All Too Well
1 An upstate escape.
Notas iniciais
Enfim, aqui estou eu, tentando me livrar do bloquei criativo que do nada veio me atormentar. Por pura adrenalina, na véspera da minha prova, decidi postar essa fic, porque All Too Well está tocando na minha cabeça sem parar. Na de vocês também?
Espero que gostem da minha ideia e boa leitura!
I walked through the door with you, the air was cold
O inverno naquele ano estava mais rigoroso do que o de costume. A brisa gélida batia contra o meu rosto sem piedade, fazendo com que meus fios de cabelo dançassem com o vento.
Eu estava agasalhada da cabeça aos pés. Vestia um sobretudo que cobria a blusa de manga longa e a calça comprida e, além disso, usava um par de luvas, touca e um cachecol vermelho. Mesmo assim, ainda tremia de frio.
Quando a neve começou a cair, resmunguei, impaciente. Já estava frio o suficiente, mas eu sabia que a neve apenas agravaria a sua situação, e estava bem longe de casa.
Eu corri, assim que o cair da neve pareceu piorar. Sem sequer conseguir ver o que vinha em minha direção, apertei os passos, rezando internamente para que não esbarrasse e ninguém. Entretanto, minhas preces não foram ouvidas. Em uma questão de segundos, meu corpo se chocou contra o de alguém, fazendo-me cambalear.
— Desculpa! — disse rapidamente, sem nem mesmo conseguir olhar para o indivíduo na minha frente.
— Rose? Rose Weasley?
Não reconheci a voz masculina imediatamente. Na verdade, eu ergui o rosto até que meu olhar repousasse sobre a feição conhecida do rapaz, que me fitava com certa expectativa. Quando meus olhos finalmente se concentraram nos acinzentados do rapaz na minha frente, eu tive certeza de quem era.
— Scorpius? — Um enorme sorriso surgiu em meus lábios. — Já faz quanto tempo?
— Não sei, três anos? — arriscou ele, e provavelmente estava correto.
Eu e Scorpius estudamos juntos desde o jardim de infância até o penúltimo ano do colegial. Nos conhecemos a nossa vida inteira. Não éramos tão próximos, mas por muito tempo Scorpius foi o melhor amigo do seu primo, Albus Potter, então nos víamos com certa frequência. Lembrando-me do período de escola, senti-me nostálgica. Afinal, Scorpius havia sido o meu amor platônico de infância, que perdurou até o ensino médio. De fato, havia sido um sentimento secreto, que eu havia guardado apenas para mim mesma, mas era engraçado sentir aquele princípio de borboletinhas ressurgindo no meu estômago, mesmo depois de tanto tempo. Era esquisito, mas bom ao mesmo tempo.
— Meu carro está estacionado logo ali na frente, precisa de uma carona? — ele ofereceu, com um sorriso nos lábios.
Voltei o meu olhar para o chão de cor esbranquiçada e encarei a neve que se acumulava em pequenos bolinhos por alguns segundos, um pouco pensativa. A educação indicava que eu não deveria aceitar aquela carona, porque provavelmente o atrapalharia, mas a proposta era um tanto quanto tentadora. De repente, retornei o meu olhar para ele, que encarava-me curioso sobre o meu veredito. Então, um pouco envergonhada, eu acenei positivamente com a cabeça, enquanto um sorriso sem graça tomava conta dos meus lábios.
— Certo, só vamos precisar andar um pouquinho, até o final da quadra, não é muito. Ainda está morando no mesmo lugar?
— Sim — respondi, enquanto enfiava as minhas mãos no bolso do casaco. — No mesmo lugar.
— Você se importaria de passarmos na casa da minha irmã no caminho? É porque seria mais fácil para mim, prometi para ela que iria lá hoje pegar uma coisa.
— Sem problemas. Desculpa estar te atrapalhando. Se quiser, eu posso ir andando, não é um problema — falei, arrependendo-me de ter aceitado a carona. Eu sabia que incomodaria de alguma forma.
— Não, não é um problema! — exclamou ele, quase desesperado. — Quero dizer, é consideravelmente longe e podemos aproveitar esse tempo para colocar o papo em dia, o que acha?
— Acho uma ótima ideia.
— Ótimo. — Ele sorriu para mim, ao mesmo tempo em que abria a porta do carro preto. — Sinta-se em casa.
— Obrigada. — Ri baixinho e adentrei o veículo.
Scorpius deu a volta logo após fechar a porta para mim e sentou-se no banco do motorista. Ele olhou para mim por um instante, com um sorriso discreto em seus lábios. Eu conseguia ver a nostalgia em seus olhos, como se ele estivesse se lembrando dos momentos que compartilhamos no passado, embora não fossem muitos. Senti-me aliviada por não ser a única que se lembrava. Em seguida, ele focou sua atenção na estrada e deu partida, iniciando a nossa trajetória. Tirei o gorro que usava anteriormente, sentindo o vento sacudir os meus fios de cabelo ruivos livremente. Apesar de estar frio, era uma sensação gostosa de liberdade, que eu adorava.
Observei atentamente enquanto Scorpius mexia no rádio do carro, zapeando pelas estações até encontrar alguma que achasse boa o suficiente.
—Você ainda gosta de Queen? — indagou ele, enquanto “Somebody To Love” tocava no fundo.
— Está brincando? — perguntei retoricamente, e ele pareceu entender o recado. — Each morning I get up I die a little, can barely stand on my feet — cantarolei, completamente desafinada.
— Take a look in the mirror and cry, Lord, what are you doing to me? — completou ele.
...
Left my scarf there at your sister's house
And you've still got it in your drawer, even now
Cantarolamos as músicas aleatórias que tocaram na rádio até chegarmos na casa da irmã dele. Lembrava-me vagamente dela. Lyra costumava ser uma garota divertida quando éramos mais novos. Ela não era irmã sanguínea de Scorpius, mas eles haviam sido criados como tal e era algo lindo de se ver, especialmente depois de saber que eles continuavam agindo da mesma forma, mesmo que fossem adultos. Afinal, família não é apenas de sangue.
Desci do carro assim que ele abriu a porta do carona para mim e segurei a sua mão, quando ele me ofereceu ajuda para sair do automóvel. Caminhamos até a porta da casa e batemos algumas vezes, mas ninguém atendeu.
— Droga, eu juro que ela falou que estaria em casa agora. Se importa se esperarmos alguns minutos?
— Nem um pouco — respondi.
— Ótimo, vamos esperar lá dentro, eu tenho a chave.
— Ela não vai se incomodar? — falei, um pouco receosa.
— Não, claro que não. Você é uma velha amiga nossa, afinal.
— Bom, se você diz — concordei, dando-me por vencida.
Ele pegou a chave da casa no bolso e destrancou a porta. Depois, adentrou a casa e manteve a entrada aberta, até que eu fizesse o mesmo. A casa de Lyra era aconchegante e agradável. Não era muito grande e era repleta de móveis rústicos de tom tabaco, além de possuir um aroma cítrico, que me lembrava uma mistura de laranja e canela.
— Você pode tirar esse cachecol, se quiser. Aqui dentro não está tão frio — comentou ele, enquanto encarava o meu cachecol vermelho. — O aquecedor está ligado, então daqui a pouco vai começar a sentir calor.
Assenti com um movimento de cabeça e retirei o pano que envolvia meu pescoço. Assim que o fiz, pendurei-o no corrimão da escada que ficava próxima da porta de saída, certificando-me de que não me esqueceria dele. Era o meu cachecol preferido.
— Vem aqui, pode sentar.
Scorpius jogou o seu corpo contra o sofá desleixadamente e apontou para o local ao seu lado, dando tapinhas fracos no estofado. Fiz exatamente o que ele havia sugerido. Caminhei na direção dele e sentei-me ao seu lado no sofá, mantendo um distanciamento entre nós que parecia o suficiente para que ficássemos confortáveis um com o outro.
— Então, o que você fez nesses últimos anos? — questionou ele, despretensiosamente.
— Nada demais. Bem, eu entrei na faculdade, estou fazendo letras. Eu gosto bastante.
— Você sempre foi muito boa escrevendo, Rose. Eu me lembro disso da época de escola — falou ele, e eu fiquei verdadeiramente surpresa por ele se recordar disso. — Já pensou em publicar um livro?
— Sim, eu penso sobre isso às vezes, mas não sei se tenho coragem — disse, mas logo me arrependi e tentei mudar de assunto. — E quanto a você? O que andou fazendo?
— Não deveria desistir dos seus sonhos, e eu tenho certeza de que você é muito talentosa — disse Scorpius, tentando me motivar. — Nada demais. Eu comecei a faculdade de administração, mas resolvi parar um pouco. Não sei se é exatamente o que eu quero, entende? — Ele deu de ombros, parecendo desanimado.
— Albus comentou que você tinha se mudado para os Estados Unidos. Você gostou de lá?
— É um pouco diferente da Inglaterra, mas gostei sim — disse ele, conforme movimentava a cabeça para cima e para baixo.
— Parece divertido, eu sempre quis viajar por aí. Espero conseguir um dia — falei, soando sonhadora.
— É claro que vai conseguir, Rose. Você sempre consegue o que quer. — Ele piscou para mim.
Naquele instante, eu senti como se ele me conhecesse. Como se eu fosse aquela mesma Rose de anos atrás, como se nada houvesse mudado entre nós. A minha relação com Scorpius sempre foi muito leve. Ele não era um amigo próximo, mas era aquela companhia recorrente que me fazia sentir bem, me deixava feliz, e que agia como se sempre me conhecesse. De fato, ele me conhecia desde que eu era apenas um bebê, mas mais do que isso, ele me entendia. Era por isso que era diferente. Porque mesmo depois de três anos, ele ainda me entendia como ninguém. Bastava um olhar a ele parecia compreender tudo.
— Não é bem assim — respondi, levemente sem jeito. — Me conta como foi morar lá fora.
— Assustador, libertador e divertido. Tudo ao mesmo tempo.
— Eu queria poder sentir tudo isso ao mesmo tempo — falei, tendo certeza de que pareci um pouco boba, mas não me importava com isso. — Não consigo nem imaginar. Ir para um lugar completamente novo, sem as cobranças diárias, sem a rotina estressante, sem absolutamente ninguém para te dizer o que você deve ou não deve fazer. Ser livre. Às vezes eu sinto vontade de ir para algum lugar em que ninguém me conhece.
Os olhos cinzentos fitavam-me com admiração. O sorriso discreto no canto dos lábios apenas comprovava isso. Eu poderia estar sendo boba, mas ele definitivamente estava gostando da minha bobeira.
Subitamente, ouvimos a porta se abrir, e a irmã de Scorpius adentrou o ambiente. Fazia anos que eu não a via, mas ela não havia mudado nem um pouco. Continuava com os fios de cabelo negros cortados curtos e uma franja bagunçada caindo sobre a testa.
Entramos juntos no carro, assim que Scorpius pegou a mala que a sua irmã o entregara. Não conversei muito com ela, mas percebi que ela continuava gentil, como costumava ser. Nós costumávamos nos ver no máximo duas vezes ao ano, nos aniversários de Albus e Scorpius, mas ela sempre me pareceu uma pessoa extremamente adorável. Estávamos a quase dez minutos na estrada, e o silêncio era quebrado somente pela música que tocava na rádio. Mesmo assim, não era ruim. Era acolhedor.
— Droga — murmurei baixinho ao tocar o meu pescoço e não sentir o cachecol.
— O que houve? — Ele me observou do canto do olho.
— Não é nada demais, eu só esqueci o meu cachecol na casa da sua irmã — meu tom de voz soou levemente envergonhado por tê-lo preocupado sem motivo algum.
— Sabe o que isso quer dizer, Rose Weasley? — disse ele, sugestivo.
Movimentei a cabeça de um lado para o outro, em negação, sem ter ideia do que Scorpius estava falando, e ele sorriu.
— Quer dizer que vamos ter que nos ver de novo para eu poder devolver o seu cachecol.
— Ah, é? — Minhas bochechas esquentaram um pouco, adquirindo um tom avermelhado. Por sorte, eu tinha o frio para culpar.
— Definitivamente. — Scorpius estacionou o carro na frente da minha casa, retirou o celular de um dos bolsos da calça jeans e estendeu na minha direção. — Anota o seu número, eu te ligo mais tarde.
Peguei o aparelho da mão dele e digitei o número do meu celular. Seja lá o que estivesse acontecendo naquele momento, senti o meu coração acelerar e algumas borboletas voarem no meu estômago. Será que eu havia voltado para o colegial? Será que ele estava sentindo o mesmo? Eu não tinha a resposta, mas sabia que estava gostando daquela sensação que me preenchia, deixando-me em dúvida sobre os meus próprios sentimentos. Assim que terminei de anotar o meu número, devolvi o celular para Scorpius, e ele sorriu para mim.
— Obrigada pela carona. — Abri a porta do carro e saltei para fora do veículo.
— Não precisa me agradecer. Até mais. — Ele sacudiu o celular, indicando que me ligaria ainda naquele dia.
Eu não queria criar expectativas, mas um pequeno sorriso formou-se em meus lábios antes de eu entrar em casa.
…
Oh, your sweet disposition and my wide eyed gaze
Ouvi o som do celular vibrando contra a minha mesa de canto e rapidamente corri até ele. Número desconhecido. Será que era Scorpius? Quais eram as chances? Já era onze e quarenta e cinco da noite, era mais fácil ser algum estranho qualquer do que Scorpius Malfoy. Respirei fundo antes de desbloquear o aparelho e levá-lo até a orelha para atender à ligação.
— Oi. Aqui é a Rose — proferi, sem muito ânimo, com a voz um pouco arrastada.
— Desculpa, eu te acordei?
Meu coração disparou assim que ouvi a primeira palavra, e eu quase dei um pulo. A frase não era nem um pouco significativa, mas era ele. Scorpius não havia se esquecido de mim, afinal, como eu tinha pensado durante o dia inteiro.
— E se eu dissesse que existe um lugar? — ele perguntou repentinamente, e eu senti a minha cabeça girar tentando interligar os pontos. Nada naquela frase parecia fazer sentido.
— Que lugar? — certamente soei confusa, porque ele deu uma risadinha do outro lado da linha.
— Um lugar para você fugir, sem ninguém ao seu redor, sem cobranças, responsabilidades ou pessoas de dizendo o que fazer. Apenas você — ele parou de falar por alguns segundos, como se estivesse pensando. — Bom, você e eu.
Ouso dizer que meu coração disparou e nunca bateu tão forte em toda a minha vida. Era loucura, não era? E, também, ele estava falando hipoteticamente. Não podia ser verdade.
— O que você está querendo dizer?
— Estou querendo dizer que podemos fugir por alguns dias. Eu e você. Também estou de saco cheio das pessoas tentando me dizer o que fazer, acho que seria bom, e sei um lugar perfeito para isso. O que acha? Você topa?
Mordi o meu próprio lábio inferior, um pouco nervosa. A verdade é que eu costumava planejar a minha vida milimetricamente. Desde o meu café da manhã semanal, até a minha rotina de estudos e o meu estágio. Sempre me esforcei para ser a filha perfeita, a irmã ideal, a neta admirável e a prima divertida. Seria egoísmo demais querer ser apenas a Rose Weasley por alguns dias? A Rose que erra, como todos os outros, que rala os joelhos quando cai no chão e que chora vendo comédias românticas bobas. A Rose que eu tentava esconder por querer ser boa o suficiente para agradar todos ao meu redor. Não que fosse culpa da minha família, mas era assim que eu me sentia. E seria maravilhoso poder ser ela por pelo menos um dia. O quão rebelde seria se eu jogasse tudo para o alto por alguns dias apenas para ser eu mesma? Estava tentada a aceitar aquela proposta.
— Rose, ainda está aí?
Balancei a minha cabeça de um lado para o outro rapidamente, apenas para me despertar dos meus devaneios.
— Sim.
— Então, o que acha? — Algo na voz dele me dizia que ele estava apreensivo, quase tanto quanto eu.
Fechei os olhos e prendi o ar por alguns segundos.
— Eu topo — respondi rapidamente, antes que eu pudesse em arrepender da minha própria escolha.
— Ok. — Eu conseguia imaginá-lo sorrindo do outro lado do telefone. — Eu te pego em vinte minutos.
— O que? Vamos hoje? — questionei, sobressaltada, controlando-me para não gritar.
— Tecnicamente, já será amanhã. — Ele riu do outro lado da linha. — E por que não?
Por que não? Não havia um motivo para não ir. Naquele momento, pelo menos, eu não consegui pensar em nenhum. Por isso, eu sorri antes de finalmente respondê-lo:
— Te vejo mais tarde.
— Até.
…
We're singing in the car, getting lost upstate
A adrenalina percorria todo o meu corpo. Nunca em minha vida eu fiz algo que fosse uma escolha cem por cento minha. Aquela parecia ser a primeira vez. Era tão empolgante, uma sensação completamente nova que preenchia as minhas veias, deixando-me completamente elétrica. Depois de colocar algumas peças de roupa, meus documentos e o celular em uma mochila, encontrei-me com Scorpius assim que recebi sua mensagem e vi o seu carro estacionado na frente da minha casa. O sorriso presente nos lábios dele quando o encontrei era indecifrável, eu não saberia dizer a sua intenção, a não ser que pudesse ler a sua mente.
Assim que alcancei o veículo, abri a sua porta e sentei-me no banco do carona. Scorpius encarou-me no fundo dos olhos, de um jeito intenso, como nunca havia feito anteriormente. Meu coração parou por um milésimo de segundo, quando ele pareceu se aproximar ligeiramente de mim. Seu sorriso se estendeu um pouco mais, a ponto de mostrar os dentes e, por algum motivo, senti-me confortável e segura, então sorri de volta.
— Está pronta? — perguntou ele.
Quase perdi o ar, mas antes que permitisse que a minha cabeça falasse pelo meu coração, eu o respondi:
— Cem por cento.
Bastou a minha confirmação para que ele desse a partida no carro e iniciasse a nossa trajetória rumo ao desconhecido. Pela primeira vez em muito tempo, era emocionante sentir o vento gélido contra o meu rosto, quase tirando-me o fôlego. Quando ele ligou o rádio, cantarolamos juntos algumas músicas aleatórias que tocaram naquela noite, como se já tivéssemos feito isso milhões de vezes antes. Como se fosse um hábito nosso. Como se nossas almas já se conhecessem de outras vidas. É uma conexão estranha, eu não acreditaria se alguém me dissesse, mas é exatamente o que eu sinto. Era por isso que eu estava me permitindo viver aquele ato de rebeldia, apenas porque se tratava de Scorpius Malfoy.
Quando a minha garganta implorou por misericórdia, parei de cantar. Fiquei quieta por alguns minutos, mas não demorou muito, porque logo o peguei me observando e, escondendo o meu rosto ao virá-lo para o outro lado, eu sorri.
— Ei, o sinal está vermelho — o repreendi, assim que percebi que ele estava distraído demais olhando para mim, consequentemente tirando sua atenção do trânsito.
Felizmente, ele conseguiu parar a tempo.
— Obrigado.
— Para onde estamos indo afinal? — perguntei finalmente. Estava tão confortável ao lado dele, que nem sequer havia me preocupado em saber para onde estávamos indo.
— Para a casa de campo dos meus pais, no interior. Ninguém vai lá há anos. A última vez que me lembro de ter visitado com a minha família foi quando eu tinha sete anos. Eu fui lá algumas vezes depois, mas sou o único que ainda visita.
— Por que os outros não vão mais lá? — questionei impulsivamente, mas logo percebi que poderia estar sendo intrujona. — Desculpa, se não quiser falar sobre isso, não tem problema.
— Não, não importa. Acho que só perdeu a graça depois de um tempo, especialmente depois da minha mãe falecer. Mas eu gosto das memórias que tenho lá, então continuei indo algumas vezes depois.
— Desculpa. Eu sinto muito — falei, sentindo-me culpada por ter tocado em um assunto tão delicado.
— Já faz muito tempo, não precisa se desculpar — disse ele, tentando disfarçar seu incômodo, mas era nítido que ainda era um assunto delicado. — Você se lembra de quando eu ia na casa da sua avó e passava o dia todo lá brincando com o Albus? — falou ele, provavelmente tentando mudar de assunto.
— Sim, e quando eu tentava me infiltrar na brincadeira, o Albus sempre se irritava, e aí você pedia para ele me deixar brincar.
— Sim, o Albus sempre foi um esquentadinho. — Revirou os olhos e riu.
— Continua assim, se quer saber. Não mudou nem um pouco. É uma criança de vinte anos. — Retirei uma mecha de cabelo que atrapalhava minha visão. — Depois nós viramos adolescentes, e você passou a ir menos lá na casa da vovó.
— É, foi mesmo — concordou. — As coisas começaram a se complicar na minha casa no início da adolescência. — Deu de ombros, como se não fosse importante. — Eu lembro que você e o Albus iam sempre juntos para a escola e teve uma época que você se revoltou com o seu cabelo e só queria usar rabo de cavalo.
— Como se lembra disso? — Escondi o meu rosto com as mãos, tímida. — É porque ele é muito volumoso e naquela época era algo que me incomodava um pouco.
— Eu sempre achei lindo — elogiou ele, enquanto me observava pelo espelho retrovisor. — Parecem nuvens vermelhas.
— Era o que você dizia quando éramos mais novos.
E foi o que me fez parar de prendê-los, pensei, mas nem sequer ousei dizer uma única palavra.
— Olha, estamos quase chegando. — Scorpius apontou na direção de uma casa consideravelmente pequena e de aspecto antigo.
Aquela era uma cidade pequena, isso era nítido, porque a casa da família Malfoy encontrava-se completamente isolada, sem vizinhos ou mercados por perto. Era preciso caminhar pelo menos uma quadra para encontrar outras pessoas. Ali, só existia do céu noturno, cujas estrelas cintilavam sobre nós, as únicas vigilantes do nosso ato de rebeldia.
Scorpius estacionou o carro em frente a casa, abriu a porta para mim e estendeu a mão em minha direção, para ajudar-me a me levantar. Segurei-a firmemente até pisar em terra firme. Apesar das botas, senti meus pés congelarem ao entrarem em contato com a neve, então estremeci. Ele notou, porque fez uma careta assim que viu a minha reação.
— Está com frio? Eu vou acender a lareira para nós, mas antes vou te levar até a casa.
Ele não soltou a minha mão. Sem nem mesmo notar, Scorpius entrelaçou os seus dedos nos meus e levou-me para dentro da residência, que estava um pouco mais quente que o ambiente exterior. Quando atravessei aquela porta, senti-me extremamente acolhida. Como se aquele fosse o meu lugar, a minha casa, mesmo sem nunca ter pisado lá antes.
— Você pode esperar um minuto enquanto eu acendo a lareira? Pode ficar à vontade, você está em casa.
Scorpius finalmente soltou a minha mão e dirigiu-se para fora do cômodo. Tentando livrar-me do meu nervosismo, caminhei pelo local, sem pretensão alguma, até que encontrei um pequeno livro entreaberto sobre a estante da sala. Eu não queria ser intrometida, mas a curiosidade falou mais alto. Quando folheei o objeto, percebi que não se tratava de um livro, mas sim de um álbum de fotos. Meu coração se aqueceu ao ver a primeira foto. Era Scorpius, quando criança, trajando o uniforme de um jogador de beisebol e com óculos redondos cobrindo o seu rosto, enquanto segurava o taco com a mão direita.
Passei mais algumas folhas, haviam fotos dos seus pais, dele com a sua irmã brincando no quintal, e muitas outras. Quando cheguei na última página, deparei-me com uma foto que eu conhecia. Na verdade, lembrava-me perfeitamente daquele dia. Quando a mãe de Scorpius ainda era viva, ela sempre fazia aniversários para comemorar o nascimento do seu filho e era um costume que ele chamasse Albus e eu, mesmo que eu não fosse tão próxima. Nunca entendi o motivo, mas ele me convidava todos os anos, e eu sempre ia. Foi assim até os catorze, até que as festas pararam e um tempo depois ele sumiu do mapa.
— O que está vendo aí?
— Desculpa, eu não quis ser intrometida! — Fechei o álbum rapidamente, sentindo-me culpada.
— Ah, é o álbum de fotos?
Movi a minha cabeça de cima para baixo, assentindo.
— Você nunca me disse que queria ser jogador profissional de beisebol — brinquei, tentando quebrar o gelo.
Ele gargalhou baixo, o que fez com que eu me sentisse aliviada.
— Não foi uma carreira muito promissora, durou exatamente nove dias. Acho que não tenho talento para o beisebol. — Forçou um suspiro, fingindo estar frustrado.
Scorpius aproximou-se da lareira, e eu o observei conforme ele a acendia. Ele sentou sobre o tapete da sala e pendeu a cabeça suavemente para o lado, pedindo silenciosamente que eu fizesse o mesmo. Aproximei-me dele em passos lentos e sentei bem ao seu lado. Já não parecia mais que eu estava congelando como anteriormente.
— Você viu todo o álbum?
— Sim.
— Então acho que viu a nossa foto.
— Uhum — concordei. — Por que guardou aquela foto?
— É uma das minhas lembranças favoritas — confessou ele, com um sorriso leve nos lábios. — Foi o último aniversário em que eu me diverti de verdade. Foi um dia bom, jogamos diversos jogos estúpidos, fizemos brincadeiras de adolescentes, não havia muita coisa para nos preocuparmos. E vocês dois estavam lá também.
Eu não sabia o que aquelas palavras significavam, mas meu coração perdeu uma batida quando eu as ouvi, e as borboletas no estômago deram sinal de vida novamente. Dobrei os joelhos e os abracei, encolhendo o meu corpo. Apesar de não estar congelando, minha pele ainda parecia um pouco gelada. Timidamente, o olhei de soslaio, até que os nossos olhos se encontraram, fazendo-me desviar a minha atenção para o chão, que parecia menos constrangedor.
— Eu nunca entendi porque você me chamava todos os anos — proferi depois de alguns segundos de silêncio, fazendo os olhos dele se arregalarem.
— E eu nunca entendi porque você ia. — Uma risada escapou por entre os seus lábios. — Quero dizer, eu te convidava esperando que você fosse, mas nunca tinha certeza de que ia aparecer, eu só rezava para que você fosse e esperava que minhas preces fossem ouvidas.
— O que quer dizer com isso? — Finalmente, meus olhos reencontraram os dele.
— Acho que eu te convidava pelo mesmo motivo que você aparecia.
Quase engasguei, mas tentei controlar a minha respiração, que de repente pareceu descompassada. As sobrancelhas dele se ergueram, em uma feição preocupada. Ignorei, porque realmente não queria me explicar. Ergui a minha postura e coloquei o peso do meu corpo nas minhas mãos, que agora encontravam-se apoiadas firmemente no chão.
— Não tenho certeza — retruquei, sem dar muitos detalhes.
— Eu tenho quase certeza — disse ele, também sem dar mais explicações.
Ficamos quietos, apenas apreciando o momento e o calor que a lareira proporcionava, começando a fazer efeito. Scorpius moveu o seu corpo, girando no chão, na minha direção. Fiz o mesmo, até que ficasse de frente para ele, mas nada disse.
— Me conta algo que ninguém sabe sobre você — pediu ele, aleatoriamente.
Tentei me controlar, mas uma risada baixa escapou dos meus lábios. Não estava esperando por um pedido daqueles. Fiquei quieta por um tempo, fitando-o com uma feição pensativa. Eu não tinha muitos segredos, mas todo mundo tinha pelo menos um, e eu estava tentando me recordar de algum dos meus.
— Todos os anos, na véspera de Natal, eu passo a manhã inteira na livraria para ter um pouco de paz antes de começar os preparativos natalinos. Todo mundo fica correndo atrás de mim feito louco, mas eles nunca sabem onde eu estou. Eu amo o Natal, é a minha data do ano preferida, mas às vezes os preparativos são um pouco estressantes, então eu tento relaxar antes de começar. A vovó e a mamãe levam bem a sério — confessei, sentindo-me culpada como se estivesse cometendo um crime gravíssimo. — Eu sou uma pessoa horrível, não sou?
Scorpius quase perdeu o ar de tanto rir. A gargalhada soou alta, ecoando por todo o cômodo. Era a primeira vez que eu o via rir daquela forma em anos e aquilo aqueceu o meu coração de uma maneira inexplicável.
— Sua vez.
— Certo. — Ele levou uma das mãos até o queixo, pensativo, mas algo me dizia que ele já tinha a resposta na ponta da língua. — Eu te chamava para o meu aniversário, porque eu gostava de você.
Definitivamente, eu não estava esperando por aquela revelação repentina. Minha mente pareceu dar um nó, era como se todo o mundo estivesse girando. Quase fiquei sem ar. Os olhos cinzas encaravam-me intensamente, como uma tempestade de inverno, repleta de sentimentos que eu ainda não sabia como decifrar. Scorpius Malfoy havia sido o meu primeiro amor, um amor de infância que eu erroneamente achei ter superado anos atrás, mas estava longe disso. Mesmo após tanto tempo, ele ainda fazia o meu coração bater mais rápido, acelerado no ritmo de um carro em fuga, como se pudesse saltar do meu peito a qualquer instante. Sem contar com as borboletas, que pareciam festejar constantemente no meu estômago desde que ele reaparecera na minha vida.
— Era por isso que você ia também? — sua voz era suave e gentil.
Hesitei, mas assenti. Era justo que eu fosse sincera, afinal, eu não via nada além de verdades em suas palavras. Notei seu rosto se aproximar do meu sutilmente, quando sua cabeça tombou levemente para a frente. Eu conseguia sentir a sua respiração contra a minha pele, causando-me arrepios, de tão perto que ele se encontrava. Sem contar com o aroma agradável de café e hortelã do seu perfume, que infestava as minhas narinas.
— Você não acha que o mundo seria mais fácil se fosse assim? Só nós dois, exatamente como agora? — Seu olhar estava fixo no meu, prendendo-me como uma hipnose.
— Infinitamente mais fácil — sussurrei, mas alto o suficiente para que ele pudesse me ouvir.
Bastou uma aproximação milimétrica para que nossas testas se tocassem. Ficamos em silêncio por um tempo, e eu fechei os olhos, sentindo o momento. Sentindo o toque da sua pele contra a minha, o seu perfume, a sua respiração ofegante, e o coração batendo acelerado. Decorando a forma como ele me olhava. Decorando cada mínimo detalhe que eu pudesse guardar em minha mente. Até que seus lábios tocaram os meus, e todos os pensamentos se perderam. De repente, nada mais existia, apenas nós. Nenhuma responsabilidade, obrigação ou qualquer coisa que regia a nossa vida. Apenas eu e ele. Naquele momento, nós éramos o mundo. Éramos o lar um do outro, tudo o que precisávamos.
— Rose Weasley, eu espero não precisar devolver o seu cachecol vermelho tão cedo — ele murmurou em um tom de voz baixo.
Eu sorri.
Não precisei implorar para que ele me beijasse de novo. E de novo. E de novo. Então, ele me puxou para perto dele e me abraçou, e eu me aconcheguei em seus braços, encontrando ali tudo o que eu precisava. A partir dali, o abraço dele se tornou o meu abrigo, e eu sentia que poderia morar ali para sempre.
Ali mesmo, no tapete velho da sala, próximo da lareira, adormecemos naquela noite, onde, pela primeira vez na minha vida inteira, eu reconheci o meu lar em alguém.
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