Alluring Aboard

1 Parte I - Decisões.


Notas iniciais
Espero que gostem.
Boa leitura!

1

Acontecia todos os anos, quase como um ritual. O som da campainha não era mais um ruído que chamava a atenção dos que já estavam presentes na sala. Pessoas e mais pessoas entrando a todo instante pela porta. Pacotes grandes e pequenos, embrulhados em papéis das mais variadas cores iam se amontoando no único canto em que fora possível de se colocar.

A mesma música alta do cd que ganhara no natal passado circulava por toda a casa. Podia ser ouvida de forma abafada do outro lado da rua.

Tudo tendia para ser mais uma das festas de aniversário que Violet ganhara todos os anos do pai.

Os mesmos rostos dos quais nunca apareciam em qualquer outra ocasião. –nem mesmo com o fim do casamento de seus pais, nenhuma visita ou ligação fora recebida. –apenas sua festa parecia motivá-los a sair de casa e se embebedar de todo o vinho que era trazido para celebrar.

Seu sentimento era uma vontade cruciante de sair correndo pela porta e sumir daquilo que pensava ser enojante.

Sem delongas a vontade que vinha de anos, se tornou uma decisão no dia do seu vigésimo sétimo aniversário.

A perplexidade de Connor podia ser notada por todos que assim como ele, ouviram o pronunciamento de Violet. –embora não demonstrassem o mesmo espanto.

-Partirei ainda hoje, pai – disse Violet em tom seco, contendendo um sorriso que estava por vir assim que as palavras saíram de sua boca. Ainda era estranho aceitar que finalmente tomara uma decisão.

Encostado ao batente da porta do quarto Connor tentava sem sucesso dissuadir a filha.

- Noruega?! Escuta o que você está dizendo! –disse inconformado, com as mãos juntas ao rosto.

Violet apenas assentia. Não demonstrava preocupação à aflição do pai.

- Estamos em Jersey, Estados Unidos! O que tem de errado com aqui?! –continuava Connor.

Violet entrara no banheiro ao lado do quarto. Remexera em todo armarinho do espelho e o esvaziara.

O som da voz de Connor que apesar de abafada pela música alta, não podia mais ser suportada por Violet.

Não respondera a mais nenhuma pergunta do pai, guardava com agilidade na mala preta e grande as únicas coisas que faltavam.

-Droga Violet! –agora se zangara. -Responda-me! Qual o seu problema?! O que tem de errado em viver aqui?!

Surgiu algum silêncio e então a resposta.

-Você! –gritou Violet com toda a força.

Connor com as sobrancelhas arqueadas tentava entender o que acabara de escutar.

-Eu não aguento mais ter que ficar nessa casa! Não aguento mais ter que olhar pra essa gente que você insiste em trazer aqui, ano após ano e fingir gostar dessa palhaçada! Chega de ver você se arrastando para a mamãe voltar para você! Do trabalho nesse escritório... Chega!

Espantado ele continuara na porta com o olhar fixo para a filha. A resposta havia lhe soado de forma mordaz e sem piedade. Reagiu apenas descendo as escadas em silêncio, sentando na poltrona verde de couro na qual permanecia todos os dias.

Violet pegara sua mala já pronta e a jaqueta jeans sobre a cama.

Dera uma última olhada para o quarto no qual passara sua vida toda, deixando para trás apenas alguns livros sobre a estante –a maioria empréstimos da biblioteca- e poucas roupas restantes no guarda-roupa. Então desceu as escadas.

-Não será por muito tempo. –disse a Connor sem que ele se virasse para vê-la.

Dessa vez não dera uma última olhada para a casa. Nem ao menos para o pai. Girou a maçaneta e partiu para o táxi que a esperava na porta.

-Aeroporto, por favor. –sussurrou para o motorista.

2

A corrida não tivera muito custo, já que o aeroporto não ficava a muitos quilômetros de sua casa. O ruído das turbinas podia ser ouvido nitidamente durante o dia. Possivelmente um incomodo para os moradores, mas não para Violet, que apenas sentia sua vontade por viajar aumentar a cada decolagem ouvida.

Os anos em que trabalhara no escritório por mais estressantes que fossem a possibilitaram de ganhar um bom dinheiro e com isso guardar grande parte em sua poupança. Embora fosse Violet quem pagasse a maior parte das contas na casa.

O dinheiro não daria uma grande instabilidade, mas lhe garantia segurança até arranjar outro emprego.

Anunciara ao pai que iria para a Noruega e realmente pretendia – país que lhe passara na cabeça dias antes, quando um filme mostrando os grandes fiordes lhe chamou a atenção. –quanto à cidade, não tinha ideia, nem ao menos pesquisara. Pensava que qualquer uma despertaria seu interesse.

-Destino? –perguntou a mulher baixa e loira do guichê.

Violet pausou por alguns instantes. Olhava para o telão de embarques, e interrompeu a mulher antes que a pergunta fosse repetida:

-Qual o próximo voo para a Noruega?

A mulher pesquisou algo no computador a sua frente por alguns instantes.

-O próximo voo é o das vinte e três horas para... Stavanger. Temos ainda lugares disponi...

-Ótimo! –disse no mesmo instante sem qualquer pergunta.

Após pegar o cartão de embarque e despachar a bagagem, serviu-se de um café expresso com chantilly da cafeteria do saguão e sentou-se em uma das poltronas vermelhas para esperar a chamada para o embarque.

Ainda não havia lhe ocorrido e nem passado pela mente o que estava prestes a fazer. Ir para um país desconhecido, com um dialeto diferente e sem alguém conhecido por perto, parecia lhe fascinar a cada instante.

Chegaria à Stavanger pelo amanhecer. Não havia escalas previstas para o voo, mas sabia que chegaria cansada afinal eram quase oito horas de voo.

Voltou para deixar a xícara no balcão e procurou algo rápido para comer.

Um homem jovem e alto usando um blazer cinza e barba cerrada se aproximara.

- Um caramelo Macchiato para viagem, por favor. –disse numa voz suave, pousando os pulsos sobre a bancada fazendo a manga do blazer subir e deixando seu cartier a mostra.

Não esperava que a notasse ou que tivesse interesse em puxar-lhe assunto perguntando as horas, ou que o clima estava prestes a mudar. A seu ver parecia ser um homem ocupado demais, ou simplesmente elegante demais para surgir interesse por uma mulher tão simples.

Violet não aparentava a idade que tinha, considerava sua beleza mediana. Pensara até em tingir o cabelo de ruivo ou cortá-lo, mas depois de um tempo, percebera que sua característica principal e que chamava a atenção por onde passava, era seu cabelo loiro de pontas cacheadas que batiam na altura da cintura.

Seu físico também era de se notar, não era preciso que colocasse roupas justas para perceberem que praticava atividades físicas. De fato toda a manhã corria pelo quarteirão, dando voltas e voltas. Era o único período que não se sentia presa.

Mesmo pensando nos contras de sua parte, não estava impedida de observá-lo por alguns instantes.

Ficara distraída por alguns segundos até que o rapaz movimentou levemente o rosto em sua direção e esboçara um sorriso discreto.

Sorrira de volta, mas antes que pudesse pensar em algo para dizer, uma voz feminina ecoou pelo alto falante “Embarque para Stavanger portão três”.

Violet voltou seu olhar para frente, mas no mesmo instante o rapaz partira, misturando-se as pessoas que perambulavam por todo o aeroporto.

Comeu seu muffin o mais rápido que pode, pegou sua bolsa de mão e partiu rumo ao portão três.

Entregara o cartão de embarque para a moça de cabelos envoltos em um coque.

-Uma boa viagem Srta.Vaidden. –a moça sorriu.

Violet pegara o cartão de embarque de volta e agora estava em um corredor rumo ao avião, mas até então, era a primeira vez que sentira o frio na barriga. O frio que não pensava sentir tão cedo.

Não pensara em nenhum momento em dar meia volta e ir para casa. Não, já estava na metade do caminho. “Tarde de mais” era o que repetia diversas vezes na mente, agora que estava sentada na poltrona do avião.

Por sorte o lugar marcado era ao lado da janela. Não que agora pela noite conseguisse ter uma paisagem de tirar o fôlego, mas os poucos segundos em que o avião tomasse altura e demonstrasse a cidade iluminada já valeria a pena.

O frio que sentia na barriga, agora parecia congelar seu corpo. Inspirou profundamente.

Fixara seu olhar para fora da janela, onde observava um homem retirando cones do chão, e outro balançando os braços para o alto com um iluminador em cada mão.

Nunca tivera medo em voar, pelo contrário. Quando tinha a chance de viajar para uma cidade mais distante, preferia o avião. Sentia-se feliz, como estivesse literalmente voando para longe de seus problemas. Mas agora era diferente, era outro país, onde poderia escolher de uma vez por todas se seus problemas ficariam de vez presos em Jersey, ou se um dia voltaria para enfrentá-los. Ainda tinha tempo para pensar. -exatamente três meses para se decidir antes de pedirem seu visto.

Violet pegara um folheto da futura cidade no suporte ao lado de sua poltrona, embaixo da janelinha. –assim como a aeromoça de voz extremamente soprano explicava.

Havia duas ou três revistas, um jornal atual de Jersey, um saquinho de papel para “emergências” –segundo a aeromoça- e uma revista pequena de palavras cruzadas.

O interesse em Stavanger parecera surtir assim que observou as fotos de casas com estruturas impecáveis, e claro, fiordes a poucos quilômetros da capital, Oslo.

Esboçou um leve sorriso ao folhear as páginas e ver que era um lugar realmente agradável, até que observou com o canto do olho, alguém de pé a poltrona ao lado.

Virou a cabeça para ver quem se sentaria ao seu lado e se surpreendeu.

O homem elegante que estava da cafeteria do aeroporto, agora estava de pé posicionando sua maleta no compartimento acima.

Ficara surpresa por ver que ele estava na mesma classe que a sua e não na primeira como suspeitava que estivesse, e depois, nunca imaginaria que estaria indo para o mesmo destino que o seu muito menos sentado ao seu lado.

Assim que guardou sua maleta, ajeitou seu blazer e pediu “com licença” ao se sentar.

Claro que não me reconheceria, não havia como se lembrar de alguém que não trocara nem ao menos uma palavra, Violet dissera em sua cabeça.

Voltou a olhar o folheto, mas agora não estava concentrada da mesma forma.

Assim que o avião partira para longe do solo, Violet cravara as mãos nos braços da poltrona. Era o único momento das viagens que a deixava nervosa.

Fechou os olhos e inspirou.

-Primeira vez? – perguntou suavemente a voz ao lado.

Violet abriu os olhos, virou o rosto para o lado.

-Como? — tentara parecer apática diante a situação.

O homem não repetira, apenas baixou o olhar para as mãos de Violet ainda contraídas.

-Oh. –tirou as mãos rapidamente do encosto e pousara sobre as pernas. –Não... Não é.

Ele sorriu.

-Também ficava nervoso há um tempo. Mas depois de tantas viagens, alguma hora teria de me acostumar.

-Na verdade... É a primeira vez que viajo para tão longe.

-Bem... De qualquer forma, não se preocupe. Quando acordar depois de algumas horas, já estaremos perto, confie em mim.

Violet sentira um estranho sentimento de segurança depois do breve comentário do rapaz, do qual até o sorriso continha um toque de elegância.

Depois de alguns minutos, recostara a cabeça na poltrona e pode sentir o corpo relaxar, enquanto observava discretamente o homem ao seu lado concentrado em algo que escrevia em uma agenda de capa preta.

A aeromoça passava agora distribuindo pequenos travesseiros brancos.

A noite havia sido agitada para Violet, que sem pensar muito caíra no sono. Acordou de supetão quando o avião passou por uma leve turbulência.

-Está tudo bem? –perguntou o homem, ainda escrevendo na mesma posição.

-Pode me dizer que horas são?

Ele dera uma espiada por cima do cartier.

-Uma e meia. –sussurrou.

Pegara no sono pouco mais de uma hora, embora parecesse ter dormido por um longo período.

-Acho que não vou me acostumar tão cedo. –disse em voz baixa.

-Você aguentou bem... –fez uma expressão de segurança franzindo o cenho.

Violet se ajeitara na poltrona entre risos.

O avião passara novamente por uma turbulência, um pouco mais forte que a última.

Recostou a cabeça e cravou mais uma vez as mãos nos braços da poltrona.

No mesmo instante, o homem fechara a agenda em que anotava algo e a guardou no compartimento ao lado, voltou o rosto para Violet.

-Então... Você está indo a trabalho? –perguntou com o olhar fixo a fim de que ela também o olhasse.

-Pra onde? –ela abriu os olhos e virou o rosto dispersa. Ainda nervosa.

-Para a Noruega. –ele riu.- Está indo para lá à trabalho? –repetiu.

Violet olhou as costas da poltrona da frente, e balançou a cabeça, como se tivesse acabado de captar a pergunta.

-Oh... Não, na verdade não. –forçou um sorriso.

-Vai visitar sua família?

-Não, não vou. –disse de forma seca. O avião balançara levemente.

O rapaz sorriu mesmo com a feição aparentemente nervosa de Violet.

-Você vai gostar de lá. Eu particularmente gosto muito. –ainda tentando atrair o olhar de Violet.

-E você, sua família está lá? –ela perguntou.

-Não... Eles moram no Texas...

Violet demonstrara um sorriso verdadeiro dessa vez. Sempre ouvira histórias muito divertidas e engraçadas de sua amiga Arlene, cujo ex-marido viera de lá.

-Texas? –virou levemente o corpo.

-Pois é. Infelizmente não tenho muito tempo para visitá-los, mas sempre que posso estou lá.

As mãos de Violet agora não estavam mais contraídas, e depois de uma ou duas horas seguintes que passaram conversando, quase não notava as turbulências.

-Sou Ethan, a propósito. –comentou no meio de uma das conversas.

As horas seguiram. O dia começou a clarear e já estavam próximos ao aeroporto.

A voz grave do comandante anunciava a chegada à Stavanger depois de um voo tranquilo. Mencionou também o clima que fazia lá fora. Agradeceu pela preferência e recomendou que todos pegassem seus casacos.

-Bem, então... Uma boa sorte para você aqui, Violet Vaidden. –disse sorrindo ao dizer o nome.

-Pra você também, Ethan Parker. –imitou sorrindo a forma suave e cortês de falar dele.

Ele tirou a maleta preta do compartimento acima.

-Ethan? –chamou-o em voz baixa. –Obrigada por tentar me distrair na turbulência do avião..

Ele sorriu e assentiu. Depois seguiu seu caminho até a saída do avião.

3

O clima em Stavanger não dos melhores. Os raios de Sol que pousavam sobre a pele eram apenas sinais de luz, não podia senti-los aquecendo em momento algum.

As poucas horas que conseguira pregar os olhos no avião foram suficientes para desejar desesperadamente uma cama.

Segundo o mapa, o hotel mais próximo era a uns dois quilômetros a oeste do aeroporto. Depois de alguns instantes tentando mostrar a localização de onde queria chegar, o motorista do táxi a deixara bem enfrente ao tal hotel de fachada constituída por tijolinhos e um toldo branco recobrindo a entrada.

Sobre a fachada, uma placa retangular anunciava “Lite stykke av himmelen’’. Ainda haveria de comprar um dicionário inglês-norueguês, mas naquele momento queria apenas descansar.

Felizmente dentro o hotel continha algumas placas com dizeres em inglês, uma delas anunciava a localização da recepção. –algo obviamente não muito difícil de notar, a julgar pelo tamanho do lobby. Apesar de pequeno, era de extrema organização. Quadros pendurados ao redor das paredes, vasos com flores verdadeiras em algumas das mesinhas e grandes espelhos por trás delas.

Já havia passado alguns dias em um hotel de Jersey, então já sabia, de certa forma, o que teria de fazer para se registrar, assim não haveria de esboçar uma expressão de confusão a cada palavra que a recepcionista dissesse. Após o registro seguiu as orientações. –ou pelo menos tentou apenas se atentar na direção das mãos da recepcionista.

Assim que trancou o quarto, não se atentou a mais detalhes. Despencou na cama grande e espaçosa. Sentiu o corpo pesado, e o rosto afundar entre os travesseiros macios. Nem ao menos desajeitara o lençol de perfeito alinhamento, permanecera na mesma posição em que deitara até a hora em que o telefone tocou e a despertou.

Espiou por cima do travesseiro o relógio no criado mudo que marcava exatamente meio-dia. Imaginara que o telefonema seria do serviço de quarto, sobre o almoço. Resolveu não atender, e permaneceu mais alguns minutos na cama.

Após tomar um longo banho e vestir uma roupa– a temperatura havia subido minimamente, o vento gelado que soprava ainda ganhava a disputa com o Sol.- Saiu para conhecer um pouco da cidade.

Stavanger parecia exalar história e cultura numa mistura extremamente nórdica. Ali mesmo, a poucos metros do hotel podia-se observar uma estreita rua de paralelepípedos, cheia de casinhas brancas de madeira que pareciam ser do século dezessete, muito bem preservadas. Ao caminhar pelas ruas de paralelepípedos, bem em frente havia um café livraria chamado Baker & Barst, e em frente ao café, uma chocolataria que parecia ser deliciosa.Um pouco mais distante conseguira achar um pequeno restaurante no qual se servira de um dos pratos mais comuns da região, o salmão.

Descendo a ladeira, passou por onde estavam as principais lojas da cidade. Todas divinamente estruturadas como antigamente, mas que dentro tinham tudo do melhor e mais caro.

4

Os dois últimos dias passaram voando, e em meio a breves passeios pelas ruas, passava-lhe pela cabeça o quanto sua decisão valera a pena, mesmo que por poucos dias longe de casa. Caminhava pelas calçadas e já tinha até em mente um possível emprego em uma livraria de pequeno porte chamada Percy Pallun.

Passara o dia na rua com a expressão distraída e levemente entorpecida, observando o movimento dos demais turistas indos e vindos do porto, e algumas crianças brincando no playground da praça.

Ocorrera estranhos momentos em que se sentira observada por alguém , mas não conseguia confirmar isso, outros momentos em que se pegava pensando em como estariam às coisas em Jersey. De como estaria sentada nesse instante naquela casa, assistindo ao canal de compras e provavelmente escutando a voz alta e desesperada do pai vinda do quarto, em mais uma discussão com a ex mulher –que por sinal não conversava com Violet há um bom tempo.

Sentiu-se feliz por estar longe de tudo aquilo, mesmo não sabendo quanto tempo duraria, faria por aproveitar ao máximo.

Agora, no final de uma tarde calma e tépida, onde os ventos pareciam ter cessado por alguns instantes, estava a caminho do hotel. Passara bem em frente ao Baker & Barst quando avistou alguns cartões postais sobre uma haste giratória. Um pensamento de comprar um e enviar noticias para Jersey pairou sobre a mente de Violet. Entrou na loja para observar alguns de perto. –todos com fotos incríveis de lugares em Stavanger dos quais gostaria profundamente visitar, e um outro onde bem no alto da haste, com a fotografia de um lugar chamado Preikestolen, mostrando um dos fiordes dos quais parecia ter visto nos filmes e que sonhara em visitar.

Embora a intenção tivesse passado pela cabeça, agora decidira não enviar as noticias à Connor –pelo menos não agora- mesmo que ele não soubesse se quer sua localização na Noruega, pensara em outro momento em mandar-lhe um sinal.

Pusera o cartão de volta no alto, quando sentira um cheiro inconfundível de café vindo de perto das máquinas de expresso.

Assim que pousou seu olhar em uma das máquinas, onde havia apenas um homem parado em frente a elas, foi se aproximando para pegar um café. –não podia resistir a tal aroma, principalmente no final da tarde. – à medida que se aproximava das máquinas, pode obervar o rosto do homem que estava por trás da gola alta de uma jaqueta azul marinho. A barba cerrada e os cabelos castanho-avermelhados ,soube sem duvida, quem era que estava ali.

Ficara sem jeito. Talvez imaginasse que o estaria seguindo, que fosse louca. Preferiu não ter certeza da resposta e recuou.

Péssima escolha.

Assim que dera o único passo para trás, acabara esbarrando em um homem velho e rechonchudo que no mesmo instante dissera em voz alta algumas palavras em tom de irritação, o que chamou a atenção do homem de jaqueta azul marinho, que logo lhe lançou um olhar curioso.

Seus olhos cor de mel se lançaram aos de Violet — extremamente enrubescida.

Tentara desviar o olhar, mas já era tarde de mais, ele já estava a seu encontro.

Era de fato Ethan.

-Hey... –disse se aproximando.

Agora não havia mais como disfarçar. A única coisa que poderia fazer –pensou- era ponderar um pouco antes de dizer seu nome dele.

-Violet? –perguntou ele com a voz suave e quente como conseguia se lembrar.

-Oi... –respondeu ainda ruborizada.

-Ethan? Do avião se lembra? –perguntou inocentemente.

Como não haveria de se lembrar...

-Claro! Nossa... Que surpresa... –respondeu o mais calmamente que pode.

-Digo o mesmo. –sorriu.

Os dois caminharam até as máquinas.

-Trabalha por aqui? –perguntou Violet.

-Hm... Não exatamente. –sorriu.

-E então?

Ele pegara o celular sobre a bancada e o balançara levemente em sua frente.

-Negócios... ? – sussurrou Violet.

-Pode se dizer que sim... E quanto a você? Pelo o que disse, está apenas passeando?

-Pode se dizer que sim... –imitara o mesmo tom de voz de Ethan.

Ambos sorriram.

Ethan ergueu o braço rapidamente e pedira ao rapaz de uniforme vermelho um expresso com chantilly.

-Estranho... –sussurrou Violet.

-Por quê? Quer que eu peça outra coisa?

- N-não... –balançou a cabeça. –É só que é exatamente o que eu estava pensando.

Ethan sorriu.

-Ótimo.

-Então... –pensara em algo para dizer- Está hospedado muito longe daqui? –imaginou ter soado de forma indiscreta.

Ethan pareceu não se incomodar.

-Não. Minha casa fica a poucos quarteirões daqui...

-Você tem uma casa aqui? Isso é muito legal.

-Sim, acho que é bem legal. – ele riu como se tivesse achado graça da pergunta.

Assim que os pedidos chegaram, a conversa se prolongou por um longo tempo.

-Mile Davis?! -perguntava Violet surpresa.

-Sim... eu sei... Pode me chamar de velho se quiser. –disse Ethan balançando a cabeça.

-Não pode ser sério!

-Hm, não, é verdade... Por acaso já ouviu alguma musica dele? –perguntou curioso.

Violet parou por um instante, como se a pergunta tivesse lhe soado a mais tola do mundo.

-Você brincando?! Ele é o meu preferido! –disse enquanto se lembrava dos discos que havia comprado quando era adolescente.

Ethan tomou os últimos goles do seu Macchiato e sorriu.

-Além de bonita aprecia jazz? –disse enquanto pegava o celular do bolso conferindo o número que estava ligando.

-Violet, pode me dar licença? –perguntou Ethan já se levantando.

-Oh, claro.

Ele sorriu e foi em direção à porta.

Violet ainda sorria pensando no elogio que recebera, mas se perguntava por que ele distanciara tanto para atender uma ligação. Um turbilhão de pensamentos passara por sua cabeça naquele instante. Seria alguma mulher do outro lado da linha? Sua esposa talvez? Não havia aliança em suas mãos, mas poderia ter escondido! Por que então parece tão desconcertado falando com essa pessoa agora? ; Mas isso não é um encontro, eu nem o conheço direito, por que raios estou pensando nis...

-Desculpe, tive que atender essa ligação... –disse Ethan se aproximando, parecendo recompor sua voz para a de antes da ligação.

-Está tudo bem? –perguntou.

Ethan suspirou sorrindo.

-Bem, se você puder me recomendar um contador de confiança... –ele riu.

Ainda resgatando os pensamentos anteriores, Violet pensara em não duvidar de Ethan. Mal o conhecia, e em todo caso não havia como ele se interessar tanto aponto de mentir para quem quer que fosse, com quem estava agora. Era apenas um café, nada de mais.

Estava pronta para agradecer pelo café quando o celular no bolso de Ethan emitira um “bip” assim que chegou. Ele o pegou e suspirou como se estivesse cansando, como se alguma coisa ali estivesse o incomodando.

-Desculpe, acho que dessa vez eu não escapo... –sussurrou enquanto balançava o celular.

-Imagina... Já está ficando tarde também acho que vou voltar para o hotel. –disse enquanto se levantava.

Ethan tirou algum dinheiro da carteira marrom de couro e deixara debaixo do pires.

A tarde havia sido muito agradável e sabia que seria difícil algo assim se repetir com alguém tão legal, tão bonito como Ethan. Mas a verdade é que não se incomodaria de tomar mais um café algum dia com ele novamente. Não mesmo. Mas preferiu apenas seguir para a porta e não dizer mais nada além de “obrigada pelo café, foi bom revê-lo”.

-Violet! –disse Ethan em voz alta caminhando até a porta.

-Oi! Eu não ia sem dizer “tchau” e agradecer... –disse como uma das crianças que acaba de aprender boas maneiras.

-Oh, eu que agradeço! –disse com um sorriso aberto.

Violet assentira e estava pronta para seguir a caminho do hotel. Tentara evitar ao máximo algum olhar que parecesse carente de mais ou desesperada por um encontro.

Abriu a boca para dizer suas últimas palavras e então o “bip” soou novamente. Não esperou até que ele o pegasse, então sussurrou um “até mais” e seguiu com passos curtos.

Por alguns segundos seguiu em silêncio, até que passos rápidos foram em sua direção e então uma mão pousou levemente sobre seu ombro.Se virou e ficou frente a frente para Ethan.

-Me desculpe Violet.. O dia hoje foi... –suspirou parecendo ponderar uma resposta – meio cheio... Desculpe se fui rude com você.

O toque do telefone era de fato algo irritante, principalmente quando se está querendo ficar livre de interrupções com alguém. Mas até então rude era o que Ethan passava longe de ser.

-Não, imagina! Você não foi... É só que estava ficando tarde.

Ethan pausou por alguns segundos, segurando o celular que estava no bolso da jaqueta. Continha provavelmente o som abafado de alguém ligando.

-Eu sei que você deve ter algum compromisso amanhã, mas de qualquer forma, queria saber se gostaria de jantar comigo amanhã à noite?

Violet ficou em silêncio por alguns segundos até entender que era um convite para sair.

-Eu, eu não sei... Tenho que ver umas coisas amanhã...

-Prometo que meu celular não estará junto. –ele riu. –Além disso, sei onde há o melhor vinho da região, um restaurante chamado Sunset. Tenho certeza que não vai se arrepender.

O olhar de Ethan era completamente hipnotizante, e tentar evitar seu contato era quase impossível.

-Passo para te buscar as nove então? -perguntou sem esperar pela resposta.

Violet respirou fundo, não querendo se dar por vencida, mas foi inevitável.

-Nós encontramos lá. – disse antes que ele pudesse ir embora.

Ethan sorriu e então se virou para seguir seu caminho.

Voltou para o quarto do hotel, mas antes pegara informações sobre o tal restaurante com uma das recepcionistas do lobby.-ou pelo menos tentara- subiu às escadas com um folheto de Sunset, e logo se lembrou que havia passado por ele na manhã anterior enquanto fazia sua corrida.

Ligou a pequena TV que estava sobre bancada de madeira, passava o jornal das sete horas. Observou que a noticia mencionava a cidade em que estava, já que as informações seguiam correndo no rodapé da tela, assim como na CNN. –pensou- Pedia ao mesmo tempo algumas toalhas para o número da recepção, que em poucos minutos já estavam à porta. Quando se voltou para a tela, percebeu que a noticia se tratava de um desaparecimento. A foto de uma jovem de uns vinte anos aparecia ao lado do ancora enquanto falava. Seu nome era Emily Compton, como estava escrito em baixo de sua foto. Tinha o cabelo loiro, comprido e pele clara, assim como Violet, que reparou enquanto se sentava na ponta da cama, de frente para a TV. Emily tinha um sorriso aberto, segurava uma mochila nas costas, e ao seu fundo, um dos fiordes semelhantes ao dos cartões postais. Em seguida, as fotos de mais duas garotas, –também loiras e de peles claras- apareceram na tela, mas Violet se levantou no mesmo instante, indo em direção à banheira na qual havia deixado à torneira aberta há algum tempo.

Fechou a torneira e teve que pegar um pano para secar algumas poças no chão que haviam transbordado, enquanto isso, a notícia sobre as garotas desaparecidas continuava, e suas fotos ainda fixadas na tela. Uma delas estava sentada em uma mesa repleta por petiscos e em uma das mãos segurava um copo de suco que havia um guarda-chuvinha na ponta. A outra foto mostrava a terceira garota sorrindo em meio a uma multidão. –no que parecia ser uma apresentação ao ar livre de algum artista.

Assim que voltou para o quarto, a notícia havia mudado de foco para um time de futebol chamado Odd Grenland que havia sido promovido para a segunda divisão, e então voltou para entrar na banheira cuja água ainda estava quente, pensando no convite do jantar de amanhã.