"Aqui está a verdade sobre a verdade: ela dói. Então, nós mentimos."
(Grey's Anatomy)


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– Tudo bem, Jess. — eu repetia ao telefone, enquanto minha amiga novamente se desculpava por não ter atendido a minha ligação na noite anterior. Eu me remexi, virando o corpo para o outro lado, na cama. Suspirei. As cenas da noite anterior voltavam a minha mente. Fechei os olhos, apenas ouvindo o que Jess ainda dizia. Entre coisas aleatórias, ela soltava um "Só mais dois dias e logo você estará de volta.".
Era isso que me reconfortava. Saber que logo eu estaria na minha casa, no meu canto, no meu mundinho particular.
Ficamos por quase meia hora conversando no telefone, quando decidi que já era hora de levantar e encarar o dia. Depois da "conversa" com Dougie, eu havia me trancado no quarto até adormecer, mas sabia que agora as perguntas seriam feitas.
Arrastei-me até o banheiro, me olhando no espelho e percebendo que o meu rosto não estava tão ruim quanto eu imaginava. Menos mal, pensei.
Após o banho e escovar os dentes, procurei na minha mala algum short jeans e uma regata simples, já que pela janela do quarto eu conseguia ver o sol fraco indicando que o tempo estava fresco.

– Bom dia! — minha mãe cumprimentou-me assim que entrei na cozinha. — Bom. — respondi, sentando no banquinho do balcão. — Você está melhor? — ela perguntou, me deixando confusa. Percebendo o meu desentendimento, ela continuou. — Dougie disse ontem que quando estava indo ao banheiro, percebeu que você não estava se sentindo bem... então te aconselhou a ir se deitar um pouco. Eu acho que deve ter sido por causa do voo. — ela disse, sorrindo. Eu não sabia o que ele tinha feito para ninguém ir atrás de mim, mas estava agradecida. Era o mínimo que ele poderia ter feito. Sorri fraco em resposta a minha mãe.

– Bom dia, dorminhoca! — Allison entrou na cozinha, me dando um beijo. Eu apenas repeti o sorri fraco. — Se sentindo melhor? — ela perguntou e eu respondi que mais ou menos. — Ah, que pena. Ia perguntar se você queria ir ao parque com a gente hoje. — ela estava desapontada. — Com a gente? — questionei. — É, comigo e com o Dougie, Bruna.
Aquilo só podia ser brincadeira. Allison tinha perdido o senso do ridículo?! Ela queria que eu segurasse vela?! Mas esse não era o único motivo para eu recusar o convite. Olhei Ally se aproximar novamente e sentar ao meu lado.
– Bruh, sei que talvez Dougie não tenha te causado uma boa impressão... mas por favor, por mim, tente ser legal com ele, ok? — ela pediu. Eu apenas confirmei com a cabeça, pegando um pouco do suco de laranja que minha mãe havia posto na minha frente e o bebi, tentando encerrar o assunto.

O sábado estava sendo agradável. Logo depois de tomar café da manhã, meu pai me chamou para consertar com ele o seu antigo cadilac e eu aceitei. Tinha um bom tempo que eu não fazia nada com ele e sentia falta disso.

– Me passa aquele alicate vermelho? — meu pai pediu e eu o passei. Consertar e restaurar carros antigos era um dos muitos hobbies que meu pai tinha. — Você lembra, pequena, quando consertamos aquele charger 68 preto que você era louca para dirigir? — ele perguntou, fazendo-me lembrar do carro que eu dizia ser "o dos meu sonhos". Sorri com a lembrança. — Claro, pai. — respondi.
– Eu consegui vender ele por quase o dobro do valor que gastamos nele. Foi logo depois que você foi pra Nova Iorque. — ele disse, orgulhoso do seu trabalho bem feito. Eu apenas sorri, feliz.
Ficamos horas e mais horas por ali, conversando e relembrando muitos de nossos momentos juntos naquela garagem. Quando dei por mim, já eram quase cinco horas da tarde.

– Vocês vão ficar aí até que horas? Já está quase na hora de irmos para o festival da praça! — minha mãe nos avisou. Eu havia esquecido que aqui aconteciam esses tipos de eventos. A praça não era longe — apenas duas ruas atrás daqui — e quase sempre abrigava diversos eventos públicos, como festas e teatros. Era completamente normal todos se encontrarem por lá nos dias que ocorriam os eventos.

Haveria muita gente lá e eu não estava no clima. Preferia aproveitar a casa vazia e ver um filme, talvez. Nada que um momento sozinha não melhorasse o meu humor.
Aos poucos, vi meus pais ficarem prontos, assim como Ally.
– Tem certeza de que não quer ir? — meu pai perguntou e eu confirmei com a cabeça. — Ainda não estou me sentindo 100%, pai. Mas se eu mudar de ideia, eu vou pra lá. Pode ficar tranquilo, eu lembro onde é. — respondi, tranquilizando-o.
Um pouco antes de todos saírem, Dougie chegou para buscar Ally. Quando me viu ali, apenas me encarou rapidamente, mas sem dizer uma palavra. Não muito tempo depois, vi a casa ficar vazia.
Procurei algum filme interessante para assistir, da coleção da minha mãe. Sentanda no tapete da sala, eu estava rodeada de muitas VHS, mas acabei optando por Dirty Dancing.

Era incrível como eu chorava toda vez que via aquele filme. Eu simplesmente não me cansava de assistir e assistir de novo, já perdendo as contas de quantas vezes eu havia assistido no total ao longo dos anos.

Ouvi um barulho de chaves na porta, indicando que alguém havia retornado.

– Você ainda assiste os créditos? Nunca entendi essa sua mania. — ouvi aquela voz levemente rouca chegar aos meus ouvidos. Eu me arrepiei, inconscientemente. Eu havia esquecido como eu sentia falta da sua voz, dos seus comentários. Balancei levemente a cabeça, tentando afastar aqueles tipos de pensamentos. Ao perceber que eu não iria responder nada, Dougie subiu as escadas e sumiu de vista.
Eu respirei fundo.
Para a minha surpresa, Dougie voltou menos de um minuto.
– Eu só vim buscar o casaco da Ally. — ele parou ao lado do sofá, onde eu estava, e me mostrou o casaco. Eu apenas olhei rapidamente e voltei a minha atenção a televisão. Senti Dougie se aproximar e sentar-se ao meu lado.
– Taí uma coisa que acho super curiosa dos seus pais. É engraçado o fato de eles ainda terem um aparelho VHS. — ele tentava puxar assunto.
– Se já pegou o casaco, pode ir. Allison deve estar te esperando e morrendo de frio. — respondi, tentando fazê-lo ir embora.
– Da mesma forma que acho curioso você assistir os créditos finais de todos os filmes que você vê. — ele me ignorou, disposto a continuar com aquele monólogo. — Você ainda chora assistindo Dirty Dancing? — ele perguntou rindo.

(coloque para tocar)

– Por que você está fazendo isso? — perguntei, virando-me em sua direção, logo me arrependendo por ter feito isso. Estávamos mais próximos do que eu realmente desejava.


Just when I had you off my head
(Justo quando eu tinha te tirado da minha cabeça)
Your voice comes thrashing wildly through my quiet bed
(Sua voz vem invadindo com selvageria a minha cama silenciosa)

– O que mais me incomoda é você me ignorar. Eu não posso e nem quero esquecer os que tivemos. E me irrita pensar que você poderia. — ele sussurrou.
– Dougie, você agora é noivo da minha irmã. — minha voz falhou, devido aos seus olhos intensos presos aos meus e o seu perfume invadindo a minha mente. Eu queria falar muito mais, afastá-lo de mim, mas eu simplesmente não conseguia. Meu corpo estava entorpecido pela presença dele.

You say you wanna try again
(Você diz que quer tentar de novo)
But I've tried everything but giving in
(Mas eu tentei de tudo exceto ceder)


– Mas eu queria que você só lembrasse dos momentos bons. — ele pegou uma mecha do meu cabelo solto e colocou atrás da orelha. Meu corpo arrepiou ao seu delicado toque. Como se tivesse me despertado, levantei num pulo do sofá, assustada.
– Acho que você deveria ir. — foi tudo o que eu consegui dizer. Vi Dougie se levantar, mas ao invés de ir embora, caminhou na minha direção. Dei alguns passos para trás, mas logo eu estava encostando na parede.
Dougie colou seu corpo no meu, fazendo com que este ficasse ali, parado e sem obedecer os comandos do meu cérebro. Senti sua mão tocar a minha pele, nos meus braços fazendo um carinho delicado. Sorriu com seu jeito pervertido ao perceber que meu corpo correspondia ao seu toque. Seus olhos transbordavam desejo e eu tinha medo dos meus transparecerem a mesma coisa.
Dougie levou sua boca até a minha orelha e eu já não sentia mais o meu corpo. Parecia que a qualquer momento eu poderia desabar ali mesmo, se Dougie não estive me segurando contra a parede.
– Uma última vez. — ele sussurrou, para logo depois colar seus lábios nos meus. Foi inevitável não ceder.
E então, me dei conta de como eu ansiava por aquilo, de como sentia falta do seu toque. De como nossos lábios se encontravam num ritmo perfeito.

Why you wanna break my heart again?
(Por que você quer partir meu coração de novo?)
Why am I gonna let you try?
(Por que vou deixar você tentar?)
When all we ever do is say goodbye
(Quando nós só dizemos adeus)
All we ever do is say goodbye
(Nós só dizemos adeus)

A única coisa que eu desejava era que aquele momento não terminasse nunca.