Alma

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Feliz ano novo :)

Era o último dia de outono. Naquela tarde, as gotas da fina garoa caiam preguiçosamente sobre o rosto pálido do homem. Ele aparentava ser jovem, não possuindo mais do que trinta anos. As roupas negras, em nada tiravam a beleza das feições fortes e masculinas e, apesar do sobretudo pesado, o homem caminhava a passos leves e suaves.

Sua profissão era incomum a olhos humanos. Devido à tal natureza, podia ouvir histórias e recolher memórias enquanto as colecionava. Sim, se considerava um colecionador e guardar as lembranças das pessoas que vinham até si, trazia-lhe satisfação. Como já dito, sua profissão era incomum, mas se orgulhava dela. Era um ceifador. Como alguém encarregado de levar as almas para outro plano, dava a si próprio o direito de conhecer mais sobre o mundo humano e de como eles viviam. Era a forma que havia encontrado para entender mais sobre aqueles que tanto invejava.

O fascínio nos olhos dourados era visível a cada nova alma ceifada. Quando chamava-a pelo nome, as lembranças vinham como águas torrenciais e a cada informação, mais a sede pelo conhecimento dominava-lhe. No entanto, apesar da admiração e inveja que sentia pela vida humana, jamais almejou se tornar um. Ele invejava a forma de como tudo pareciam simplório, invejava a ignorância e, acima de tudo, invejava o amor que demonstravam. Tendo sido criado por Aquele Que Controla A Vida, foi inibido da capacidade de sentir emoções que poderiam prejudicar seu instinto natural, por tanto, jamais experimentou o amor, jamais sentiu o carinho e nunca compreendeu o conforto passado pelo abraço de alguém querido. Havia, porém, algo que não invejava: as limitações. Os seres humanos eram abençoados pela ignorância, todavia, quando se permaneciam absortos por tanto tempo nela, os limites logo se mostravam presentes e, em grande maioria, impedia-os que conquistassem uma vida repleta de felicidades. Ele detestava essa parte.

Agora, caminhando pela calçada, seguia o rumo designado a ele. A próxima alma estava pronta para ser levada e, dessa vez, não esperaria por uma grande história. Já no lugar designado, aguardou até o momento derradeiro e, conforme o tempo se aproximava, avistou aquela que, em breve, encontraria seu fim. Olhou o cartão com o nome da pessoa e suspirou, a causa seria devido a um acidente de carro e era tudo o que precisava saber. Segundo a informação que recebera, a alma morreria na hora e não iria agonizar em dor. Assim era melhor, detestava quando a morte – ou sua senhoria, como costumava a chamar -vinha de forma lenta e dolorosa, ainda mais naquela situação.

O momento chegou e o ceifeiro aguardou a fatalidade acontecer. Caminhando a passos alegres e animados, uma pequena garota – que não aparentava ter mais do que dez anos – segurava a mão forte do pai. Eles sorriam um para o outro e o ceifador, curioso, aguçou os sentidos para ouvir as palavras do homem para sua filha. Falavam banalidades, conversavam sobre o dia da pequena na escola e sobre o que gostariam de comer assim que chegassem a lanchonete. Faziam planos e nem ao menos imaginavam que os mesmos seriam interrompidos em poucos segundos. Após o sinal ser aberto, a criança soltou a mão forte do pai e começou a atravessar a rua enquanto ele a observava com um singelo sorriso, porém, o sorriso logo se desfez quando, ao longe, pode escutar o barulho de um carro desgovernado. A hora havia chegado. A criança seria levada.

O ceifador, que já aguardava pela alma da menina, suspirou. O carro não conseguiria parar a tempo e estraçalharia o pequeno corpo infantil. E, conforme os eventos, já podiam ouvir o barulho que ditaria o fim precoce de mais uma vida. Contudo, algo inesperado mudou o rumo dos acontecimentos. O pai da garota que permanecia em estado de choque, logo se moveu e, de forma desesperada, empurrou o corpo da filha para longe sendo atingindo em seu lugar. O silêncio prevaleceu no local. Nem mesmo o ceifador ousou dizer uma palavra. Agora, deitado no chão coberto pelo seu próprio sangue, o homem sentia a fina garoa tocando-lhe a face enquanto ouvia o choro estridente de sua pequena garota a lhe chamar.

Isso não deveria ser possível. O nome a ser ceifado não pertencia ao homem e sim a filha, no entanto, aquele humano que agiu tão imprudentemente, seria levado no lugar da pequena. Não podia compreender, em todos os anos em que serviu a Morte e ao Todo-Poderoso, jamais presenciou tal ato por parte dos humanos. O auto sacrifício era algo que poucas pessoas tinham coragem de fazer e, apesar de ter ouvido relatos por parte de seus companheiros de trabalho, nunca imaginou que encontraria alma tão digna assim.

Mesmo atordoado, viu o nome do homem ser escrito no lugar onde o da filha estava e, incrédulo, ouviu as últimas palavras do pai. Com lágrimas nos olhos, a pequena ouvia as orientações do progenitor e concordava com a cabeça, afirmando que o obedeceria, mesmo que ele não estivesse fisicamente ali para instruí-la. Ele dizia que a amava e ela repetia continuamente para que o pai não a deixasse sozinha. A cena fez o ceifador recobrar os sentidos e, enfim, chamar o homem para conduzi-lo.

— Está na hora. Venha.

Não houve protestos e, com um último suspiro, a alma foi levada pelo ceifeiro.

Eles caminhavam lado a lado, nenhuma palavra foi dita. Conforme o percurso seguia, o homem, vez ou outra, deixava lágrimas caírem pela face e o ceifador não compreendia o motivo delas. Se ele se arrependeria tanto por ter morrido no lugar da garota, por que, então, havia trocado sua vida pela dela? Ele o indagou e o pai, de maneira simples e modesta, o respondeu que havia feito pelo amor que sentia pela filha e que a vida da pequena valia muito mais. Ele não se arrependia por ter feito o que fez, não achava que era injusto ter sido interrompido justamente quando estava progredindo no trabalho. Estava satisfeito, orgulhoso. As lágrimas não eram de arrependimento e sim de felicidade por ter vivido uma vida plena e feliz.

O ceifeiro, por fim, o levou até o lugar onde sua alma descansaria, mas antes de fazer a passagem, ele indagou o pai mais uma vez, perguntando o motivo do sacrifício. Afinal, nenhum ser humano, em seu juízo perfeito, gostaria de enfrentar a morte quando ainda havia tanto para se viver.

— Não queria que desaparecesse. O sorriso dela sempre foi o que me dava forças.

E com isso a alma, enfim, se foi.

*~x~x~*

Notas finais
:)