Notas iniciais
Finalmente, capítulo dois. Desculpem minha falta de pontualidade

Nico

Uma hora. Uma hora e aprendi uma surpreendente quantidade de nada. É frustrante demais, e a falta de progresso não demora muito para tornar estudar uma atividade horrivelmente entediante. À essa altura minha mente está procurando se agarrar a quaisquer distrações ou desculpas para fazer uma pausa, mas estar em uma biblioteca quieta e organizada limita minhas opções a nenhuma. Estou tentando me impedir de ficar contemplando o lado de fora da janela e inventar aquelas teorias profundamente filosóficas que geralmente ocorrem quando alguém está entediado, pelo bem dos meus estudos, e por incrível que pareça estou conseguindo, mas então esse cara para a alguns metros de mim para anotar alguma coisa em uma folha de papel no balcão, suas costas viradas para mim, e meu foco já era. Não consigo evitar olhar.

A primeira coisa que noto é que ele é alto — apesar de que depois de conhecer Frank, "alto" é contestável -, provavelmente uns bons quinze centímetros mais alto que eu, com um porte atlético. Sua camiseta laranja fica um pouco apertada demais nos seus braços, e seu cabelo loiro parece dourado debaixo da luz do sol de fim da tarde. É quase injusto, na verdade.

Não estou nem tentando esconder o fato de que estou obviamente encarando — quero dizer, posso estar (ugh) apaixonado, mas ainda noto outros garotos, especialmente os que se parecem com esse -, então quando ele termina de escrever o que quer que fosse e vira nossos olhos se encontram por um momento — um tanto constrangedor -, embora eu só desvie quando, parecendo surpreso, ele se aproxima. Sinto minhas bochechas esquentarem em vergonha por ter ficado olhando.

– Um... Posso ajudar com alguma coisa? — ele pergunta hesitante. Olhos azuis é a segunda coisa que noto.

Estou prestes a dizer que não é nada e esquecer essa história, mas Olhos Azuis — não vou simplesmente perguntar seu nome, vou? — passou sua atenção para os livros e notas sobre minha mesa.

– São duzentos e quinze — ele aponta. Eu só pisco. — Aqui — ele continua, mostrando o último problema que tentei resolver. Ah, ele tá falando de Física. — Você colocou força antes de energia. É o contrário.

– Com licença? — eu pergunto. Se eu fosse ele teria me sentido suspeito de ter sido encarado daquele jeito (não que eu me arrependa tanto), mas ele simplesmente veio e corrigiu meus estudos. Ok. Nada de estranho nisso.

– Desculpa — ele diz, um pouco surpreso. — É que... eu realmente gosto dessa matéria, e parecia que você podia usar uma ajuda. Eu... sou Jason, por sinal — pelo menos não precisei perguntar.

– Nico — respondo, talvez um pouco rápido demais. — Bom... Eu preciso de ajuda — consigo dizer lentamente, porque na verdade eu preciso mesmo. Fica claro que Jason não esperava por isso — mas de novo, eu também não -, mas ele puxa uma cadeira mesmo assim.

– Ok, então... — ele começa, dando uma olhada nos papéis espalhados. — O que você tá estudando exatamente?

– Um... Força e trabalho e como um afeta o outro — repito a frase que li mais cedo. Pelo menos isso eu sei. — Meio que tenho uma prova importante amanhã.

– Amanhã? — eu concordo, e ele parece querer comentar, mas apenas balança a cabeça e continua. — Só um minuto — Jason pega um dos livros e começa a procurar por alguma coisa, me deixando com meus próprios pensamentos. De novo. Às vezes eu queria não pensar tanto.

Ele está sentado perto, talvez perto demais, porque eu consigo sentir seja lá qual for a colônia que ele está usando daqui, e nossos braços roçam quando ele pega o lápis que está no meio da mesa. Talvez eu devesse parar de notar essas coisas. Pense em Percy,digo a mim mesmo. Mas Jason é muito bonito. Sua pele é bronzeada, como se ele tivesse passado o dia todo na praia, e seu cabelo enrola um pouco nas têmporas.

Viro meus olhos para longe quando Jason termina de escrever e me entrega o papel.

Ele me deixa ler uma vez antes de começar a explicar o assunto, e eu realmente tento prestar atenção. Talvez seja porque não estou na escola agora, ou porque não tem um homem de sessenta anos com uma voz monótona por perto agora, mas por algum motivo acho mais fácil aprender aqui. Jason não só sabe ensinar isso, ele parece gostar do que está fazendo. Obviamente ainda tenho dificuldade em alguns pontos, e quando não entendo alguma coisa, ele reformula e explica de novo, usando exemplos para facilitar, algo que raramente vejo um professor de verdade fazer. Me deixa imaginando quantos anos ele tem, porque ele parece mais velho que eu — mas mais novo que Percy — e é preciso muita paciência para me ensinar qualquer coisa. E é surpreendente como depois de alguns minutos aquele clima estranho de quem acabou de se conhecer já se dissipa. Eu geralmente sou hesitante quando conheço outras pessoas, nunca sei o que dizer ou perguntar. Mas eu perco um pouco da minha determinação quando Jason usa basebol como um exemplo. Faz com que eu me lembre da minha irmã.

– E aí você tem a força que você precisaria para- Tá tudo bem? — ele se interrompe, olhando para mim.

– Sim, sim — respondo rapidamente. — É só que sempre quis aprender a jogar basebol — não é uma mentira, não de verdade, mas é uma desculpa péssima. Porém Jason parece ter se convencido, porque sorri e me pede para resolver alguns problemas. Eles são razoavelmente fáceis, mas creio que agradecimentos são necessários. Eu não seria capaz de resolver metade desses duas horas atrás, e acho que aprendi o suficiente para sobreviver até o fim do semestre. Tudo isso em... Estou estudando há quanto tempo mesmo?

Quando Jason toma o papel de volta depois que termino, dou uma olhada na hora. Seis e meia. Levo um momento para registrar isso, mas uma vez que o faço quase pulo da cadeira.

– Ai meu Deus — murmuro. Eu deveria estar em casa agora. Me levanto e apressadamente começo a recolher meus papéis e colocar meu casaco antes de me virar para um confuso Jason, finalmente notando a luz enfraquecida do lado de fora — Olha, obrigado. Tipo, de verdade. Você me ajudou muito — começo. — Mas eu realmente tenho que ir agora, então... — aí, constrangimento. Provavelmente porque agora eu tenho dizer alguma coisa.

Jason se levanta também.

– Ah, não foi nada. Como eu disse, realmente gosto da matéria. Um... Boa sorte amanhã. Na sua prova. Talvez a gente se veja por aí.

– É... valeu. Vejo você por aí — digo mais uma vez antes de me virar e praticamente correr por mesas vazias e uma recepcionista surpresa para fora da biblioteca, encontrando meu caminho até o ponto de ônibus o mais rápido que consigo, me esforçando para não tropeçar ou empurrar alguém.

Mal consigo acreditar na minha sorte quando chego lá bem a tempo de entrar no ônibus que preciso e está quase vazio. Nem mesmo procuro um lugar; só fico lá, de pé, batendo meu pé e tendo cuidado para não deixar nada que estou carregando cair. Me sinto mal por ter deixado Jason lá daquele jeito, mas eu realmente preciso chegar em casa o mais rápido possível. 'Talvez fosse mais rápido se eu corresse', penso quando paramos em uma sinal vermelho. O tempo parece ter desacelerado, e me sinto entorpecido quando penso no que posso encontrar quando entrar em casa. Tento ligar para minha mãe, mas ela não atende o telefone, e minhas mãos começam a tremer.

Sinto como se tivesse passado horas naquele ônibus quando finalmente paramos na esquina da minha casa, e quase caio descendo a escada. Se as circunstâncias fossem diferentes teria sido engraçado. Tentando tirar as chaves do meu bolso, eu meio que corro até minha casa, olhando de lado para a de Percy. 'Ele provavelmente ainda está com Annabeth'. Me dou um tapa mentalmente depois desse pensamento. Não tenho tempo para essas coisas agora.

Finalmente na frente da porta, enfio as chaves na fechadura, tropeçando para dentro. Não chego muito longe, porque depois de dois passos sou puxado para um tipo de abraço. E então a culpa me toma por completo. Eu deveria estar em casa há mais de meia hora, mas eu estava ocupado demais estudando com um cara que mal conheço. Me sinto egoísta por alguma razão.

Abraço minha mãe de volta, acariciando suas costas e tentando acalmá-la. Está tremendo tanto que acho que ela pode quebrar, e seus soluços soam tão desesperados que quero chorar também.

– Eu sinto muito, mãe. Eu sinto tanto. Eu to aqui agora. Não vou a lugar nenhum. Eu to bem. Você tá bem — sussurro apressadamente, e os soluços param, apesar de ainda sentir suas lágrimas em meu pescoço.

– Fiquei tão preocupada — ela murmura.

– Eu sei — respondo. — Eu sei. Não vai acontecer de novo, prometo. Eu estava só estudando com um amigo — levemente fecho a porta com meu pé antes de guiar minha mãe até o sofá.

Ela se afasta e segura minha mão livre.

– Mas se... se acontecer de novo você vai ligar, certo?

– Vou — asseguro, não mencionando que eu tentei ligar. Não quero que ela se sinta mais culpada do que agora, porque não importa o que eu diga, ela nunca desiste da ideia de que a culpa é dela, e só dela. Ficamos em silêncio por um momento enquanto deixo minha mãe recuperar seus pensamentos, tentando afastar a culpa que cutuca minha mente. Quando ela finalmente diz alguma coisa, não tem nada a ver com o assunto anterior.

– Acho que vou preparar o jantar. Tudo bem? — minha mãe sorri para mim, e me sinto melhor ao não ver nenhum medo em seus olhos. É sempre assim.

– Soa ótimo. Vou ficar no meu quarto, relendo isso — levanto os papéis em minha mão, e ela acena, prometendo me chamar quando a comida estiver pronta e me deixando subir. Estamos tentando.

Minha mãe nunca ficou brava comigo. Pelo menos não nos últimos anos. Ela sempre faz o que quero, quer eu peça ou não, e a única coisa que ela pede é que eu esteja em casa no horário. Estou bem com isso, ela não é a única com medo. Mas em algumas raras ocasiões eu deixo o tempo se esgueirar por mim, e... isso acontece. Minha mãe chega muito perto de ter um colapso, e isso me assusta. Então ela chora, eu prometo que nunca mais vai acontecer e ela é toda sorrisos. Às vezes chega a ser perturbador. Mas eu amo minha mãe. Ela é gentil e carinhosa, pelo menos comigo e Percy — ela e a mãe dele são amigas há muito tempo. Ela trabalha duro para sustentar nós dois sozinha — nunca conheci meu pai — e é uma pessoa compreensível. Eu só queria que ela fosse tão feliz quanto parece ser.

Jason

Nico. O nome do garoto é Nico. Eu não sei o que me motivou a ajudá-lo a estudar, porque de verdade, não sou esse tipo de pessoa. Sou curioso, não intrometido. 'Bom, ele disse que precisava de ajuda'. Tudo correu bem, em geral, mas eu queria ter tomado tempo para conhecê-lo um pouco — faz tempo que não saio com ninguém. Espero que tenha tempo para isso qualquer hora, ele saiu com tanta pressa que me pergunto de fui a causa. Provável. Eu nunca tinha nem visto Nico antes de hoje, e fiquei certamente surpreso quando o vi me olhando daquele jeito. Quero dizer, eu sei que não sou horrível nem nada do tipo, mas isso não costuma acontecer com garotos.

E espero tê-lo interpretado direito. Se não, sou me fiz de bobo. Foi preciso bastante confiança para eu fazer o que fiz, e agora não tenho certeza de deveria tê-lo feito. Mas foi bom estudar daquela forma, então acho que tudo bem. Só tem alguma coisa sobre Nico que me deu vontade de falar com ele. Não foi bem sua aparência — apesar de não ter nada de ruim sobre isso -, só o jeito que ele parecia ser. O tipo de pessoa que é reservada, o que geralmente só gera interesse, pelo menos para mim. Apenas tive vontade de conhecê-lo. É estranho, na verdade, mas não completamente ruim. Quem sabe. Talvez ele ligue. Só talvez.

Nico

Durante o jantar, minha mãe me pergunta como foi meu dia, mas não tenho muito o que dizer, então comemos em silêncio. Não um silêncio estranho. O bom tipo de silêncio. Ela parece muito mais calma agora, e isso me deixa feliz. Também estou mais confiante sobre a prova de amanhã, então o dia não foi um desperdício, não na verdade.

Depois da refeição, eu lavo a louça para minha mãe poder descansar um pouco e volto para meu quarto, planejando reler minhas anotações mais uma vez. Não sei quando Jason fez isso, porque quando li pela primeira vez não vi nada de diferente, e não o vi escrevendo outra vez. Mas mesmo assim... não que seja uma coisa ruim.

No final da última página, em um canto, tem um número de telefone. E uma nota em pedindo para ligar.

Notas finais
Talvez, só talvez, eu tenha exagerado um pouco na descrição do Jason, mas pra mim - ou pelo menos pro Nico - ele é totalmente daquele jeito :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.