listrada deu de ombros, trocando olhares preocupados com a irmã.

— Foi má sorte você aparecer agora, só isso. — Ela miou, querendo mudar de assunto o quanto antes.

— Então está bem. — Ele sentou-se, tranquilo. — Acho que já está bom por hoje... se depender do que vimos aqui, podem considerar-se guerreiros! — Miou confiante, aumentando a ansiedade dos aprendizes.

— Concordo — Estrela de Rocha surgiu de trás dos aprendizes, o olhar brilhando. — Vocês foram fantásticos. — Ele deu uma pequena lambida na cabeça de cada um, e, colocando-se ao lado de Risco Branco, acenou com a cauda. — Vamos pegar as presas e levar ao acampamento, tenho uma cerimônia a fazer. — Fazendo o caminho de volta, Pata Partida e Pata Listrada ia indicando onde colocara as presas, pegando-a todas antes de voltar ao acampamento. Ao passarem pelo túnel de tojos, alguns guerreiros olhavam-nos, impressionados com a quantia pega.

— Isso tudo foi só eles que pegaram? — Cauda de Esquilo miou ao se aproximar, o olhar cor de noz impressionado.

— Foi sim — Miou o Líder colocando as peças no chão — Ajudem-nos a levar isso para os anciãos, quando voltarem, tenho uma cerimônia a realizar. — Ele fez um último sinal a Cauda de Esquilo, que pegou as presas no chão e, junto a Pata Partida, caminhou até a toca dos anciãos. Estrelinha e Lobinho estavam lado a lado, contando histórias a Pata de Esquilo, que os olhava, maravilhado. Castanha dormia no fundo da toca, as orelhas erretas, indicando-os que ouvia atentamente os amigos de toca. Alaranjado tomava um banho completo ao lado de fora, que logo entrou ao vê-los de aproximar.

— Olá — Pata Partida miou abafadamente ao entrar, colocando as presas no centro da toca espaçosa. Os anciãos pararam de falar ao vê-los com as presas.

— Eu sei que parece tentador, mas comam depois, agora temos uma cerimônia para assistir. — Cauda de Esquilo lançou um olhar significativo a Pata Partida, que elevou a cauda, orgulhosa.

— Se eu contar as coisas que ela me faz, vocês iam fazê-la voltar a ser filhote. — Murmurou Estrelinha, os bigodes divertidos. Ele era o ancião com quem Pata Partida mais tinha afinidade, desde filhote, sempre contara com o ancião para suas aventuras secretas e seus segredinhos da época.

— É? pois não trarei mais essas presas suculentas que só eu pego para você — Pata Partida jogou a cabeça de lado, divertida.

— Oh não, isso não! — O ancião fez um pequeno draminha, colocando a pata sobre a cabeça, como se lamentasse.

— O papo está bom mas temos de ir, se quiser virar guerreira — Cauda de Esquilo passou a cauda sobre o ombro da mesma ao virar-se, chamando-a. Cauda de Esquilo dirigiu-se ao lado da Pedra Grande, ocupando seu lugar de representante. Pata Partida tomou um banho rápido e foi ao lado de Pata Listrada, que tinha a pelagem penteadinha e os olhos brilhando. A gata colocou-se ao seu lado, pensando em como seria bom ter sua mãe em um momento tão importante para ela.

— Que todos os gatos com idade suficiente para caçar a própria comida que venham até aqui para a reunião do Clã. — Estrela de Rocha tinha os olhos pousados sobre Pata Partida em quanto falava. De repente, a gata pareceu ver um lampejo de medo em seus olhos amarelos, mas foi tão rápido que ela não pôde ter certeza. Todos os gatos já estavam ali, os anciãos no canto, perto da toca, incapazes de afastar-se dela por muito tempo. Copo de Leite olhava orgulhosa do lado de fora do berçário, murmurando palavras fofas. Aveleira assistia na base de sua toca, seu olhar chocolate estava indecifrável, porém sua cauda chicoteava, nervosa.

— Eu, Estrela de Rocha, líder do Clã do Trovão, conclamo meus ancestrais para que possam ouvir e aprovar minha decisão. — Ele fez uma breve pausa, seu olhar alternando-se entre Pata Partida e Pata Listrada. — Esses dois jovens treinaram arduamente para entender seu nobre código, e agora eu lhes entrego como guerreiros. — ... — Pata Partida e Pata Listrada, vocês prometem respeitar e proteger o Clã, mesmo a custo de suas vidas?

— Prometo! — A voz de Pata Listrada foi alta e animada, ao contrário da segura e confiante de Pata Partida.

— Ótimo, a partir de agora, você será conhecido como Garra Listrada, o Clã das Estrelas homenageia e aprova sua bravura. — Estrela de Rocha pousou o focinho sobre a cabeça de Garra Listrada, ronronando. — Você, Pata Partida, apartir de agora será conhecida como Pelagem Partida, o Clã das Estrelas aprova e reconhece sua bravura e lealdade — Ele miou meio incerto, mas pousou o focinho sobre a cabeça larga de Pelagem Partida.

— Garra Listrada! Pelagem Partida! — O uivo do Clã era um eco, formando uma só voz. Copo de leite aproximou-se dos dois jovens, e ronronando alto, olhou-os com seus olhos azuis vidrados de orgulho. — Sua mãe sente muito orgulho de vocês — Ela deu uma lambida carinhosa no ombro de cada um, e lançando um olhar carinhoso por sobre o ombro, foi de volta ao berçário. Logo depois vieram Pata Branca e Pata de Esquilo, cumprimentando-os com ronrons amigáveis. A Patrulha do sol alto, Pelagem de Chumbo, Lua Nova e Espinheiro foram os cumprimentar e logo saíram, apressados. Estrelinha foi o primeiro dos anciãos a dar as boas vindas a nova guerreira, fazendo-a prometer visitá-los mesmo sendo guerreira.

— Vocês, como novos guerreiros do Clã, segundo as tradições, devem ficar de vigília essa noite. — Ele miou, escorregando da rocha e indo ter com Cauda de Esquilo.

— Nunca esqueça do que te ensinei, e seja a melhor e mais leal guerreira que essa floresta já viu! — Pelagem Partida ouviu a voz grossa de seu ex mentor, Risco Branco, soar em seu ouvido. A guerreira virou-se, dando uma lambida carinhosa em seu ombro.

— Nunca me esquecerei. — Ela piscou suavemente em quanto recebia o cumprimento do restante do Clã. Aveleira piscou suavemente para ela, mas não veio cumprimentá-la, talvez estaria muito ocupada, já que também não veio assistir a cerimônia adequadamente. Garra Listrada já havia pegado uma presa e foi comer perto das samambaias, onde os guerreiros costumavam ir. Pelagem Partida foi ao seu encontro com um coelho pequeno em sua boca.

— Isso é meio estranho — Ronronou Garra Listrada, olhando-a com simpatia. — Estávamos acostumados a comer na árvore caída, junto com os aprendizes.... — Ele deu mais uma mordida no rato.

— Entendo — Ela miou abaixando-se ao seu lado. — Um dia vamos acostumar novamente — Ela soltou um ronrom divertida, dando uma mordida esfomeada no coelho. Garra de Azevinho e Luz de Prata vieram ter com eles, parabenizando-os pelos novos nomes. O sol se escondia atrás do cume, lançando lufadas de ar frio. As pernas de Pelagem Partida estavam rijas quando ela levantou, espreguiçando-se. Já estava de barriga cheia, e, dando um "adeus" aos amigos que ainda conversavam perto das samambaias, a guerreira foi, rumo a nova toca, descançar um pouco antes de começar a longa e árdua vigília. A toca dos guerreiros parecia mais quente do que a dos aprendizes, talvez por conta de haver mais gatos. Folha de Outono e Risco Branco dormiam um ao lado do outro, a pelagem salpicada de Folha de Outono contrastava com a de Risco Branco, a pelagem subindo e descendo, confortáveis. Mais no fundo Flor Rosa estava emboladinha, parecendo ainda menor do que já era. Céu Chuvoso estava lá dentro se lavando, preparando-se para sair na patrulha da noite com Cauda de Esquilo e Garra de Azevinho. Um lugar no cantinho da toca parecia bem aconchegante e quentinho, e com a toca confortávelmente escura não seria nada difícil pegar no sono. Com um aceno educado a Céu Chuvoso Pelagem Partida instalou-se no ninho confortável, e pegou no sono. Pelagem Partida estava na floresta, no céu não havia nenhum sinal da lua ou sequer das brilhantes estrelas do tule de prata, sobrando apenas a escuridão, que aos poucos a envolvia. Um barulho ensurdecedor cortou a noite calma, fazendo a guerreira olhar ao redor, desesperada. Via várias figuras familiares formando um circulo em sua volta, intimidando-a. Todos os gatos do Clã, seu pai, seu irmão, até mesmo Copo de Leite e Risco Branco estavam lá, olhando-a com ódio, julgando-a e despejando pragas para a recém-guerreira. Pelagem Partida olhava um por um sem intender nada, assustada, sendo tomada, aos poucos, pelo pânico. Seu pai murmurava palavras abafadas que Pelagem Partida não entendia, mas os gatos ao redor uivavam repetindo-as, as garras desembainhadas, prontas para atacá-la. Com um sinal de triunfo o líder deu o sinal, e todos os gatos com quem passara quase sua vida toda pularam até a gata, vendo quem conseguia matá-la primeiro. Uma sobra escura em forma de gato rugiu acima do céu, engolindo Pelagem Partida, que fechou os olhos, contorcendo-se de dor e agonia. Quando Pelagem Partida voltou a abrir os olhos, estava novamente numa floresta vazia e escura, nunhum dos gatos que a ameaçavam estavam lá, apenas a sombra formosa que a salvara da morte. A sombra, aos poucos, foi ganhando forma, o sorriso afiado era amedrontador, e os olhos bicolores brilhavam em maldade e sanidade. Pelagem Partida reconheceu a mesma figura de seu primeiro sonho sinistro, era ela mesma, a versão má. A gata sorria frenéticamente, penetrando em sua mente com seu olhar profundo. Com uma risada má, ela foi se aproximando, o desespero tomando conta da guerreira. Tomada pelo pânico, Pelagem Partida olhou em volta, um rio de sangue quente e pegajoso fluia, subindo cada vez mais e mais. Pelagem Partida tentou, desesperadamente correr, mas o sangue que aumentava fazia com que suas patas fixassem-se no chão, incapacitada de se mover. Pelagem Partida soltou um uivo desesperado quando o rio de sangue chegou ao seu focinho, afogando-a. Pelagem Partida acordou arfando, assustada. Garra Listrada a cutucava, os belos olhos verdes arregalados.

— E.. está na hora da vigília... — Ele miou ainda a fitando, sem entender nada.

— A...ah sim... já estou indo. — Ela murmurou, piscando para o irmão, confortando-o. Pelagem Partida levantou e tomou um banho caprichado antes de, pulando gato a gato, sair da toca escura, onde se ficasse, enlouqueceria com as lembranças desagradáveis do sonho. A clareira estava praticamente vazia. As duas rainhas do berçário, Fogueira e Mancha Branca conversávam lado a lado, olhando o céu estrelado. Pelagem Partida foi com passos apressados ao lado do irmão, que já estava em seu posto. Risco Branco estava ao lado do gato, conversando baixinho. Pelagem Partida se aproximou e murmurou um "oi" para os guerreiros, ainda achando estranho ver o mentor depois do terrível sonho que tivera.

— Que bom que chegou — O gato acenou respeitosamente com a cabeça, um gesto usado de guerreiro para guerreiro. — Bom, a vigília silenciosa já pode começar, a partir de agora, vocês só podem sair ou falar apenas ao nascer do sol. — Ele piscou para Pelagem Partida e Garra Listrada, logo então caminhando até a toca do líder. Um barulho na entrada do acampamento chamou a atenção dos guerreiros, que empinaram a orelha ao virarem-se. Cauda de Esquilo e Céu Chuvoso entravam pelo túnel de tojos, logo depois entrou Garra de Azevinho, a pelagem preta e branca brilhando sob a luz da meia lua. Exaustos os guerreiros deram uma piscada para Garra Listrada e Pelagem Partida e foram, apressados, para a toca dos guerreiros. Cauda de Esquilo rumou para a toca na base da Pedra Grande, mas segundos depois voltou com Risco Branco, ambos entrando na toca dos guerreiros, a cauda espessa so representante arrastava no chão de cansaço. Em fim sós. Pensou a guerreira, recém guerreira, que esperava o brilho confortante do amanhecer surgir acima das copas das árvores, trazendo mais um dia para os gatos da floresta.