All That Matters
36 Capítulo 36
Pov Kurt
O sábado está perfeito: ensolarado, não muito quente, alegre. O nosso grupinho de amigos marcou de ir ao parque, e eu sou o primeiro a chegar, com minha pontualidade impecável.
Estou sentado em um banquinho, esperando, quando vejo uma casquinha de sorvete surgir na minha frente. Blaine.
"Baunilha, certo?" — ele pergunta, com um sorriso no rosto.
"Ah, obrigada…" — eu tento rejeitar, mas é mais por pura educação. Um sorvetinho agora até que cairia bem.
"Se você não tomar, vai derreter. E eu não terei mais nenhuma mão livre." — Blaine equilibra minha casquinha numa mão e um potinho gigante de sorvete na outra, cheio de confeitos e coberturas.
Essa, aliás, é mais uma das coisas que Sam e Blaine têm em comum: os dois comem como desesperados. Eu diria que não faço ideia de como Blaine mantém esse físico, mas ele já me mostrou sua academia particular: ele pratica boxe há muitos anos.
Eu estendo minha mão, e finalmente aceito a casquinha.
Por falar em Sam, ele aparece bem na hora.
"Qual é, pra mim não tem sorvete?" — Sam tenta tomar um pouco do sorvete de Blaine, que ergue o potinho no alto e tira uma nota de 10 dólares do bolso.
"Vaza." — ele entrega a nota pra Sam.
"Valeu!" — Sam nem olha pra trás e vai em direção a barraca de sorvete. Rapidamente, somos só eu e Blaine outra vez.
Blaine se senta ao meu lado, e come seu sorvete observando a paisagem distraidamente. Está bonito, usando jeans e uma camisa vermelha simples, o cabelo parece estar com menos gel agora, pois consigo ver seus cachos naturais se revelando levemente. Ele é bonito, não posso negar. Muito bonito.
"What up?" — Artie chega, com Tina e Mercedes ao seu lado. Ficamos conversando um pouco, Sam retorna com metade do pote de sorvete já detonado, e eu termino minha casquinha. Jesse, Rachel, Quinn e Puck são os últimos a chegar, andando de mãos dadas em parzinhos, Rachel com um enorme sorriso no rosto.
Finn não quis vir. É inegável que ele ainda tem sentimentos por ela, mas vendo minha amiga tão radiante segurando a mão do seu melhor amigo da vida inteira, eu começo a entender o que o amor de verdade significa. Ela parece feliz, imensamente feliz.
Caminhamos pelo parque decidindo em quais brinquedos queremos andar. Começamos com o carrinho de bate bate, Sam e Blaine miram incessantemente um no outro até que decidem se unir e vir os dois pra cima de mim. Sou atingido tantas vezes que meu carrinho mal consegue sair do lugar. Depois, vamos à montanha Russa, e Jesse grita mais do que todos nós juntos. Quinn não pode andar nesse brinquedo, e Rachel escolhe permanecer lhe fazendo companhia.
Aliás, Rachel e Quinn estão incrivelmente próximas ultimamente. Rachel será a madrinha da bebê de Quinn, cuja barriga está surpreendentemente grande. Quinn evita todos os brinquedos radicais, e Rachel não parece se importar em lhe fazer companhia, as duas rindo quase todo o tempo e cochichando entre si. Essas duas dormiram com o mesmo cara e estão super de boa com isso, o que eu acho muito legal e maduro.
Paramos para lanchar, e Rachel vomita os churros assim que termina de comê-los. Não me fizeram muito bem também, estavam um pouco gordurosos, e Jesse resolve levá-la pra casa. Como Quinn e Puck estão de carona com eles, eles também vão embora.
Tina, Sam, Artie e Mercedes querem ir ao túnel do terror, ao qual eu me recuso firmemente. Sei que são só atores vestidos em fantasias baratas, mas sou muito medroso, e sei que qualquer coisa pode me gerar um gatilho enorme. Digo que vou esperar por eles no carrossel. E Blaine se oferece pra ir comigo.
"Você não precisa perder o brinquedo só pra me fazer companhia." — digo, enquanto andamos em direção ao carrossel. Sei que Blaine adora filmes de terror.
"Não, tá tranquilo. Sam iria estourar os meus ouvidos gritando, mesmo." — ele diz, e eu dou um sorrisinho leve.
Escolhemos um cavalo azul, o maior que encontramos. O brinquedo está composto em sua maioria por crianças acompanhadas de seus pais e casais héteros apaixonados, mas não há restrição de idade, então eu não me importo. Subo no cavalo, e Blaine permanece em pé do meu lado, segurando no ferro.
O brinquedo começa a girar, e Blaine se segura firmemente.
“Aquele ali não é o Karofsky?” — pergunto, apontando para o grandão com o casaco do time de futebol, que passa abraçado em uma morena.
“É. E aquela não é a Lisa.” — Blaine completa o que eu estava imaginando. Lisa, a namorada de Karofsky desde o primeiro ano, é gritantemente loira.
Karofsky vira em nossa direção, e nos vê no carrossel. Ele vira o rosto rapidamente, e acelera o passo, puxando a loira desconhecida consigo.
“Acho que ele nos viu…” — Digo, enquanto Blaine continua mirando o horizonte.
“Uhum.”
“E você não se importa?” — Pergunto.
“Ele não parece se importar de andar por aí com quem quiser, então porque eu deveria? Eu não estou traindo ninguem.” — Blaine diz calmamente, olhando em meus olhos.
Passamos alguns minutos assim, nos olhando, enquanto o brinquedo continua girando.
“É isso, ele gira e… gira?” — Blaine desvia o olhar, prestando atenção no brinquedo.
“Ué, o que você esperava que um carrossel fizesse?” — Pergunto, debochando dele. Ele dá de ombros.
"Peraí, você nunca andou num carrossel antes?” — Digo, enquanto o brinquedo começa a parar.
“Meu pai dizia que era ‘brinquedo de menina’.” — Blaine me ajuda a descer do cavalo, e começamos a sair do carrossel.
“Ah não, nem pensar, agora você tem que experimentar!” — Digo, puxando sua mão em direção ao cavalo. Nós dois compramos o passaporte, podemos andar nos mesmos brinquedos quantas vezes quisermos, e não é como se houvesse muita fila esperando para entrar no carrossel.
“Não, não precisa…” — Ele tenta se desvencilhar, mas continuo o puxando pro cavalo, até que ele cede. O ajudo a subir, e o brinquedo volta a girar.
Blaine começa a rir.
“Radical!” — ele zomba, e eu lhe dou língua. O cavalo começa a subir e descer, e Blaine ri espontaneamente.
“Uhuul, o próprio zorro!” — eu brinco, e ele continua rindo. O brinquedo continua girando, e Blaine se diverte verdadeiramente, observando tudo ao seu redor.
O sol está se pondo, e as luzes do carrossel se acendem, o deixando brilhante e iluminado. O brinquedo dá uma freada inesperada, e Blaine se apoia no ferro, segurando bem em cima da minha mão. Nos olhamos de novo, e em seus olhos, eu vejo refletidas todas as luzes do brinquedo, todas as luzes do mundo.
E ainda que o brinquedo esteja parado, quando nos beijamos, o mundo inteiro gira ao nosso redor.
—---
São 21:00h, e a campainha da minha casa toca. Meu pai e eu não costumamos receber visitas neste horário. Estamos sentados no sofá, meu pai assistindo a uma partida de futebol, eu mexendo no celular. Meu pai me olha sem entender quem poderia estar nos visitando a essa hora num sábado.
Eu levanto para atender a porta.
Blaine.
Meu coração ainda bate acelerado, me lembrando do beijo que compartilhamos hoje à tarde. Ainda que já tenhamos nos beijado outras vezes, para mim é como se esse fosse o nosso primeiro beijo, o nosso primeiro beijo de verdade. Blaine tem os lábios macios e o hálito mentolado, seu beijo é doce e delicado, tranquilo, perfeito.
"Como você sabe o meu endereço?" — pergunto rispidamente, desanuviando meus pensamentos.
"Sam me passou." — Blaine aponta para o lado, e só então noto Sam a alguns passos dele.
"Qualé." — ele diz, com um breve aceno de cabeça.
Samuel!
"O que você faz aqui a essa hora?" — pergunto, ainda um pouco chocado com a presença dele.
"Eu preciso falar com você sobre aquele beijo. Não consigo esperar mais!" — Blaine fala tão rápido que quase engasga com as palavras. Eu arregalo os olhos, mas Sam não parece surpreso.
"O que? Ele me contou na volta pra casa!" — Blaine e Sam voltaram juntos hoje.
"Eu disse que não queria mais esconder." — Blaine segura minhas mãos, e eu o observo surpreso — "Eu… eu nunca senti nada assim antes, Kurt, eu…" — ele para, e respira fundo por um momento — "Eu acho que te amo."
Estou tão mudo que é como se eu nunca tivesse dito alguma palavra na vida antes, e nunca mais fosse conseguir dizer.
"Você não vai me deixar entrar?" — Blaine pergunta. Ainda estou fora de órbita. Ao invés de responder a ele, me viro para Sam.
"O que você ganha com tudo isso?" — pergunto. Sam, que estava distraído, arregala os olhos.
"Eu? Nada! Quer dizer, só a satisfação de ver dois grandes amigos finalmente encontrarem o amor!"
"E 20 pratas." — Blaine completa.
"E 20 pratas." — Sam concorda, balançando a cabeça.
Enquanto tento processar tudo isso, meu pai aparece. Ele vê Blaine, e franze o rosto.
"Pois não?" — ele fala, tomando a minha frente.
"Sr. Hummel, meu nome é Blaine Anderson, eu sou…"
"Eu sei quem você é." — meu pai o interrompe — "O garoto do futebol, que faz bullying com o meu filho. A que devo a honra?" — meu pai eleva a voz, seu tom demonstra irritação.
"Pai!" — tento acalmá-lo.
"Não, ele tem razão. Eu preciso ser honesto com ele se vamos levar isso à frente."
"O que vocês vão levar à frente?" — meu pai parece se irritar ainda mais.
"Bom, eu vou esperar no carro e…" — Sam tenta dizer, mas é interrompido por Blaine.
"Senhor Hummel, eu gostaria da sua permissão para pedir Kurt em namoro."
"TAQUIUPARIU!" — Sam exclama instantâneamente.
Blaine está mudo. Eu estou mudo. Meu pai está mudo.
"Entrem. Os três!" — meu pai diz, e nós obedecemos prontamente, marchando para casa em silêncio.
—---
Contamos tudo ao meu pai. Vagarosa e detalhadamente, Blaine conta sobre quando se descobriu, suas raivas e inseguranças projetadas em mim, seus medos, e sobre quando ele percebeu que esse sentimento nem sequer era ódio. Meu pai escuta tudo atentamente. Eu quase não digo nada, apenas complementando quando sinto que é necessário.
"Não." — meu pai finalmente diz, depois de um bom período em silêncio.
"Pai, eu…"
"Não!" — meu pai repete firmemente — "Eu não autorizo esse namoro. Definitivamente não.
Nem eu mesmo sei como me sinto com relação a isso. Nesse momento, me sinto como uma criança controlada pelo pai.
"Essa decisão deveria ser minha, não? Algum de vocês perguntou a minha opinião?" — digo, me levantando — "Pai, já tenho idade suficiente pra cuidar de mim mesmo!"
"Eu sei disso, você sempre foi muito responsável. Eu só não aprovo esse rapaz e pronto. Você pode namorar outra pessoa. O Samuel aqui parece um bom rapaz, você pode namorar com ele."
"Hétero." — Sam ergue as mãos enquanto fala — "Mas estou lisonjeado, obrigada."
"Senhor Hummel, as minhas intenções são as melhores e…"
"E você viu num filme musical adolescente que só por isso agora tudo dará certo, é isso? Menino, o que você acha que todos os seus amiguinhos do time vão fazer a partir de agora, hein? Vão tornar não só a vida do meu filho um inferno, mas a sua também. Você faz ideia do mundo em que vivemos? De quantos Blaines vocês vão encontrar por aí?"
"Pai!" — tento o interromper.
"O senhor está certo, me desculpe, me desculpe por tudo o que eu causei até aqui." — Blaine respira fundo, e continua falando — "Mas eu quero que o senhor saiba que os meus sentimentos por Kurt são sinceros, e eu estou disposto a esperar até que o senhor confie em mim."
"É o século 21, moleque, eu não tenho que dar permissão pra vocês. Se vocês quiserem fazer as coisas por trás de mim, vocês vão fazer." — ele respira fundo, e se senta no sofá — "Vocês querem namorar? Namorem. Eu aprovo? Não. Eu quero vocês dois debaixo do meu teto, sob minha supervisão, sentados nesse sofá. Eu quero conhecer a sua família. E eu não quero um relacionamentozinho de fachada, está entendendo? Eu quero você aqui nos natais e quero te apresentar como meu genro quando alguém perguntar. Estamos entendidos?"
"Sim senhor." — Blaine tem um sorriso gigantesco no rosto.
"Vocês realmente não vão perguntar a minha opinião?" — eu digo.
"Ah sim, ele tem que aceitar antes, é claro." — meu pai diz, ja ligando novamente a televisão.
"Kurt…" — Blaine diz, se levantando e vindo em minha direção no sofá. Ele se abaixa para ficar na minha altura, que estou sentado no sofá, e segura minhas mãos — "Você aceita namorar comigo?"
Estou sem fôlego. Sam me encara como se eu fosse revelar os números ganhadores da loteria. Meu pai finge prestar atenção à tv. Blaine espera ansiosamente pela minha resposta.
E eu sinceramente não sei o que responder.
Pov Jesse
Rachel dorme ao meu lado, respirando fundo, e eu milagrosamente desperto sem que ninguém precise me sacudir: é domingo, dia de aplicação do SAT, e o nervosismo não me deixou dormir direito. Eu jurava que estaria tranquilo, mas cá estou eu, com metade das unhas roídas.
Levanto vagarosamente para não acordar Rachel. Tomo meu banho, visto minhas roupas, e já é hora de ir. Eu não conseguiria comer nada, de qualquer maneira, meu estômago está embrulhado e resmungando.
Antes de abrir a porta do quarto para sair, observo Rachel dormindo. Ela está deitada de costas, o cobertor em sua barriga, a alça caída de sua camisola revela um dos seios, que já não me causam mais espanto. Como Shelby está sempre trabalhando, temos tomado banho juntos, dormido juntos, compartilhado uma vida de casal na maior parte do tempo. Já não temos mais a menor vergonha da nossa nudez, de dizer quando queremos sexo e quando queremos apenas dormir. E eu a amo, mais que tudo, mais que a mim mesmo.
Rachel abre os olhos, e sorri.
“Já vai?” — ela diz, coçando os olhos. Eu me inclino e a beijo. O que deveria ser um selinho de despedida se transforma rapidamente em mais um momento de conexão física e mental: nosso prazer é quase tão grande quanto o nosso amor.
Somos um.
Na verdade, agora somos três.
—----
A prova é colocada em minha frente, o caderno de questões é grande e extenso. O professor dá as instruções da prova, e nos libera para começar. Abro o caderno de questões e começo imediatamente a ler a primeira: É fácil, tenho certeza absoluta de que é alternativa “c”. Meus olhos continuam lendo as demais perguntas de maneira dinâmica, e apesar de algumas dúvidas e incertezas, as questões fazem sentido pra mim. Vou começar a responder a prova com calma, aproveitar bem o meu tempo, vou me sair bem.
Vou me sair bem, e vou ganhar aquela bolsa pra UCLA. 80%. Daqui a alguns meses, estarei no aeroporto embarcando pra Califórnia. Rachel estará lá, com sua barriga já bem visível, nós nos beijaremos, diremos “até logo” e eu entrarei no avião em direção ao meu futuro.
Rachel estará lá. Com o meu filho na barriga.
De repente, tudo parece pequeno e sem significado. O avião parece pequeno demais, sufocante, escuro. Não consigo ver o céu pela janela, não consigo ver as paredes da UCLA, não consigo ver o diploma em minhas mãos e um Jesse de terno e gravata defendendo casos no tribunal. Nada disso importa, nada disso existe ou faz sentido. Tudo o que eu consigo ver é o borrão cinza que a semanas é o fundo de tela do meu celular. O mundo para de girar por alguns segundos, fica em silêncio absoluto, e um zumbido estalado reverbera nos meus ouvidos.
Tum-tum. Tum-tum. Tum-tum.
Meu filho.
Meu filho vai nascer aqui. Sem mim.
Eu vou correr pro aeroporto e vou perder o voo. Eu vou chegar em Lima e verei meu filho nos braços de Kurt, do meu pai, de algum enfermeiro. Meu filho, que terá os olhos de Rachel e os meus cachos castanhos, não será mais um bebê recém nascido porque eu terei uma prova importante e inadiável. Meu filho vai cair e ralar os joelhos e receber um beijinho do avô, porque eu estarei apresentando um seminário com meu novo terno de alfaiataria para uma comissão de velhos engravatados. Meu filho vai acordar chorando e ser acalentado pela avó, para que Rachel possa descansar.
Um dia, eu chegarei no aeroporto e verei Rachel com meu filho no colo, me esperando. Eu vou correr até eles, e quando me aproximar, verei meu filho me olhar confuso e esconder o rostinho no ombro da mãe. Rachel dirá para que ele venha em meu colo, e ele balançará a cabecinha dizendo que não. Ele não saberá quem eu sou.
Durante os primeiros anos de sua vida, “papai” terá para o meu filho o mesmo significado que a palavra “mãe” teve pra mim: Nenhum.
Talvez ele nem se lembre disso quando crescer, mas eu vou lembrar disso tudo. Pra sempre.
Eu vou pra UCLA atrás de um pedaço de papel. Meu filho e a mulher que eu amo ficarão por aqui, crescendo, vivendo, sem mim. Primeiro choro, primeiro tombo, primeira palavra e primeira papinha. Provas, trabalhos, festas e irmandades. Tudo, e nada. Tudo o que eu não vou ver. Tudo o que não importa mais.
Nada faz sentido e tudo é claro como água. Nada mais importa e tudo dói como uma facada no pulmão. Não respiro, não pisco, não penso. Rachel e meu bebê, Rachel e nosso bebê, nosso filho, meu filho.
Minha filha.
Observo o papel sem o enxergar de verdade.
Minha mulher. Meu filho. Sem mim.
Quando o sinal toca, sou o primeiro a levantar e entregar a prova ao professor.
Em branco.
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