Despertar lento. O corpo ainda adormecido.

Os olhos abrindo e fechando até sentir a cabeça parar de girar.

Observou ao redor a pilha de caixas e cacos de vidros pelo chão. Estava no porão.

Havia uma luz bem ao centro de onde estava. Não tão fraca quanto à das escadas, mais ainda era.

O efeito da dormência diminuía, e apesar de sentir a dor subindo gradativamente a partir da cintura, tentou mover o corpo para frente.

Estava sentada e suas mãos atadas para trás. Então sentiu algo extremamente gélido tocar sua pele, amarrada junto a suas mãos.

Virou-se com dificuldade para o lado para se atentar ao que era aquilo.

Seu olhar vai de encontro ao corpo da falecida Sra. Raine preso ao seu. Suas mãos atadas junto as suas. Estavam de costas uma para outra.

Queria gritar, mas havia um nó em sua garganta. Aquilo não era real... Só podia ser um pesadelo.

Ouviu o barulho da goteira e olhou para a lâmpada acima, que havia piscado de repente.

–Nunca tive tempo de arrumar a fiação desse porão... –disse a voz ecoada vinda do canto. Seu tom não era mais tão suave, parecia mais grave. Segurava alguma coisa com a boca enquanto falava.

Pôde ver com canto do olho uma pequena luz laranja cintilante. Com certa dificuldade, virou mais uma vez o rosto, mas agora para o lado esquerdo.

Ethan estava apoiado em uma maquina velha de lavar roupa, com a perna direita passando pela esquerda e um cigarro branco na boca. Com uma mão girava a roldana do isqueiro, e com a outra cobria a ponta do cigarro. –numa espécie de cabana.

–Por sorte havia uma lâmpada na gaveta da cozinha... –agora com a voz mais nítida, posicionando o isqueiro na tampa da maquina.

Violet inclinou a cabeça para cima e uma lágrima escorreu pelo canto do olho.

–Desculpe, a fumaça do cigarro te incomoda? –perguntou sério, arqueando a sobrancelha.

–O que você quer de mim? –perguntou Violet ainda rouca. Sua voz soava cansada.

Ethan dera uma leve batida, retirando o excesso de cinzas. A luz iluminava sua camisa justa e marcada de sangue. Seu cabelo despenteado levemente na frente. Havia uma pequena fresta de suor no canto esquerdo de sua testa. Um corte pequeno no lábio sobre um sorriso lateral.

–Nós tivemos tantas conversas não foi? Tantas coisas interessantes sobre você... Sua vida. Não é à toa que veio pra Noruega...

–Você não conhece a minha vida!

Ele sorriu.

–Ah conheço... E sabe o mais engraçado? É que você me contou muito mais do que eu precisava...

Seu pai ocioso e aposentado... Sua mãe- pausou por um instante- Mariet? Sim... a forma como ela abandou vocês foi cruel, tenho que admitir.

Violet não suportava quem ninguém tocasse nesse assunto, ainda mais vindo dele.

–Cretino!

Ethan pegou uma pequena pasta que estava em cima da tampa da maquina e tirou um papel de dentro.

–Hm... Ainda temos a sua amiga Arlene. –disse analisando a folha- Uma bela mulher também... Já perguntou se ela não gostaria de visitar a Noruega?

–Deixa eles em paz! Maldito! –tentava se soltar da corda que a prendia. Ia de um lado para outro.

–Violet... Violet... Você fica tão linda com raiva, sabia? –ele riu.

–Eu te odeio!

Violet fechara os olhos e não pode conter as lágrimas. Como pôde ser tão estúpida a esse ponto?

–Sabe... De todas elas, você era a que mais se parecia. –disse Ethan pousando um olhar pensativo sobre Violet.

Donna era tão bonita, os cabelos loiros, uma pele branca tão macia... Se não tivesse... –ele cerrou os lábios- Se não tivesse saído daquele jeito, se não tivesse me trocado por aquele imbecil! Ela teria poupado tantas vidas ...

Violet então percebeu que se tratava de alguém que Ethan amava e que o traíra no passado.

–É por isso que está fazendo isso?! Se vingando?! Matou sua mulher ou namorada, seja lá quem fosse... Por vingança?!

O único movimento que tinha, era o das pernas. Tentava se desvencilhar, mas acabava apenas chutando alguns cacos de vidro que estavam próximos, para longe.

Ele levou uma das mãos ao queixo.

–“ Vingança” ? -ponderou- Não fui culpado pela escolha dela, o que ela fez foi... Imperdoável.

Ela cravou a própria sentença de morte.

Uma total onda de indignação lhe invadiu o coração. Justificativas dele vindas sem valor algum junto a suas simulações de insanidade.

–Matar uma vez não foi o bastante?! Quer tirar a vida de todo mundo que se assemelhe a ela. E quando isso vai parar?!

Ethan deu uma boa tragada no cigarro, soprou dois anéis de fumaça no ar, e então sussurrou.

–Nunca. –disse apreciando a fumaça.

–Você é doente! –Violet gritou.

Ele sorriu. Mas fora um sorriso curto, de conformidade. Era algo doentio, nem mesmo ele poderia explicar.

–Desde que você apareceu, eu tenho falhado em algumas coisas... –disse olhando para um espaço vazio do porão.

Fui muito descuidado em algumas coisas. Algumas delas não eram pra terminar assim... Foi tudo uma estranha falta de sorte... –agora observava o corpo da Sra. Raine.- Se ela não tivesse sido tão... intrometida, talvez pudesse ter vivido o resto da sua vida miserável em paz.

–Seu cretino! Desgraçado! –Violet gritara. Sentia uma imensa e profunda raiva de Ethan.

Tudo que mais queria era sair dali, mas ao mesmo tempo com uma interminável fonte de ira, desejava pular em Ethan e bater até não poder mais.

–Nunca precisei da ajuda de ninguém... E quando finalmente achei que podia confiar em alguém, aquele velho filho da mãe, me arma uma dessas!

Ethan entrava em desabafos momentâneos, como se estivesse conversando consigo mesmo.

–Aquele velho imbecil! –fitava o teto — Tudo que pedi foi pra esconder a porra do corpo! Tinha mais de mil hectares pra fazer isso, mas o imbecil o esconde no lago! NO LAGO!

Não vai durar um mês naquela prisão.

Com as debatidas de Violet, o corpo da Sra. Raine acabou tombando para o lado, e a mesma corda que as amarrava começara a afrouxar. Violet pôde sentir uma de suas mãos deslizando pela corda. Mesmo assim continuou na mesma posição, sem fazer movimentos bruscos para tentar se desvencilhar.

Ethan jogou o cigarro no chão e pisou com força sobre ele.

–O que você vai fazer comigo? Me matar como fez com as outras? -perguntou olhando para Ethan.

Ainda recostado de braços cruzados sobre a máquina, agora olhara fixamente para Violet.

–Essa é a pergunta final do jogo? É a mesma pergunta, sempre. Acho que esperava um pouco mais de você Violet... –ele dera alguns passos na direção dela, mas então recuou e permaneceu na mesma posição, recostado sobre a máquina. -

Mas pensando bem... É isso que a torna tão parecida com a Donna... Ambas tão... Fáceis, tão ingênuas...

Violet sentiu o rosto ficar quente. O sangue havia subido de forma tão rápida, e agora fervia de completa ira dentro dela.

–Você é doente! –ela gritou novamente.

Ethan balançou a cabeça e então se virou em direção às escadas.

–Já volto amor, tente ficar quietinha. Não vou demorar. –subiu deixando o ranger da madeira ecoar.

Com o ruído dos passos já a certa distancia, Violet esperou até que eles não pudessem ser mais ouvidos, e então começou a fazer esforço para soltar por completo a mão.

Seu tênis atingiu um caco de vidro enquanto se movimentava e percebeu que mesmo longe, ele poderia escutar o ruído estridente dos cacos.

Finalmente sua mão esquerda estava livre. Deu uma rápida olhadela sobre o ombro para ter certeza, e com a mão esquerda livre, girou o tronco para o lado e começou a soltar a outra mão.

Agora se movimentando, pode sentir a dor invadir por completo seu corpo. Quebrara uma ou duas costelas no impacto com a mesa de mármore, mas mesmo com dor, sabia que podia levantar. Tinha que levantar quando chegasse a hora.

No momento em que puxara com força a mão direita para o alto se livrando por fim da corda, o corpo de Raine tombara por completo para o lado, fazendo com que o rosto ficasse deitado a centímetros da perna de Violet.

Pode ouvir novamente os passos. Ele estava voltando.

Violet procurou rápido, girando a cabeça para os lados, algo que pudesse usar para se defender. Não havia nada além de caixas e mais caixas de papelão vazias, um enorme freezer –no qual não queria nem ao menos imaginar o que haveria lá dentro-, mas foi quando seu tênis atingiu novamente os cacos de vidro que então se apressou.

Pegou rápido o maior caco que avistara.

Os passos de Ethan se aproximaram, até que pode ouvir o primeiro ranger da escada.

Ergueu o corpo da velha ligeiramente, e o posicionou no mesmo lugar, fazendo suas costas encostarem novamente nas dela.

Uma sensação sem duvida horrível.

Passou as mãos novamente pela corda (dessa vez apenas contornando pelos pulsos e segurando-a com a ponta dos dedos). Sentiu a ponta afiada do pedaço de vidro no bolso da calça.

Olhara de relance a janelinha no fundo do porão. Ethan não demorara nem dois minutos para voltar, e tinha usado a maior parte do tempo para se desvencilhar da corda.

A janela ficava ao alto e não havia nada que pudesse jogar para poder quebra-la em tão pouco tempo.

–Eu disse que voltava rápido. –disse a voz já de pé ao seu lado. Segurava uma maleta preta nas mãos, dessa vez se posicionou frente ao freezer e pousou a maleta em cima da superfície branca e plana.

Abriu-a, e de dentro tirou um tecido grande e vermelho de seda. Estava enrolado, portando algo.

Desenrolou o tecido sobre a parte plana e começou a mexer no que estava dentro dele. Ethan estava de costas para Violet, o que a impossibilitava de ver o que estava acontecendo.

De lá, vinha um ruído metálico, como se algo estivesse sendo... Afiado.

Violet sentiu um calafrio na nuca, e seu braço ficara arrepiado. Observou por alguns instantes a escada livre, com Ethan pouco distante dela. Mas não adiantaria nada armar uma fuga repentina. Suas costas doíam mais do que tudo, e pelo tempo sentada suas pernas já estavam dormentes.

Tinha de escapar dali de maneira planejada, para que quando atingisse Ethan tivesse alguns segundos de vantagem.

Teria que atraí-lo para perto, bem perto.

–Onde pensa esconder meu corpo, agora que está sem um cúmplice? –perguntou Violet tentando começar uma distração.

Ethan ficou alguns segundos sem dizer nada, e então o som metálico cessou.

–Nesse caso, acho melhor voltar atrás com a minha pergunta. — Virou-se e a observou.

O que acha afinal que eu vou fazer com você?

Violet ficou em silêncio. Depois o encarou dizendo de forma enfática.

–Não me interessa.

Ele esboçou uma feição surpresa.

–Hm... Não foi o que pareceu certa noite no Stjerner... Se bem me lembro, você se mostrou muito interessada no que havia acontecido com as garotas desaparecidas...

Era extremamente difícil debater de frente com Ethan, principalmente se tem o objetivo de ganhar a conversa.

Tinha de fazer por outro caminho, despertar a raiva dele.

Antes que acabasse matando-a com a mesma sutileza com que falava.

–Então me diz... Você se divertiu fazendo aquilo? Gostou de ver feição vulnerável delas enquanto as matava?

Ethan a olhava com uma das sobrancelhas arqueadas, esperando em que ponto ela chegaria.

–Tem que amarra-las, fazê-las ficarem vulneráveis. Porque pra você é assim e só assim. Não consegue as enfrentar de frente, não é?

O sorriso de Ethan foi diminuindo. Enquanto Violet falava. Conseguiu fazer de seu tom calmo, seguro, e extremamente mordaz.

–O que foi? Não aguentou ver sua namorada saindo com outro? Eu te digo o porquê, e agora eu entendo. Nem eu aguentaria conviver olhando pra essa sua cara de autopiedade. É isso... Você precisa matar todas elas pra não se sentir um merda... Mas sabe de uma coisa? –imitou seu tom de voz- Porque na real é isso. E no fundo... –ela o olhou fixamente e com um sorriso lateral.- No fundo... Você sabe que não passa de um merda.

Ethan voltou a sorrir, mas dessa vez, o seu sorriso era diferente.

–Ah Violet... –disse balançando a cabeça e dando pequenos passos na direção dela. –Você está certa de algumas coisas. –seu olhar era de pura ira embora seu tom fosse suave, do jeito que Violet queria.- Todas eram vulneráveis, depois...–ele agachou o rosto na altura de Violet, mas parado no meio do caminho. — Eu realmente não sei, onde vou esconder seu corpo... Mas tenho certeza que antes de esconde-lo, vou fazer da forma mais cruel, e lenta que você pode imaginar... E sabe o que mais? Ainda vou ter tempo de escolher qual parte sua vou mandar pro seu papai...

Era questão de instantes. Faltava apenas o toque final para que ele ficasse de frente para ela, seu rosto a centímetros do dele. E ela sabia que ele faria isso. Então com o mesmo tom suave e seguro, ela sorriu mais uma vez.

–Então por que é que você não vem? Vai me pegar logo, ou preciso chorar e gritar por socorro mostrando minha vulnerabilidade pra você se excitar ?

Agora ele se erguera, não havia mais sinais de sorriso forçado ou de suavidade. Seus lábios ficaram cerrados. Pareceu incapaz de acreditar no que tinha acabado de ouvir.

Andou devagar até chegar a Violet –cujas mãos já haviam se desvencilhado- e se ajoelhou frente a ela.

Seu rosto ficou a centímetros do dela e seus olhares petrificados um ao outro.

–Espero que o inferno tenha mais emoção do que a sua vida medíocre. –ele sussurrou com os punhos fechados.

Violet puxou o pedaço de vidro do bolso traseiro de sua calça sem que ele percebesse e então também sussurrou.

–Então, te encontro lá.

Assim que terminou frase, projetou o corpo para frente e avançou com o vidro já em direção às costas dele.

Como se a cena estivesse acontecendo em câmera lenta, embora Violet tenha sido extremamente rápida.

Os olhos de Ethan brilharam com o reflexo do pedaço de vidro, e antes que esse pudesse atingir suas costas, jogou o corpo para o lado em questão de segundos.

Não pôde evitar que a ponta afiada e brilhante rasgasse a pele por cima de seus olhos, num corte profundo e consideravelmente grande.

Ele gritou.

Violet saltara do chão cambaleando. Suas pernas estavam de fato dormentes. Sua costela quebrada fazia seu corpo pender para o lado enquanto corria.

–Sua va..dia! –Ethan ergueu a cabeça para cima a procura de Violet. A parte esquerda de seu rosto coberta por sangue. O corte vinha do começo da testa passando por cima da sobrancelha, por pouco não atingindo seu olho. Mas era profundo e seu sangue parecia literalmente ferver de raiva.

Violet não olhou para trás, saiu cambaleando em disparada até as escadas.

Estava na metade delas, conseguia já sentir o ar frio vindo da porta.

Subiu mais um degrau, um dos últimos, e então caiu. Ethan havia puxado seu tornozelo enquanto subia. Dera um tranco em sua perna.

Ela gritou de dor. Batera a cintura no degrau de madeira, justo onde as costelas doíam.

–Você não vai escapar de mim! NUNCA VAI! –ele gritou.

Com o mesmo tornozelo segurado, Violet o colocou para frente do degrau.

–Vamos ver se não! –e então o impulsionou com toda força que pode para trás.

Ethan fora atingido em cheio no rosto e caiu com corpo para trás. Num baque seco ao final das escadas.

Correu da forma mais enérgica que conseguiu assim que se livrou das mãos dele.

Ultrapassou o corredor a caminho da área de serviço. A verdade é que não sabia se encontraria a porta destrancada. Mas àquela altura não pensava em mais nada. Estava em choque.

Correu por cima dos vasos quebrados, do sangue rente ao chão e então ultrapassou a cozinha na imensa escuridão, os olhos lacrimejando pela angustia e pela dor física.

Vira uma pequena luz de fora, na porta. Ela estava aberta.

Fechou os olhos e a ultrapassou. Dera um baque a sua frente. Algo a segurara com força.

Não aguentaria aquilo de novo. Começou a se debater e a gritar freneticamente.

–Senhora! Calma! Está tudo bem! –uma voz rouca e grave, com um forte sotaque estava a sua frente a segurando.

Violet dera uma última debatida e então percebeu a voz familiar. Havia uma luz branca e forte de uma grande lanterna e que brilhava sobre ele.

Ao seu redor vários homens com fardas pretas e grandes armas nas mãos entravam na casa de forma ligeira.

–Está tudo bem... Você está a salvo. –disse a voz, que agora fora reconhecida como a que atendera a ligação de Violet.

Ela sentiu as lágrimas escorrendo sobre seu rosto e então o surpreendera com um enorme abraço em volta dele, pousando a cabeça sobre volumoso casaco da policia.