Notas iniciais
Gostaria de agradecer à usuária Blume Grym Weisheit por ter betado a fic. Ela fez um excelente trabalho, e esperar pelos seus comentários para postar a segunda parte valeu à pena. Recomendo! Enfim... A segunda parte de All In White! Espero que gostem.

Não preparavam os soldados para aquele cheiro no treinamento.

O aroma de morte era tão presente nos campos de batalha que, evidentemente, Percy foi obrigado a esquecer o quão horrível ele era para procurar manter-se atento a coisas que realmente importavam, como a sua vida e as de seus companheiros. Por sorte, após o treinamento, Leo havia ficado no mesmo batalhão que ele, e os dois serviam juntos, o que tornava a solidão um pouco mais suportável. Ele trazia uma foto de Annabeth no bolso, a foto de formatura que tirara em seu último dia de aula. Ela detestava aquela foto, e por isso ele havia roubado do fundo de uma das gavetas dela sem que soubesse para que pudesse levar uma lembrança mais fresca consigo.

Seu coração lhe dizia que ele havia feito a coisa certa ao se alistar, mas às vezes não podia deixar de sentir-se culpado. Ele havia deixado Annabeth sozinha, completamente sozinha. Em uma de suas cartas, ela lhe escrevera que havia feito amizade com Hazel e com outras esposas de soldados, e isso fazia com que ele se sentisse melhor. Mas ainda assim era extremamente difícil parar de pensar nela, até mesmo quando ele trocava o cartucho de balas das armas ou apertava o gatilho quando necessário. Só proteger o país e as pessoas que amava podia obrigá-lo a tirar a vida de outro ser humano.

Ele e Annabeth continuaram trocando cartas, e ele contava os dias para que recebesse sua licença no início de Dezembro para voltar logo para casa. Assim, finalmente, ele poderia casar-se com ela. Sabia que deveria ser grato pela oportunidade de poder voltar para casa para uma licença, mas ainda assim, não podia deixar de pensar que, após sua uma semana como um homem casado, ele teria de voltar ao serviço. Antes que estabelecessem uma data, Annabeth insistiu que esperassem até que ele fosse mandado para casa definitivamente, mas ele gentilmente a convenceu de que não podiam ficar à mercê da sorte.

Como se concordasse com uma morte programada do futuro marido, Annabeth concordara com olhos tristes, e foi assim que ele a deixara no dia que fora deportado.

XXX

Os dois se casaram numa manhã gelada de Inverno, na pequena capela no topo da montanha mais alta de Withby.

Graças a Deus, ele voltara para casa sem nenhum machucado sério (ainda que Annabeth tivesse surtado de preocupação quando ele lhe mostrou o pequeno ferimento em seu ombro) e depois de alguns dias se acostumando à vida rotineira da cidade em que residia desde que nascera, Percy estava certo de que estava pronto para casar-se. Como era de se esperar, uns dois dias antes da cerimônia Annabeth ficou completamente louca, correndo de um lado para o outro, tagarelando com a casa cheia de suas mais novas amigas sobre flores, e o vestido, e oh, Deus, e se ele não gostar do vestido? Quando Percy tentou assegurar de que ela ficaria linda de qualquer maneira, Annabeth lhe tascou um tapa e lhe chamou de insensível.

No dia anterior ao casamento, os dois haviam visitado o túmulo dos Jackson e o túmulo de Frederick. Não precisaram dizer nada um ao outro, mas ambos pensavam a mesma coisa: que desejavam nada mais do que ter seus pais presentes no dia que mudaria a vida dos dois. Como ditava a tradição, dormiram em casas separadas para apenas se encontrar no dia seguinte no altar. Leo foi seu padrinho, e Hazel, Silena e Thalia (as duas últimas também tinham maridos na guerra, ainda que Percy não lutasse no mesmo batalhão que eles) as madrinhas de Annabeth.

Não gosto de roupas engomadas, Percy pensou, desconfortável dentro do terno. Apesar de estar frio fora da capela, ele tentava não suar de nervosismo. Mas é o meu casamento. Caramba, eu vou me casar!, Percy sentiu-se um idiota, mas parecia que só havia realmente percebido que logo seria casado instantes antes do ocorrido. Como Withby era uma cidade tão pequena e todos se conheciam, as pessoas se espremiam dentro da igreja. O altar estava decorado de rosas brancas. Não havia ninguém em casa, e todos se enfileiravam para ver o farmacêutico casar-se com a menina da cidade grande.

Quando a música soou e Annabeth entrou devagar no estabelecimento, todas as cabeças viraram-se para olhá-la, e alguns (incluindo Percy) soltaram um suspiro de surpresa. Ela sempre fora a mulher mais bonita que ele havia visto, mas naquele dia... Era como se Annabeth Chase fosse uma visão, e o fato de que ela logo seria Annabeth Jackson, um sonho distante. Seus cabelos loiros estavam amarrados embaixo do véu, e sua pele alva e sedosa brilhava como se as estrelas houvessem chorado em suas bochechas. O vestido branco clássico parecia feito para ela, e ele deu um sorriso satisfeito, pensando em como finalmente as coisas eram como deveriam ser. Ela estava de branco, como no dia que a vira pela primeira vez. E, caramba, ele não ficava falando isso em voz alta toda hora (e estava começando a pensar que deveria se acostumar a fazê-lo) mas ele a amava, a amava muito.

Para ser honesto, Percy não escutou uma palavra do que o padre falou, mas isso não era realmente uma surpresa. Annabeth, que normalmente se concentrava nos seus deveres, parecia não dar ouvidos também. Ele segurava suas mãos pequenas na dele, e logo, houve a troca de alianças. Ele sentiu um peso confortável no dedo anelar, e talvez com um pouco de entusiasmo demais, ele a puxou para perto dele e tascou um grande beijo em seus lábios quando o padre permitiu. Ele ouviu assovios e aplausos e era como se o mundo houvesse parado.

Ele era o marido de Annabeth Chase — Jackson, caramba — e naquele momento, ele não precisava mais pensar em batalhas, ou em guerras, ou em quanto tempo viveria. Ele estava lá agora, com ela, e, caramba, ela era tão, tão linda, e só dele.

XXX

Antes que ele fosse deportado pela primeira vez e antes do casamento, Annabeth havia jurado que não se "defloraria" para ele até que ele não tivesse que lutar nunca mais, pois se recusava a criar um filho sem que o pai (ele, em questão) estivesse presente, mas aquela atitude só durou até o início da noite de núpcias. Ele sabia tudo como a primeira vez para uma garota era dolorida, e tentou ser o mais gentil possível. As primeiras noites foram difíceis, mas logo Annabeth realmente gostava de constantemente se "deflorar", o que ele achava excelente (é claro) mas também muito cômico da parte dela.

Eles não tiveram muito tempo juntos — na realidade, só duas semanas concedidas pelo Exército — e logo, ele estava sendo deportado novamente. Na noite anterior, logo depois que se amaram, Annabeth chorou contra o peito nu dele até que adormecesse. Ela tinha lhe pedido que não lhe acordasse de manhã.

— Não quero me despedir dessa vez. — Annabeth murmurou, sem se justificar. — Me desculpe?

— É claro que sim. — Percy fez que sim e beijou sua testa, mas queria dizer que quem tinha de pedir desculpas por deixá-la novamente era ele.

XXX

Continuar seu serviço no Exército foi muito mais difícil que começá-lo.

Ele era o marido de alguém agora, e sentia que, se não sobrevivesse, não estaria apenas deixando Annabeth para trás, mas todo o futuro que eles não teriam a chance de viver.

Trocar cartas com Annabeth se tornou cada vez mais difícil. Os combates pareciam nunca acabar, e quanto ele tinha tempo para tomar posse de papel e tinta tinha de ser rápido para dar chance de seus companheiros mandarem suas correspondências também. Além disso, com a Europa em guerra, muitas cartas eram perdidas sem nem mesmo terem sido entregues. Ela sempre escrevia longas cartas implorando para que ele lhe contasse mais, e mesmo que ele tivesse tempo, Percy realmente não sabia o que dizer. Havia contado a Annabeth sobre todas as suas aflições no campo de batalha quando os dois estavam em lua-de-mel, mas não gostava de transmitir informações muito íntimas via correspondência.

— Jackson. — O comandante jogou um envelope no colo dele enquanto Percy admirava a foto de formatura de Annabeth, e ele pulou para agarrá-lo. Abriu-o rapidamente e iluminou-o com o lampião. Agradeceu por ser noite e cada soldado estar em sua cama cuidando de seus próprios assuntos. Dessa maneira, teria um pouco de privacidade.

Percy,

Palavras não podem expressar o quanto não ter você em minha vida faz à minha alma. Sei que, se pudesse, você escreveria mais, e eu quero dizer que, depois de ter ficado furiosa com você por muito tempo por não me dar notícias o suficiente, eu entendo. Quero me desculpar. Tenho sido egoísta. Ser a mulher que espera o soldado em casa não é tarefa fácil, mas ser o soldado é muito mais difícil. Sei que nunca lhe disse isso, mas me orgulho muito, muito de você, Perseu Jackson. Você é um homem incrível. Nunca se esqueça disso.

É nesse meu constante egoísmo que tomei uma decisão. Venho debatendo sobre contar-lhe ou não acerca do que descobri há pouco tempo atrás. Sei que não deveria, pois temo afetar sua atenção e desempenho, mas ao mesmo tempo, não seria justo esconder isso de você, visto que não sei quando poderá retornar para mim.

Percy, eu estou grávida. Não queria afirmar sem ter certeza, e visitei três médicos diferentes antes de lhe escrever isto para confirmar. Você sabe o quanto eu queria evitar que isso acontecesse... Estou em torno do terceiro mês, mas já que as cartas demoram a chegar, imagino que quando você ler isso, estarei ao redor do quinto, e não sei se posso fazer isso sem você. Risque isso. Eu não posso fazer isso sem você. Você vive me dizendo que sou uma mulher forte, mas afirmo abertamente que, desta vez, não sou forte o suficiente, Percy. Eu preciso de você, ainda mais agora. Mais uma vez, completamente absorta em egoísmo, eu imploro, Percy, volte para mim. Volte para nós.

Para sempre sua, e que segue te amando a cada passo,

Annabeth.

Percy teve de ler a correspondência um bilhão de vezes para que as notícias começassem a ser absorvidas por ele. A tinta estava levemente manchada de lágrimas no parágrafo em que Annabeth revelava que estava grávida, e ele não tinha dificuldade alguma em imaginar o quanto ela havia chorado quando de fato descobriu que estava carregando um bebê. Meu Deus. Em circunstâncias usuais, Percy não poderia ter ficado mais feliz. Queria que ela tivesse a oportunidade de tê-lo contado pessoalmente; ele a pegaria no colo, giraria no ar, beijaria seus lábios e, então, sua barriga ainda lisa.

Mas ele não estava em casa. Estava num campo de batalha na França, pelo amor de Deus, e nem sabia quanto tempo ficaria ali. E se não pudesse estar lá para ver seu filho ou filha nascer? Não podia deixar Annabeth desamparada. Meu Deus... Sua cabeça girava, alternando entre preocupação e felicidade. Ia ter um bebê com a mulher que amava, e por outro lado... Ele poderia nem ao menos sobreviver para conhecer a criança. Oh, meu Deus, o bebê tinha que ter os olhos de Annabeth. Ou suas feições gentis. Ao mesmo tempo... O que eles iriam fazer? Ele não podia fugir, não podia pedir uma licença, e não podia deixá-la sozinha durante aquele momento tão frágil.

Percy estava demasiado confuso para escrever uma resposta de imediato, portanto, beijou o papel de carta e cuidadosamente colocou-a debaixo do colchão junto com todas as outras. Adormeceu.

XXX

Quando Annabeth lhe dissera que saber de sua gravidez desfocaria a atenção de Percy, ela estava certa.

No dia seguinte, o batalhão se envolveu em um tiroteio de rotina com os alemães e, ainda assim, Percy mal conseguia segurar a arma entre as mãos. O comandante já havia lhe chamado a atenção milhares de vezes, mas logo que ele começava a se concentrar em puxar o gatilho ou esconder-se de volta na trincheira, sua mente lhe carregava de volta para Withby, onde enxergava Annabeth aflita, sentada em uma cadeira de balanço e esperando que ele voltasse.

Percy sentia-se tonto e indisposto, mas sabia que não havia permissão para nem uma pequena pausa. A troca de balas com os alemães geralmente durava cerca de meia hora antes que uma das duas tropas recuasse para dentro das trincheiras para uma rápida trégua, mas naquele dia esta parecia nunca chegar. Ele estava certo de que desmaiaria... Sua visão já estava desfocada...

— VALDEZ! — A voz do comandante foi mais alta que o barulho dos tiros. Percy virou a cabeça em direção aonde se lembrava que Leo estava posicionado, entrando em pânico ao ver o amigo deslizar para fora da trincheira, completamente desprotegido. Demorou alguns segundos para que Percy pudesse entender porque ele se arriscava tão descaradamente, e então, ele compreendeu que o fazia porque tentava atingir as tropas protegidas dos alemães, fora do alcance dos soldados britânicos. — O que pensa que está fazendo, seu merdinha? Volte aqui, agora mesmo!

Antes que pudesse registrar o que estava fazendo, Percy se sustentou para fora da trincheira. Por um segundo, não registrava mais o barulho da batalha ao seu redor; corria em direção ao amigo. Sabia que precisava fazer isso. Ele e Hazel tinham uma filha pequena, e ele precisava se certificar que ele voltaria a salvo para vê-la crescer. Nem lhe passou pela cabeça de que ele poderia morrer sem ao menos poder voltar para conhecer o bebê que Annabeth carregava em seu ventre.

— JACKSON! Puta que pariu! Volte já pra cá! — A voz do comandante perfurou os tímpanos de Percy, mas ele não parou. Seus pés voaram rapidamente, e ele jogou seu corpo sobre as costas de Leo. O choque fez com que os dois caíssem sobre o chão lamacento, mas Percy não tardou a voltar a se mexer. Precisavam sair dali.

— Percy, o quê... — Leo começou a protestar, mas Percy o interrompeu.

— Sua família, Leo. — Percy o relembrou, e os olhos dos dois se encontraram, compartilhando um olhar que dizia o quanto ambos tinham medo extremo de nunca retornarem para as pessoas que mais amavam. Não foi preciso dizer mais nada. Leo habilmente rolou para longe dele e rastejou de volta para as trincheiras, abaixando a cabeça quando tiros estouravam.

Percy levantou o torso por um breve instante para reunir as forças para fazer o mesmo. Estava exposto no meio do campo de batalha, e naquele mísero segundo antes do movimento que com certeza o tiraria dali, ele sentiu uma fisgada em sua omoplata esquerda. O impacto da bala o jogou de volta para o chão, e a dor irradiou sobre todas as suas costas antes que ele ficasse inconsciente.

Me desculpe, Annabeth, pensou. Seu último pensamento, sabendo que quebrara a única promessa que deveria ter cumprido. A de voltar para casa.

XXX

Ele acordou numa cama dura e desconfortável.

Demorou a que seus olhos se acostumassem com a luz, e ele suspirou quando notou que estava no que parecia ser uma enfermaria. A julgar pelos homens enfaixados deitados em fileira nas camas que o cercavam, em uma enfermaria do exército. Ele respirou fundo, seu coração batendo forte com a adrenalina quando lembrou-se do ocorrido. Leo. Balas de alemães. Um tiro em sua omoplata. Dor irradiando em suas costas. Um último suspiro. Um último pensamento para sua esposa.

Estava certo de que havia morrido. Se realmente não estivesse mais vivo, Percy estava decepcionado. Então o Paraíso era uma enfermaria? Ele realmente estava desapontado.

A dor retornou aos poucos na parte de trás do seu ombro. Estava certo que estava enfaixado e que haviam lhe dopado, mas as fisgadas foram se tornando desagradáveis e ele chamou uma enfermeira enquanto passava.

— Você dormiu por quatro dias. — Ela lhe informou, checando uma pequena prancheta ao pé da cama. — O doutor conseguiu remover a bala, e o tecido já está cicatrizando. Aqui diz que você é de... Withby, certo? Disseram que pode demorar alguns dias, mas vão enviar homens para levar você pra casa. Parabéns, está sendo dispensado do Exército com honra. Você é casado? Pode precisar de alguém para trocar seu curativo regularmente, e...

Percy bloqueou as palavras seguintes da enfermeira. Passou a mão sobre o dedo anelar esquerdo e suspirou. Annabeth fez com que ele deixasse a sua aliança em casa para que não corresse o risco de perdê-la. Annabeth. Oh, Deus, Annabeth. Ela ia ficar furiosa com ele. Certamente lhe comunicaram que ele estava ferido. Ele estava certo de que assim que se curasse, ela o machucaria com as próprias unhas por ter se colocado em risco daquela maneira... Ainda mais agora que estava grávida. Oh, Deus. Ele precisava voltar pra casa.

— Senhor? É casado? — A enfermeira pressionou, e Percy mexeu-se desconfortável na maca.

— Depois de quase ter morrido, estou certo de que sou divorciado. — Ele sorriu de suas próprias palavras, pensando que por mais que fosse apanhar muito de Annabeth quando chegasse em Withby, ao menos ele estaria lá, ao lado dela. E era tudo que importava.

XXX

De fato, quando Percy viu Annabeth pela primeira vez desde seu retorno, ainda em seu uniforme de soldado e com o braço enrolado em uma tipoia, ela lhe tascou um tapa na bochecha que ardeu por dias. Quando soube que Percy havia se machucado por salvar a vida de Leo, no entanto, logo se apressou a pegar um pano molhado com água gelada para colocar sobre sua bochecha.

Passado o choque inicial, os dois se beijaram pelo que pareceram anos. Ele estava em casa, nos braços da mulher que amava, e não iria partir nunca mais. Debaixo do vestido, Annabeth carregava uma barriga inchada de quase seis meses de gravidez, e assim como ele percebeu logo nos dias seguintes após sua chegada, estar grávida fazia de sua esposa chorar intensamente sem motivo algum. Como sempre, Percy acariciava a barriga inchada dela, lhe dava um beijo e lhe prometia que os dois — não, os três — ficariam bem.

Voltar da Grande Guerra, algumas vezes, era mais difícil do que um dia foi partir para o encontro dela. Durante a noite, Percy tinha pesadelos (vários deles) e acordava assustado e desamparado. Era a vez de Annabeth prometer que eles ficariam bem, e depois que ela lhe jurava que não sairia do seu lado, ele voltava a dormir; depois de dois meses de recuperação física e emocional, Percy reabriu a farmácia, e voltar ao seu antigo emprego fez-lhe muito bem. Os dois se preocupavam constantemente com o filho ou filha que nem havia nascido: a guerra ainda não havia acabado, e graças a Deus não chegara a Withby, mas e se um dia chegasse? Percy queria criar seus filhos o mais longe possível de tanta dor e perigo.

— Eu não vou abrir as pernas até que essa guerra acabe, e pronto. Daqui, não sai ninguém. — Annabeth encontrou uma solução que julgava simples, e Percy limitou-se a balançar a cabeça e rir. Os dois mal sabiam que a guerra ainda duraria mais três anos, e que, querendo ou não, o primeiro filho deles nasceria naquele cenário de perda e apreensão.

XXX

Percy não se conformava com o fato de que ele estava expressamente proibido de entrar no quarto enquanto Annabeth estava em trabalho de parto.

Ela o acordara logo no início da manhã, assim que o sol nasceu, chacoalhando-o até quase estourar sua cabeça e afirmando que o bebê ia nascer. Sem tempo para pensar, Percy calçou suas pantufas e saiu casa afora procurando pela parteira da cidade, de pijama e tudo. Pelo amor de Deus, o filho ou filha dele estava prestes a nascer. Ele certamente não estava preparado pra isso, e, honestamente, imaginava que nunca estaria.

Assim que a parteira o acompanhou de volta à casa, ele a entregou os panos que pedira e uma bacia de água quente, e a mulher fechou a porta do quarto de casal dos dois na cara dele, dizendo que a deixasse fazer o seu trabalho. Percy suspirou, frustrado. A parteira era tão velha que lhe surpreendia que ela tivesse trabalho algum para fazer lá dentro, mas era a única parteira que Withby tinha, e ele não estava em posição de reclamar. Sentou-se do lado de fora do quarto, roendo as unhas e fazendo um milhão de preces. Nunca, em sua curta vida, nem em seus tempos de soldado, sentira tanto medo. A última vez que presenciara um parto, sua mãe, Sally, havia dado a luz à um bebê morto. Só o pensamento de que qualquer coisa pudesse dar errado para Annabeth ou para o bebê lhe dava náuseas. Ele ouvia os gritos de dor da esposa de dentro do quarto, sentindo-se impotente por não poder ajudá-la.

O parto durou pouco mais de vinte minutos, para a surpresa de Percy. Assim que escutou os choros de frio do bebê, sentiu que fosse desmaiar de alívio. O bebê respirava, e respirava bem, com bons pulmões, pelo que ele podia ouvir.

– Ele estava com pressa pra sair, seu bebê. — A parteira saiu de dentro do quarto e fechou a porta atrás de si. — É um menino forte. Saudável. Sua esposa descansa bem.

Percy murmurou um agradecimento rápido antes de tropeçar para dentro do quarto.

Annabeth estava sentada junto à cabeceira da cama. Seus longos cachos loiros haviam sido puxados para trás num rabo de cavalo, e sua pele alva estava levemente coroada de suor. Ela parecia exausta, mas ainda havia um pequeno sorriso brincando com seus lábios. Em seu colo, uma bolinha enrolada em uma manta branca descansava, feliz. O coração de Percy deu um pulo engraçado, um daqueles que sempre ocorriam quando ele olhava para ela. Ele estava com medo de perturbá-los. Os dois pareciam tão singelos, absortos em seu próprio universo. Queria poder fazer um retrato daquele momento para guardá-lo consigo pelo resto de sua vida, mas Annabeth ergueu a cabeça e sorriu para ele um sorriso de quem nunca havia conhecido a tristeza.

– Venha conhecê-lo. — Ela convidou, e ele se aproximou com passos pequenos, como se qualquer barulho pudesse estragar a situação. Antes que Percy pudesse protestar, Annabeth ergueu os braços dela para ele e depositou o bebê nos braços do pai. Percy arregalou os olhos. E se ele o derrubasse? E se ele o machucasse? Meu Deus, era um bebê tão pequeno...

Limitou-se a deixar que a criança descansasse contra o seu peito, como Annabeth fizera momentos antes. Afastou a manta gentilmente de seu rosto para que pudesse vê-lo, e quando o fez, Percy sentiu seu coração derreter-se como um naco frágil de manteiga. O bebê tinha feições gentis como as de Annabeth, e em sua cabeça, um pequeno tufo de cabelos pretos crescia em direção à sua testa. A criança não mantinha os olhos abertos por muito tempo antes de fechá-los novamente, mas ele podia ver que havia herdado de sua esposa as duas íris cinza que tanto amava.

Uma necessidade de protegê-lo tomou conta do corpo de Percy, e ele respirou fundo para conter as ondas de emoções que passavam por seu corpo. Em seus braços, ele segurava seu filho. O filho que ele pensara que nunca poderia conhecer devido a guerra, que cresceria sem um pai, um filho que ele havia feito com a mulher que segurava seu coração na palma de sua mão, um filho que amara desde que soubera de sua existência por meio de uma simples carta... Perguntava-se se algum dia a quantidade de amor pura e absurda presente nele agora se desgastaria, mas ele sabia muito bem que não.

– Ele se parece com um Joseph. — A voz de Annabeth saiu suave como ele nunca havia escutado. — Joseph Jackson. Podemos apelidá-lo de Joey.

Percy sabia muito bem que mesmo se não concordasse com o nome, Annabeth já o tinha escolhido meses atrás e não aceitaria outra opção. Mas o bebê realmente se parecia com um Joseph, com suas mãozinhas pequenas, os olhos cinza e o corpinho enrolado em uma manta bordada por Annabeth com tanto carinho; uma manta branca, a mesma cor em que ela vestia da primeira vez que a viu.

– Joseph. — Percy concordou, transferindo o bebê de volta para os braços de Annabeth lentamente. Já sentia falta do filho, e já queria que ele parasse de crescer. Logo, logo, Joey Jackson estaria correndo pelos vales de Withby, pescando e fugindo de seus deveres de casa. Diabos, logo ele estaria tendo pequenos Jackson ele mesmo! Percy precisava arranjar uma maneira de parar o tempo, de congelar as coisas do jeito que estavam.

Momentos depois, Annabeth pressionou um longo beijo na bochecha de Percy, murmurando um "amo você" contra sua pele antes de retornar sua atenção para o menino. Então, Percy sabia, pura e simplesmente, que poderia enfrentar todos os anos que estavam por vir com a garota da cidade grande ao seu lado, a garota de vestido branco que vira no topo da colina naquele dia de verão.

I've known you all my life
I was always wrong,
You all in white

Notas finais
Espero que tenham gostado. Geralmente eu coloco mil e uma desgraças nas minhas fics, mas o propósito dessa aqui era fazer alguma coisa bem fofinha mesmo. Deixe seu comentário! Beijos, e até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!