"A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente."
(O Curioso Caso de Benjamin Button)

O som que saía do celular invadiu a minha mente. A sensação era de que a minha cabeça estava pesada e dolorida. Eu mal havia acabado de me deitar e o despertador indicava que eu deveria me levantar. Realmente, tudo o que é bom dura pouco. Ou melhor, pouquíssimo.
Enrolei por mais alguns minutos antes de me levantar e encarar o que o dia me reservava. Lembrar que hoje era o dia do almoço na casa de Jess me fazia querer voltar correndo para a cama, mas sabia que se eu fizesse isso, ela viria aqui e me arrastaria pelos cabelos.
“Você precisa ter uma vida social, Canivello.”, Jess dizia. Éramos amigas desde a nossa infância inteira e ela me conhecia melhor do que eu mesma. Às vezes parecia ler os meus pensamentos e até prever as minhas atitudes, o que era extremamente irritante em alguns casos.
Quando resolvi vir para Nova Iorque, Jess não "permitiu" que eu viesse sozinha e ofereceu-se para ser a minha companhia por aqui. Eu não pude negar, é claro. Ela chegou aqui uma semana depois de mim e não quis ficar no mesmo apartamento que eu, já que seu pai havia lhe dado dinheiro para comprar um só dela. Jess dizia que a área que eu morava era muito afastada do centro e que ela precisava da "bagunça" para ficar feliz.
Hoje, ela trabalha comigo, mas na parte de assessoria de imprensa, área que ela é formada.
Selecionei um short meio social e uma regata simples, sem muita intenção de me produzir para este sábado.
Joguei algumas coisas na bolsa, como o celular, o palm e o ipad, caso acontecesse alguma coisa que eu precisasse resolver de última hora. Ultimamente, a empresa era como se fosse o meu ar.
Tão fundamental quanto comer, dormir e respirar.
Eu suspirei. Após chegar na garagem do prédio, caminhei até o meu Pajero. Eu só o dirigia nos finais de semana e isso era um costume meu. Eu preferia ir para o trabalho de metrô, até mesmo porque era completamente difícil de estacionar em frente a empresa e não tinha nenhum estacionamento privado/pago por perto.

Assim que coloquei o celular preso no viva voz do carro, senti o mesmo vibrar. Olhei para o visor do pequeno aparelho e nele indicava que Jess estava ligando. Foi inevitável abrir um sorriso ao imaginar minha amiga surtando e quase arrancando os seus cabelos por imaginar que eu não estaria presente na sua "pequena" social.

– Fale, Jess! — respondi, segurando o riso. — Bruna, onde você está? Estou te esperando há quase duas horas e nada de você aparecer! — ela falava com uma velocidade incrível, mas que eu já havia me acostumado. — Estou a caminho, Jess. Não precisa surtar. — brinquei. Eu conseguia imaginar todos os movimentos e gestos que ela deveria estar fazendo agora. — Você não está fugindo por causa do Ian, está? Deus, como você é boba! — ela chutou. — Não, Jess. Não estou fugindo de ninguém. Como eu disse, estou a caminho. — rebati. Tudo bem que eu não estava com vontade de encontrá-lo, mas não era pra tanto.
- Eu sei que o encontro de vocês foi um fiasco, mas ele merece uma segunda chance. — ela tentou me convencer. — Esquece isso. Se ficar insistindo, volto agora mesmo para a minha cama e nem pensarei duas vezes ao voltar a dormir. — ralhei. Às vezes ela era insistente demais. — Eu sabia! Você ainda nem saiu de casa! Tudo bem, venha logo. Até mais.

E assim, ela desligou o telefone. Era engraçado a forma que nos dávamos bem. Jess era totalmente o oposto de mim. Eu era centrada, responsável e digamos que “correta” – na medida do possível – e ela era irresponsável, louca e agitada. Talvez o que nos ligasse fosse esse equilíbrio. Eu era a sua razão e ela, a minha loucura.
Jess também acreditava que eu e o Ian combinávamos, o que eu não concordava. Ian era imaturo e tudo o que ele queria da vida era baladas. Eu não estava nessa vibe, por mais que tivesse apenas 21 anos. Meu pai sempre disse que eu era "avançada" para a minha idade e eu concordava. Quando tinha apenas 13 anos, já sabia o que queria fazer na faculdade. Quando fiz 16 anos, comecei a juntar dinheiro para abrir a minha empresa. Claro, o dinheiro não foi o suficiente e meu pai interou, dizendo confiar totalmente em mim e na minha capacidade.

A casa de Jess ficava a uns 20 minutos de distância, não mais que isso. O céu estava limpo e com pouquíssimas nuvens naquele sábado e o sol tocava a minha pele de forma delicada. Quando finalmente estacionei o carro numa vaga perto da entrada da casa de Jess, senti meu celular vibrar novamente. Isso incomodava, mas fazia parte do que eu era. Do que eu sou.

– Bom dia, Olívia. — atendi a minha assistente, tentando ser o mais simpática possível. — Bom dia, Bruh. Te acordei? — ela perguntou receosa. — Não, tudo bem. Pode falar. — respondi, tranquilizando-a. — Tem uma mulher ligando pra cá, pedindo pra falar com você... — ela começou a me informar. — E não ligou pro meu celular? — perguntei. — Eu perguntei isso a ela, mas ela disse que não consegue. — ela disse, preocupada. — Tudo bem. Qual é o nome dessa mulher? — questionei. — Ela disse ser Allison, a sua irmã.

Eu sabia que isso não demoraria a acontecer. Mas eu não podia evitar, afinal, era a minha família. A única coisa que eu não queria era a pressão. Não só a pressão de ter que realizar o casamento dela, coisa que eu sabia ser o que ela queria, mas toda a pressão de Londres.
Depois da notícia de ontem, eu não teria como adiar a minha ida até lá. A única coisa que eu torcia era para que Jess pudesse ir comigo.

Desliguei o celular, entrando na casa de Jess e rezando para ter um bom dia. Desejando que a pior coisa que Jess pudesse me dizer fosse o absurdo de ela ser a última a saber de alguma coisa.