All my loving
7 Cartas para Hermione
Notas iniciais
— Eu estou apaixonado por você, Rose Weasley.
Meu rosto estava mais vermelho que meu cabelo naquele momento, eu tinha certeza. Scorpius me encarava com uma intensidade nervosa. Naquele momento todas as reações do bruxo faziam sentido, havia uma lógica naquilo. Isto é, Scorpius quis se aproximar de mim porque descobriu esses sentimentos. Por isso mudou de atitude, parou de me provocar tanto como sempre fazia desde que tínhamos onze anos. Bom, ainda havia algumas provocações recíprocas, mas agora amigáveis. Mas apaixonado? Sim, agora fazia sentido termos brigado. Scorpius estava com ciúmes. Minhas amigas estavam certas. Então, se tudo finalmente fazia sentido, por que eu estava ainda mais confusa? Eu nem conseguia formular uma resposta, e me deixar sem palavras era algo muito difícil.
Na verdade, não era nada lógico que Scorpius Malfoy, um sonserino, de uma conhecida família de Comensais da Morte, estivesse apaixonado por mim, uma típica grifinória, filha do casal de bruxos que esteve na linha de frente na luta contra Voldemort.
Aquilo parecia errado e certo ao mesmo tempo. Minha mente pensava em mil coisas enquanto ele me encarava esperando uma resposta. Aquela equação não parecia ter resposta. Um cálculo de Aritmancia seria mais simples. Eu não podia ignorar o palpitar do meu coração com aquele beijo e com aquelas palavras. Mas tudo ainda me parecia muito irracional.
— Desculpa, Scorpius. Eu não sei o que te dizer — foi o que saiu da minha boca antes de eu correr daquela sala, deixando-o sozinho.
Nem tive tempo de ver a reação do sonserino às minhas palavras. Eu precisava ficar sozinha com meus pensamentos para entender aquilo. Não me direcionei à minha sala comunal, que provavelmente estaria lotada naquele momento de alunos afoitos querendo saber notícias da briga entre os Potter. Minha conversa com Scorpius havia sido intensa de tal modo que a confusão de meus primos já me parecia muito distante. Segui para a Torre de Astronomia — lá eu não seria incomodada por ninguém. Sentei-me no chão, olhando as estrelas, enquanto refletia.
Scorpius estava apaixonado por mim. Sophie e Lily estavam certas. Todos os sinais estavam ali, eu só tentava não enxergar, mas agora eu não tinha pra onde fugir já que o loiro resolveu se declarar com todas as palavras. O que eu faria sobre isso? O racional a se fazer era claro. Eu devia explicar a ele que nada aconteceria entre nós, educadamente. Diferenças irreconciliáveis, afinal. Famílias que se odeiam, casas que se odeiam. Amor impossível. Um clássico clichê… Eu não era dada a clichês, então o mais lógico era que eu tirasse quaisquer esperanças que o sonserino nutria. Não podíamos ter nada. O mais correto seria acabarmos com a amizade. Mas, a ideia de ficar longe de Scorpius me deixava um tanto quanto incomodada.
O que eu sentia por ele? Talvez a minha cegueira sobre os sentimentos dele por mim se tratasse disso. Se eu considerasse que Scorpius nutria sentimentos por mim, eu deveria pensar no que sentia por ele, mas eu tinha medo de pensar nisso. Eu era muito covarde para lidar com meus sentimentos. Grande grifinória eu era. Scorpius Malfoy sempre abalou minhas estruturas. Ele me matava de irritação como ninguém. Agora ele abalava de outras formas e tudo aquilo era muito estranho para mim. Eu sabia que sentia algo grande por ele. Não sabia exatamente o que, mas sabia que era grande. Mas tinha medo, porque eu sempre fui obtusa com meus próprios sentimentos. Não sabia se podia lidar com algo grande agora.
Racionalmente, queria pensar que tudo o que sentia por ele era um afeto de amigo, mas cada vez que repetia isso, parecia-me menos convincente. Eu tentava repreender o lado de minha cabeça que dizia que eu estava apaixonada por Scorpius Malfoy. O que eu queria, afinal? O que eu faria se estivesse apaixonada por ele? Pessoas apaixonadas namoram. Eu, naturalmente, não namoraria Scorpius. A menos que eu quisesse ser odiada por todos os meus primos. Também seria uma ótima ideia se eu quisesse ser deserdada pelo meu pai. Jamais frequentaria um almoço n’A Toca. Vovô Weasley me olharia com reprovação, vovó Weasley choraria desolada. Eu não estava sendo exagerada quando pensava nessas coisas… Talvez um pouco. Mas, a raiva que os Weasleys tinham da família Malfoy me convenciam de que esses cenários imaginados por mim eram possíveis. “Não fique muito amiga dele, Rosie, vovô Weasley nunca a perdoaria se você se casasse com um puro-sangue!”. Foram as palavras de meu pai na primeira vez que vi Scorpius. Irônico.
Eu estava andando demais com Sophie e estava alucinando por conta das besteiras românticas que ela dizia. Eu não estou apaixonada por Scorpius. Eu não estou apaixonada por Scorpius. Eu não estou apaixonada por Scorpius. Eu repetia em minha cabeça. Ou estou? Não fazia absolutamente nenhum sentido eu estar apaixonada por ele. Eu sabia que sentia algo diferente por ele. Mas será que nutria sentimentos que me fariam cogitar enfrentar todos os problemas que viriam para estar junto dele? Não, não era nada.
Eu não conseguia encontrar essa resposta. Minha cabeça funcionava rapidamente, pensava em tudo ao mesmo tempo, mas não conseguia chegar a nenhuma conclusão. Sentia que ia entrar em ebulição.
Então, resolvi consultar a bruxa mais inteligente de todo o mundo bruxo, pois sabia que ela sempre tinha as respostas para tudo. Já era muito tarde quando saí da Torre de Astronomia e me dirigi à sala dos Monitores, no quarto andar. Lá, consegui uma pena e um pergaminho e comecei a escrever minha carta.
Mamãe,
Preciso de sua ajuda. Eu tenho a mania de pensar racionalmente sobre tudo, assim como a senhora. Mas, isso às vezes me causa uma confusão enorme, por que não consigo entender o que sinto. Acho que não é possível racionalizar os sentimentos e isso faz com que eu me sinta absolutamente perdida. Então, queria que a senhora me ajudasse a entender o que se passa em minha cabeça agora, já que me conhece como ninguém.
Sempre aprendo muito com as histórias que a senhora me conta, então gostaria que me contasse como descobriu que estava apaixonada pelo meu pai. Como descobriu que tudo valeria a pena por ele?
Talvez eu esteja sentindo algo que nunca senti, mas não tenho certeza sobre isso. Não faz nenhum sentido eu estar sentindo algo por quem acho que estou. Talvez eu esteja criando ou confundindo as coisas. Diga algo que me ajude a entender o que está se passado, por favor. Eu estou tentando pensar sobre tudo, mas não consigo achar nenhuma resposta.
De sua confusa filha,
Rose
Minha mãe me entendia como ninguém. Eu sabia que podia conversar com ela sobre qualquer coisa e não me sentia envergonhada por isso. Ainda assim, eu não podia mencionar o nome de Scorpius na carta. Nem a libertária Hermione Granger Weasley lidaria tão bem com aquilo. Antes de me encaminhar ao Corujal, eu peguei outro pequeno pedaço de pergaminho para escrever um bilhete.
Desculpe-me pela reação. Estou confusa. Preciso pensar melhor sobre o que você me falou.
R.
Coloquei o bilhete nas vestes e fui até o corujal segurando a carta para minha mãe. Twig, minha coruja de penas negras e olho acinzentados, ficou feliz quando me viu. Antes que ela partisse com a carta, eu murmurei:
— Vá depressa, Twig. Preciso logo dessa resposta.
Durante o café da manhã do sábado, pedi que Tanya Bell, aluna do primeiro ano, entregasse meu bilhete a Scorpius. Quando recebeu o bilhete, os olhos do loiro me procuraram pelo Salão. Assim que nossos olhos se encontraram, ele fez um discreto aceno de cabeça. Seu olhar era misterioso e eu fiquei nervosa quando nos encaramos.
Scorpius estava ao lado de Alvo, que estava cabisbaixo depois de ontem. Tiago também estava tristonho. Os dois teriam uma longa detenção durante muitos sábados e estavam suspensos suspensos do próximo jogo de Quadribol. Tio Harry também iria castiga-los, proibindo-os de ir ao jogo das Harpias de Holyhead que ocorreria em Londres no final do ano.
XX
Aqueles dias foram estranhos pois todos estavam me parabenizando por ter separado a briga entre os Potter. Na noite de sexta, apesar de eu ter chegado tarde ao Salão Comunal da Grifinória, os alunos que estavam lá me aplaudiram. Durante aquele final de semana toda a Escola não parava de falar sobre o duelo dos Potter e sobre como a nerd da Rose Weasley havia separado a briga e convencido a diretora a não expulsá-los dos times. A segundo parte do relato foi graças aos meus primos, que fizeram questão de dizer a todos que McGonnagall só não os tinha expulsado por conta de minha intervenção. Eu não merecia o posto de heroína só por ter conjurado um escudo. Mas, eu já estava acostumada com aquilo. Quando você é filha de Ronald Weasley e Hermione Granger, as pequenas coisas que você faz viram notícia.
Eu não gostava de toda aquela atenção, especialmente quando tudo que ocupava minha cabeça naquele momento era minha conversa e o beijo de Scorpius na sexta anterior, me fazendo ficar excepcionalmente distraída. Alice não percebeu minha distração, provavelmente por ser naturalmente desligada e também por ter passado a maior parte daqueles dias ao lado de Tiago, que parecia muito triste e arrependido por ter brigado com o irmão — apesar de eu achar que ele estava exagerando um pouco por ter percebido quer minha amiga estava com pena dele. Sophie, por outro lado, era bem mais atenta, de modo que foi preciso só uma conversa, para que ela percebesse que havia algo errado comigo. Estávamos, sentadas perto da lareira, no domingo de manhã, na Sala Comunal da Grifinória, quando Sophie começou a me interrogar.
— Então você ainda está pensando no que Malfoy disse na sexta ou pode me ouvir um pouco? — perguntou.
— Que? Do que você está falando? — disse, me fingindo de desentendida. Sophie era esperta e certeira.
— Você está em outra dimensão desde que deixei vocês conversando na sexta. Nem estava me ouvindo.
— Você está viajando… Estou normal, claro que estava te ouvindo.
— Você não estava, se estivesse teria contestado quando falei que era uma boa ideia que Alice e Tiago ficassem juntos.
— Que? Você está louca? Meu primo não leva nenhuma garota a sério, minha amiga não merece isso.
— Tá vendo… Você não estava me ouvindo.
— Me distrai só por um momento, não percebi que você estava sendo absurdo.
— Você é muito obtusa, Rose. Não percebe as coisas. Tiago não trata Alice como trata as outras garotas e acho que ela também gosta dele, apesar de ser receosa pela péssima fama dos Potter.
— Você sempre cria coisas, Sophie.
— Não crio, você que não vê nada. Nem consegue ver que Malfoy está totalmente na sua… — ela disse, me fazendo ficar vermelha. — E pior: você também está na dele e não percebe. Como pode a melhor aluna de Hogwarts ser tão obtusa?
— Para de falar essas coisas, Sophie. Não quero mais falar disso.
— Pelo menos vai me dizer o que o Malfoy queria falar com você na sexta?
— Só queria me pedir desculpas por termos brigado — eu disse, fazendo Sophie me olhar desconfiada, mas não insistir mais no insistir.
As palavras de Sophie me fizeram pensar ainda mais no assunto. Sophie era exagerada, criava casais improváveis e teorias mirabolantes. Mas estaria ela certa dessa vez? Era o que eu não parava de me perguntar.
A resposta de minha mãe chegou no Correio Coruja da terça-feira. Era um longo pergaminho, então sai do Salão Principal antes de terminar de comer. Quando encontrei um corredor vazio, comecei a ler.
Amada Rose,
Fique tranquila, tente respirar fundo. Sei como essas questões do coração nos deixam ansiosas. Sentimentos são mais simples do que parecem, meu bem. Somos nós que complicamos as coisas. É só sentir, afinal.
Acho que me apaixonei pelo seu pai em nosso terceiro ano, quando começamos a brigar por causa do meu gato Bichento. Você sabe que brigávamos por tudo em Hogwarts. Apesar de amigos, seu pai me irritava profundamente, pois fazia muitas coisas que eu considerava estúpidas. O sentimento começou em meio a essas brigas infantis. Mas, não foi aí que tomei conhecimento dele. Também fui muito confusa, assim como você agora. Sabia que tinha sentimentos pelo seu pai, mas não entendia o que sentia. Na verdade, eu nem tentava entender, tentava ignorar porque o seu pai sempre agia de forma tão estúpida. No quarto ano, tivemos o Baile de Inverno do Torneio Tribruxo, onde eu e seu pai tivemos uma briga gigante. Seu pai não me convidou para o baile, como eu queria que ele o fizesse, mas ficou extremamente enciumado quando viu que fui com outro rapaz, um dos competidores do Torneio Tribruxo, Vítor Krum. Acho que aí nós dois sabíamos o que sentíamos, mas éramos muito imaturos pra viver um romance. Você sabe que seu pai não é a pessoa mais sensível do mundo, mas naquela época ele tinha o emocional de uma colher de chá. Ele melhorou um pouco com os anos.
Então, só admiti o que sentia quando as coisas estavam tão claras que eu nem conseguia esconder de mim mesma — o sentimento foi crescendo ao longo dos anos. Quero dizer, eu sabia há um tempo o que sentia por seu pai, mas só no sexto ano eu conseguia pensar nisso claramente, conseguia colocar todas as palavras na minha cabeça. “Hermione Granger, você gosta mesmo de Ronald Weasley”. Percebi isso depois de um longo verão n’A Toca. Foi aí que decidi que precisava fazer algo sobre isso, mas aí seu pai estragou tudo começando a namorar e me ignorando completamente. Eu o convidei para uma pequena festa organizada pelo nosso professor de Poções. Tudo estava certo para irmos juntos, mas aí seu pai começou a me ignorar completamente. Algum tempo depois, começou a namorar outra garota. Morri de ciúmes. Depois de muito tempo, descobri que isso foi motivado por uma briga que ele teve com Gina, em que ela disse que eu havia beijado Vítor Krum no quarto ano. Então, Rose, quando digo que seu pai era extremamente imaturo, não estou exagerando em nada. Ele ficou com raiva de mim por algo que havia acontecido anos atrás.
Depois disso, seu pai e eu estávamos muito ocupados pensando em Voldemort, na Guerra, e em salvar nossas vidas para pensarmos no que havia entre nós. Talvez, se tivéssemos sido crianças normais- que não tivessem passado seus anos em Hogwarts lutando contra Artes das Trevas -, teríamos mais tempo para pensar em paixões, romances… Aí, talvez, tivéssemos percebido mais cedo e encarado mais cedo nossos sentimentos. Mas, estávamos muito ocupados encarando monstros maiores. Por isso, como você sabe, nosso primeiro beijo foi durante a guerra, quando achamos que tudo podia estar acabado. É claro que valeu a pena esperar todo esse tempo por seu pai.
Mas, você, filha, não vive em meio a todas essas coisas. Você vive em tempos de paz, então não adie seus amores. Viva tudo que pode viver agora. Você até pode arriscar um pouco. Mas, eu, daqui, não tenho como saber o que você sente. Só você sabe. Por isso, minha Rosa, olhe para si. Acho que você já sabe a resposta do que me perguntou. Veja o que sente quando está com ele — foi assim que pude ver o que sentia por seu pai. É a convivência que nos mostra o que sentimos. Se imagine sem ele. Se dispa de seus medos e de suas inseguranças… Aí saberá o que está sentindo. Não tente pensar em tudo, nem considerar todos os aspectos disso. Não é um cálculo de Aritmância. Só pense no que você sente com ele. Paixão não tem lógica. Não precisa fazer sentido você gostar ou não de alguém. Você só gosta. Seu pai e eu somos tão diferentes, mas ainda assim nos amamos.
Espero ter ajudado, meu bem.
Estou morrendo de saudades. Me escreva com mais frequência, sempre estou aqui querendo conversar com você sobre qualquer coisa.
Um beijo,
H. G. W.
PS.: Diga para Hugo me escrever, mandei uma carta há duas semanas e ele não respondeu.
Olhe para si. Como eu faria aquilo? Tudo que havia em mim era um emaranhado de pensamentos confusos. Era medo. Sim, eu morria de medo, era verdade. Tinha medo do que minha família diria sobre aquilo. Tinha medo de me machucar, de ficar exposta. Mas tentei fazer o que minha mãe aconselhou. Não pensar em nada, só pensar em Scorpius e no que eu sentia por ele. Esquecer todas essas questões que estavam entre nós. Assim o fiz.
Eu conseguia me imaginar feliz andando pelos corredores de Hogwarts ao lado de Scorpius. Lembrava das aulas de tutoria e da paciência que ele tinha comigo. Gostava das vezes que nós nos provocávamos, das pequenas discussões que tínhamos por isso. Depois que nos tornamos amigos, essas briguinhas ocorriam com menos frequência, mas ainda estavam ali, para mostrar que éramos diferentes em muitos aspectos. Só que agora elas só me irritavam, não me matavam de raiva como acontecia até o ano passado. Era uma irritação divertida.
Lembrava também dos três sorrisos que ele tinha. Um era sacana, ele usava quando fazia uma piada ou quando estava me provocando… Era o único sorriso que eu conhecia antes de sermos amigos. Antes, aquele sorriso me irritava muito. Mas, aprendi a me divertir com ele. O segundo sorriso era cativante, tranquilizador e educado. Ele sorria assim quando eu acertava o ponto de alguma poção, para me encorajar. Era como se ele dissesse que estava tudo bem. O terceiro era o meu sorriso favorito. Era o mais feliz, faziam seus olhos brilharem. Ele sorria assim quando me via.
Por Merlin, Rose Weasley, você é muito estúpida! Mas é claro que Scorpius sentia algo por mim… Eu estava cega para não ver isso? Todos os sinais estavam ali dançando na minha frente. E cá estou eu novamente tentando me enganar com essa história de dúvida. Quando foi que eu pensei sobre os diferentes sorrisos de um cara? Sophie estava certa. Eu era muito obtusa. Minha mente trabalhava rapidamente enquanto eu caminhava pelos corredores. É claro que eu tinha medo. Minha família odiava os Malfoy, ele era um sonserino, seu pai foi Comensal da Morte. Mas Scorpius não era Draco ou Lucius Malfoy. Ele era diferente. E eu era uma Grifinória, afinal. Não deixava de fazer as coisas por medo.
Então, decidi fazer algo impulsivo. Não queria mais adiar aquilo. Em vez de me dirigir até a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, no terceiro andar, fui até a Sala de Feitiços, onde os alunos da Sonserina e Lufa-Lufa assistiam aula. Eu devia ter perdido a noção do tempo, pois esperava que os alunos ainda estivessem a caminho, mas a aula já havia começado. Todos estavam ocupados praticando algum feitiço enquanto a professora Emily Bettercup caminhava animadamente pela sala. Quando apareci na porta da sala, a Profª. Bettercup veio até mim sorrindo.
— Pois não, Srtª. Weasley — disse, educadamente, sorrindo. A Profª. Buttercup, como a grande maioria dos professores de Hogwarts, me adorava — Margareth Walker era a única exceção. Alguns alunos olharam para mim quando ela falou, mas a maioria continuou entretido na atividade — O que deseja?
— Professora, a Profª Minerva pediu que eu chamasse o Sr. Malfoy. Ela precisa falar com ele agora mesmo.
— Sr. Malfoy — a professora disse, virando-se para turma. — Acompanhe a Srtª. Weasley, por favor.
É claro que a professora acreditou no que falei. Pela cara apreensiva que Scorpius me olhou enquanto vinha até mim, talvez ele também tenha acreditado. Eu não costumava mentir para professores. Quando saímos da sala, o loiro exclamou, confirmando minhas suspeitas:
— O que aconteceu, Rose? O que a McGonnagall quer?
— Calma, Scorpius, você já vai saber — eu disse, entrando no jogo. — Ela está nos esperando na Sala dos Monitores.
— Não me diga que ela descobriu sobre minhas idas à Hogsmeade… Meu Merlin, ela com certeza vai tirar meu distintivo.
— Não acredito que você ainda vai à Hogsmeade escondido com Alvo, Scorpius… Você devia ter parado agora que é monitor — eu disse, tentando esconder o riso, sem muito sucesso.
— Rose Weasley… Estou quase perdendo o distintivo e você está rindo?
— Não estou rindo — respondi, divertida.
Aquela situação era cômica. Como Scorpius podia estar acreditando em mim? Eu esperava que Scorpius soubesse imediatamente que aquilo era uma mentira para tirá-lo da sala, que ele compreendesse que eu queria falar com ele sobre nosso assunto. Mas, não… Nem Scorpius imaginou que eu pudesse transgredir uma regra. Eu estava divertida e orgulhosa de mim mesma por surpreender. Eu só queria rir e dizer a Scorpius o quanto ele estava sendo ingênuo.
— Me conte logo o que é, Rose.
— Olha… não quero te deixar nervoso. Não sei do que se trata. Minerva só pediu que eu te chamasse. Ela parecia brava — provoquei, deixando o loiro ainda mais apreensivo.
Quando chegamos ao quarto andar, a Sala dos Monitores, naturalmente, estava vazia. Scorpius me encarou antes de perguntar:
— Será que ela vai demorar?
Então soltei uma gargalhada, fazendo o sonserino me encarar ainda mais.
— O que é tão engraçado? — disse, amuado.
— Você — eu disse, me aproximando dele. — Você é um grandissíssimo idiota, Scorpius Malfoy. A Minerva não quer falar com você. Eu menti pra Buttercup.
— Você mentiu pra Buttercup? — ele perguntou, abismado. Seus olhos se arregalaram.
— Sim, eu queria falar com você.
— Você queria falar comigo? — agora ele estava um pouco apreensivo, parecia ter entendido a situação.
— Você vai repetir tudo que eu disser?
— Desculpe, é que… Uau, você mentiu pra uma professora. Pra falar comigo. Uau.
— Sim… Mas, não fique se achando tanto. Fique sabendo que você se entregou dizendo que ainda vai a Hogsmeade escondido com Alvo. Não pense que eu não vou fazer nada, por que agora que somos monitores você sabe muito bem que não pode ficar fazendo essas coisas. Quero dizer, até espero isso de Alvo, mas você devia ser mais respo… — me interrompi quando percebi que Scorpius estava sorrindo. Era o terceiro sorriso, aquele largo, que chegava aos olhos. O meu sorriso. — Porque você está sorrindo desse jeito?
— É que eu sou convencido — ele disse, feliz. — Qual é, Rose? Você não me chamou aqui para me dar um sermão, certo? Digo, você não mentiu para uma professora, me fazendo cabular aulas, enquanto você mesma cabula sua aula favorita, pra isso, correto?
— Correto, mas você me distraiu — eu disse, começando a ficar vermelho ao lembrar o que precisava dizer a ele.
— Tudo bem, então diga… — disse, seguro.
— Bom… — comecei hesitante. Eu havia decidido falar com Scorpius impulsivamente, num rompante de coragem Grifinória impulsionada pela carta de minha mãe, mas não havia parado para pensar no que dizer. Eu não sabia como me declarar pra alguém, nunca havia feito algo do tipo. Eu era uma boa oradora, adorava falar, mas era péssima nisso quando se tratava de sentimentos, era péssima para externalizar o que sentia. Então, fui tropeçando nas palavras: — É que eu pensei e pensei… Nossa, eu pensei muito. E… Bem, sobre o que conversamos… Pensei no que me falou e — parei, quando vi que Scorpius continuava sorrindo. — Por que você está sorrindo desse jeito? Não está facilitando as coisas pra mim. Parece que sabe o que vou dizer.
— E eu sei — ele disse convicto, me irritando. Tão sonserino.
— Meu Merlin, você é tão convencido. Como pode ter tanta certeza? Você se acha tão irresistível assim? — meu nervosismo rapidamente foi dissipado pela irritação que senti.
— Não me acho irresistível, florzinha. Mas, acho você uma ótima pessoa, que vive preocupada em não magoar os outros. Você nem consegue dar um fora no McLaggen direito, sendo que o cara é muito chato. Não acredito que você tenha quebrado algumas regras e me tirado do meio da aula para me dar um fora — disse. Scorpius parecia brilhar de felicidade, vitorisos. — Isso seria crueldade. Então… você pode continuar.
— Eu não sou boa nessa coisa de externalizar sentimentos e você não está ajudando em nada dizendo que sabe o que quero dizer. Já que sabe de tudo, não vou te dizer mais nada — eu disse, um pouco irritada. Parece que sempre existiam algumas fagulhas entre nós.
— Tudo bem, Rose — ele disse, se aproximando de mim, mas agora não estava sorrindo. — Você não precisa dizer.
Aquele beijo não foi uma surpresa, como foi nosso primeiro beijo. Quando Scorpius se aproximou de mim, eu sabia que ele iria beijar-me, e fui até ele rompendo o espaço que nos separava. Seus lábios tocaram os meus fazendo as fagulhas que existiam entre nós aumentarem. O beijo dele era incrível, provocava-me sensações que eu nunca senti com mais ninguém. Agora que eu tinha certeza de meus sentimentos por Scorpius, o beijo parecia ainda melhor que o primeiro, mais intenso. Eu segurava em seus cabelos levemente, enquanto suas mãos estavam em minha cintura, aproximando nossos corpos. Quando nossos lábios se separaram, estávamos ofegantes. Ele não me soltou, mas me pegou num abraço apertado e terno.
— Você é incrível, florzinha — ele disse, baixinho. Eu respondi, no mesmo tom, sem me separar de seu abraço:
— E eu também estou apaixonada por você, Scorpius.
XX
Naquela noite, fui até o corujal. Eu sabia que minha mãe era curiosa, mas eu não podia lhe contar sobre Scorpius agora. Talvez ela reagisse mal, talvez não. Apesar de não odiar os Malfoy como meu pai, minha mãe não era uma grande fã da família. De qualquer forma, mesmo que ela reagisse bem, eu não podia correr o risco de Ronald Weasley descobrir sobre aquilo. Era uma guerra que eu não estava preparada para enfrentar. Então, em vez de contar detalhadamente sobre o dia incrível que eu havia tido com Scorpius após minha declaração, eu escrevi poucas palavras.
Mamãe,
Muito obrigada por suas palavras. Adoro saber de suas histórias com meu pai. Vocês sempre me surpreendem. Não acredito que você já ficou com aquele jogador de Quadribol famoso. Como nunca me contou sobre isso? Achei uma graça papai ter ficado com ciúmes por algo depois de tanto tempo. Você sempre foi a razoável dessa relação.
E você está certa, como sempre. Eu só estava com medo, sei o que sinto, tenho ainda mais certeza agora. Por favor, não me pergunte nada sobre isso. Prefiro manter as coisas em sigilo por enquanto, mas assim que possível lhe contarei.
Te amo muito.
De sua apaixonada filha,
Rose.
PS.: Hugo disse que vai lhe escrever amanhã. Vou incomodá-lo até ele enviar a carta.
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