All I ever wanted
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Notas iniciais
Clarissa olha para a irmã mais nova, sobressaltada.
— O que você quer dizer com isso? Vai terminar com o André, né?
Cecília ficou sem saber o que responder.
— Não sei.
— COMO ASSIM? — Exclamou a mais velha, irritada — Cecília, esse homem sabia que a Verônica não estava grávida. Sabia do seu amor pelo Gustavo e deixou você sofrer até agora! Como você não sabe o que fazer? — alertou, sacudindo a morena pelos ombros, na tentativa de fazê-la acordar para a realidade tão latente aos seus olhos.
— Clarissa, por favor. Não preciso brigar com você nesse momento — pediu Cecília, indo em direção à porta — O André está me esperando há mais de uma hora.
— Deveria ficar plantado! — bufou a loira, inconformada.
A jovem revirou os olhos e bateu a porta. Ao adentrar no carro, suspirou e começou a processar todas as informações. Havia sido extremamente injusta com Gustavo e sabia que ele jamais a perdoaria por ter duvidado de sua integridade. Uma lágrima teimosa brotou de seus olhos. Enxugou-a rapidamente e girou a chave na ignição. Se assustou ao perceber que o carro não ligou.
Após inúmeras tentativas, percebeu que o veículo não colaboraria. Decidiu então ligar para o namorado e explicar sua ausência.
— Que pena, amor — respondeu André, triste — logo hoje, que eu tinha preparado uma surpresa tão linda...
A ex-noviça engoliu em seco.
— Me perdoe. Já acionei o mecânico, pelo que ele me falou, é a bateria.
— Acho que alguém esqueceu os faróis ligados de novo — ironizou o pediatra, enquanto Cecília deu uma fraca risada.
— Bom, nós podemos nos encontrar amanhã, se você quiser — sugeriu ele.
— Tudo bem. Você vem me buscar? — questionou a morena, mordendo o lábio inferior.
— Mas é claro, minha vida. Amanhã vamos almoçar juntos no restaurante que acabou de inaugurar ai perto do seu apartamento. Dizem que a comida é maravilhosa. O que acha?
— Pode ser — respondeu rapidamente, ansiosa para encerrar o assunto — Vou subir e contar pra Clarissa o que aconteceu.
— Está certo — disse o médico ao notar o nervosismo na voz da namorada.
— Boa noite.
— Cecília?
— Sim?
— Eu te amo. Não se esqueça disso — frisou André em um tom tenro e protetor.
— Boa noite — Cecília apenas suspirou e se despediu, deixando o namorado confuso e preocupado do outro lado da linha
[...]
No dia seguinte em Doce Horizonte, Verônica chegou cedo à Rey Café. A secretária estava animada e sentia falta da rotina do escritório. E de certa forma, de Gustavo. Não se considerava apaixonada pelo empresário, mas tinha que admitir que além de bonito e bom partido, o homem era uma excelente companhia.
No entanto, para seu espanto, não seria seu affair quem lhe daria o primeiro bom dia após seu retorno ao trabalho.
— Bom dia — saudou Cristóvão, com um ar mais sério que o costume — Verônica, poderia ir até a minha sala, por favor?
As secretárias se entreolharam depois que o advogado as deixou na recepção da presidência.
— O que será que o Cristóvão quer com você? Será que ele esqueceu que eu sou a secretária dele? — ralhou Silvana, visivelmente enciumada.
— Sei lá. Seu chefe mal me cumprimenta. Vamos ver o que ele tem pra dizer — respondeu Verônica, indo até a diretoria jurídica da Rey Café com uma pontada de preocupação.
— Com licença — pediu Verônica ao abrir a porta da sala de Cristóvão
— Sente-se, por favor — continuou o procurador, seco.
Verônica obedeceu a ordem, sentindo o sangue gelar nas veias.
— Como você está se sentindo? — recomeçou Cristóvão.
— Me sinto bem melhor, obrigada — respondeu a morena, sucinta. Percebeu que muitas explicações não a ajudariam naquele momento.
— Fico feliz e faço votos de que sua saúde se restabeleça por completo. Mas, não te chamei aqui apenas por isso — ele pigarreou e mexeu em alguns papéis em sua mesa — na verdade, eu queria comunicar que você está demitida, Verônica.
A secretária arregalou os olhos castanhos.
— Como assim, demitida? Mas eu acabei de voltar ao trabalho? Olha senhor, sei muito bem dos meus direitos e...
— E se você os conhece muito bem, sabe que alterar documentos da empresa sem autorização dos superiores é falta grave, portanto, passível de justa causa — ele a advertiu e a fuzilou com os olhos — eu tenho todas as provas de que você alterou os ofícios encaminhados ao empreendimento de Catarina, apenas e tão-somente para demitir a Cecília. Então, se você for um pouco esperta, sabe que uma demissão por justa causa em uma empresa do nível da Rey Café pode te trazer inúmeros prejuízos.
A jovem ficou calada. A ira estava estampada em seus olhos.
— Está bem. Você tem uma proposta para me fazer, é isso?
O procurador sorriu, vencedor.
— Exatamente. A empresa faz a sua rescisão e você receberá além dos seus direitos adquiridos, uma bela indenização em dinheiro. Então, o que me diz? — ofereceu Cristóvão, mostrando os valores à funcionária.
— Espera aí. Mas isso é muito pouco além do que eu mereço. Além do mais...
— Além do mais, você não tem escolha, Verônica — interrompeu o diretor jurídico — você adulterou um documento e provocou a demissão de uma funcionária sem o consentimento dos superiores da empresa. E você sabe perfeitamente tal atitude configuraria uma justa causa sem titubear. Quer discutir o fato de estar sendo demitida após seu afastamento por motivo de doença? Ok, vá em frente. Mas eu duvido muito que algum juiz ou tribunal superior te dê razão. Além disso, como já falei, sua carreira como secretária executiva estaria arruinada. É pegar ou largar. O que você prefere? — questionou o melhor amigo de Gustavo, enojado com o cinismo da mulher a sua frente.
Verônica queria gritar de raiva, até mesmo bater em Cristóvão. Porém, além da humilhação por estar sendo desmascarada, o ódio duplicava quando ela se dava conta de que Gustavo não fora homem o suficiente para demiti-la. Entretanto, estava encurralada e nas mãos da empresa. Limitou-se apenas a dizer:
— Onde eu assino?
[...]
Horas mais tarde, Cecília estava em casa à espera de André. Depois de passar praticamente a noite em claro pensando em tudo o que descobrira na noite anterior, a ex-noviça decidiu conversar em definitivo com o pediatra. Afinal, ela precisava de explicações.
Respirou fundo quando ouviu o soar da campainha.
Força, Cecília. É hoje.
— Bom dia, minha vida — cumprimentou André, dando-lhe um selinho. Ela, porém, se esquivou do carinho do namorado e fechou a porta, depressa.
— O que houve, Cecília? Você está pálida — comentou André, se aproximando.
— Senta, André. Nós temos que conversar e eu não posso mais adiar.
André se acomodou no sofá da sala e aguardou. Uma pontada em seu peito o atingiu e ele teve um mal pressentimento.
— Estou te ouvindo. Pode falar.
Novamente, Cecília suspirou.
— Serei franca e direta com você. Porque você mentiu pra mim?
O brilho no olhar do pediatra se perdeu.
— Não estou entendendo, amor. Eu nunca...
— Não minta outra vez — interrompeu a morena, irritada — Você sabia que a Verônica não estava grávida, não é? — indagou.
O médico ficou calado e não pode fitar a namorada.
— Acho que esse silêncio é uma excelente resposta — concluiu a noviça, começando a andar pelo cômodo — Agora, o que eu não consigo entender é porque você fez isso comigo, André! Eu confiei em você, eu decidi te dar uma chance porque eu acreditei que você poderia me fazer feliz! E olha o que acontece! — esbravejou ela, tentando não chorar.
— Cecília, eu queria que você esquecesse o Gustavo. Eu sempre te amei, enquanto ele nunca lutou pelo seu amor — começou André, tentando se justificar.
— Isso não é verdade! O Gustavo veio atrás de mim em Catarina e não fez isso antes porque não sabia onde eu estava. Não queira culpá-lo por essa canalhice! — gritou a ex-noviça, inconformada — Quer dizer que o fato de o Gustavo não "lutar" por mim seria um motivo para você e a vaca da Verônica armarem um plano para nos separar e cada um conseguir o que queria? É isso? Eu odeio vocês! — continuou Cecília dando socos no peito do namorado, e descontrolada, deu um tapa em André.
— Cecília, me escuta, por favor! Eu não queria participar disso, tudo foi ideia da Verônica e...
— Pelo menos uma vez na vida, seja homem André! Admita seu erro. Eu jamais esperava isso de você — ela retirou a aliança de compromisso — e isso não me pertence mais. Escute bem o que eu vou te dizer, André Renato Vieira. Nunca mais volte a me procurar. Nós não temos mais nada, nem namoro, nem noivado, nem casamento, nem amizade. Nada— frisou — Fui clara?
— Deixa eu te explicar, Cecília, por favor. Eu amo você — implorou o pediatra.
— Quem ama não engana, não ilude, não machuca. Eu espero sinceramente que você reflita sobre tudo o que aconteceu. Mas, não volte mais aqui, entendeu? Vá embora — finalizou a jovem, abrindo a porta do apartamento.
Derrotado, André caminhou até a saída e tocou gentilmente no queixo de Cecília.
— Eu sei que mereço tudo isso, Cecília. Mas eu juro que meu amor foi sincero. Espero que um dia, você me perdoe. Adeus — disse ele, antes de bater a porta, enquanto uma Cecília desabou em lágrimas no sofá.
Meu Deus, será que eu não posso confiar nas pessoas? Porquê ele fez isso comigo, por quê? E por culpa deles, o Gustavo nunca vai me perdoar, nunca. Droga!
Subitamente, a lembrança da conversa com Estefânia lhe veio a cabeça. A saudade de Gustavo e Dulce Maria dilacerava seu peito. Ao mesmo tempo, uma esperança renascia em seu interior. Aquele amor era capaz resistir a mais uma provação? Seria possível deixar para trás toda a dor que ambos sentiam e dar lugar ao mais nobre dos sentimentos? Com tais dúvidas, Cecília rumou ao quarto e localizou sua mala embaixo da cama. Afinal, as respostas daquelas perguntas que ecoavam em sua mente estavam em Doce Horizonte. E era lá que a ex-noviça estaria na manhã seguinte.
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