Alma Sombria
13 Capítulo 11
PELAGEM PARTIDA, GARA LISTRADA E PATA BRANCA PATRULHAVAM A FRONTEIRA COM O CLÃ DO RIO, depois de procurar cheiros dos inimigos agora eles esfregavam-se nas árvores, reforçando as marcas de cheiro.
— Faz tempo que o Clã do Rio não nos trás problemas. — Garra Listrada fitava com seu olhar verde o outro lado do rio. — Tem razão — Pelagem Partida contornou a árvore e sentou-se ao seu lado, olhando as águas inquietas do rio. — Faz muito tempo — Pata Branca deu um pulo, pousando graciosamente na frente dos guerreiros. — Nenhum sinal do Clã do Rio ali. — ..... — E também já deixei a marca de cheiro daquele lado — Ela apontou com o focinho rosado. — Agora... será que podemos acaçar algo? estou faminta! — Ela miou, a ponta da cauda contorcendo-se.— Temos de ficar de olho, Pelagem Partida, os guerreiros do Clã do Rio não são de paz — Ele miou por sobre o ombro, colocando-se nas quatro patas, dando um empurrãozinho na aprendiz. — Eu também estou, vamos, Pelagem Partida? — A guerreira acenou que sim, e, dando a última olhada para o outro lado do riacho, a guerreira pulou e colocou-se ao lado deles, adentrando a floresta aberta. Garra Listrada seguiu o caminho até a Árvore da Coruja, seguindo até as extensões perto do Caminho do Trovão. Pelagem Partida e Pata Branca seguiram a trilha até o Vale de Areia, contornando-o e parando no topo da ravina. — É bom caçar com você de novo... — A amiga a olhou, o olhar azul penetrante — Sabe, sinto sua falta na toca... — Pelagem Partida a olhou com simpatia, dando-a uma piscadela carinhosa.— Eu também sinto, mas não se preocupe, logo você e Pata de Esquilo também se tornarão guerreiros, e passarão a dividir a toca conosco novamente. — A guerreira aproximou-se da amiga, roçando sua pelagem. Pelagem Partida parou ao ouvir o arranhar de pequenas patinhas no chão mais a frente. Pata Branca, pegando o recado, colocou-se em tocaia e, pata ante pata, tocaiou o pequeno bichano. "Agora!" Pelagem Partida pensou, foi perfeito, a gata branca atirou-se atrás da árvore, surpreendendo a criatura peluda. — Foi fantástico. — A guerreira miou ao vê-la voltar com o rato na boca. — Minha vez! — A guerreira ferejou em volta, a boca semi-aberta tentando captar os odores da floresta. Com um certo espanto Pelagem Partida sentiu o cheiro de medo, olhando Pata Branca por cima do ombro, a guerreira percebeu que a gata também sentira, os olhos azuis arregalados tinham deixado a presa cair sobre as patas. Garra Listrada pulou dos arbustos, os olhos verdes vidraros, e as garras desembainhadas.— O que há com você? — Pelagem Partida foi ao encontro do irmão, que tremia, nos olhos tinha um brilho selvagem.— É o Clã das Sombras... — Ele miou arfando, controlando-se para conseguir falar — Eles estão vindo! — ... — Vão atacar nosso território!.— C..como assim... são quantos? — Pelagem Partida miou sem acreditar, tomada pelo choque.— Não sei.. são muitos... vi eles atravessando o Caminho do Trovão... — Eles te viram? — O miado agudo viera de Pata Branca, que se aproximava, assustada.— Não.. acho que não. — Ele miou, retomando o fôlego.— Então vamos, rápido! precisamos avisar o acampamento! — Pelagem Partida saiu em disparada, consiente de que o irmão e a amiga a seguiam de perto. Ao passarem pelo túnel de tojos, os guerreiros que ali estavam trocando lambidas deram um pulo, assustados. — Clã do Trovão! — Garra Listrada miou colocando-se no centro da clareira. — Não há tempo para se preparar! O Clã das Sombras estão invadindo nosso território! — Ele gritou, a voz grossa fez eco no acampamento. Pelagem de Chumbo, Risco Branco e Espinheiro que ali estavam arregalaram os olhos, e, entreolhando-se, colocaram-se de pé, as garras desemainhadas e as orelhas coladas a cabeça, num silvo de fúria. Pata Branca já ajudava os anciãos a entrar no berçário junto aos filhotes, colocando um ramo de espinho na passagem estreita. Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, um grito de guerra cortou o ar, uma massa de gatos do Clã das Sombras ultrapassaram o túnel de tojos, pulando para a guerra. Em uma única batida de coração, a clareira já explodia na batalha, vários urros e gritos fúriosos enchiam o ar, cortando o dia calmo. Pelagem Partida pulou sobre uma guerreira na extremidade da clareira, a gata, pega de surpresa, rolou com a guerreira no chão. As garras de Pelagem Partida esquadrinharam o lado da guerreira, que esquivou de um golpe mortal na cabeça. Debatendo-se a gata se livrou de Pelagem Partida, dando-a uma patada na cabeça. Com o impacto ela caiu em cima da gata, planteando uma garra em seu pescoço, mas antes que pudesse mordê-la, ele se contorceu, afastando-se com a velocidade de uma cobra. Pelagem Partida ia avançar novamente, mas sentiu uma madíbula fechar-se em seu cangote, arrastando-a para o lado. A dor a cortou por dentro, fazendo-a tremer em agônia. Esforçando-se para não recuar, a guerreira, lançando as patas, atingiu o rosto do agressor. Quando conseguiu se levantar, a gata percebeu que era Pata da Noite, o aprendiz com quem conversara na asembleia passada, quando ainda era uma aprendiz. Com espanto, o gato também reconheceu a guerreira, que, olhando-a, recuou e esperou um golpe do amigo. Quando voltou a abrir os olhos, o aprendiz negro recuava, pulando para o meio da batalha. Com alívio, Pelagem Partida olhou em volta, Garra Listrada estava embolado com uma guerreira laranja, que lutava para libertar-se do gato tigrado. Mais a frente, Pata Branca brigava com um guerreiro maior que ela, que mordia a cauda do gato frenéticamente, fazendo-o soltar seu ombro. Copo de Leite e Mancha Branca brigavam com um gato que era maior do que elas, mas, com a fúria do Clã das Estrelas, elas protegiam a entrada do berçário, fazendo o gato fugir aos trombolhões. Fogueira estava a algumas raposas de distância, a rainha tinha a barriga redonda com a ninhada que esperava, porém lutava como uma guerreira, sacudindo uma gata malhada pelo ombro, jogando-a mais a frente. Céu Chuvoso lutava com dois gatos perto do túnel de tojos, lutando para não ser imobilizado. Pelagem Partida cruzou a clareira aos trombolhões, arrancando um gato negro de cima do companheiro de Clã. O gato uivou em dor ao sentir as grossas garras da guerreira rasgar-lhe a lateiral, arrancando tufos de pelo do gato. O gato, medindo-a de cima a baixo, pulou até ela, mas a guerreira já estava pronta, ela esgueirou-se para o lado, fazendo um corte profundo no nariz do agressor. O gato, perdeu o quilibrio e caiu antes que a guerreira pudesse sair de baixo do gato. Aproveitado a oportunidade, o guerreiro cravou as presas em seu ombro, o sangue da gata fervendo por causa do ódio. Debatendo-se frenéticamente ela sentiu o pelo do ombro rasgar ao livrar-se dos dentes do agressor, que iria avançar de novo, mas a guerreira foi mais rápida, estendeu as pernas com as garras desembainhadas e, com ódio, rasgou o peito do gato, que saiu correndo pelas samabaias. Pelagem Partida olhou em volta, ofegante, a batalha fervia ali, parecia que nunca acabaria. O sangue jorrava de uma ferida em seu ombro, a gata sentia garras na barriga, fazendo seu estômago embrulhar. A gata ia pular para a batalha novamente, mas ouviu um uivo de socorro ecoar baixinho atrás da toca dos guerreiros. Alerta, Pelagem Partida pulou até lá. Cauda de Esquilo estava no chão, o sangue seco em sua pelagem espessa tinha endurecido, jorrado antes por várias feridas pelo corpo. Um guerreiro preto e branco do Clã das Sombras olhava sério para o representante vencido, o olhar amarelo triunfante. Pelagem Partida, tomada pelo choque, soltou um grito furioso e pulou para cima do guerreiro, que, surpreso, escorregou na poça de sangue e caiu no chão. Pelagem Partida subiu em cima do gato, cegada pelo ódio, ela lançava garras e presas por todos os lados, rasgando a pelagem do gato, que não conseguia se mover, sendo imobilizado pelo peso da guerreira. Pelagem Pertida agarrou o pescoço do gato, e mordendo com força, o sacudiu violentamente. O guerreio urrava em agonia, e, finalmente, soltou pela guerreira, fugiu entre os juncos.
— Cauda de Esquilo... não — A voz da gata era um fio, os olhos bicolores enchiam de lágrimas. O representante lançou um olhar satisfatório para a guerreira, fazendo força para falar.— Adeus, Pelagem Partida. — Ele piscou suavemente para a gata, que mal conseguia falar, fitando-o com dor. — Eu.. eu — a voz do gato morreu na garganta, e os olhos, fechando-se lentamente, vislumbrou um brilho de paz, antes de dar o último suspiro, indo em bora para sempre.— Não... — Pelagem Partida debruçou-se sobre o representante morto, afofando o focinho sobre o pescoço dele e as patas afundadas em seu peito, em um gesto de luto.— NÃAAAAO! — A voz grossa fez a gata olhar para cima, com um sorriso satisfatório, a guerreira percebeu que o pai finamente chegara, trazendo reforço para a batalha sangrenta. Mas logo o sorriso sumiu de seu rosto ao perceber que o líder a fitava com puro ódio. — O que você fez? — Ele gritou com raiva para a guerreira, que encolheu-se no chão, se afastando do corpo inerte. — Você matou Cauda de Esquilo! eu sempre soube.. nunca confiei em você... assassina! — Pelagem Partida mal conseguia falar, tomada pelo choque. Os olhos bicolores arregalados, mal acreditando nas palavras que saiam da boca de seu próprio pai. — Eu nunca deveria ter te resgatado da floresta! deveria tê-la deixando morrer! — A voz dele era tomada pela dor da perda, os olhos amarelos tinham um brilho de ódio, cheios de lágrimas, controlando-se para não chorar. — E.. eu.. — A guerreira não sabia que palavras usar, e, rosnando para a gata, ele caminhou até o corpo inerte de Cauda de Esquilo, lamentando sua dor.— Não se preocupe, meu amigo, irei vingar sua morte. — O líder fechou os olhos por alguns segundos. O barulho da batalha não era mais ouvido, tudo tinha acabado agora, deixando apenas o cheiro de medo, sangue e triunfo que se alastrava pela clareira. Estrela de Rocha abriu os olhos, o olhar amarelo brilhando, indecifrável.— Pelagem de Chumbo! — O líder miou ao gato mais próximo que passava por ali. Com as orelhas eretas, ele seguiu o som, arregalando os olhos ao ver a cena a sua frente.— Não diga nada, apenas pegue essa assassina e traga até a clareira. — O líder levantou-se, lançando um olhar de desprezo a gata. — Ela.. ela matou Cauda de Esquilo — Ele cuspiu as palavras, abaixou-se e pegou Cauda de Esquilo pela nuca, levando-o cuidadosamente para a clareira. Pelagem de Chumbo rosnou para a guerreira. Sibiliando ódio, ele a pegou violentamente pela nuca e arrastou-a pela clareira. A guerreira não se moveu, apenas ficou encolhida, as orelhas grudadas à cabeça, a tristeza pesava sobre o coração da gata, mas o ódio a pesava a cabeça. Ao chegar no centro da clareira, Pelagem de Chumbo a cuspiu no chão, a cabeça erguida. Os gatos da clareira olhavam incrédulos para acena as suas frentes, sem entender nada. Aveleira cuidava dos machucados de Pata de Esquilo, mas também parou para olhar a cena a sua frente, o olhar chocolate arregalado, murmurando algo para si. Estrela de Rocha estava no topo da Pedra Grande, e, com um aceno de cauda, pediu silêncio ao Clã.— Essa cena que vocês estão vendo aqui, meus caros, é o corpo de nosso querido e leal representante, Cauda de Esquilo, que foi morto pela garra amiga. — Ele miava com deboche e desprezo, lançando olhares de ódio a Pelagem Partida. — Pelagem Partida — Ele fez uma pausa, olhando cada um dos guerreiros com o olhar amarelo. — Foi Pelagem Partida quem matou Cauda de Esquilo.
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