All I ever wanted
11 Basta fingir
Notas iniciais
Cecília POV
São quase duas da manhã e acabo de chegar em casa. Clarissa, como de costume, apagou no sofá com a televisão ligada. Isso me faz sorrir um pouco. Fecho a porta devagar para que ela não acorde, afinal, não estou com a miníma vontade de conversar. Ou melhor, de ouvir mais um de seus sermões. As vezes, minha irmã mais velha consegue ser mais dura e rígida ao expor suas opiniões do que a Madre Superiora. Se Fabiana pudesse ouvir meus pensamentos nesse momento, não me reconheceria.
Me dirijo ao nosso quarto, pego meu pijama e vou para o banho. Olho para minha mão direita, especificamente para o anelar. Uma aliança discreta e prateada agora o adorna. Por não estar nem um pouco habituada com a joia, a retiro e deixo sobre a pia. Começo a pensar nas últimas três horas. Saio para jantar com um homem lindo, boa companhia e que está apaixonado por mim, além de ser um verdadeiro gentleman. Estaria tudo perfeito se eu o correspondesse. Ainda assim, acabo de me tornar sua namorada.
Depois do jantar, fomos a um pub próximo dali. Dançamos um pouco e André conseguiu arrancar algumas risadas de mim, fazendo piadas de si próprio, incontido de felicidade por estarmos "juntos". Penso no momento em que ele me beijou. Seus lábios roçaram levemente nos meus e o beijei de volta praticamente por educação. Sinto culpa por não conseguir corresponder da maneira que André merecia. Mas a verdade é que aceitei seu pedido com um único objetivo: esquecer Gustavo.
A lembrança do beijo no The Crown invade meus pensamentos mais uma vez. A magia daquele momento não se comparam à farsa que acabei de permitir. O toque a princípio gentil de seus lábios em segundos se transformou em puro desejo e desespero, como se ele estivesse prevendo que seria a primeira e última vez que aquilo aconteceria. Lembro ainda de como ele sussurava meu nome, em seguida beijando a curva do meu pescoço, momento em que me rendi por inteiro àquela explosão de sentimentos e sensações.
Porém, preciso apagar essas lembranças. André não merece ser traído dessa forma. Uma parte de mim quer muito acreditar que serei capaz de me apaixonar sinceramente por ele. A outra, entretanto, insiste na ideia de que o verdadeiro amor é único, e que o descobri com o pai de minha aluna preferida. Deito na cama e volto a fitar minha aliança. Tenho oficialmente um compromisso com André Vieira e não posso decepcioná-lo. Espero sinceramente que eu não me arrependa das escolhas desta noite.
[...]
No dia seguinte, a família Lários passou o domingo reunida na casa de Vitor, como de costume. Embora estivesse brincando com Emílio, Dulce Maria ainda carregava um semblante triste e desanimado. Seu pai, por sua vez, procurava agir naturalmente, afinal, não podia contar detalhes de sua viagem perto da menina. Entretanto, todos sabiam a viagem à Catarina não trouxera bons resultados.
Após deixarem a menina no internato no final do dia, Estefânia e Gabriel colocaram Gustavo contra a parede.
— Agora fala. O que aconteceu? — começou a estilista, roendo as unhas.
— Você encontrou a Cecília? Ela não quis voltar com você? — continuou o sacerdote, igualmente ansioso.
— Será que vocês vão me deixar falar ou não? — ralhou Gustavo, zangado.
— Desculpe — os dois disseram em uníssono.
O empresário suspirou e começou a narrar o ocorrido enquanto seus primos ouviam atentamente.
— É isso. Frutos da viagem: dor de cabeça, frustração e multa por excesso de velocidade. Nada de bom ou útil — concluiu, em tom de desabafo.
— Não acredito. Mas quem falou uma mentira dessas pra Cecília? — questionava-se Gabriel.
— Simples. Quem disse isso pra Cecília tinha o único intuito de afastá-los. E pelo visto, alcançou seu objetivo — respondeu a tia de Dulce Maria, extremamente chateada.
— Mas você não vai fazer nada, meu irmão?
— O Cristóvão me deu uma ideia. Vou me aproximar da Verônica de novo, mas com o objetivo de descobrir a verdade. Assim, consigo confirmar que a Verônica não está grávida e demiti-la sem justa causa.
— E a Cecília? A história de vocês vai ficar por isso mesmo? — indagou Tia Perucas, indignada.
— Ela não acredita em mim, Estefânia! Do que adianta eu insistir em algo que não vai dar certo?
— E a sua filha? Quanto tempo mais ela vai sofrer?
— E acha que isso não me dói? — explodiu o Rei do Café — Estou magoado por mim, mas muito mais por decepcioná-la! Não quero mais falar sobre isso. Tenho muito trabalho amanhã e não vale a pena ficar aqui numa discussão sem sentido. — finalizou o pai de Dulce Maria, rumando às escadas sem olhar para trás.
— Gustavo, espera, não queria te ofender...
Estefânia voltou a sentar, arrasada.
— E agora, Gabriel? O que vai ser da Dulce? E o Gustavo, vai voltar a ficar agressivo e distante como quando perdeu a Teresa?
O padre abraçou a prima, na tentativa de acalmá-la.
— Vamos rezar, prima. Rezar pra que Deus nos dê uma saída e possamos ver a alegria retornar a essa casa.
[...]
Enquanto isso em Catarina, Clarissa e Cecília retornaram ao apartamento vencidas pelo cansaço, depois de uma longa tarde no shopping. No entanto, a mais velha não se conformava com o novo relacionamento da caçula.
— Cecília, me diz: onde você está com a cabeça? Pra que namorar o André se você ama o Gustavo?
— De novo essa história, Clarissa? Como diziam as meninas no internato, dá um tempo — sinalizou a morena com as mãos — É a minha vida. E você sabe perfeitamente porque aceitei — justificou, com um olhar triste — Preciso do seu apoio, não do seu julgamento.
— Está bem. Não está mais aqui quem falou — rendeu-se Clarissa — Conte comigo sempre, minha irmã.
— Obrigada — sussurrou a mais nova, abraçando-a com força.
No dia seguinte, Gustavo acordou um pouco mais disposto. Estava esperançoso em relação ao plano que Cristóvão elaborara para descobrir quem estava por trás da falsa gravidez de Verônica. No entanto, ele sabia perfeitamente que não poderia se deixar levar pela carência, pois do contrário, se tornaria refém da própria mentira. Ainda assim, o empresário estava temeroso à Cecília. Depois da conversa com o melhor amigo, Gustavo sentiu que realmente poderia perder seu grande amor e era doloroso só de pensar em tal possibilidade. Preciso agir de forma precisa e rápida, antes que seja tarde demais.
Ao descer as escadas, encontrou Estefânia sentada a mesa sem tocar no café da manhã.
— Bom dia, primo — saudou a estilista, receosa.
— Bom dia.
— Primo, queria te pedir desculpas por ontem, eu exagerei e você não merecia isso.
— Esquece isso, prima — respondeu Gustavo, compreensivo — Já estou acostumado às suas crises impulsivas, não se preocupe. A causa é justa — asseverou.
— Obrigada — disse, dando-lhe um beijo no rosto.
— Ah, mas a senhorita me deve uma explicação — lembrou — Que história é essa da Dulce gravar um vídeo pra achar a Cecília?
— Como você soube? — questionou Tia Perucas sobressaltada.
— A Cecília me mostrou. O vídeo estava postado no canal da Juju e logo imaginei que você estaria envolvida.
— Que bobagem, Gustavo, eu nem gosto da Juju — ironizou.
— Nem das ideias da minha filha, suponho — rebateu ele, dando um sorriso maroto.
— Ah primo, mas você percebeu que não havia nada demais? Apenas o pedido de uma menina que queria reencontrar sua professora. Mas quando a Cecília viu? o que achou?
— Pelo visto, ela tinha acabado de ver. Estava com os olhos vermelhos, inchados — lembrou ele, com pesar — E também achou um absurdo a exposição da Dulce pra procura-la. E eu tenho que concordar com ela. Por mais que ela não se identifique, a Dulce é muito pequena. Por favor Estefânia, converse com a Juju e peça pra que ela exclua esse vídeo. Ninguém precisa saber — pediu o empresário, novamente abatido.
— Está certo, primo. Como você quiser — assentiu Estefânia — Mas me diz: o que você vai fazer agora?
— Agora, vou focar em um único objetivo: desmascarar a Verônica ou quem quer que seja o responsável por essa mentira que tanto mal tem me feito.
— Tenho certeza de que você vai conseguir, Gustavo. Estamos sempre com você — finalizou a tia de Dulce Maria, segurando a mão de Gustavo para lhe dar força.
Enquanto isso, Verônica estava terminando de se vestir para ir ao trabalho, momento em que seu celular tocou. Bufou quando viu o nome de André no visor.
— O que você quer? Estou atrasada — ralhou a morena
— Bom dia pra você também, senhorita Batista — ironizou o pediatra — Tenho uma excelente notícia.
— Espero mesmo. Por sua causa, não vou conseguir tomar café.
— Quanto exagero, Verônica. Agora percebo que o Rick tinha razão em te chamar de Rainha do Drama.
— Menos, André. Fale de uma vez — insistiu a secretária.
— Você está falando com o atual namorado de Cecília Santos. Pode me parabenizar, sei que mereço — disse o médico, eufórico.
— Sério que você me ligou pra dizer isso? Não fez mais do que sua obrigação. A propósito, já era seu tempo.
— Você deveria me agradecer. Afinal, o caminho está livre pra você e o Rei do Café. Farei de tudo para que muito em breve, Cecília se torne minha esposa e juntos, iremos para o exterior — imaginava André, sonhador.
— Assim eu espero. Agora, me deixa desligar — encerrou a morena, jogando o celular na bolsa.
Ao chegar na empresa, Verônica percebeu que seu chefe já estava em sua sala. Está na hora de voltar a agir. Não posso perder esse homem por nada.
Ao ouvir batidas na porta e reconhecer a voz de Verônica, foi como se Gustavo tivesse levado um soco no estômago. As palavras de Cristóvão ecoaram em sua mente: Você precisa provar para Cecília que a Verônica não espera um filho seu. Só assim ela vai te aceitar sem nenhum ressentimento. O empresário suspirou.
— Bom dia — cumprimentou.
— Bom dia — respondeu ele, fechando a tampa do notebook em indo em direção a ela — Como foi seu fim de semana?
— Monótono. Me senti muito sozinha — respondeu Verônica, fazendo birra.
— Isso significa que nós precisamos de um jantar. Hoje, às 22 h? — convidou o empresário, tentando ser gentil.
— Não sei... você anda muito distante. Não vai me comprar com um jantar — advertiu ela, manhosa.
— E se eu pedir desculpas de uma forma mais... convincente? — continuou o Rei do Café, se aproximando ainda mais da morena, que o beijou sem rodeios.
— Melhor deixar pra mais tarde — se esquivou Gustavo
— Você tem razão. O Cristóvão já te encaminhou os contratos da fazenda de Minas?
— Sim, eu terminei de revisá-los ontem à noite — respondeu ele, se afastando.
— Se precisar de mim, é só chamar — disse ela, num tom sedutor.
— Sei disso. Obrigado — finalizou ele, voltando à sua mesa, dando-lhe um sorriso forçado.
Ao vê-la sair, Gustavo sentou-se na poltrona atordoado. Não vou aguentar fingir por tanto tempo. Meu Deus, tudo isso por um maldito impulso, pensava ele com nojo de si mesmo, desejando com todas as forças que aquele teatro findasse logo. E que a verdade surgisse o mais rápido possível, para que finalmente pudesse se acertar com a mulher que amava.
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