All That Matters
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Pov Rachel
Amarela. A parede na minha frente é amarela.
Me concentro no que a psicóloga me disse, observando o lugar onde estou e o que está à minha volta. Meu quarto amarelo, os lençóis debaixo de mim, minhas mãos que tocam o meu ursinho de pelúcia.
O ursinho que meu bebê nunca vai segurar.
Eu o perdi. Eu a perdi e nem sequer pude ver seu rostinho. Eu nunca saberei se ela teria os meus olhos, o meu sorriso... se ele teria o sorriso tão lindo quanto o do pai. Pensar em tudo isso corta minha garganta como se eu estivesse no deserto e não houvesse mais água no planeta. Meu corpo inteiro dói, e minha cabeça ainda está zonza dos remédios que o psiquiatra passou. Não sei muito bem onde estou. Mas dói, tudo dói, dói demais.
A porta se abre, e minha cabeça vira automaticamente como um reflexo. Não me importo exatamente com quem está vindo.
Vejo Kurt andando em minha direção, com Quinn ao seu lado. Não sei se ele anda devagar ou se é a minha percepção do mundo em câmera lenta, mas ele se aproxima tão lentamente de mim. Cada segundo dura um milênio. Cada respiração me traz uma nova dor. Eu não sabia que podiam haver tantas.
Pov Kurt
Vejo Rachel ali, sentada em sua cama e encarando o vazio. Ela parece tão frágil, tão pequena... ainda não consigo acreditar que minha amiga está passando por tudo isso.
Quando finalmente me sento ao seu lado, ela desaba em lágrimas, e choramos até o mundo parar.
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"Sua mãe me contou." — digo, fazendo carinho em seu cabelo, sua cabeça apoiada no meu colo. Rachel chora repetidamente, para alguns segundos pra se recuperar, e quando penso que ficará bem, desata novamente a chorar. Nunca a vi assim, e não consigo sequer materializar o tamanho dessa dor. Quinn, com sua barriga gigantesca, acaricia os pés de Rachel, que estão sobre seu colo.
"Des..culpe... por não" — um soluço interrompe sua fala — "contar..."
"Tá tudo bem. Eu te amo. Nada vai mudar isso."
Não há palavras pra descrever o sentimento acumulado nesse quarto. Não há como descrever essa dor.
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Pov Jesse
2 semanas. 2 semanas desde que o mundo se abriu debaixo dos meus pés e eu desabei. Perdi meu futuro, minha mulher e melhor amiga, meu filho. Perdi tudo o que me fazia ser eu, e não sei como continuo de pé aqui, ou o porquê.
Estou sentado na cantina quando um sanduíche aparece na minha frente.
"Oi." — Quinn, com sua barriga do tamanho de uma melancia.
"Obrigado." — digo, e pego o sanduíche pra guardar na bolsa.
"Nada disso." — ela toma a minha bolsa de mim, abre o zíper e pega novamente o sanduíche. "Come. Na minha frente. Quero ver você comendo."
Eu dou de ombros, desembrulho o sanduíche e dou uma pequena mordida.
"Como ela tá?" — pergunto o mesmo de todos os dias. Quinn me estende uma garrafa d'água, ela só vai me contar se eu beber.
Quinn tem sido minha única fonte de notícias sobre Rachel. Shelby me atualizou do básico: ela está medicada, fazendo terapia e repousando. Perdeu 2 semanas de aula.
Quinn é minha única fonte real. Ela me diz que Rachel não está bem, que encara o vazio e chora o tempo todo. Que fala do bebê em praticamente todas as conversas.
Rachel não quer me ver. Ela diz a todos que me ver a faz lembrar do bebê. Ela não quer que eu ligue pra ela, que eu mande mensagens ou que tente contatá-la de forma nenhuma.
É a primeira vez em toda a minha vida que não posso chorar em seu ombro e secar suas lágrimas. E sempre que eu penso que algo não pode ser mais doloroso, dói um pouco mais.
Meu pai me pediu pra voltar pra casa com eles. Eu não quis. Rachel pode me ver nos corredores, e isso não faria bem a ela. Além disso, como ficar a uma parede de distância e não poder abraçá-la? Não poder dizer que sinto muito por ter causado tudo isso?
Meu pai estava certo em me expulsar de casa. Eu não a mereço. Eu destruí a garota que mais amei em toda a minha vida. Eu a fiz infeliz. Jamais vou me perdoar por isso.
"Jay..." — Quinn pega minha mão, e eu a olho nos olhos — "Ela vai voltar pra escola. Vai... tentar vir. A médica acha que vai fazer bem."
Quinn não diz, mas eu leio em seus olhos.
"Uhum. Eu vou tentar dar uma sumida pelos corredores." — digo.
"É só até vocês darem um jeito nisso tudo." — Quinn sorri, sem humor algum.
"É."
"E vê se come, Jesse. Sua calça tá começando a cair!"
"Eu não coloquei cinto hoje." — é um milagre que eu ainda saiba como me vestir.
"Sei." — Quinn me dá um beijo na testa, e eu acaricio levemente sua barriga.
Pov Kurt
O clima na sala do coral está estranho, pesado. Sr. Schuester parece tentar manter a calma enquanto escreve o tema do encontro de hoje no quadro, ele também está emocionalmente abatido com tudo o que aconteceu. Desta sala, somente Quinn, Puck e eu sabemos sobre como Rachel está, os demais pensam que ela sofreu um acidente.
Blaine e Sam estão sentados longe de mim na sala do coral pela primeira vez em muito tempo. Tenho estado distante deles, não atendo às ligações e nem respondo suas mensagens.
A verdade é que ser o suporte emocional de Rachel tem me destruído emocionalmente também. Eu vou à casa dela quase todos os dias depois da aula, ela deita sua cabeça em meu colo e chora copiosamente. Ela está melhorando aos poucos, tomando calmantes prescritos pelo psiquiatra e fazendo terapia para tentar lidar com tudo isso. Sei que preciso estar ao lado dela nesse momento inexplicavelmente difícil, e estou feliz por poder ajudá-la, mas sempre que saio de lá, me sinto destruído, atropelado por um rolo compressor.
É por isso que tenho estado distante dos meus amigos. Meu pai também se preocupou comigo, e tive que contar a ele o que aconteceu. Decidimos que seria melhor não contar ao Finn por enquanto, é uma decisão que pertence apenas à Rachel.
Blaine está tão lindo hoje. Seu cabelo naturalmente cacheado voltou a ser penteado pra trás e coberto de gel, o pullover cinza destacando perfeitamente a camisa branca que está por baixo. Ele fica tão mais bonito sem o casaco do time de futebol.
Me lembro de Rachel e me sinto terrível por estar pensando num menino enquanto minha amiga sofre tanto.
A aula é mais curta do que o normal, Sr. Schuester parece distraído e distante. No final da aula, como de costume, ele oferece a vez para que um de nós possa cantar a música que nos define, exercício que já dura o ano inteiro porque metade do grupo ainda não trouxe nada.
É quando Blaine levanta sua mão.
"Blaine..." — Sr. Schuester diz, enquanto Sam observa — "o ideal era que cada um de vocês trouxesse apenas uma música."
"Alguém mais quer cantar hoje?" — Blaine pergunta pra classe, que permanece em silêncio.
"Não? Ótimo." — ele diz, já se levantando e assumindo o centro da sala.
Blaine canta a letra da música olhando fixamente em minha direção, e nossos colegas começam a me olhar também. Ele enfatiza bastante a parte que diz que tenho "tanto medo de quebrar isso que não deixo dobrar". Sam me olha como se não fizesse a menor ideia do que está acontecendo. Sinto vontade de cavar um buraco e me esconder dentro dele.
Quando Blaine termina a canção, não faço a menor ideia do que fazer.
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"Blaine!" — grito pelo corredor, enquanto o fã número 1 de Danny Zuko anda apressadamente pela escola.
"Tranquilo, Kurt, já entendi!" — Ele me responde sem nem olhar pra trás.
"BLAINE DEVON ANDERSON, NÃO DÊ AS COSTAS PRA MIM!" Tiro de mim toda a força atlética que nunca tive, e saio correndo. Ele para e se vira nesse exato momento, fazendo com que eu praticamente me jogue em cima dele e derrube nós dois no corredor.
"Ótimo." — Ele me diz, olhando nos meus olhos comigo literalmente em cima dele — "Tá me ajudando bastante, você."
Eu me levanto e o ajudo a se levantar. Enquanto ele limpa a calça com as mãos, o agarro pela manga da camisa e o levo até um corredor mais isolado.
"O que foi aquilo?" — digo, quando estamos sozinhos.
"Eu, sendo espontâneo." — Ele dá de ombros.
"Todo mundo olhou na nossa direção, Blaine! Você praticamente imitou o Finn com toda aquela história de 'garota do Jesse'."
"Olha Kurt, que você não quer namorar comigo eu já entendi, mas precisava me dar um ghosting por quase 1 mês? Eu pensei que fossemos amigos, ao menos!"
"Eu SOU seu amigo, seu idiota!" — digo.
"Então o que é, você tem medo que eu te agarre e te dê um beijo do nada? Porque eu não vou fazer isso, eu vou respeitar os seu limites e tal, mas se você pensa tão baixo assim de mim..."
Eu calo sua boca com um beijo. Primeiro, porque ele está histérico e reclamão. Segundo, porque eu não tenho muitos argumentos pra fazer esse cabeçudo entender como me sinto. E terceiro, porque eu quis.
Era pra ser um beijo rápido e que fizesse o senhor irritadinho calar a boca, mas se transforma rapidamente em algo mais. Nosso beijo é gostoso, demorado, nossos corpos se encontram e eu o aperto à parede.
"Porra, Kurt!" — É o que Blaine diz quando nosso beijo termina.
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"Meu Deus do céu!" — Ele fala, quando lhe conto tudo sobre o motivo do meu sumiço. — "E como é que ela está?"
"Destruída." — Digo, comendo um pouco mais do meu sorvete. — "Tem sido difícil demais, Dev, estar ao lado dela e acompanhar todo esse processo. Ainda bem que ela tem uma mãe incrível e toda uma assistência médica a ajudando a lidar com isso da melhor maneira possível. Eu não sei de onde ela tem tirado forças." — A verdade é que esse tempo com Blaine está fazendo muito bem pra mim. Fomos ao cinema, nos beijamos praticamente a sessão inteira, e agora estamos aqui, comendo sorvete na praça de alimentação do shopping, Blaine segurando a minha mão. Por mais que eu ame minha amiga, está sendo muito bom ter esse momento para recarregar as baterias.
"É por isso que eu não tenho estado com vocês. Eu... não tenho forças, sabe?"
"Kurt," — Blaine me olha nos olhos, e aperta minha mão um pouco mais firmemente — "você não precisa carregar o peso todo do mundo nas costas." — Ele diz essa frase com tanto carinho, que me sinto aconchegado e protegido por ele nesse momento, por esse cara que infernizou a minha vida por tanto tempo e que é uns bons 5 centímetros mais baixo do que eu.
Encosto minha cabeça em seu ombro, e fecho meus olhos.
"Tá, vamos namorar."- Digo, ainda de olhos fechados. Blaine muda de posição.
"Como assim 'tá, vamos namorar'? Parece até que eu estou te obrigando!"
"Não, é que..." — me perco em minhas próprias palavras — "Ainda não... publicamente."
Blaine me olha como se eu não estivesse fazendo o menor sentido agora. Provavelmente não estou mesmo.
"Você não quer magoar a Rachel, né?" — ele parece me entender tão rapidamente.
"É, de alguma forma. Quero esperar até ela se recuperar. Tenho receio de que ver um casal apaixonado possa gerar algum gatilho nela."
Blaine ergue as sobrancelhas, e dá um sorrisinho safado. — "Apaixonado, é? É por isso que você me chamou de Dev?"
"Pareceu certo, termos um apelido só nosso." — dou um sorrisinho tímido, e escondo minha cabeça em seu ombro. Ele dá um beijo na minha cabeça.
"Te amo." — diz, ao pé do meu ouvido.
"Te amo." — Respondo, com a cabeça apoiada em seu peito, e o mais baixo que consigo. Não sei se ele conseguiu me ouvir, mas sei que ele sabe. Porque agora, eu também sei."
"Aliás, eu não sei o seu nome do meio." — Blaine diz, enquanto saímos do shopping de mãos dadas.
"Elizabeth." — rolo os olhos, enquanto o vejo prendendo o riso. — "É ridículo, eu sei. Se eu fosse menina, seria 'Elizabeth Kurt'."
"Uhum." — é o que ele diz, e damos mais alguns passos. — "Posso te chamar de Liz?"
"Não, absolutamente não."
Pov Jesse
Eu dormi na sala de aula. São 13:45, a aula acabou a muito tempo e eu sequer saí da sala para o intervalo. Levanto apressadamente, tentando me manter dentro do meu cronograma atual: sumir minutos antes do intervalo, voltar minutos depois que o sinal toca. Passo a maior parte do tempo trancado no banheiro masculino ou escondido entre as prateleiras da biblioteca. Tudo para que Rachel não me veja.
Mas hoje, tudo desaba. Estou saindo rapidamente da sala quando a vejo sozinha cruzando o corredor, alguns metros de distância de mim. A vejo imediatamente, e ela também me vê, nossos olhos se cruzam.
E ela começa a chorar.
Rachel abaixa a cabeça e tenta segurar o choro, mas ele logo vem, brotando de dentro da garganta e a fazendo respirar fundo e puxar o ar. Ela leva aos mãos ao rosto, e se vira o mais rápido que consegue, fugindo de tudo, fugindo de mim.
Rachel não quer me ver. Ela não suporta me ver. Mesmo a metros de distância, eu a faço sofrer apenas por estar aqui.
Pego minhas coisas e simplesmente vou embora do colégio sem olhar pra trás.
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Estou sentado no chão da sala do apartamento de Emma, que agora é minha nova casa. Faz uns dias que não varro o chão. O pote de macarrão instantâneo do meu jantar de ontem está jogado na pia. Não tenho vontade de comer, ou forças pra fazer nada.
Emma vem aqui umas 2 vezes por dia. Faz comida pra mim, que eu deixo na geladeira e raramente como. Me pergunta se quero ajuda pra limpar as coisas, mas eu não quero dar a ela mais esse trabalho, depois de tudo o que eu causei. Me dá um beijo na testa, me abraça forte, e na maioria das vezes, é essa a hora em que eu me permito chorar. Chorar por tudo que aconteceu tão depressa e que eu nem sequer consigo materializar agora. Chorar por tudo o que não sou.
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Rachel desliza suas mãos sobre meu peito. Ela beija meu pescoço, e eu sussurro em seu ouvido o quanto a amo. Meu corpo quase explode quando ela me toma em suas mãos, e sou completamente seu. É quente, doce, tê-la em meus braços novamente, estar entre suas pernas novamente, e eu a beijo, toco, penetro, sinto, meus lábios em seus seios e minhas mãos em seu sexo enquanto gememos juntos, chegando ao nosso ápice. Ela é a coisa mais deliciosa que eu já provei.
Acordo num pulo. Suando desesperadamente, com o coração acelerado, ainda a sentindo entre meus lábios e em meu membro. Dormi nesse chão duro e quente, e acordei rígido e suado. Corro para o banheiro, arrancando minhas roupas no caminho e percebendo que cheguei a gozar nas minhas próprias calças.
Nojento. Sou nojento e desprezível, e enfio minha cabeça na água gelada enquanto meu membro ainda pulsa. Rachel está passando pelo pior momento da sua vida, e eu, como o merda que eu sou, tenho um sonho erótico com ela. Minha libido se esvaiu completamente nos últimos dias, só pra voltar como uma bigorna agora, me atingindo em cheio e me mostrando o quão nojento eu sou. Como meu cérebro pode pensar em sexo nesse momento? Agora que meus genes não serão mais passados pra frente, preciso copular e garantir a sobrevivência da minha espécie? Sou um animal, nada mais que um animal.
Saio do chuveiro secando meu corpo e as lágrimas que deixei cair. Minha garganta queima de raiva e tristeza, e bebo um gole de água direto da garrafa enquanto termino de me vestir.
A campainha toca, e vou atender. É Emma.
"Oi, mãe." — digo, e só então percebo que ela não está sozinha. Ao seu lado, está uma mulher de cabelos loiros que consegue ser ainda mais baixa do que Rachel.
Emma não responde, e me olha fixamente com sua cara de desespero que eu tanto conheço.
"Jesse, essa é April, sua mãe biológica."
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