All I Want
6 Sem dinheiro pro hambúrguer
Notas iniciais
Eu não quero morrer. Não hoje. Era só nisso que conseguia pensar.
Não senti minhas mãos quando elas se agarraram ao meu celular dentro do bolso, entregando-o ao homem encapuzado sem hesitar. Só sei que meus dedos estavam trêmulos e suados. Não ousava me mover, mesmo apesar de todo o nervosismo que energizava meu corpo.
Virei os olhos para André. Ele não se movia.
— André... — sussurrei.
— Anda logo, cara! — Apressou o assaltante, e ele deu um empurrão de leve nas costas de André com o canivete. — Eu não tô brincando, não.
Senti um arrepio me percorrendo, um arrepio de medo. André não estava fazendo o que devia. não estava entregando suas coisas. E eu não conseguia nem pensar nas consequências que isso poderia acarretar: comecei a tremer ainda mais.
Ele vai matar o André.
Se eu impedir, ele vai me matar.
Foi então que tudo aconteceu.
De início, não entendi nada. Foi tudo muito rápido, mas ao mesmo tempo, pareceu durar uma eternidade dentro da minha cabeça. Cacos de vidro explodiram na cabeça do assaltante, e ele caiu como se estivesse desmaiando, estirado à nossa frente. Fiquei demasiadamente chocado com aquela cena, o que me impediu de perceber imediatamente que havia uma pessoa em pé logo atrás dele, segurando uma garrafa quebrada.
Foi como se o rosto dela se renderizasse lentamente, indo além da minha compreensão. Maria encarava o homem inconsciente de cima, com uma expressão de desprezo e ao mesmo tempo, de coragem.
— O quê... — começou André, aparentemente tão perdido quanto eu.
— Corram — disse ela.
Minhas pernas estavam duras e enferrujadas, e Maria precisou segurar a minha mão para que eu me movesse. Antes, porém, abaixei-me até a mão do bandido e, rapidamente, peguei meu celular de volta. Aproveitei e também peguei o canivete, por segurança.
Depois, nós três corremos pela rua o mais rápido que podíamos, a luz dos postes se alternando acima de nossas cabeças. Eu estava confuso e com medo, mas ao mesmo tempo aliviado.
Maria nos salvara.
*
Quando chegamos na frente da minha casa, estávamos todos sem fôlego. Peguei a cópia minúscula da minha chave o mais rápido que pude e abri o portão, ainda sem entender o que havia acabado de acontecer. Logo em seguida, Maria atirou a garrafa quebrada que tinha nas mãos perto de uma moita no jardim. Só depois que nós três entramos pela porta da sala e eu me certifiquei de trancar tudo devidamente.
Meus pais estavam vendo o jornal na TV. Havia cheiro de comida; certamente haviam acabado de jantar.
— E aí, como foi... — começou meu pai, mas em seguida ele viu Maria e pareceu não saber o que falar por um momento. — Ah... olá.
— Boa noite — disse Maria educadamente.
Todos ficamos um pouco sem jeito.
— Boa noite — respondeu minha mãe, também nos observando.
— Ehh... pai, mãe, essa é a Maria, uma amiga da nossa sala — falei. — A gente... é... a gente vai lá pro quarto.
— Vamos ver Netflix — disse André.
— Sim.
Meu pai nos olhou torto, desconfiado.
— Vocês parecem meio assustados
— Não — desmenti, urgentemente. — Não, é só que nós comemos demais e... ah, você sabe.
— Hum — disse minha mãe, com aquela cara que ela sempre fazia de quem sabia das coisas. — Ok. Sinta-se em casa, Maria. Qualquer coisa, é só chamar.
E então nós três fomos até meu quarto, Maria e André me seguindo, ao que eu fechei a porta rapidamente.
— Ah meu Deus — falei, encostado na porta, os olhos arregalados. — O que foi isso?
Nem Maria, e tampouco André, responderam alguma coisa.
— Tivemos sorte, muita sorte.
Eu tinha posto o canivete do bandido em um dos bolsos da bermuda. Segurei-o como se fosse a coisa mais nojenta do mundo, jogando-o em cima da escrivaninha e me recordando de sua voz medonha.
— Valeu, Maria — disse André, a mão hesitante passando pelo pescoço. — Valeu mesmo.
— Nós te devemos a nossa vida — falei, indo em direção a ela. Abracei-a com a força de alguém que há não muito tempo atrás estava à beira da morte.
Virei-me para André.
— E você — comecei, com um tom duro impregnando a minha voz. — Você faz ideia do perigo que estava correndo? Era pra você ter dado suas coisas pra ele, André. Em circunstância alguma se deve resistir a um assalto. Você poderia muito bem estar morto!
— Eu fiquei confuso, tá bom? Eu comprei meu celular há exatos dois meses... eu poderia tê-lo impedido.
— E isso poderia muito bem ter custado, a nossa vida.
— Meninos, parem — interpôs Maria. — Vocês estão bem. É isso que importa. Ou quer dizer que sobreviveram pra brigar?
Ficamos calados. Minha ficha começava a cair sobre tudo o que acontecera.
Lancei-me sobre André, abraçando-o ainda mais forte do que abraçara Maria. Algumas lágrimas vieram mas meus olhos, mas segurei-as fortemente. Sentir André entre meus braços era a sensação mais recompensadora que eu poderia ter, sentir seu cheiro, sua pele.
— Nunca mais faça uma coisa dessas. Nunca.
Quando nos separamos, encarei o chão, sem jeito. Eu sempre ficava assim quando abraçava André, era uma coisa que eu não conseguia evitar.
— Bom, é melhor eu ir agora — começou Maria, olhando para baixo e dando um passo em direção à porta.
— Não — protestei. — Com esse cara por aí, a essa hora da noite? Maria, pode passar a noite aqui em casa. É o mínimo que eu posso fazer depois do que você fez pela gente.
Ela sorriu educadamente.
— Ah... não vai incomodar?
— Nem um pouco.
— Bom... sé é assim então tudo bem, aceito.
Retribuí o sorriso a ela.
— Devíamos notificar a polícia sobre esse cara.
— Concordo — disse Maria.
André já ia pegando o celular quando uma expressão de dúvida percorreu seu rosto.
— Só por curiosidade — começou ele. — O que você fazia por aqui?
Ela suspirou. De repente, também percebi o quão estranha era aquela situação: Maria, que morava a uma boa distância de nós, magicamente estava passeando meu meu bairro naquela noite.
— Minha amiga, a Dani, mora aqui perto. Vocês conheceram ela na festa, lembram? Aquela de cabelos curtos. Eu estava saindo da casa dela, mas aí ela falou sobre a hamburgueria que vocês estavam, disse que era muito boa. Resolvi passar lá, mas percebi que não tinha dinheiro pra um lanche. Então peguei uma bebida, ao invés disso. Estava indo pro ponto de ônibus quando avistei vocês e o... bem, o assaltante.
— Uau — André parecia perplexo e maravilhado.— Que bom que você não tinha dinheiro pro hambúrguer.
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