All Too Well
4 Fearless
Eu queria chegar mais perto. Pensei em fazer a minha perna encostar-se à dele, mas não tenho certeza se fui eu que o fiz ou se foi ele ou se fomos os dois. Tudo o que eu sei é que lentamente – bem lentamente – nossas pernas estavam finalmente se tocando. Era um toque tão simples, poderia muito bem ser acidental, mas para mim naquele momento significa o mundo.
Eu tentei não me mexer, não queria arriscar que ele visse como uma rejeição quando eu mexesse, embora a minha perna estivesse doendo um pouco por estar tão tensa. Mas ele se mexeu, mudando de posição no sofá, acabando com o contato. Esperei um tempo para não ser tão obvio e me afastei também, decepcionada. Mas em pouco tempo já estávamos com as pernas encostadas de novo, e eu achei que dessa vez realmente havia sido a intenção dele.
Já era cerca de 1 da manhã quando Sophia desistiu de ver o filme, que tinha 3 horas, e foi dormir, deixando James sozinho em seu sofá que ficou chateado.
– Aahhh James, se você ficar com medo fala que eu sento aí do seu lado. – King brincou. Todos riram, mas eu não achei engraçado, pois tive medo de novo que ele quisesse uma desculpa para se afastar de mim. Mas ele não o fez.
Na próxima vez que ele se moveu eu percebi que ele se aproximou ao meu lado, fazendo nossos braços quase se tocarem. A manga da camiseta dele estava tocando o meu braço e se eu respirasse um pouco mais forte eu podia sentir nossos braços encostarem, e depois de algum tempo ele já estava encostado braço com braço comigo. Meu coração estava batendo mais rápido. Será que ele notou o que estava acontecendo? Ele estava pretendendo fazer aquilo? Eu tentei olhar pelo o canto do olho como estávamos posicionados, não parecia que estávamos nos tocando pra quem olhasse de fora, então eu tentei não ter muitas expectativas. Mas as minhas expectativas já estavam grandes, porque isso era mais do que eu havia esperado que pudesse acontecer.
Em algum momento eu notei que nossos braços estavam grudados, encostados fortemente juntos.
Toda vez que ele se movia eu temia que ele acabasse com o contato, mas toda a vez ele voltava para onde estava no mesmo momento. E toda vez meu coração acelerava, e eu sentia minha respiração ficar mais pesada, eu podia sentir a respiração dele também. Eu podia sentir quando a respiração dele ficava mais profunda, e quando ele ria eu sentia o vento de sua respiração no meu rosto, e quando ele falava eu sentia a voz dele ecoando através dos nossos braços grudados um no outro. Estaria o coração dele batendo forte como o meu?
Na próxima vez que ele se moveu, ele acabou completamente com qualquer distancia que havia entre nós. Ombros, braços, quadris e pernas. Estávamos finalmente encostados completamente juntos um no outro. Meu cotovelo até mesmo estava encostado na barriga dele. Eu não podia estar mais feliz. Eu tinha certeza. Ele gostava de mim! Ele queria esse contato! Eu nem acreditava que isso estava acontecendo.
Ele não se afastou mais e eu nunca movia o lado do meu corpo que estava encostado nele por nada desse mundo. Algumas vezes ele gentilmente desgrudava os nossos braços, porque havia sido um dia quente e nossa pele estava meio grudenta, mas voltava logo em seguida, como se fosse permitido, como se fosse normal.
De vez em quando um vento vinha através da porta balcão que estava meio aberta e ele se esticava na direção dele dizendo:
– ahh, vento!! – porque estava realmente calor aquele dia, principalmente com nós dois estando tão juntos, mas ainda assim ele não se afastou.
Eu tentei olhar para como nós estávamos de novo. Dessa vez eu vi, nós estávamos juntos! Visualmente juntos! Grudados, encostados um ao outro como se fossemos mais do que amigos. Eu achei ter visto James olhando para nós meio confuso, mas eu não em importei. Até o perdoei por quase ter tirado ele de mim quando Sophia foi dormir. Ele ficou comigo! Ele queria ficar junto a mim.
Eu fiz outro plano durante as 3 horas de filme. Quando o filme acabasse Nicolau e a namorada iriam embora, e James iria finalmente dormir, e King e eu continuaríamos sentados juntos no escuro, então ele finalmente me beijaria.
Bem….o plano só seguiu até certa parte.
O filme acabou. Nós continuamos lá juntos, sentados no escuro, até que todo mundo começou a se levantar. Eu me afastei um pouco para não ficar tão evidente aos outros, mas acho que ele encarou como uma rejeição e se afastou de vez, e acabamos nos levantando para nos despedir de Nicolau e Mary.
Eles ligaram as luzes, nós olhamos um para o outro com os olhos queimando pela claridade súbita. Nicolau e Mary vieram se despedir de nós e foram embora, James começa a pegar as coisas para me acomodar na sala – ele sempre age como o anfitrião – e eu e King ficamos na sala sem graças, sem saber o que dizer. Nós ajudamos James a arrumar a sala.
Quando estava tudo arrumado eu me sento de volta no sofá, com esperança que King não fosse para o quarto dele. James reaparece:
– Vocês dois não vão dormir? – ele pergunta
– Aaah, eu ainda não estou com sono. – eu respondo sendo uma total mentira, porque estava morrendo, esperando que ambos entendessem a dica.
– Tudo bem então. Boa noite pra vocês. – James disse indo para o seu quarto.
King pareceu meio confuso, ele ficou por alguns segundos em pé na sala sem ter certeza se ele deveria ficar.
– Normalmente eu durmo cedo, mas quando passa da hora normal de dormir muito tempo eu perco o sono. – eu expliquei
Ele entende dessa vez. E finalmente se senta no sofá, não no mesmo que eu, mas pelo menos ele ficou.
Eu tentei ter certeza se ele não queria ir dormir, e ele fez o mesmo que eu. Um monte de meias palavras, entre linhas e estávamos finalmente sozinhos.
Nós conversamos sobre um monte de coisas, mas não me lembro de tudo porque estava naquele estado de sono em que você nem tem mais certeza do que está dizendo. Sei que ele falou sobre o jogo, que ele achava difícil e não entendia por que tinha que jogar os dados... e de alguma forma eu sabia que ele nunca teve qualquer dúvida do tipo, pois ele obviamente sabia o que estava fazendo, então ele só estava dizendo aquilo para fazer eu não me sentir tão burra. Foi tão gentil.
Eu tenho quase certeza que foi ele quem trouxe o assunto de inabilidades sociais. Ele disse que não entendia indiretas, enquanto estava olhando pra mim tão significamente….Eu ri e esperei por mais alguma dica, e ele explicou de uma forma que parecia não ser sobre mim, mas eu não acreditei.
Eu disse que eu também não entendia, apesar de eu ficar procurando indiretas em quaisquer meias palavras que alguém me dirige, e contei pra ele sobre as minhas inseguranças sobre interação social.
– Eu vi uma tirinha sobre isso. Algo como: conhece a pessoa, tem tudo em comum com ela, trocam contatos – então por qualquer motivo presume que a pessoa te odeia.
– Sim!!! Eu conheço esse!! Doodle time! – Eu respondi me lembrando que havia curtido essa mesma tirinha há poucos dias atrás.
Nós falamos muito sobre gatos! De novo e de novo, nunca é cansativo. Eu tenho medo de soar louca, mas ele não parece achar isso. Ele tinha o livro de Simons Cat, e ele vai pega-lo em seu quarto para me mostrar, e se posiciona atrás do meu sofá enquanto eu o folheio.
Mais tarde ele trás sua pasta de desenho para me mostrar, sentando-se no braço do sofá ainda bem longe de mim. Eu amo ver desenhos, e já conheço a maioria dos que ele me mostra por ter stalkeado ele na internet, mas tento soar surpresa e fazer a quantidade certa de elogios mesmo no meu estado de sono. Ele passa rápido por desenhos de mulheres seminuas, torcendo para que eu não tenha visto, e eu acho isso adorável.
Quando ele finalmente senta ao meu lado é um grande momento! Eu tento me concentrar no que ele diz, mas eu estou com tanto sono que tenho que me lembrar de vez em quando que tenho que dizer alguma coisa.
Eu quero que ele me beije! E sei que o meu tempo está acabando, o sol já está nascendo e na televisão que ele ligou em um canal random quando eu disse que não estava com sono passa uma missa que eu sei que minha mãe assiste umas 5 da manhã.
– Desculpa. Tô aqui esse tempo todo te mostrando desenhos. – ele fala se levantando, como se tivesse medo de estar incomodando.
– Não, eu gosto. Faço a mesma coisa quando as pessoas vão à minha casa. – era a pura verdade.
Ele pareceu ficar satisfeito com essa resposta, pois deixa os desenhos em algum lugar e pega um dos grandes livros de RPG na estante, um de vampiros, porque ele sabe que eu gosto, voltando a se sentar do meu lado.
Eu olho dentro dos olhos dele, e estudo o seu rosto, sua pele, sua boca, seus dentes, mas por curtos espaços de tempo. Ele olha bastante para mim também. Eu estou esperando ele se aproximar para me beijar, e finalmente percebo que não vai acontecer.
É engraçado quando você ainda não conhece a pessoa direito, e cria milhões de expectativas imaginando o que essa pessoa faria. Eu não o conhecia, eu achava que já tinha uma boa idéia mas estava errada. Ele não iria tomar uma atitude tão cedo, ele não se arriscaria, mesmo que estivesse na cara o porquê de eu estar ali.
Então nós folheamos todo o livro durante a próxima hora, era interessante, e era adorável o quanto ele era apaixonado por aquilo. Eu queria aprender tudo sobre ele e as coisas que ele gosta. Quando o livro acaba ele finalmente cita o elefante cor de rosa da sala.
– Nossa! Já tá amanhecendo! Te mantive esse tempo todo aqui falando.
Eu tento garantir de que está tudo bem e que estou me divertindo, ele ameaça pegar outro livro mas desiste. Então ele se senta no outro sofá, porque não tinha uma boa desculpa para sentar ao meu lado dessa vez, e nós conversamos por mais alguns minutos quando percebo que ele mal consegue manter os olhos abertos.
– Você está morrendo. Pode ir tomar banho primeiro. – eu falo me sentindo mal por te-lo mantido lá todo esse tempo, afinal ele estava fazendo sala para a visita, mas já sabendo que ele vai me deixar ir primeiro.
– Aaahh não. Pode ir primeiro. – ele responde e eu sei que não adianta discutir, essa parte da personalidade dele eu já conhecia muito bem – ele é muito gentil.
Quando saio do banheiro ainda tenho esperança que algo possa acontecer, tenho medo que essa seja a minha única chance. Ele passa pela a sala perguntando se ainda preciso de algo do banheiro e finalmente entra. Eu espero acordada, ainda sentada no sofa, decidindo algo direto que eu possa dizer pra ele para faze-lo me beijar. Quando ele sai ele diz:
– Ainda ta aí? – ele pergunta confuse.
– Éé…- eu digo sem conseguir pensar em nada pra dizer. Ele vai até a cozinha tomar água, então passa por mim dizendo.
– Até mais, então.
– Até.
Eu me deito mas ainda fico horas acordada, falando com uma amiga por sms perguntando o que eu posso fazer. Meu próximo plano era que no dia seguinte, quando fossemos almoçar e estivéssemos andando atrás de James e Sophia, eu lhe diria que estava gostando dele. Direto, para não ter nenhuma dúvida.
Quando eu acordei, cerca de duas horas depois, a idéia já não parecia tão boa, e eu sabia que não ia dizer nada.
Sophia e James acordam, e James pergunta até que horas nós ficamos acordados ontem.
– 7 da manhã. – eu respondo. Eu esperava que eles perguntassem alguma coisa, mas eles são incrivelmente adoráveis e discretos, apesar de que se eles fossem um pouco indiscretos poderia até ajudar.
Era 1 da tarde quando King acorda, sai do quarto coçando os olhos, visivelmente ainda cansado, mas ele diz “Bom dia” e se senta em um dos sofás.
– Coitado do King. Fiz você ficar acordado até de manhã. – comentei. Ele ri.
– E você ainda ficou acordada um tempo né? – perguntou
– Um pouco, procurei alguém pra conversar na internet.
– Nossa e tinha alguém on?
– Não.. Logo eu fui dormir.
Eu percebo que ele tira os óculos muitas vezes enquanto fala comigo, e me perguntou que talvez seja uma forma de melhorara a aparência. Então pra testar a minha hipótese eu tiro os óculos em algum momento e finjo limpa-los.
– E você? Dormiu bastante tempo? – ele pergunta assim que faço isso.
– Não. Estou na dúvida se são os meus olhos ou as lentes que estão embaçadas. – eu digo já tendo planejado essa frase pra ser convincente. Ele ri.
Nós começamos a falar sobre óculos, ele diz que já tentou usar lentes, porque acha que fica melhor sem os óculos. Eu digo que não me importo de usar. Ele comenta que acha que os olhos dele ficam pequenos usando-os, eu analiso por um momento e digo que não, ficam normais. Ele diz “obrigada” feliz. Teoria comprovada.
Quando saímos para almoçar eu já sabia que eu não diria nada do que pretendia, mas ao menos tentaria dizer algo que desse uma dica.
– Você vai muito pra São Paulo? – perguntei com esperança.
– Não muito. Geralmente só quando tem que comprar alguma coisa.
– Aahh, quando você for me avisa, aí a gente marca alguma coisa. – eu disse sabendo que esse era o máximo de indireta que eu poderia dar.
– Aahh, aviso sim. – ele diz surpreso.
– Lá tem a Liberdade, tem um monte de coisas da fandom, é mágico. – eu digo tentando disfarçar.
Dessa vez ele me acompanha, junto com James e Sophia, até a rodoviária. Quando vou me despedir fico na dúvida se dou um abraço, e acabo o abraçando um pouco rápido demais o deixando confuso. Digo tchau a todos e entro no ônibus, os observo indo embora, sabendo que eles não conseguem me ver, esperando que a minha indireta tenha sido o suficiente.
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