Alma
1 Prólogo
Notas iniciais
Essa é a minha primeira história original. Estou muito empolgado para contá-la e espero que vocês possam vir a gostar dela tanto quanto eu. Por ora, desejo-lhes uma excelente leitura.
Um coração batia nas profundezas da terra. Lento e despretensioso, uma batida depois da outra; pulsante, mas, principalmente, vivo. O corvo aguçou os ouvidos para prestar atenção ao som, girando a cabeça de um lado para o outro. De penas eriçadas pelo vento uivante, estava empoleirado no galho mais alto de uma árvore velha e ressequida, cujo tronco assomava, gigante, sobre a floresta abaixo, contorcendo-se como uma serpente das raízes à copa sem folhas. Tum, tum. Os batimentos soavam tão distantes que a princípio pensou que estivesse delirando, mas eles continuavam a bater mesmo enquanto ele devaneava, um barulho único naquela imensidão vazia. Não estava sonhando.
É um som tão bonito, pensou, tão vivo. As batidas lhe pareciam tão admiráveis que poderiam ter se passado pela primeira coisa que ouvia na vida, o que, de certa forma, não estava tão longe da verdade. Aquelas terras encontravam-se taciturnas havia uma eternidade.
Ali em cima, o vento soprava ferozmente, arrancando-lhe um arrepio. Sacudiu as penas e ergueu os olhos até o céu – duas orbes incandescentes, vermelhas como sangue –, mas tudo o que viu foi a mesma névoa densa de sempre, uma monocromática robustez cinza que ocultava o azul de outrora. Quando ventava forte, como agora, ela oscilava como se estivesse viva, reagindo ao toque das correntes de ar. O corvo retesou por um momento. Era difícil predizer o tempo com o firmamento naquele estado, mas a experiência e o instinto tinham-no ensinado a fazê-lo. Uma chuva se aproximava no horizonte.
Crocitou para o nada e o som trespassou a calmaria por um breve instante antes de se esvair. Ele saltou do galho, bateu as asas negras e descreveu um mergulho em direção à floresta. O dossel era um emaranhado espesso de galhos desnudos que uniam-se a outros ainda dotados de garbosa folhagem sarapintada de vermelho, roxo e preto, além de outros com as últimas folhas ainda por cair. Sob a copa, a mata era um território escuro e labiríntico formado por caminhos que espalhavam-se por todas as direções. Ali, a flora reduzia a ventania a uma singela bruma. O ar cheirava a húmus. Espreitando por baixo de troncos grossos e altos, árvores de menor porte e espessa vegetação rasteira, o chão da floresta era inteiramente forrado por um tapete de folhas caídas e ressecadas, muitas delas ocultando raízes soterradas e tocas escavadas por animais. Apesar da baixa luminosidade e a abundância de obstáculos, o corvo abria habilmente o seu caminho. Os batimentos cardíacos eram o seu único guia. Tum, tum. Nenhum outro som era audível. Pássaros e insetos não cantavam em lugar algum; no chão, não se ouvia roedores correndo pelas folhas nem revirando os arbustos. Os bramidos dos cervos tinham se calado, tal como os grunhidos dos javalis. Linces não rosnavam; ursos, não rugiam, e os lobos não estavam mais uivando para assombrar os demais seres. Toda a vida animal – se é que ainda restava alguma nas redondezas – tornara-se tão soturna quanto as árvores. O coração, entretanto, continuava batendo, barulhento como devia ser.
A floresta abriu-se numa série de clareiras até que as árvores enfim desapareceram, dando espaço a uma vasta planície aberta cortada por uma estrada de terra tão comprida quanto. O corvo bateu as asas e ganhou altitude. Para onde quer que olhasse, tudo o que conseguia ver era um infinito mar de grama opaca pontilhado por inúmeros arbustos baixos, ora ou outra mutilado por uma árvore solitária e por lagoas isoladas de água parada. O vento soprava com força, levantando tênues nuvens de poeira da estrada e espalhando o cheiro da chuva. Em alguns pontos, o caminho desdobrava-se em trilhas menores que conduziam até outros destinos. A mudez era impenetrável. Crocitou novamente, o silêncio fazendo o grito parecer mais alto do que realmente era. Desta vez, obteve uma resposta. Um segundo corvo chilreou, tão bem escondido na grama alta que ele não pôde encontrá-lo. Os quilômetros subsequentes foram bem mais silenciosos, sem nenhum indício de qualquer coisa viva.
A paisagem parecia imutável. Sobrevoou um extenso campo aberto, passando por um lento riacho de águas rasas cujas margens lamacentas eram unidas por uma pequena ponte de madeira. Um brejo povoava as cercanias, limitando-se a ficar perto da água. Não muito longe dali, encontrou um vilarejo abandonado meio escondido por um punhado de arvoredos. O lugar era pequeno e triste, mal chegando a uma vintena de casebres modestos feitos de madeira, muitos deles caindo aos pedaços e expondo os seus interiores desabitados. Na praça que ocupava o centro do lugar, um imenso olmo de folhas enegrecidas avultava sobre um poço depredado. As terras que rodeavam o vilarejo apresentavam sinais esmaecidos de terem sido usadas para o plantio em algum momento, e, enquanto sobrevoava o local, ele viu os restos de um estábulo e um ou dois chiqueiros. A vila havia proporcionado comida, água e abrigo aos seus habitantes no passado, mas agora não era nada além de uma ruína. Não era a primeira que encontrava naquele estado. Elas estavam por toda parte, resquícios de um tempo passado e esquecido.
O vilarejo já se encontrava há mais de meio quilômetro de distância quando encontrou a primeira criatura. Suas penas se arrepiaram, e desta vez não era por causa do vento. Afastou-se o máximo possível do solo, ficando a uma altura que considerava ser segura o suficiente para evitar ser atacado. Do alto, observou a coisa com atenção. Ela parecia-se com um cervo, mas nenhum cervo era tão grande. A galhada era muito maior do que o normal, assemelhando-se aos galhos pontiagudos de um pinheiro. Quatro pernas compridas e finas como gravetos sustentavam um corpanzil cinza escuro, quase preto. A única exceção eram os olhos, prateados como a lâmina de uma espada. A criatura caminhava a passos lentos pela estrada, mas, assim que ele a sobrevoou, ela jogou a cabeça para trás e urrou, um som demorado e áspero como aço raspando em pedra, e pôs-se a trotar em sua direção. Aquilo é muito mais rápido do que qualquer cervo, pensou o corvo, perturbado. A perseguição durou por um bom tempo, terminando apenas quando ele se escondeu entre as árvores de um bosque, onde despistou o monstro.
Tum, tum, tum.
Ouvia o coração chamá-lo, inquieto. Àquela altura, já havia se passado mais de uma hora desde que o ouvira bater pela primeira vez. É surreal que eu consiga ouvi-lo de tão longe. O som ressonava mais alto. O vento assobiava como um fantasma invisível. Outros vilarejos abandonados vieram e partiram; pântanos e lamaçais traiçoeiros obstruíam o caminho por terra em alguns trechos da paisagem, enquanto outros eram ornamentados por infindáveis bosques, regatos e áreas abertas onde a grama exibia o seu verde desbotado. Viu algumas poucas aves em seu trajeto, e, uma vez, teve a sorte de encontrar um enorme alce pastando nas margens de um córrego. Contudo, as criaturas eram muito mais abundantes. Testemunhou grupos com dezenas de coisas humanoides rastejando por entre as árvores; nas águas, formas compridas com dúzias de tentáculos flutuavam sob a superfície. Nem o ar era seguro, pois coisas grotescas com formas vagamente semelhantes à pássaros perambulavam a esmo. Em dado momento, chegou a ser atacado por uma delas enquanto mergulhava por um arborizado declive rochoso; uma monstruosidade de asas redondas e com uma cabeça desproporcionalmente grande em relação ao corpo, cujos olhos esbugalhados e brancos cintilavam com um brilho ameaçador. Felizmente, ele era muito mais rápido que o seu agressor e conseguiu escapar com meia dúzia de batidas de asa.
Continuou voando incansavelmente pelo que pareceu ser uma eternidade. Os monstros tornavam-se cada vez mais raros conforme ele ganhava terreno. Voou mais perto do solo quando julgou ser seguro para tal; quando o fez, imediatamente percebeu que a paisagem começava a se transformar, as árvores desaparecendo para dar lugar a uma variedade diversa de flora litorânea. Nos locais onde a vegetação rareava, expondo o solo no qual lançava as suas raízes, o chão era arenoso e mutável, parecendo mudar de forma sempre que o vento soprava. O ar era impregnado pelo característico cheiro salgado das zonas costeiras. Estou perto do mar, percebeu o corvo. O coração batia mais forte a cada segundo.
Tum, tum, tum…
Um trovão reverberou, enchendo o mundo com o seu rugido. Então, para além das dunas, ele finalmente viu a cidade.
Já havia sobrevoado aquele lugar antes. A cidade era enorme à distância, de perto, era colossal. Detrás das muralhas de vinte metros de altura que resguardavam o seu território, o lugar era um aglomerado de edificações de mármore e granito, todas elas brancas ou de cor marfim, entrecortadas por largas ruas de paralelepípedos, becos escuros, vielas e praças. Canteiros com fileiras de árvores e flores dos mais variados tipos desabrochavam em meio a arquitetura humana: margaridas, tulipas, dálias, lírios, violetas e rosas. Todas jaziam murchas e secas, e de muitas das árvores restavam apenas troncos e galhos sem folhas. Estátuas cuidadosamente esculpidas também eram abundantes por toda a cidade, essencialmente nas praças e pátios, quase todas ilustrando animais e feras lendárias como dragões e serpentes marinhas, embora o corvo também tivesse identificado algumas figuras humanas entre elas. Onde o mar encontrava a terra, um longo porto estendia-se até sumir de vista, grande o suficiente para comportar uma centena de embarcações, senão mais. Muitas delas permaneciam ali – barcaças de pesca, navios mercantes e galés de guerra –, algumas ainda firmemente atracadas aos píeres, ao passo que outras eram continuamente devoradas pelas ondas e afundavam lentamente para as suas sepulturas de água. Acompanhando o porto, havia os restos de um mercado; dezenas de tendas das quais poucas mantinham-se de pé.
O corvo tentou imaginar a cidade em seus dias de glória. Milhares de pessoas deviam viver aqui, pensou. O porto deve ter sido muito movimentado, com tantos navios descarregando as suas mercadorias ou abastecendo-se com mais a fim de levá-las para terras além do mar. Os residentes provavelmente aproveitavam o fluxo de gente para venderem os próprios produtos e conseguirem o seu sustento. Nenhuma alma vagava por aquela região agora. As praças e os pátios deviam ficar lotados sempre que ocorria uma festividade, assim como também deviam estar sempre cheios as ruas e os templos. Seja lá como as coisas eram em outros tempos, tudo ficara no passado. Hoje, restavam apenas ruínas.
Mas era em algum lugar daquelas ruínas que um coração humano batia; quente, vivo. Tum, tum. Ouvia-o tão próximo que quase podia senti-lo. Onde? Onde está?
Perdido, ele voou até o teto meio destruído de uma velha estalagem e nele pousou. O prédio erguia-se cinco andares acima do chão, bem mais alto que a maioria das construções que o circundavam, e do seu topo era possível obter uma visão privilegiada de uma ampla área da cidade. O vento uivava, enfurecendo o mar e levando-o a jogar ondas violentas contra o porto. O ar estava carregado e o cheiro de ozônio anunciava a chegada da chuva. Essa não vai ser uma simples garoa, pensou, aborrecido. Uma tempestade vem aí. Seria melhor se encontrasse logo o que estava procurando. O corvo girou a cabeça suavemente, atentando-se a cada mínimo ruído que os seus ouvidos captavam. Podia identificar as batidas mesmo em meio a ventania e os trovões, os batimentos unindo-se aos sons da tempestade iminente para formar uma maravilhosa cacofonia. Tum, tum. O som era aveludado como a voz de uma donzela, doce e hipnótico. E tão, tão próximo…
Tum, tum, tum.
Ouviu com mais atenção. De repente, ele só tinha ouvidos para o coração. O resto do mundo tornara-se mudo; o vento, os trovões e as ondas distantes desaparecendo em silêncio. Tum, tum, tum…
Crocitou e levantou voo, batendo as asas com tanta força que algumas penas negras desprenderam-se e foram sopradas para longe. Voou brevemente até um templo imponente que reivindicava para si todo o espaço do topo de uma colina média no coração da cidade. Um grande chafariz com águas escuras e lodosas ficava aos pés da escadaria que conduzia à entrada do sacro edifício. O templo era magnífico de se ver. Uma vintena de colunas grossas e altas margeavam uma longa galeria coberta que terminava em largas portas duplas; quatro metros de altura de espessa madeira escura. Elas estavam quase fechadas, mas uma fresta estreita oferecia toda a passagem de que ele precisava. O interior do templo propriamente dito era muito amplo e espaçoso, um salão quadrangular tão alto quanto largo, com paredes de pelo menos dez metros de altura encimadas por um teto abobadado. As janelas ficavam vários metros acima do chão e eram numerosas, mas não muito maiores que seteiras, e, graças ao temporal que se aproximava, ofereciam apenas uma iluminação precária ao ambiente. Velhos archotes enfileiravam-se pelas paredes sem nenhuma chama que os acendesse. Duas fontes de pedra ladeavam as portas, secas e cheias de rachaduras. Poeira e teias de aranha reinavam absolutas ali dentro. Ele ouviu outro trovão, mas o mundo lá fora parecia distante ouvido dali.
Apesar do breu, enxergava com tamanha nitidez que era como se houvesse um sol dentro do templo. O maior chamariz do recinto era uma enorme pintura que ornamentava o piso empoeirado bem no centro do salão, tão velha quanto o próprio templo, mas ainda com a maioria dos detalhes bem preservados e visíveis. O desenho ilustrava um círculo formado por uma corrente com centenas de elos entrelaçando duas esferas em polos opostos, uma no sentido norte e a outra no sul; uma branca, outra preta. No interior do círculo, entre as suas irmãs, havia ainda uma terceira esfera, maior e colorida por um cinza desbotado. Embora aquela fosse a primeira vez que visse tal símbolo, o corvo sabia o que ele representava. Vida, morte e renascimento.
Duas estátuas esculpidas em mármore também faziam-se notar as suas presenças. Eram, no mínimo, tão altas quanto as portas que selavam a entrada do templo, com pelo menos quatro metros de altura cada. Tal como as esferas do círculo, elas ficavam posicionadas em direções opostas; estas, porém, nas paredes laterais do salão, uma de frente para a outra. A estátua ocidental era feita de mármore branco, trabalhada minuciosamente até nos mínimos detalhes. Assemelhava-se a uma mulher com os braços abertos num gesto acolhedor, coberta da cabeça aos pés por uma longa túnica branca. Seus cabelos eram compridos e estonteantes, caindo como as águas de uma cachoeira por trás dos ombros, à exceção de duas mechas que escorriam pelas laterais de sua face serena até a altura do pescoço. Os seus olhos estavam vendados, e, das costas, projetavam-se dois pares de asas, um do dorso e o outro da lombar.
A estátua oriental não era tão agradável aos olhos. Ao contrário da outra, que era branca, esta havia sido feita em mármore negro. Não era possível dizer se a sua forma era masculina ou feminina, pois um longo manto preto ocultava o seu corpo por inteiro e escondia as feições do rosto. Entretanto, a enorme foice que a figura carregava permanecia à mostra, um cabo muito longo terminado em uma assustadora lâmina em forma de meia-lua. As pessoas provavelmente adoravam um e temiam o outro, ele constatou. De todo modo, se os dois estão aqui, devem ser ambos importantes. Ademais, as duas imagens lhe eram vagamente familiares, embora ele não soubesse explicar o porquê.
Tum, tum. As batidas do coração ecoavam de tal maneira que a ele parecia que eram trovões explodindo dentro do salão. Moveu os seus olhos vermelhos, vasculhando cada canto, mas não havia nada para se olhar. Devia estar escondido, sim, mas onde? Bateu as asas e voou até um altar de pedra posicionado onde o piso era mais alto, de onde era possível contemplar todo o salão. Dois candeeiros a óleo estavam jogados sobre ele com as chamas há muito apagadas. Crocitou, e crocitou mais uma vez, como se esperasse que as estátuas lhe respondessem, mas tudo o que elas deram-lhe foi o mais profundo silêncio, e a única resposta que obteve foi a do próprio eco.
Então, sentiu um tremor sob os seus pés. Saltitou, momentaneamente surpreso, e depois olhou para baixo bem a tempo de ver o contorno do altar brilhar com uma luz fantasmagórica que oscilava do branco ao preto. Oh, isso é interessante. Quando o espetáculo luminoso cessou, o altar foi arrastado para trás por alguma força invisível, revelando uma escadaria que levava para as profundezas.
Uma passagem secreta para o subsolo. Não havia melhor maneira de esconder algo. Mergulhou para dentro dela. A escuridão era total na descida, mas havia luz na cavidade onde ela terminava. A luminescência advinha de um símbolo entalhado na rocha, o mesmo que tinha visto acima, porém menor. Luzes brancas e pretas, percebeu, Vida e Morte. Havia também outro altar, mais rudimentar, no meio do círculo sobre a esfera cinzenta.
Deitada no altar, havia uma garota. Tum, tum.
O corvo voou até ela, pousando cuidadosamente a seu lado. Observou-a, meio curioso, meio fascinado. Não era uma garota grande – provavelmente não devia ter mais de um metro e sessenta – e estava inteiramente coberta por um manto preto, de modo que apenas os pés descalços e o rosto estavam à mostra. Sua pele era nívea como um lírio, os cabelos, longos e prateados, fazendo-a parecer quase irreal. O peito subia e descia com a respiração. Pulou nele, as garras agarrando o tecido negro do manto, e estudou o seu rosto. Ela tem uma expressão serena. Viu-se hipnotizado por ela enquanto os batimentos ecoavam em seus ouvidos. Agora, não apenas o ouvia, mas também o sentia pulsar pela vida. Então é essa a sensação que passa um coração humano.
O rosto da garota se contorceu. Então, ela abriu os olhos.
Notas finais
Até o próximo capítulo. Tchau! xD
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