Alma
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Correu até seus pés começarem a doer. Já era tarde da noite quando chegou ao parque para procurar a sombra de olhos dourados. Por onde olhava, via apenas árvores e algumas pessoas andando pelas faixas abertas propriamente para pedestres. Algumas caminhavam de forma apressada, certamente por estarem cansadas depois de um dia exaustivo no trabalho, esperavam chegar logo em suas casas e descansar. Já outras, curtiam a brisa suave de uma noite agradável de verão enquanto riam e bebiam com os amigos. A garota não se atentou aos seres humanos ali presentes, seu objetivo era alguém, ou melhor, algo que olhos comuns não poderiam enxergar. Tropeçou algumas vezes enquanto olhava a sua volta e, por pouco, quase desistiu de sua busca, contudo, em um lugar remotamente afastado do chafariz central, a garota encontrou quem procurava.
A presença disforme vagava lentamente para longe dos humanos, certamente com receio pelo o que aconteceu durante o dia. Desde o momento em que viu a moça correr para longe de si, uma dor profunda penetrou o lugar onde julgava possuir um coração. Ao menos, era isso o que imaginava. Lembrou-se vagamente da sensação que tivera, anos atrás, quando a viu pela última vez. Era semelhante. Como se uma enorme estaca de madeira perfurasse seu peito e pulmão, impedindo-o de respirar devidamente. Se ele fosse um ser humano, certamente descreveria a dor como alguém prestes a ter sua vida levada pela Morte. Agora, horas depois do ocorrido, sentia a calmaria reinando em seu âmago outra vez. Parou por um breve momento e raciocinou com calma. Sabia que a jovem era capaz de enxergá-lo, mas não com nitidez, então a culpa pela confusão fora, acima de tudo, dele. Vagou até encontrar um lugar relativamente agradável, podia ouvir as risadas dos humanos brincando entre si naquela noite quente. A água proveniente do chafariz no centro era a atração favorita dos jovens que, vez ou outra, davam-se o prazer de jogar o líquido translúcido uns nos outros. E, pela segunda vez, o ceifador invejou a vida humana.
Lamentando, voltou os olhos para a lua e começou a questionar o que faria dali em diante. Era mais do que certo que ele deveria se afastar daquela alma, mas parte de si, a que não deveria se manifestar, gritava copiosamente para que ele a visse outra vez. Suspirou diversas antes de ter sua atenção roubada pelo aroma doce de vanilla. Aquele cheiro era mais do que reconhecido por ele e, logo, seus olhos estavam voltados para a garota que, horas antes, havia fugido de si.
Sua primeira reação foi simples. Assustado por vê-la ali, o instinto de fugir para um lugar que não a deixasse com medo falou mais alto, portanto, seus pés começaram a se mover para longe, mas pararam ao ouvi-la chamando por ele. Obviamente, a jovem não sabia se o ceifeiro tinha um nome, muito menos tinha pleno conhecimento sobre o que era, mas algo dentro dela dizia que aquele ser jamais a machucaria. Ele paralisou. Ela não poderia estar falando consigo, poderia? A confusão em sua mente se desfez quando, de forma calma e decidida, a garota se aproximou.
— Você não pode ser visto por olhos comuns, pode? — Ela já sabia a resposta. Contudo, a mente humana é deveras curiosa, mesmo quando o óbvio está diante de nós, ainda precisamos confirmar para termos certeza que não estamos enlouquecendo. O homem relutou em responder, mas assim que o fez, a jovem respirou fundo antes de seguir com as perguntas.
— Não vai me machucar, vai?— Ele sabia que ela ainda estava assustada. Os olhos demonstravam isso enquanto o encaravam. No entanto, ela parecia mais confiante em chegar ao fim daquele mistério. Ele não sabia como poderia respondê-la, de certo, jamais a machucaria, mas como fazer que entendesse isso, uma vez que não poderia escutá-lo, ou enxergá-lo nitidamente? Com calma, se aproximou de uma pequena porção de folhas jogadas no chão e com cuidado, organizou-as de forma que palavras pudessem ser lidas através delas. Pessoas comuns diriam que o vento, coincidentemente, havia soprado deixando a frase formada, só que ali, apenas a garota sabia que aquilo era obra de alguém.
“Não a machucarei.” Uma frase simples, mas que de certa forma a acalmou. Suspirou e encarou os olhos dourados que, nesse momento, expressavam tanto. Ele parecia surpreso, um tanto preocupado, mas certamente a surpresa era maior. Sentiu vontade de rir e não se segurou. O ceifador, confuso com a atitude da moça, apenas a encarou esperando que ela se acalmasse e dissesse, por fim, o que queria dizer.
— Desculpe. Isso é tão engraçado...
Sua intenção jamais fora caçoar do ceifeiro, no entanto, a situação em que estava era, deveras, inusitada. Explicou de forma rápida o quanto vinha tentando fugir daquilo que apenas ela conseguia ver, de como tentava se ajustar aos comportamentos normais e como se sentia todas as vezes que algo sobrenatural a encontrava. Agora, aqui estava ela, procurando por si mesma um ser que apenas os olhos podiam se ver nitidamente.
—Eu, definitivamente, enlouqueci.
Soltava a frase vez ou outra quando sentia que atingira os limites da normalidade. Já cansada, sentou-se na raiz de uma árvore qualquer e encarou o ser. Passaram-se minutos e palavra nenhuma era ouvida. Ficaram nisso por, quem sabe, horas, até que o ceifador começou a se sentir desconfortável com o silêncio da garota, não que ele não apreciasse a companhia, mas sentia que ela estava incomodada. Talvez ela esperasse que ele fosse embora, que a deixasse em paz. Depois de tanto medo que sentiu, era normal esperar tal atitude e, sem pestanejar, virou-se para partir.
— Não vá! Desculpe, é só que estou tentando assimilar. Não estou com medo, pelo menos, não agora.
Felicidade? Era essa a palavra que definia o que sentiu ao ouvir as palavras saindo da boca da garota? Não sabia ao certo, mas, sem dúvidas, era a primeira vez que experimentara tal sensação. Ele sorriu, como nunca sorriu antes e ela o acompanhou. Como sabia que ele estava sorrindo? Bom, os olhos são as janelas da alma, certo? Naquele momento, ela pode ver a alegria refletida na íris dourada, dando-lhe a certeza que ele não era ruim.
Conversaram da melhor maneira que conseguiam. Ela lhe fazia perguntas e ele ajeitava as folhas como resposta, depois de certo tempo, ficara fácil compreender cada palavra. Horas mais tarde, ela finalmente se levantou para ir. Teria um dia cheio e precisava descansar, mas não saiu antes de dizer-lhe que o encontraria novamente no próximo dia. Ele concordou e ficou olhando para a garota conforme ela se afastava. Aquele dia fora cheio de surpresas e a ânsia pelo próximo era mais evidente. Definitivamente contaria os minutos esperando vê-la de novo.
*---*
— Era você quem estava na ponte naquele dia, em meu aniversário de quinze anos?
A pergunta fora feita aleatoriamente. Estavam no apartamento da garota e conversavam sobre coisas banais. O mais engraçado era que, de tantas coisas que ela poderia lhe perguntar, jamais tocou no assunto sobre o que, de fato, ele era. Ele também não se incomodou em dizer, afinal, essa amizade nem sequer poderia existir, portanto, quanto menos ela soubesse, melhor seria. Estava chovendo, o outono dava indícios de que logo se iniciaria. Devido ao clima, o ceifeiro usava as janelas embaçadas para responder a garota. Ela sentava a sua frente, em uma pequena poltrona posicionada propositalmente para a janela, onde podia ter a melhor visão do apartamento. Estava de moletom, os cabelos presos em um coque e os olhos, agora mais calmos e gentis, olhava as gotas de chuva escorrendo pelo vidro translucido. Uma xicara de café aquecia a mão que, vez ou outra, levava o conteúdo até os lábios. Ela aguardava a resposta, mas não tinha pressa, estava apreciando o momento, por mais estranho que fosse. Quando ele confirmou, ela logo se pôs a pensar. Fora a primeira vez que a vira?
“Foi no décimo aniversário.”
Ela o encarou, se estava com ela a tanto tempo, porque não conseguia vê-lo antes? O rapaz explicou, da melhor forma que conseguiu, que havia certas circunstâncias que permitiam a ela poder ver aquilo que humanos comuns não conseguiam, deixando claro que só era possível em raros casos e ela, indubitavelmente, era um deles.
Se soubesse o quanto sua vida ficaria mais simples se apenas tivesse permitido conhecer mais sobre aquilo que a assustava, por certo, viveria de forma mais relaxada. Agora, seus dias eram cheios de encantos que jamais permitiu-se conhecer. Ela podia enxergar, mesmo que não nitidamente, pequenos seres que habitavam a margem distante, eles eram pequenos fragmentos de um ciclo de vida. Passou a compreender melhor os seres humanos em sua totalidade e a respeitar cada ser vivo, fosse plantas, animais, humanos ou até mesmo espíritos.
Passaram-se dias e a rotina que ambos construíram alegrava o coração da garota. Ela chegava a contar cada segundo do tempo, esperando poder conversar com seu novo amigo, os encontros eram sempre em locais que poderiam se sentir à vontade, sem a interferência de outros que, no mínimo, julgaria a jovem como maluca. Certo dia, quase se aproximando do final do outono, a moça subitamente decidiu visitar a vila onde viveu com a avó. Ela se lembrou de um festival que ocorreria ali e, pela primeira vez, se sentiu animada para observar melhor cada pequeno detalhe. Estava ansiosa, afinal, ouvira que o festival era realizado para os espíritos que não partiram, tivessem a oportunidade de brincarem uma última vez. Não sabia o quanto daquilo era verdade, no entanto, era fato de que existiam pequenos seres que se alegravam com o evento. A noite era fria, porém, agradável. Ela não usava roupas tradicionais, mas irradiava a mesma beleza e alegria que muitas pessoas ali. O ceifeiro a acompanhou durante todo o tempo, observando cada gesto e cada sorriso que ela dava as pessoas. Foi curioso vê-la assim, até dias atrás a garota era introvertida e evitava ao máximo socializar com qualquer outro humano, mas agora, sorria com mais facilidade e brincava com mais naturalidade.
Em determinado momento, o ceifeiro começou a se afastar e ela, confusa, o seguiu. A todo momento ele a olhava para ter certeza que não havia se perdido e só continuava depois que ela estava perto. Chegaram em um lugar bem afastado, duas árvores grandes formavam um enorme arco, havia pequenos animais noturnos que vagueavam pelo lugar, mas a atenção da garota foi tomada pelos pequenos seres brilhantes que flutuavam no ambiente. Era um lugar simples, mas encantador. Eles a rodeavam e emanavam uma luz hipnotizante, outros pousavam em seus ombros, cabelos e na palma da mão. Havia um calor reconfortante quando eles roçavam sua pele e, naquele momento, teve certeza que jamais sentiu sensação mais agradável. Ela sorriu e ele a acompanhou. Quando a garota voltou seus olhos para o ceifeiro, surpresa era a melhor palavra para a descrever. Não viu a massa negra e disforme com olhos dourados, mas sim, um rapaz alto e de pele pálida, cabelos acastanhados e uma doce expressão no rosto. As roupas eram negras, acompanhadas do sobretudo também na cor escura.
— Como é possível?
Não deixou de olhá-lo em nenhum momento. Embora tivesse uma forma mais nítida para ela, ainda era possível ver que ele era um ser da margem distante, sua pele parecia refletir as luzes dos seres ali presentes. O ceifeiro se agachou, tocando um pequeno broto de flor ao pé de uma das árvores, fazendo-o se abrir imediatamente. Ele tomou a flor nas mãos e entregou a garota que, de pronto, aceitou. Olhando para ela, respirou fundo antes de começar a narrativa. A cena seguinte, ela jamais esqueceria.
Embora o ceifeiro gesticulasse com os lábios a história do lugar, som algum saia de sua boca, no entanto, uma voz grave e saudosa soava suavemente no subconsciente da jovem.
“Antes de tudo o que fora feito, antes dos seres humanos vierem a existir. Aqui fora o lugar onde seres como nós residiam. A energia fluída da terra e o poder Daquele-Que-Dá-Vida emanava através dessas árvores. Esse é o meu lar, meu lugar de nascença e meu local de descanso.”
— O que você é?
A pergunta feita o pegou desprevenido. Sabia que em algum momento ela perguntaria sobre isso, mas devido sua natureza, jamais poderia contar-lhe a verdade. A jovem logo percebeu que aquela não era uma pergunta que poderia ser respondida assim, então tratou de mudá-la. Não sabia o que poderia acontecer caso ouvisse algo que não deveria. A expressão no rosto masculino deixou-a satisfeita, pois entendeu que ele não tinha intenção de mentir para si, mas que havia limites que não poderia passar.
— Então, porque posso vê-lo aqui, e não no vilarejo?
“A minha energia é mais forte aqui, assim, minha essência também é mais evidente. Felizmente, esse não é um lugar que humanos comuns podem chegar com facilidade, então é o lugar mais sagrado da região.”
Ela tinha muito o que lhe perguntar, queria sanar todas as dúvidas que existiam sobre a margem distante, ele respondeu todas que podia, mas teve que ocultar a maior parte. Entre as que podia responder, falou sobre a natureza do festival e sobre como, na verdade, o propósito fora mudado através dos anos. O festival havia sido criado apenas para que humanos e espíritos tivesse um contato maior na antiguidade. Pela energia ser maior naquela época, era possível conviver em harmonia uns com os outros, contudo, através das eras a raça humana foi mudando e os velhos costumes desaparecendo. Ficaram horas conversando sem se preocupar com nada além deles mesmos, brincavam com os pequenos seres e divagavam sobre o passado. Quando o sol estava para nascer, o ceifeiro notou um pequeno ressoar vindo da garota, ela havia adormecido sem ao menos pestanejar. Sentia-se segura. Sentia-se protegida. Lembrou-se de anos atrás, do momento em que levou a alma do homem que a protegeu e, por fim, entendeu. Ele também não queria que aquele sorriso desaparecesse.
*~~~~~*
Estava frio, os cabelos soltos moldavam o rosto angelical da garota que agora saia do restaurante com suas colegas de trabalho. Ela havia se tornado uma pessoa mais receptiva e descobriu que não era ruim sair, vez ou outra, para conversar com as pessoas. Tinha encontrado uma grande amiga com a qual podia compartilhar suas histórias de vida. A outra jovem, loira e de risada contagiante, era fascinada por histórias sobrenaturais e acreditava piamente em tudo o que a garota dizia. Sentia-se triste por não poder ver os habitantes da margem distante como a amiga, mas se animava sempre que a outra dizia que havia um pequeno ser por perto. O ceifeiro havia se afastado, por motivos que a garota não entendia. Depois daquela noite do festival ela o esperou para poder conversarem mais, contudo, a espera tornou-se longa demais. De certa forma, estava magoada. Ela queria vê-lo e queria apresentar a nova amiga, só que ele não parecia querer vê-la. A amiga notara o quanto a moça estava chateada e não tardou em procurar meios para levantar o astral da morena. Saíam, brincavam, comiam. Os dias eram todos repletos de risadas e momentos que ambas guardariam pela eternidade.
Quando saíram do restaurante naquela noite, ambas se dirigiam para o apartamento da loira, ia pousar por lá pois se sentia sozinha demais em sua casa. Conversa vai, conversa vem e enquanto a loira preparava um pouco de chá para poderem dormir, ela simplesmente indagou a jovem sobre o que sentia em relação ao espirito que a acompanhava. A garota engasgou com a pergunta recebida, ela, de fato, não havia pensando sobre sentimentos. Mesmo agora, para ela era incerto o que pensava em relação a amizade com o rapaz. No dia seguinte, após o café da manhã, saíram para aproveitar o dia no parque quando a morena o avistou. Ele estava parado onde conversaram pela primeira vez. Sua massa escura escondia os olhos dourados que, olhando mais perto, pareciam extremamente abatidos. A jovem falou para a amiga que ele estava ali e ela, prontamente, deu espaço para eles conversarem. Antes de sair, a loira tentou de todas as formas enxergar o espirito, mas foi completamente em vão. Desistindo, acabou por ir embora.
Ela estava brava, talvez um tanto feliz por vê-lo, mas certamente furiosa. Estranhou a fúria da garota, nunca a tinha visto assim, então logo pensou que algo errado havia acontecido.
—Esperei por você... Por horas, ou dias, na verdade... Achei que jamais voltaria.
As últimas palavras vieram embargadas. Ela fungou, não queria demonstrar que sentira tanto a falta daquele ser. Muito menos queria demonstrar mais do que podia, pois, parte de si sabia que aquilo era impossível. Ele fechou os olhos com pesar, o que fez com que ela estranhasse e perguntasse se algo tinha acontecido. Ele negou vagorosamente. A verdade é que nada aconteceu, ou melhor, nada envolvendo a margem distante. Já seu interior, era algo completamente diferente. Estava angustiado, a todo segundo queria correr para o lado da garota e embriagar-se com seu cheiro. Sorrir com seu sorriso. Ouvi-la cantarolar. Estava dependente demais de uma alma humana e sabia que aquilo não estava certo. Por isso decidiu se afastar, mas era cada vez mais difícil de se fazer.
“Me desculpe.”
Foram as palavras escritas através das folhas. Ela suspirou, sabia que não arrancaria muito daquele ser, mas tentou manter a calma. Perguntou se ao menos tinha sentido sua falta, e se arrependeu logo depois. Ela não queria demonstrar, mas estava falhando miseravelmente nisso. Ele não respondeu, mas seus olhos lhe disseram mais do que ela esperava ouvir. Por um momento, pode ver os resquícios de pequenas lágrimas se formarem na íris dourada. Ela nada disse, mas seu coração bateu como louco. Limpou a garganta para disfarçar a vergonha se formando em seu rosto, já denunciada pelas maçãs tingidas de vermelho. Tratou de sentar-se ao seu lado e começou a dizer coisas banais. Como estavam sendo seus dias, sobre sua nova amiga e em como ela era fascinada por seres como ele. Ele sorriu, embora ela não tivesse notado. Sentiu tanto a falta da garota que, naquele momento, decidira jamais se afastar novamente. Invejar a vida humana estava cada vez mais corriqueiro. Ele teria ficado ali por horas se não fosse o dever com o trabalho. Tinha recebido um cartão naquela tarde com o nome da próxima alma e não seria um trabalho fácil, porém, tinha que o fazer. Ele disse a garota que precisa ir, mas que voltaria mais tarde para vê-la, isso a deixou mais contente.
Havia esfriado consideravelmente. O inverno tinha, enfim, chegado. Era por volta das nove da noite quando o ceifeiro chegou no seu destino. Um beco nenhum pouco movimentado. Havia um bar por perto onde homens bêbados já davam o ar de sua graça. O trabalho seria um tanto perturbador. Uma jovem seria estuprada após ajudar um amigo bêbado a entrar no taxi e deixada a mercê da sorte após levar uma facada. O ceifeiro odiava humanos como aqueles e desejava a todo momento que sua Senhoria lhe desse o pior dos castigos. Dois homens, uma jovem. Repugnante, aterrador.
O momento se aproximou, e ele já avistava os homens, ou melhor, monstros que cometeriam o ato. Bêbados, drogados. Destilavam atrocidades para as pessoas que passavam na rua sem se importar com nada mais do que suas próprias desgraças. A jovem se aproximou, ela brigava com o amigo embriagado, nem sequer percebendo que corria perigo. Se pudesse não recolher aquela alma, assim o faria. Mas tinha que obedecer. O taxi parou, o amigo entrou e a garota tratou de dar as informações para o motorista. Ele logo partiu e ela se virou para ir, mas não antes de atender o celular. Alguém lhe perguntou do outro lado da linha onde ela estava e não tardou a responder. Parecia que alguém estava perto e viria encontrá-la, o ceifeiro, pela primeira vez, desejou que alguém conseguisse mudar o destino daquela jovem, mas aparentemente, seria muito tarde.
Loira e atraente, tão jovem e bonita. Não vestia roupas que mostravam o seu corpo, mas quem disse que isso era motivo para aqueles homens? Ela sorriu ao se despedir da pessoa no telefone e aguardou. O ceifador teve uma súbita sensação de já tê-la visto. Só não se recordava onde.
Os homens se tornaram barulhentos e a jovem, enfim, notou o perigo. Ela começou a se afastar, lágrimas surgiam nos olhos esverdeados. Eles foram implacáveis, correram para ela e a bateram. Chorava e implorava por ajuda e o ceifador só podia aguardar que aquilo terminasse logo. Retiraram o casaco pesado que vestia e rasgaram sua blusa. Ela gritava implorando que parassem, mas sua voz era abafada pelos gritos estridentes daqueles monstros. O ceifador fechou os olhos revoltado e se segurou firme para não avançar. Não queria aquilo.
De repente, tudo parou para ele.
Variáveis, ele jamais as odiou tanto quanto nesse momento.
Na entrada do beco, a última pessoa que queria ver corria até a jovem. Os homens pararam, ambos a olhavam. A garota, a quem tanto apreciava, saltou ao encontro das outras três no beco. Ela gritava e dizia para se afastarem da amiga, nem sequer notou que o ceifeiro estava ali. A loira dizia para fugir e chamar por ajuda, mas a garota a ignorava. O ceifador gritou, implorou para que ela saísse dali, contudo, a garota não podia ouvi-lo. Ela atacou o primeiro homem, o chutou e socou, na esperança de que ele soltasse a amiga. Bom, ele, de fato, a soltou. Apenas para ter a morena como alvo. Algo no âmago daquele ser hediondo excitava a selvageria reprimida dentro de si, fazendo com que o desejo pela moça fosse maior do que pela loira. Seu amigo tratou de acompanha-lo, se ela queria tanto salvar a amiga, que estivesse disposta de se entregar no lugar. Os homens sorriram e o ceifeiro se afligiu. A loira, que não deixaria que a machucassem, pegou o celular e discou o número da polícia, informando o que estava ocorrendo. Era questão de tempo agora, só precisavam conseguir escapar. Ela avançou, mas um dos homens a empurrou fazendo com que caísse e machucasse a cabeça, deixando-a desfalecida.
A cada segundo o pavor era maior e o ceifador, já sem esperanças, procurava formas de salvar sua garota. Estava farto e seu furor se acendeu quando um dos homens socou o rosto tão delicado da morena. No fim, ele quebraria a maior regra. Iria interferir na vida humana. Sem pestanejar, aproximou-se do outro homem que segurava os braços da garota e, rapidamente, possuiu o seu corpo. Não podia fazer isso por muito tempo e, de certo, sua existência se extinguiria. Mas, pelo menos, a salvaria. O homem possuído soltou a jovem e avançou para cima do companheiro que nada entendeu. Eles lutaram e xingamentos eram ouvidos por parte do humano, o ceifeiro deixou-o à beira da morte antes de se virar e encarar a garota que, nesse momento, chorava assustada.
— Eu... Sinto... Muito...
Não compreendeu no começo, mas ao ver os olhos dourados que tanto aprendeu a amar no rosto daquele humano, entendeu quem, de fato, estava naquele corpo. Ele viera por si, não entendia como, nem o porquê, mas ele estava ali para ela. Não precisava de desculpas daquele ser, estava grata e isso bastou. Ele estendeu as mãos para ajudá-la e ela aceitou. Era assustador, de fato, receber ajuda do mesmo homem que a atacara, mas sabia que não era ele ali. Ela abriu a boca para indagá-lo, porém, um movimento suspeito a calou repentinamente. O ceifeiro esperou pelas palavras da garota, mas a sequência de fatos veio mais rápido do que as lembranças das almas que ceifava.
O homem que havia caído levantou-se com uma faca apontada para o corpo que o ceifador locava. Avançou prontamente para matar o companheiro, contudo, a garota usara suas únicas forças restantes para empurrar o homem para o lado e receber o golpe em seu lugar.
Seu mundo parou.
Ela caíra ensanguentada.
Não havia mais volta.
Suas forças o abandonaram após soltar um grito ensurdecedor. Não pensou em avançar sobre o ser que machucara sua pequena e devolver-lhe com a mesma moeda. Deixou o homem que possuía e se achegou diante aquela a quem seguiu por anos. Ela o olhava mais nitidamente do que nunca e, com esforço, sorriu. Levando seu corpo ao limite, estendeu as mãos e tocou o rosto do ceifador e, nesse momento, lembranças atingiram as memórias do ceifeiro.
Nunca experimentara lembranças mais claras do que aquelas. A maneira como se lembrava do pai era tão nítida que parecia que não havia se passado tantos anos. Logo depois, as memórias de acordar no hospital e começar a ver os pequenos seres da margem oposta, a forma que aquilo a assustou e em como começou a se retrair mais. A imagem da avó, a tratando com tanta delicadeza e amor, e em como os dias que viveu ao seu lado eram repletos de alegrias. No entanto, as imagens que mais chamaram a atenção do ceifeiro foram as do festival.
Ele não sabia como era visto pelos olhos da jovem até então, mas ver a si mesmo era um tanto curioso. Riu entendendo o porquê dela se assustar tanto com a primeira aproximação. Até mesmo ele se assustaria. Contudo, o mais surpreendente foi que ela procurou saber mais sobre ele. Colocou as mãos grandes sobre as dela e não pode deixar de sorrir. Ela se sentia confortável ali e então, mais lembranças vieram. O primeiro namorado. O primeiro beijo. A primeira vez. Era obvio que havia vivenciado cada sensação humana que poderia e o ceifador se alegrou com isso. Ela era feliz e isso lhe bastava. As lembranças percorreram caminho até chegar ao parque, no dia em que a garota se assustara com ele. Franziu o cenho, jamais teve a intenção de deixa-la assim e, agora, ela sabia disso. As lembranças vinham e a cada nova informação o coração do ceifador doía. Ele podia sentir a felicidade da jovem ao iniciarem aquela estranha amizade. E, naquele momento, o rapaz compreendeu diversas sensações que não conhecia até então. Euforia, alegria, hesitação, carinho... Amor.
Os olhos dourados encararam os da garota mais atentamente. Ela lutava para mantê-los abertos e poder transmitir tudo o que queria para ele. As lembranças vagaram até a noite do festival que passaram juntos, em como ela se encantara com o que ele a mostrara e do momento que, apenas eles, viveram. Uma gota d’água pingou no rosto pálido da garota. Estranhou, não estava uma noite chuvosa, apesar de que o frio era cortante. Foi só então que percebeu que, na verdade, não era chuva. Ele chorava. Por ela, por ambos. A jovem abriu os lábios, mas ele a silenciou. Um beijo cálido, não passava de um simples roçar de lábios, mas que fora capaz de transmitir tudo o que sentia.
O tempo findou-se. Tanto para ela, quanto para ele. Não voltariam a se ver, todavia, as palavras ditas naquela noite, nenhum jamais esqueceria.
“Eu amo você.”
Fim!
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