All I Want For Christmas Is You
1 Capítulo único
Notas iniciais
Era pra ser uma songfic da música "All I Want for Christmas is You", mas a primeira parte acabou ficando grande demais, então deixei assim mesmo. Mas ainda assim foi inspirada na música.
Natal.
Esse dia chegou antes mesmo que eu pudesse perceber. Mesmo sentindo cada dia que passava pesando dentro de mim, eu ainda assim não senti o tempo passar, propriamente falando. Confuso? Também acho.
Faz quanto tempo? Dez, onze meses? Quase um ano. Mas não importa. Foram longos meses que se passaram desde que ele foi embora, e meses que eu tentei, mas não consegui esquecê-lo. Ou talvez eu estivesse apenas enganando a mim mesmo, e na realidade, eu nunca quis esquecê-lo.
Nezumi.
Esse rapaz surgiu do nada, e também do nada, sumiu. Sem qualquer explicação, simplesmente... Sumiu.
Ele era diferente, digo com segurança que nunca encontrei ninguém igual, ou mesmo parecido, à ele antes. Todos que mal o conheciam já o julgavam, diziam que ele era um delinquente sem salvação e mais uma tabela inteira de insultos que nem me darei ao trabalho de mencionar, e... Eu me apaixonei por ele.
Está bem, deixem-me explicar, porque isso provavelmente está bem confuso.
Eu estava voltando do colégio certa noite, depois de passar a tarde inteira servindo de platéia para o discurso que minha amiga Safu estava preparando para apresentar na palestra à qual foi convidada, quando me deparei com "algo" cerca de duas ruas antes de chegar na minha casa. Acontece que esse "algo" era uma pessoa, e essa pessoa visivelmente precisava de ajuda.
Um rapaz.
Aparentava ser um pouco mais velho do que eu; mas talvez fosse apenas a impressão causada por seu cabelo escuro — acizentado, não sabia definir muito bem a cor — que ia solto e ligeiramente bagunçado até os ombros, cobrindo parte de seu rosto desacordado.
A questão, era que ele não parecia bem. Ou melhor, ele obviamente não estava bem.
Ele estava sentado no chão, os olhos fechados, encostado no muro e tremendo levemente. Não aparentava estar usando nenhuma roupa mais quente do que uma jaqueta escura e uma calça jeans, e sentado na neve costumeira de dezembro, ele com certeza estava congelando!
Mas não foi o certo frio que ele deveria estar sentindo que me deu a certeza de que ele não estava bem. Não, o sangue que escorria em um ritmo contínuo de seu braço esquerdo foi quem fez esse trabalho.
Sei muito bem que sair por aí ajudando desconhecidos que sangram por motivos suspeitos não é a atitude mais sensata, mas acha mesmo que fiquei pensando nisso?
Fui apressado até ele e me agachei à sua frente, já tirando meu cachecol e meu casaco. Rapidamente enrolei o cachecol em seu braço, em cima da ferida, tentando apertar o bastante para parar de sangrar, ouvindo um baixo gemido de dor da parte dele, e logo em seguida passei o casaco pelas suas costas, fechando um dos fechos na frente para mantê-lo no lugar. Apenas torcia para que fosse o suficiente para aquecê-lo um pouco.
O que eu fiz em seguida? Dei um jeito de colocá-lo nas minhas costas. Não foi muito fácil, considerando que ele era maior do que eu e não exatamente leve, mas eu consegui carregá-lo até minha casa, superando a neve acumulada nas ruas pelo caminho.
Minha mãe não estava em casa. Eu a tinha convencido a tirar férias, depois de muito tentar, e agora ela passaria duas semanas em uma viagem bem acompanhada, tendo o descanso que tanto merecia.
Mas mesmo que não estivesse aqui, eu não usaria o quarto dela, então coloquei o estranho na minha cama, com certo cuidado para não machucá-lo na hora de tirá-lo das minhas costas e deitá-lo.
Não sei se consegui não machucá-lo.
– Quem... Quem é você?
Mas eu consegui acordá-lo.
Seus olhos eram... Intensos. O tom curioso de azul me encarava, dividido em curioso, desconfiado e dolorido, e observando aqueles olhos tão subitamente à amostra, eu não consegui responder.
– Que lugar é esse? — perguntou ainda com a voz rouca, e tentou se mover, mas fez uma careta de dor e conteve um gemido quase que imediatamente. Levou devagar a mão direita até a ferida no outro braço.
O efeito hipnótico daqueles olhos cessou.
– Não se mova — falei, fazendo-o soltar o braço — Deixe-me dar uma olhada nisso.
– Responda — ele mandou. Bom, não posso culpá-lo por estar desconfiado, afinal, ele por algum motivo foi ferido e ainda acorda em um lugar desconhecido com um estranho perto dele? Motivo ele tem.
Relevemos o fato de que eu também tinha.
Respondi enquanto pegava a caixa de primeiros socorros em cima do meu armário — Meu nome é Shion e você está na minha casa — aproximei-me dele de novo — Eu o encontrei à algumas ruas daqui — será que era um mau momento para perguntar por que ele estava sangrando em uma rua qualquer?
Ele continuava me encarando desconfiado.
– E qual o seu nome?
Ele demorou tanto para responder, que achei que não iria.
Mas ele deu um suspiro e falou — Nezumi.
E foi desse jeito que o encontrei pela primeira vez. Claro que não podia ser em uma situação normal, certo?
Podemos pular um bom período de tempo agora, porque o que de significativo que aconteceu nele eu estou prestes a explicar rapidamente.
Após alguns dias, Nezumi parecia confiar, mais do que eu esperava, em mim. Eu descobri que ele realmente tinha a mesma idade que eu, que ele não tinha família próxima e que os parentes legalmente responsáveis por ele até sua maioridade o expulsaram assim que ele a completou. Isso mesmo, ele foi expulso de casa justamente no dia do seu aniversário. Parece que isso foi há algumas semanas, e que desde então ele tem se virado como pôde, até que ele se meteu em uma briga com algum grupo perigoso e... Bom, o resultado disso eu vi pessoalmente.
Ele, não demorei para descobrir, estava acostumado a ficar sozinho, afastado dos outros, mas de alguma forma eu consegui convencê-lo a ficar aqui em casa. Ele não tinha para onde ir, afinal. E apesar de sua constante pose e do que parecia querer parecer, ele não era do tipo que me roubaria ou atacaria a qualquer momento. Não precisei nem de dois dias para ter certeza disso.
Mas que ele era fechado e evasivo, com certeza era.
Mas enfim. Mesmo quando minha mãe voltou de viagem e encontrou um rapaz desconhecido em casa, depois de eu explicar tudo, ela apenas abriu um dos seus mais calorosos sorrisos e tornou definitiva a permanência de Nezumi aqui.
Foi a primeira vez que eu o vi sorrir de verdade.
Talvez se sentir acolhido em algum lugar, o tivesse lembrado como é sorrir.
– Shion, posso perguntar uma coisa? – ele falou certa noite. O Natal tinha passado, e esse foi, sem dúvida, o mais inesquecível de todos. Se perguntassem, eu não saberia dizer o por quê exatamente, foi praticamente igual à todos os outros, mas diferente de todos os outros, esse ficou guardado na minha mente, como se fosse uma memória muito preciosa. Era porque passamos na companhia de Nezumi? Parecia um pouco estranho pensar assim, mas...
Um novo ano também já havia se iniciado há um tempo razoável, e agora estávamos apenas nós dois em casa, em frente à lareira fracamente em funcionamento.
– O quê? – perguntei, abaixando, que nem ele, o livro que estava lendo e o deixando de lado.
Agora faziam quase dois meses que ele estava aqui.
Dois meses...
– O que leva alguém a acolher uma pessoa totalmente desconhecida e suspeita, sem nem pensar duas vezes? – seus olhos não estavam em mim, estavam fixos no fogo baixo da lareira.
– Por que essa pergunta agora?
– Porque eu quero entender – e então ele virou para mim, e sua expressão... Estava tão diferente do usual, parecia tão... Vulnerável – Porque alguém escolheria, entre tantas opções, ficar ao lado de...
Ele não terminou. Mas eu sabia o que ele queria dizer.
Devagar, sem levantar do chão, me aproximei dele. Ficamos frente a frente, e encarei por algum tempo seus olhos tão incomuns até conseguir encontrar as palavras certas para usar.
Mas eu não consegui usá-las.
Porque seus lábios surpreenderam os meus antes mesmo que eu pudesse tentar.
Eu correspondi, mas lembro que sequer tinha noção de estar fazendo aquilo. Eu estava atônito demais, eu não entendia o por quê dele fazer isso tão de repente, eu...
Quando Nezumi se afastou de mim, sua expressão confusa deixava claro que ele também não entendia. Como se aquela ação tivesse surgido espontâneamente, como se seu cérebro tivesse mandado o comando ao seu corpo antes mesmo que ele pudesse pensar em qualquer coisa parecida.
Ótimo, ambos estávamos confusos.
Nenhum de nós falou qualquer coisa que fosse, simplesmente permanecemos em silêncio, em diálogo apenas como nossos próprios pensamentos.
E esta foi a última vez que eu vi Nezumi.
Sim, última. Na manhã seguinte, tudo o que minha mãe e eu encontramos no quarto que ele usava, foi o mesmo cachecol que eu tinha usado quando o encontrei e que usei para amarrar seu braço ferido, cuidadosamente dobrado em cima da cama arrumada, e com um pedaço de papel dobrado em cima.
“Será melhor assim. Vocês são pessoas boas demais para eu ter ao meu lado.
Obrigado por tudo, de verdade.
Nezumi”
Essas poucas palavras e o cachecol que eu havia lhe dado foram tudo o que ele deixou para trás.
Apenas isso.
Deu para entender alguma coisa agora?
Desde aquele dia, eu me perguntava o por quê dele ter ido embora. Será que era por causa do que aconteceu na noite anterior? Ele se arrependeu tanto que resolveu partir? Parecia dramático demais pensar assim. Mas...
Apenas depois que ele se foi é que eu parei para pensar com cuidado sobre certas coisas, e... O estranho sentimento de vazio que me envolve desde então fez um ótimo trabalho me ajudando a aceitar a verdade. Eu convivi tão pouco tempo com ele, como era possível? Mas negar cansa, então só restava admitir de vez. Eu gostava dele. Não sabia dizer se era amor, mas era forte e durou por todos esses meses, então devia significar alguma coisa. Mas sem ele aqui, era um tanto quanto doloroso pensar nisso a fundo, então eu simplesmente admiti e deixei por isso mesmo, sem grandes filosofias, sem nada. Era melhor assim.
E agora, época de final de ano, quase Natal, e eu sozinho em casa, observando a neve cair lenta pela janela e lembrando de como foi essa data exatamente um ano antes.
Saudade. Era isso que me consumia.
Eu apenas queria vê-lo outra vez, ouvir um dos seus ataques de sarcasmo, olhar feio para os vizinhos que falavam mal dele pelas costas, eu apenas queria entender o que é isso...
É pedir demais?
– Já vou! – falei alto, me afastando da janela, quando ouvi baterem na porta.
Abri, e...
– Feliz Natal, Shion.
Eu queria dizer algo como “Ainda não é Natal”, ou “Por onde você esteve esse tempo todo”, mas tudo o que saiu foi uma exclamação surpresa e de certa forma, aliviada – Nezumi!
Ele estava ali, bem na minha frente, ele realmente estava ali! Seu cabelo parecia mais comprido e estava preso em um rabo de cavalo, mas seus olhos, seu rosto, não haviam mudado nada.
– Posso entrar? – ele pediu, e eu, meio atrapalhado pela surpresa ainda, fui para o lado e lhe dei passagem.
– Shion... – ele estendeu o braço e afagou meu cabelo, de um jeito um pouco hesitante e nervoso.
Afastei sua mão, forçando-o a me olhar diretamente.
– Por que você foi embora? Por que daquele jeito? Do nada? Sem nem mesmo avisar, se despedir? – perguntei algumas das coisas que há muito estavam entaladas na minha garganta, como um caroço. Eu deveria perguntar “como você está” ou algo do tipo primeiro, mas as perguntas saíram antes que eu percebesse.
– Eu... – ele desviou o olhar, mas logo o voltou para mim – Eu acho que não passo de um covarde, Shion – deu um dos seus sorriso de lado, de quando tinha vergonha de admitir algo – Eu... Não tive coragem de lidar com o jeito que eu me sentia aqui, com você. Eu estava feliz, e isso me assustava. Eu nunca... Expermimentei esse sentimento de verdade, então eu... – parecia que ele tinha ensaiado o que dizer durante horas, mas que no momento que deveria,não lembrava mais direito como falar – E depois, quando me arrependia de ter ido embora, eu não tive coragem de voltar. Achei... Que essa seria uma boa época para voltar, sabe, começar de novo – ele hesitou – Eu posso?
Ao invés de responder, suspirei e o abracei. Acho que poderíamos deixar de lado tudo, qualquer coisa, durante alguns minutos, não? Ele retribuiu o abraço, tão forte, que nesse exato momento eu soube que ele não se arrependia daquele beijo repentino. Ele apenas não sabia lidar com aquele sentimento... Assim como eu.
– Feliz Natal, Nezumi – poderia deixar para pensar naqueles sentimentos nem mais tão confusos agora que eu o tinha tão perto, mais tarde. Ver ele de novo foi tudo o que eu pedi para essa data, e agora, já ganhei meu presente.
Notas finais
Feliz Natal adiantado ^o^
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