All Because Of You
3 III
Notas iniciais
Espero que gostem.
Itinerante, a tristeza foi guia
Passou, deixou marcas
em toda uma sala, em toda uma vida
na dor da lembrança que foi esquecida
Ignorei os biscoitos no balcão. Ignorei Franky e o carro. Ignorei o semáforo aberto. Ignorei a própria Suíça, e suas ruas desregulares. Ignorei todo o universo que não fosse ela enquanto corria ao seu encontro. Parei em sua frente, petrificado com o que via. Era impossível que fosse uma miragem. Não, dessa vez era ela. Era a minha vida ali, parada a me olhar. Mas alguma coisa não era a mesma. Eu estava sorrindo quase a ponto de rasgar minha boca e ela parecia...Confusa.
Eu queria fazer milhares de coisas de uma só vez. Queria tomar-lhe em meus braços, beijá-la, pular pela rua, explodir de alegria. Meu corpo, no entanto, se limitou a ficar imóvel na frente dela, sem sequer piscar, com medo de que ela sumisse no mínimo dos movimentos.
“Grace!” Consegui exclamar, já chorando. Ela não me respondeu. Franky já tinha descido do carro e gritava o nome dela também. Levantou os olhos assustada, e recuou alguns passos. Eu, desesperado, avancei em sua direção e ergui o braço para tocá-la. Então Grace gritou.
Senti uma faca rasgar meu peito quando ela ordenou “Não toque em mim!”.
Eu estaria errado? Impossível. Era a voz dela. Os cabelos dela. As roupas dela. O rosto dela. Franky olhou atônita, e tentou se aproximar com cautela.
“Grace, é você?” Ela perguntou com a voz chorosa.
Grace se acalmou, e estreitou os olhos enquanto inclinava a cabeça para o lado e perguntava suavemente “Quem são vocês?”
Caí de joelhos na calçada. Senti cada membro do meu corpo diluir-se conforme o tempo parava. Seria um pesadelo? Ou será que aquela porra de Deus estava tirando uma com a minha cara? A Grace, a minha Grace, jamais faria aquela pergunta.
Franky, sem palavras, permaneceu imóvel de pé. E aquela garota que imitava o amor da minha vida agachou ao meu lado, e ficou me encarando com o rosto entre os joelhos. Não tive coragem de fitá-la nos olhos amendoados que eu podia jurar conhecer tão bem.
“Você está bem?” Ela perguntou, agindo como a minha menina de novo. Quis machucá-la. Se não era Grace, porque se parecia tanto com ela? Porque isso está acontecendo comigo, justo quando eu estava começando a tentar sobreviver?
Então, do outro lado da rua, escutei outra voz conhecida chamar por ela. Levantei o olhar e me virei depressa, tentando dissipar a dormência em minhas pernas o mais rápido possível.
O Sr. Blood vinha até nos, vestido com uma bermuda e camiseta florida, em pânico.
“Grace, filha, entre no carro. Agora” ele ordenou. Ela me lançou um olhar preocupado antes de se levantar e correr em direção ao Ford Anglia que a esperava no cruzamento. Acompanhei seus movimentos de bailarina e, quando a perdi de vista, me virei para seu pai.
“V-v-você...” Ele gaguejou, antes de receber meu soco em seu olho esquerdo. Franky me segurou pelos braços para que eu não piorasse ainda mais a situação. Mas eu não me importava nem um pouco. Estava tão irado que gritava sem notar o mundo a nossa volta
“SEU MERDA. VOCÊ A ESCONDEU ESSE TEMPO TODO? EU VOU MATAR VOCÊ!”
O Sr. Blood ainda esfregava olho, e tremia muito. Ele percebeu que eu estava falando sério. Percebeu que eu o mataria na primeira oportunidade que tivesse. Mas quanto a isso ele poderia ficar despreocupado, ele não iria bater as botas se ser torturado um pouco antes. Claro que nada seria tão doloroso quanto os meus últimos quatro anos, mas talvez eu encontrasse algum método de fazê-lo sentir uma agonia próxima àquilo.
Antes que eu pudesse chutá-lo de novo, Grace veio correndo do carro, e pôs-se entre mim e seu pai. Parei de me debater instantaneamente.
“O que você pensa que está fazendo?” Ela me perguntou. Caí no desespero.
“Grace, Grace, sou eu. Richard. O seu Rich. Grace, por favor, eu te peço. Você se lembra, não se lembra? Diga que se lembra.” Eu insisti, tomado pela loucura.
Franky agora me arrastava até o carro e me empurrava para dentro dele. Eu ainda gritava por Grace em meio às lágrimas. Francesca me prendeu com o cinto de segurança, correu para o lado do motorista e deu a partida no carro. Antes de tomar distância, consegui abaixar o vidro do carro e gritar
“ Eu vou encontrar você...”
...
“Viva?”
Alo não parava de perguntar, enquanto andava de um lado para o outro da enorme sala do Chateau. Franky tremia do outro lado da sala enquanto Mini, que chorava alto, era consolada por Nick e Liv. Eu estava sentado perto da janela, olhando para baixo e considerando sinceramente a possibilidade de pular. Não disse nada nas últimas horas. Franky não se dirige a mim desde que me levou para longe da minha menina. Fiquei o caminho todo lhe implorando para que ela me deixasse voltar, me deixasse vê-la mais uma vez. Ela não verbalizou sequer uma palavra. Quando chegou, contou a Alo o que tinha acontecido, enquanto eu me recolhi a minha insignificância e prostrei nesta janela estúpida, chorando e temendo como um garotinho que acabou de perder os pais.
Eu já havia parado de chorar horas atrás, e tentava me concentrar no meu último cigarro.
“O que você vai fazer, cara?” Alo me perguntou, pela milésima vez. Desta, resolvi responder.
“Eu vou buscá-la.” Anunciei. Bati o coturno com força no chão e rumei até a porta, Franky se postou na frente, barrando o caminho.
“Não me obrigue a machucá-la, Francesca!” Ameacei. Eu faria o que fosse necessário para ver Grace de volta. E estava tão irado que sequer mediria esforços para isso.
“Eu não vou deixar você foder tudo” Ela disse, autoritária. Soltei uma risada cínica
“Não sou eu quem costumo foder as coisas por aqui, não é? Ou você já se esqueceu do motivo que nos trouxe a essa viagem? Você não queria me fazer sentir melhor? Então saia da frente” Avisei, trincando os denes.
“É justamente por isso que não vou te deixar sair assim. Não desse jeito, não hoje. Você não vê, Rich? Você chegou bem perto de arruinar a chance de ter Grace de novo.”
Soltei outra risada em escárnio, passei a mão pelos cabelos impacientemente e olhei para Franky imaginando como seu corpo ficaria sendo rolado pela escada.
“O que você pretende fazer agora? Acha que o Sr. Blood o deixará vê-la? Mesmo tendo a escondido durante os últimos quatro anos?”
“Passo por cima dele, se for preciso” Retruquei rápido
“É mesmo? E o que você acha que Grace vai fazer? Ficar junto do cara que passou por cima do pai dela?”
“Ela me ama”
“Ela não se lembra de você!” Franky deu a tacada final.
E então eu caí em mim.
Ela não viria comigo. Podia ser que ela nem me amasse, afinal. Seria mais fácil ela me odiar, depois de hoje. Eu precisava organizar as coisas para não ferrar com tudo e perdê-la outra vez.
Quando consegui dormir, já era tarde. O sonho não foi deferente dos anteriores. Sempre com ela, sempre perfeito. Abri os olhos para deixar a claridade entrar. Os outros estavam todos deitados no chão dormindo na sala. Nick estava na janela com um cigarro na mão, sem fazer barulho. Achei estranho e fui a sua direção. Fazia anos que ele não fumava.
A vista era estonteante. As montanhas ficam laranja ao amanhecer, e o vento fazia as plantas do campo dançar balé. Nick estava com os olhos vermelhos e inchados. Eu já sabia do que se tratava.
“Matty vai ficar feliz em saber” Ele disse.
“Tenho certeza,cara. Acha que consegue avisá-lo?” Perguntei com sinceridade. Minha raiva agora se concentrava unicamente no Sr. Blood.
“Estou pensando em buscá-lo. Acho que, se os guardas ficarem sabendo disso, vão abrir uma condicional.” Ele respondeu, olhado esperançoso em meus olhos.
“Tem meu apoio. Diga a ele que estarei aqui esperando, contanto que ele não venha dirigindo” Tentei sorrir.
Nick me abraçou com os olhos cheios d’água e correu para fazer a mala. Eu teria de avisar a todos quando acordassem, mas sei que estava fazendo a coisa certa. Peguei o carro e tirei-o da garagem, para levar Nick até o aeroporto. Na volta conferi mentalmente o endereço que Franky havia pegado na clínica e passei pela rua Foxsheet, apenas para olhar o número 74.
Parei o carro e desci a pé até uma casa de dois andares azul com uma cerca branca. Na frente havia um enorme jardim bem cuidado e exuberantemente florido.
Sentada entre as flores, com um vestido amarelo e os cachos presos em um coque estava Grace, lendo um livro qualquer. Antes que eu pudesse me esconder, ela levantou o olhar em minha direção, e fiz força para engolir meu coração que estava na boca. Ela parecia um anjo, e posso jurar que morreria feliz se aquela fosse a última cena que eu viria. Sua expressão era indecifrável, e prendi a respiração quando ela fechou o livro, morrendo de medo do que ela poderia fazer em seguida.
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