All I Ask of You
1 All I Ask of You
Notas iniciais
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“Diga que compartilhará comigo um amor, uma vida
Diga a palavra e eu seguirei você
Compartilhe comigo cada dia, cada noite, cada manhã
Diga que me ama
(Você sabe que amo)
Me ame, isso é tudo o que peço a você”
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A neve caía delicada e cândida, pintando o jardim de branco. Um retrato de pureza alvejante. Em outros tempos, o rapaz perceberia apenas o encanto de tal momento. A paz e a beleza de uma noite de dezembro. Agora, no entanto, tudo o que notava era o frio que lhe gelava os ossos. E tudo o que conseguia pensar era que, em breve, a neve começaria a derreter, se misturando à lama e sujeira, formando algo pegajoso e repulsivo. Nenhum tipo de inocência poderia durar naquele mundo. Ron Weasley aprendera aquela lição nos últimos anos.
Era véspera de natal e nada poderia parecer mais errado. Sua família estava reunida, como de costume, mas tudo estava fora de lugar. Talvez por isso o garoto houvesse escapado na primeira oportunidade e se refugiara na varanda congelante, fugindo do calor familiar d’ A Toca. Não conseguia ficar ali dentro. Não conseguia se sentar em frente a uma mesa cheia de comida, iluminada por luzes e enfeites, e encarar o vestígio das lágrimas, que a mãe tentava tanto reprimir, brilhando em seus olhos. O sorriso forçado do pai. O rosto destruído e desolado de Bill. O silêncio de Charlie. O peso da culpa que se equilibrava nos ombros de Percy. O fantasma da pessoa que George um dia fora – e ao mesmo tempo, o fantasma do irmão que não estava mais ali. A agitação de Ginny. A cadeira vazia de Fred. Tudo aquilo era desesperador. E muito mais do que Ron conseguia suportar.
Então, ele se esgueirara para fora de casa e se pusera a contemplar a paisagem. Respirar parecera possível pela primeira vez naquele dia. E se o frio fazia com que as cicatrizes – de quando estrunchara – em seus ombros doessem como o inferno, honestamente, era um bônus. A dor mantinha sua fé. O ajudava a acreditar que sua incapacidade de seguir em frente não era loucura ou alguma espécie de falha de caráter, mas sim o natural.
A guerra acabara há sete meses, a paz, entretanto, não viera logo de cara. Se é que um dia seria totalmente alcançada. O que se seguira a derrota do Lorde das Trevas fora muito trabalho: havia Comensais da Morte fugitivos para capturar, Comensais da Morte presos para julgar, escolas, casas, ruas inteirais para reconstruir, feridos para cuidar, mortos para enterrar. Harry vira todo aquele dever como algo bom, dificilmente saberia como viver sem um sentimento de urgência e de algo há fazer ou perseguir. Fazia sentido, portanto, que ele se mantivesse firme em seu propósito de ser um auror.
Ron, por sua vez, estava apenas cansado. Exausto, na verdade. Era como se as coisas continuassem se atropelando e não houvesse tempo para pensar ou sentir. Ele também havia se inscrito para a Academia de Aurores e seu papel na guerra o fizera ser aceito. Fora algo que achara que deveria fazer. Que seria o certo. Que lhe daria algum propósito em meio ao caos. Que provaria seu valor (aquele que talvez já tivesse sido provado. Velhos hábitos e velhas inseguranças, contudo, não morriam com facilidade). Agora já não tinha tanta certeza. Não tinha certeza de nada.
— Você está bem? — a voz feminina soou preocupada atrás dele, ao mesmo tempo em que a brisa fez com que o perfume dela envolvesse o rapaz. Ron se viu sem escolha a não ser sorrir. O primeiro sorriso genuíno da noite.
Se virou para encontrar uma moça de cabelos castanhos, cacheados e espessos, olhos escuros e inteligentes, vestindo jeans velhos, suéter azul e casaco preto. Hermione Granger.
— Estou. — ele mentiu, porque não queria preocupá-la.
— É por isso que está aqui fora sozinho? Nesse frio? Está congelando aqui, Ron!
O Weasley suspirou. Naquele ponto, já deveria saber que Hermione era esperta demais para ser enganada.
— Acho que só precisava de um tempo sozinho. E não, acho que não estou bem.
A menina se aproximou dele, o obrigando a encará-la, e entrelaçou suas mãos as dela. Foi bom e, ao mesmo tempo, estranho. Era sempre bom e estranho estar perto de Hermione nos últimos tempos. Nenhum dos dois sabia muito bem como agir. O que esperar. O que eram um para o outro.
Ron Weasley e Hermione Granger se amavam. Isso era inegável. Ao longo daqueles sete anos, haviam passado por todo o tipo de situação juntos. De trasgos a Comensais da Morte. De primeiras impressões pouco lisonjeiras a conflitos provocados por seus temperamentos fortes. Tudo isso parecia simples agora que se deparavam com um desafio maior: o fato de que nenhum dos dois – nem mesmo uma sabe-tudo como a garota – tinha qualquer noção de como fazer um relacionamento funcionar.
Não tinham muita experiência no departamento amoroso – e todas as tentativas anteriores de romance haviam terminado em fiasco –, além disso, os últimos meses haviam sido complicados. Qualquer um que dissesse que após uma guerra o que se seguia era a paz estava equivocado. Para além de todo turbilhão de ações necessárias e problemas a serem resolvidos, havia todas as dores, perdas e traumas.
Não era um momento bom para os Weasley. A perda de Fred fora um golpe difícil e Ron sabia que precisava estar com sua família e ajudá-la a passar por aquilo. Além de lidar com o próprio luto, que estava longe de ser algo bonito ou pacífico. Hermione, de todo modo, tinha suas próprias preocupações e sua própria família para priorizar. Precisava encontrar os pais, se certificar de que estavam bem, fazer com que recuperassem a memória, aproveitar todo o tempo que podia com eles. Ron entendia isso. Da mesma forma, que Hermione entendia as necessidades dele. Os dois ainda se viam com alguma regularidade, ainda conversavam, às vezes até se beijavam, porém nunca falavam realmente sobre o que tudo aquilo significava. Assustados demais com que tipo de resposta poderiam receber. Em resumo, a vida estava longe do ideal e não parecia um momento bom para começar um relacionamento.
Então, viera setembro e Hermione decidira que queria terminar seus estudos em Hogwarts, algo que não chegava a surpreender vindo dela. Ron, entretanto, já não se via trilhando aquele caminho. Especialmente agora que não precisava trilhá-lo. Acabara, assim, se inscrevendo para a Academia de Aurores junto com Harry. O que impusera uma distância entre ele e a Granger que só fora amenizada pelas cartas que trocavam.
Até aquele momento. Até aquele recesso de fim de ano. Até estarem ali, naquela véspera de natal, de mãos dadas em meio a uma nevasca. Um único toque – que mal chegava a ser um toque visto que ambos usavam luvas – era suficiente para fazer o coração do Weasley disparar. Ele amava aquela garota. A amava há tanto tempo que sequer saberia dizer quando amizade evoluíra para algo mais. Talvez estivesse apaixonado por ela desde o começo e houvesse sido apenas estúpido o suficiente para não perceber antes.
Falando em estupidez, refletir sobre toda a situação naquele momento, fazia com que todos os empecilhos e argumentos que repetira para si mesmo nos últimos meses soassem ridículos. Racionalmente, não havia nenhum sentido em não estarem oficialmente juntos. Não depois de tudo o que passaram, não depois de uma guerra, não depois de todas as noites em que perdera o sono pelo puro pânico do que poderia acontecer a Hermione, sendo ela uma nascida-trouxa, e definitivamente não depois de todas as noites em que perdera o sono se lembrando dos gritos dela, ao ser torturada por Bellatrix Lestrange, se lembrando de quão perto estivera de perdê-la.
Ron vinha tentando ser mais gentil consigo mesmo. Especialmente após ver todo o dano que uma Horcrux conseguira fazer apenas alimentando seus medos e inseguranças. Dessa forma, não queria julgar muito severamente o rapaz meio transtornado, traumatizado, assustado, entorpecido e que havia acabado de perder um irmão que fora meses atrás. Não queria julgá-lo por ter travado e não fazer ideia de como proceder. Não queria julgá-lo especialmente por sentir que seria errado dar qualquer passo em direção à própria felicidade. Por sentir que seria errado tentar ficar finalmente com a garota de seus sonhos, quando Fred estava morto. Por sentir que aquilo seria uma espécie de traição à memória do irmão. Que seria vil e imperdoável.
Ainda assim, naquele instante, era difícil não achar tudo isso uma completa imbecilidade. Apesar de todas as probabilidades, ele estava vivo e a menina que amava também. Não deveria tentar estar com ela, enquanto tinham a chance? Não havia aprendido como a vida era frágil, valiosa e fugaz? Além disso, Fred passara toda sua existência cultivando alegria e amor por onde passava. Provavelmente espancaria Ron por sequer cogitar abrir mão de algo que o fizesse feliz. E principalmente por dizer que fazia isso em sua memória. Era tudo, de fato, bastante estúpido. Luto e trauma, porém, nunca seriam reduto de lógica e racionalidade.
— O que nós estamos fazendo, Mione? — Ron perguntou, por fim.
— Congelando em meio a uma nevasca, enquanto, por algum motivo, ignoramos um jantar de natal e uma lareira. — Hermione tentou soar divertida. Ron a amou ainda mais por perceber que estava tentando fazê-lo sorrir.
— Eu não estou falando do que estamos fazendo agora.
— Eu sei. — era claro que sabia. — Mas não sei como responder à outra pergunta. — aquilo claramente não a deixava contente. Não saber uma resposta sempre seria algo que incomodaria Hermione Granger.
— Eu também não sei. — Ron admitiu, embora não fosse o tipo de confissão que lhe custasse muito. Já estava habituado, afinal.
Hermione o olhou profundamente por um minuto inteiro. Os olhos castanhos dela tão presos aos azuis do Weasley que pareciam nunca ter contemplado nada mais sublime.
— Eu não sei o que nós estamos fazendo, Ron, mas sei o que gostaria que fizéssemos. — ela disse com tanta candura que provocou arrepios no rapaz.
— E o que você gostaria de fazer, Mione?
— Ficar com você. Hoje. Amanhã. Ano que vem. Para sempre. Ou pelo tempo que for possível.
Ron se surpreendeu com aquela declaração tão efusiva. Sabia que Hermione gostava dele, teria que ser muito tolo para, naquela altura da vida, não saber disso. No entanto, jamais esperara ouvir algo como aquilo saindo dos lábios da Granger. Ela não fazia o tipo romântico. O que só tornava tudo ainda mais especial.
— Sério? — indagou sem conseguir se controlar.
— Sempre o tom de surpresa. — a jovem riu. E ele riu também. — Eu sei que as coisas não estão perfeitas, Ron. Sei que, na verdade, tudo está um caos e que ainda há muito a ser feito para chegarmos realmente no mundo que sonhamos. E sei que algumas coisas nunca vão voltar ao normal, algumas dores nunca irão passar. Eu não sou mais a pessoa que eu era no ano passado. E nem você. Estamos um pouco quebrados, um pouco desbotados, um pouco desorientados, cheios de cicatrizes. Eu sei também que a distância não ajuda e que, se eu fosse uma pessoa melhor, iria esperar mais alguns meses – até me graduar – para ter essa conversa com você. Para pedir definições. Mas eu não quero esperar. Primeiro, porque gosto de definições. Segundo, porque às vezes o seu professor de Defesa Contra as Artes das Trevas tenta te matar. Ou você encontra um basilisco na biblioteca. Ou alguma injustiça te faz passar anos em Azkaban. Ou um torneio escolar termina em morte. Ou um bruxo das trevas surge, tentando destruir tudo em seu caminho. O que eu estou tentando dizer, é que a vida é complicada, mesmo nos melhores momentos, e nós nunca sabemos o que vai acontecer. Então, eu não quero esperar até que tudo pareça melhor. Não preciso que o mundo seja perfeito. Não preciso que você seja perfeito. Merlin sabe que eu estou longe de ser perfeita. Tudo o que preciso é que nós enfrentemos o imperfeito juntos. Tudo o que eu peço a você, Ron Weasley, é que me ame.
— Você sabe que amo, Hermione. Sempre amei.
— Sério?
— Sempre o tom de surpresa.
Os dois riram diante o comentário e Ron aproveitou a oportunidade para beijar a garota. Afinal, seria uma grande tolice não beijá-la e ele estava tentando evitar as tolices.
— Isso quer dizer que estamos namorando? — o rapaz perguntou, quando se separaram.
Hermione sorriu.
— Sim, Ronald, isso quer dizer que estamos namorando. Será que agora podemos voltar para A Toca ou você ainda tem algum motivo para preferir congelar aqui fora?
O garoto não tinha certeza se estava preparado para retornar à festa, porém deixou que a namorada o guiasse de volta. Ainda era uma véspera de natal triste e melancólica. Ainda faltava algo. Ainda soava quebrado e imperfeito. No entanto, agora ele conseguia ver que também havia vida, resiliência, força, esperança em um novo começo. Havia, acima de tudo, amor. E sentindo os dedos de Hermione Granger entrelaçados aos dele, Ron Weasley entendeu que aquilo era tudo o que poderia pedir.
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