All I Wanted Was You
1 Fences.
Notas iniciais
E mais uma vez eu parecia estar preso nessa cidadezinha de merda. Como se houvessem cercas ao meu redor. Preso em meus pensamentos. Sabe quando você tem a sensação de que não está no lugar certo, de que sua alma, de que você, não pertence àquele lugar?! Era exatamente assim que eu sentia-me.
“I'm sitting in a room
Made up of only big white walls” [1]
Dei uma rápida olhada nos rabiscos e letras de música que eu havia composto. Não pareciam bons o suficiente. Era como se nas próprias letras também faltasse algo. Por que tudo estava assim? Justo hoje. Ri sarcasticamente. Em seus aniversários as pessoas costumavam querer tudo perfeito, costumavam dizer que tudo era perfeito. E tudo que eu queria era só um pouco de paz de espírito(?)... Tentei tocar algo em meu presente. Eu havia ganhado uma guitarra de minha mãe, apesar de já ter uma. Ela achava que Blue – minha antiga guitarra – já estava um tanto “velha” demais. Eu também sentia falta dele. Mas por que diabos isto estava acontecendo? Eu não o havia visto há apenas algumas horas atrás? Porém ao mesmo tempo eu não queria vê-lo. Doeria. Talvez porque ele não sabia de meus sentimentos. Não tinha certeza se o amava, por assim dizer. Mas meu coração parecia bater mais rápido toda vez que eu o avistava, eu sorria quando ele sorria, tive uma imensa vontade de enxugar suas lágrimas nas raras vezes que o vi chorar – da mesma forma que ele fizera comigo, como por exemplo, quando meu pai morreu – e queria tocar cada milímetro de seu rosto. Então, era isso que chamavam de amor?
O telefone acabara de tocar. Mesclei entre a vontade de saber quem estava ligando ou “tocar o foda-se”, como dizem por aí.
– Alô?
– Billie?!
– Sou eu... hm, Mike?
– Te pego às 20:00 pro cinema, ou pra onde você quiser ir, afinal é seu aniversário.
Ele falava animado... Por Deus, quem estava fazendo a droga de aniversário era ele ou eu?
– Ok.
– Você parece meio desanimado... algum problema?
– Acho que não. Quando você chegar te falo. Até mais. – e desliguei o telefone, sem qualquer despedida.
Eu contaria pra ele. Tudo.
“Don't you know by now
You can't turn back
Because this road is all you'll ever have”[2]
Fui arrumar-me, o relógio já marcava 21:00. Tomei banho e vesti uma skinny preta com a blusa do Ramones, minha banda favorita, que Mike havia me dado. Contornei os olhos com delineador preto.
Alguns minutos depois a campainha tocou. Era Mike, sorriu ao ver-me. Ele vestia calça jeans e uma blusa preta, com os cabelos espetados cuidadosamentes ajeitados e um all star.
– Acho que não quero ir ao cinema... Na verdade, acho que não quero ir a nenhum lugar. – eu disse e o sorriso dele transformou-se em uma expressão de desapontamento.
– Tem certeza? Quer dizer, é seu aniversário, pensei que sairíamos... digo, se não quiser sair comigo...
– Na verdade, o problema não é esse... Hm... o que acha de irmos ao parque?
– Por mim tudo bem. – ele disse e saímos.
Caminhamos por alguns minutos até chegar lá. O local era bonito, tinha bastante árvores, alguns brinquedos como balanço, para as crianças que o freqüentavam pela manhã. Estava vazio e um pouco escuro. Sentamos nos bancos que haviam lá.
Senti minhas mãos ficarem ainda mais frias. Um sinal óbvio de minha ansiedade, e ao mesmo tempo, do nervosismo. Mike pareceu perceber.
– Billie... Há algo errado? Você parece distante... – puxou-me para mais perto dele e pegou meu rosto em suas mãos de forma que pudesse olhar em meus olhos, deixando nossos rostos frente a frente. – Há algo que você queira me contar?
– E- eu... – tentei falar mas as palavras pareciam ficar presas em minha garganta.
“ Now I cannot speak, I lost my voice
I'm speechless and redundant
'Cause I love you's not enough” [3]
Então tive uma idéia... Mas aonde eu estava com a cabeça? Não, não, não.
– Mikey... ainda é meu aniversário, certo? – eu disse e Mike assentiu. Senti meu coração acelerar e minha respiração ficar mais rápida. – Eu queria te pedir algo... eu queria muito fazer algo... – Eu disse e aproximei nossos rostos, selando os lábios timidamente. Mike pareceu confuso e de início não correspondeu ao beijo. Meus dedos entrelaçaram-se em seu cabelo, puxando-o para mim. Senti seus braços envolvendo minha cintura e sua boca movendo-se de encontro à minha. Mas acabou antes do que eu esperava. Ele afastou-se. Vi sua expressão confusa e um tanto assutada. Levantei-me e me afastei. Eu não queria ver aquele olhar de “que diabos é isso?” novamente. Eu não queria poder amá-lo e ter apenas sua amizade. Eu queria apenas... correr.
“I'm screaming ‘I love you so’...
But my thoughts you can't decode” [4]
– BILLIE, ESPERA! – Ouvi sua voz ao longe, enquanto ele tentava vir atrás de mim, mas eu já estava longe. Eu queria só sair dali.
Notas finais
[1]"Estou sentado numa sala
Feita apenas de grandes paredes brancas". Fences - Paramore.
[2]"Você não sabe que agora
não pode voltar atrás.
Porque essa estrada é tudo que você sempre terá." Fences - Paramore.
[3]"Agora eu não posso falar, eu perdi a minha voz
Estou sem palavras e redundante
Porque eu amo você e não é o suficiente" Redundant - Green Day
[4] "Estou gritando 'Eu te amo tanto'...
Mas meus pensamentos você não consegue decodificar." Decode - Paramore.
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