"Quando somos jovens, temos momentos tão felizes que achamos que vivemos num lugar mágico, como é na nossa imaginação. Então crescemos e nosso coração se parte ao meio." (Lembranças de um Verão)



A semana havia passado mais depressa do que costumava passar nos meses próximos ao final do ano. Enquanto a mídia teimava em dizer que “o tradicional” havia se perdido, a minha empresa provava ao contrário. Só no mês de agosto, eu havia planejado e organizado cinco casamentos – e isso era muito para um mês conhecido como “mês do desgosto” e considerando também a média dos anos anteriores que chegavam a dois ou três casamentos no máximo. Mas eu não tinha do que reclamar. Casamento era a moda da vez para casais ricos de Nova Iorque. A cada cinco casamentos realizados, eu era solicitada por quatro, mas só organizava três. Eu até gostaria de organizar todos eles, mas infelizmente, planejar um casamento e pô-lo em prática é mais complexo do que se parece. Partia-me o coração ter que recusar algum casamento, pois sabia o quão especial era esse dia para os noivos e eles queriam o melhor, que nesse caso, era a minha empresa, segundo os melhores críticos de eventos de NY. Não que eu acreditasse nisso, é claro. Sei que existem pessoas competentes por aí e que possam fazer igual ou até melhor do que eu faço. Eu simplesmente não sei como cheguei a isso, digo, a esse sucesso todo no ramo de casamentos. Eu os planejo como se fossem meus, o que é um pouco contraditório, já que não acredito que um dia irei casar.
Após alguns anos de relacionamentos frustrados, você aprende a focar suas energias e objetivos em outras questões da vida, como no meu caso foi o trabalho. Não foi a toa que criei fama, embora não concorde com tal. Foi um caminho longo e árduo.
Atualmente, vivo para o trabalho. Já conheci diversos lugares, pessoas ricas e importantes, assim como pessoas ricas e fúteis.

– Boa noite, John. – cumprimentei o porteiro do prédio onde eu morava. – Boa madrugada, Bruh. – ele riu, conferindo o relógio. – São quase quatro da manhã e você estava até agora na empresa?! — John sempre fora além de porteiro do meu prédio. Era também um amigo e já havia me ajudado muitas vezes em momentos propícios, o que me fazia eternamente grata.
– Pois é, esse mês está movimentado por lá! – respondi de forma simpática, mesmo estando louca para subir e dormir. – Tudo bem, vai lá descansar. Tenha um bom descanso! – ele me desejou, como se estivesse lendo os meus pensamentos. – Obrigada, você também. – sorri para o homem. — Sim, eu irei. Meu turno acaba às seis horas.

Desde quando me mudara de Londres, exatamente para esse prédio, John havia me cativado. Nas primeiras noites em que eu não conseguia dormir, eu descia e levava café para nós dois tomarmos enquanto ficávamos conversando. Através dessas conversas, descobri que o homem de 60 anos era casado e tinha dois filhos já adultos e também casados, além de quase 30 anos casado com sua esposa. Admirava-me ao saber como algumas pessoas conseguiam ficar com outras por tanto tempo. John foi uma das pessoas que mais me apoiou ao saber da empresa que eu estava abrindo ali, naquela cidade. Disse que o que eu fazia era ajudar as pessoas a realizaram os seus sonhos do jeitinho que elas haviam imaginado. Isso, claro, me deixou feliz. Hoje já fazia quase dois anos que eu morava ali e nossa amizade só tinha se tornado mais sólida, mesmo no ritmo frenético que eu encontrava-me ultimamente.

Chamei o elevador, rezando para que ele não demorasse a chegar. Eu estava morta e com os ossos moídos de tantas atividades feitas. Não demorou muito e logo eu cheguei ao décimo sétimo andar. O apartamento estava escuro e completamente vazio, como de costume. Tirei meus sapatos, sentindo o chão frio através da fina meia-calça. Meus pés latejavam em resposta ao cansaço e ao frio. Acendi a luz e caminhei até o telefone para ouvir os recados, torcendo para não ter nenhuma notícia ruim neles – coisa que eu fazia de praxe.

”Canivello, acho bom você estar em casa e não na empresa! Pode me atendendo, mulher.”

Sorri ao ouvir a voz da minha amiga soar ao telefone.

”Tá, já percebi que você não está aí, então vou falar logo: acho bom você não esquecer do almoço aqui em casa amanhã. Todo mundo estará aqui e o Ian sente a sua falta. (risos)”

Revirei os olhos ao ouvir o nome do garoto que dizia ser apaixonado por mim. Só em pensar em ter que acordar cedo, ir até a casa de Jess e encontrar o Ian, já me dava desanimo. Não pela Jess, já que ela era uma ótima amiga – e pirada! – e era a única que conseguia me colocar para cima, me deixando de bom humor.

”Não adianta fugir. Senão, vou aí te buscar!”

Me joguei no sofá para terminar de ouvir a mensagem e dar um descanso aos meus pés, percebendo a mudança do tom de voz de Jess.

”E amiga... descansa, por favor. Você vai ter um treco! Não quero perder a minha única amiga. Te amo. Beijos. Até mais.”

Seu tom era de carinho e preocupação. Jess sempre fora como uma irmã pra mim. Estava sempre ao meu lado, e claro, eu ao lado dela – mesmo nas loucuras em que ela me levava. Após a mensagem dela, duas outras aleatórias também haviam sido ouvidas e quando achei que eram as últimas, reconheci a voz da minha mãe.

”Oi, minha filha. Tudo bem? Bom, espero que sim. Acho que tenho boas notícias. Sua irmã tentou ligar para você através do celular, mas não conseguiu. Então, vou avisar por aqui mesmo. Sabe aquele namorado da sua irmã que tem uma banda? Não sei se chegou a conhecê-lo, já que não vem nos visitar há dois anos...e eu sei, eu entendo que foi por você não ter tido tempo e não por não sentir saudades.Aliás, ainda precisamos terminar aquela conversa. Oh, voltando ao assunto, daqui a pouco o meu tempo vai acabar. Então, ele pediu a sua irmã em casamento e claro, ela aceitou. Esperamos você para o jantar de noivado aqui, daqui a duas semanas. Eu realmente desejo que possa vir e sua irmã ficará muito feliz em saber que fez um esforço para estar com ela nesse momento especial.. Bom, você entende disso, né? Afinal, você trabalha com isso. Eu te amo. Beijos, mamãe.”

A mensagem era longa e não sabia como o tempo não havia se esgotado na metade do texto em que minha mãe falava. Sorri com esse pensamento. Isso era tão minha mãe, que me fazia ter saudades das nossas conversas por celular. Ela ficava três horas comigo e a ligação não caía ou acabava a bateria, mas era só a Jess me ligar que sempre acontecia algo: ou a bateria acabava ou a ligação caía nos primeiros dez minutos.
O conteúdo da mensagem me deixou surpresa, pra falar a verdade. Sim, a minha irmã é linda e completamente diferente de mim. Loira, alta e em forma. Não que eu estivesse fora de forma, mas ela era como uma modelo. Eu tinha os cabelos castanhos claros, estatura baixa (1,65 cm na verdade) e meu corpo era, digamos que normal. Mas o que me deixou surpresa foi o fato de ela querer se amarrar a alguém. Sempre gostou de namorar bastante e mal suportava um relacionamento de muito tempo. Não me entenda mal, eu estava feliz por ela. Isso só havia me deixado surpresa.
Após ouvir e apagar todos os recados, me arrastei até o banheiro para tomar banho e poder assim, dormir. Minha semana havia sido longa e amanhã seria um novo dia.

Notas finais
Esse é apenas o primeiro capítulo, mas espero que gostem.
E por favor, peguem leve! rs.. Essa é a minha primeira fic. (: