Alive Again
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Hard Rock Cafe, Los Angeles, Estado da Califórnia, Estados Unidos – 11:30 PM
Com “Again”, música da renomada banda grunge Alice In Chains, de trilha sonora, o assistente social Kazunari Takao chorava, enquanto degustava o refrigerante do seu combo. Exatamente, o rapaz estava naqueles dias, os dias em que chorava muito, enquanto tomava mais um gole para tentar amortecer tudo que passou, desde que pisou seus pés na América.
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Quando Takao topou largar tudo no Japão, a ponto de enfrentar a própria família, para morar junto com Shintarou Midorima, seu namorado na época, ele pensava ter tirado a sorte grande: viver de forma plena com o homem que amava, trabalhar em um emprego bom, apartamento alugado, pronto para moradia e depois que Midorima se formasse em Medicina, ele próprio daria início a sua faculdade e juntos comprariam um teto próprio... pensava até em casamento!
Uma semana: este foi o tempo que o casal durou nos Estados Unidos. Quando voltava de uma entrevista de emprego que não passou, por causa do péssimo inglês, Takao flagrou Midorima fazendo sexo com uma colega de faculdade. Não pensou duas vezes, colocou todos os seus pertences dentro de sua única mochila e foi embora dali, porém Kazunari não tinha onde ficar; estava sem dinheiro, sem emprego, além disso tinha um péssimo inglês, com um fortíssimo sotaque japonês e naquele dia caía uma chuva muito forte. O que fazer?
Desesperado, Takao apelou para uma opção extrema: se prostituir em qualquer ponto longe dali, em troca de um quarto de hotel e um prato de comida. Ensopado, entrou no metrô e procurou no navegador do smarthphone sobre points de prostituição de rua para homens. Os locais “mais badalados” eram longe demais de onde ele estava, no bairro de Little Tokyo, Centro de Los Angeles e o único local viável para ele era uma obscura zona de prostituição gay, localizada no famoso bairro de Chinatown. Utilizou os últimos trocados carregados no seu cartão TAP*, ainda dentro da validade do seu passe livre de ônibus, para pegar um DASH* até esta área de Chinatown.
Chegando lá, por sorte, Takao não ficou em uma área já tomada por outra pessoa. Portanto pode se arrumar um pouco, esconder muito bem a mochila dentro de um baú, localizado em um prédio abandonado próximo dali, e partir para tentar arrumar algum dinheiro, fazendo ponto no local.
Não demorou muito para o rapaz ser abordado por seu primeiro cliente, um homem aparentemente de uns 35 a 40 anos, dirigindo uma caminhonete velha e com os dentes mais podres que Kazunari já viu. Sem opção, o imigrante entrou na caminhonete, entretanto o jovem começou a reparar que estavam indo para um lugar afastado, perto de um matagal. Takao perguntou, em um inglês ruim:
— Hotel para nós, não?
Foram as últimas palavras de Takao, antes do homem tapar sua boca com um pedaço de pano, jogar o rapaz contra o banco, abaixar suas calças e estupra-lo sem camisinha, onde após cometer o crime, o homem chutou Kazunari para fora do carro, atirou o dinheiro do pagamento nele, como se fosse uma mercadoria qualquer, e saiu do local cantando pneu.
O japonês chorava pela dor física e, principalmente, psicológica da violência sofrida. Um misto de culpa e desespero pelo seu inglês ser tão ruim, mas tão ruim a ponto de sequer conseguir falar “eu fui estuprado” para ir até uma delegacia, fazer uma denúncia, além da falta de dinheiro para pagar um hospital – Midorima cancelou o adicional do plano de saúde que estava no nome dele, na época em que namoravam. Agravava também o fato de Takao sequer saber, se esse tipo de assunto era ou não da alçada da Embaixada Japonesa. Somente conseguiu juntar as poucas forças que restavam para esticar o braço, pegar com a mão o dinheiro, encolher o braço para junto de si, bem forte e desmaiar de vez.
Quando acordou, já era noite do outro dia. Kazunari verificou se o todo o dinheiro estava lá e estava, bem agarrado a sua mão direita. A dor no ânus passou suficiente só para ele conseguir levantar a cueca mais a calça, porém a ardência continuava. Takao custava ficar de pé e ainda mais andar. Caminhando mais um pouco, ainda mancando muito, consegui localizar o ponto onde ficava. Sim, Takao não conseguia acreditar que foi estuprado em um matagal, praticamente, do lado do ponto, onde somente 20 minutos de caminhada separavam os locais.
Voltou para o prédio abandonado, foi até o local onde guardou o baú e lá estava ele, intacto com a sua mochila. Colocou ela nas costas, andou até o banheiro do local, onde milagrosamente a água não foi cortada, portanto Kazunari conseguiu tomar um bom banho, usar o pouco de perfume e desodorante que ainda restava, velhos hábitos dos tempos de basquete escolar, trocar de roupa, colocar a roupa usada durante o crime em uma sacola plástica, socá-la no baú junto com a mochila, escondê-lo novamente, colocar o dinheiro recebido mais o celular dentro do coturno e partir novamente para tentar arrumar dinheiro, enxugando as lágrimas no rosto, ainda extravasando todas as dores do ocorrido, além de andar ainda mancando de volta para o ponto. Logo em seguida, parou um carro, Takao somente entendeu o “do”, verbo “fazer” em inglês. Tentou responder em inglês:
— Oral... — sentiu a cabeça doer com uma pancada, antes de tudo ficar escuro de vez ao seu redor.
Ao acordar, Takao continuava no mesmo local, porem suas calças estavam novamente abaixadas, os braços, peito, pernas, todos cheios de cortes e hematomas, além de sentir dores no rosto. Colocou levemente a mão na cara, sentiu cortes, calombos de hematomas, tirou a mão do rosto e viu o sangue que tingiu a palma. Sentiu algo muito dolorido comprimindo dentro do seu ânus, com muita dor conseguiu retirar e ver o que era: o dinheiro do programa. Kazunari deu um grito, botando para fora toda sua raiva, deixando as lágrimas caírem em abundância até desmaiar novamente.
Quando acordou, Kazunari estava entubado, em um leito de hospital, além disso, havia uma mulher de longos cabelos pretos, também de explícita descendência asiática com um distintivo da polícia preso a seu blazer. O rapaz perguntou em japonês:
— O que está acontecendo?
— Calma, o pior já passou. Me chamo Sarah Kazeaka, sou delegada do departamento de polícia de Chinatown e enquanto meus homens faziam a ronda de rotina, eles acharam você, desmaiado, desnutrido, todo ferido e encaminhamos para o hospital. Você passou por uma cirurgia de reconstrução anal, fizeram vários pontos no seu supercílio direito, na sua boca, bochechas, pernas e barriga, colocaram sonda alimentar em você. Agora, Takao-san, me conte exatamente o que aconteceu. —, informou a mulher, também falando em japonês.
O rapaz contou tudo o que aconteceu, desde a sua chegada nos Estados Unidos. A mulher acostumada, infelizmente, a ouvir tantos casos terríveis por causa da profissão, ficou explicitamente comovida com o depoimento de Takao. Em seguida, fez todos os procedimentos de praxe, como perguntar sobre aparência física dos criminosos, explicar como o caso dele será procedido, explicar também que a mochila do rapaz estava com a polícia e tudo seria entregue a ele, quando ele saísse do hospital. Também explicou como o caso dele será prosseguido em conjunto com a Embaixada Japonesa nos EUA, além de elogiar a atitude de Kazunari ter preservado as roupas dos crimes, pois através delas, eles conseguiram extrair o DNA dos criminosos para identificação.
A delegada pediu para outra mulher entrar. Era uma representante da Embaixada japonesa, segurando um buquê de flores e falou em sua língua nativa:
— Meu nome é Yuki Tachibana, faço parte da divisão criminal da Embaixada Japonesa aqui. Sei que essas flores não são nada, em relação a tudo que o Senhor sofreu e nós, o Estado mais a Embaixada, pedimos desculpas por todo o ocorrido. Estou aqui, principalmente, para perguntar como o Senhor prefere tratar todo o ocorrido: voltar para o Japão sob a condição especial de proteção à testemunha, mais todo o amparo necessário, devido ao Senhor não ter condições... — Takao interrompeu a mulher.
— Desculpe interrompê-la, Vossa Senhoria, mas pelo que vejo, sua equipe deve ter entrado em contato com o Midorima-san, meu ex-namorado com quem vim para cá, junto com os meus pais e eles, com certeza, se recusaram a saber qualquer coisa sobre mim, certo?!
— Quando ligamos para o Sr. Midorima, uma mulher, que se identificou como namorada dele, atendeu o telefone afirmando desconhecer qualquer Kazunari Takao e quando insistimos em falar com ele, o Senhor Midorima negou veemente conhecê-lo e encerrou o contato. Já os seus pais, quando ligamos, eles foram pragmáticos em também dizer que não conheciam ninguém com o seu nome. Sinto muito — respondeu a mulher, consternada com as lágrimas que caíam no rosto do rapaz. Entregou um lenço a ele e continuou, após explicar, com muito pesar, que o ocorrido com Takao virou noticiário policial a nível internacional — Continuando, o Senhor quer voltar para o Japão, sob a condição de proteção à testemunha com amparo, onde o Estado fica responsável em cuidar da sua volta para o Japão, de seu acolhimento em relação a moradia, do seu acompanhamento jurídico, psicológico, psiquiátrico e clínico... —, a mulher calou-se diante do choro desesperado de Kazunari.
— Pode falar... eu peguei HIV nessa, não foi?!
— Nada disso, até onde eu tive acesso a seu laudo médico, foi ministrado um coquetel de retrovirais intra venal, assim que o Senhor saiu da sala de cirurgia. É só continuidade do tratamento preventivo mesmo, além dos cuidados pós cirúrgicos e dos pontos mais os hematomas. —, reforçou a delegada.
— E minha outra opção...
— Como o Senhor é imigrante legal, goza de todos os direitos da cidadania norte americana, portanto a outra opção é encaminharmos o Senhor para alguma ONG LGBTTIQA+, especializada em acolhimento e capacitação de vítimas da violência nas ruas, onde receberá abrigo na Instituição, tratamento médico, psiquiátrico e psicológico, aprendizado do inglês, capacitação ao mercado de trabalho, além de todo suporte jurídico ao seu caso. Quais das opções ficaria mais viável para o Senhor? — perguntou a diplomata.
Takao respondeu:
— Se eu voltar para o Japão, ficarei aos cuidados do Estado, se eu ficar também ficarei aos cuidados do Estado, então eu prefiro ficar aqui. E também, porque quando aqueles desgraçados forem presos, farei questão de reconhecê-los, para eles verem que eu sobrevivi para lutar por justiça.
Kazunari ainda ficou mais cinco meses no hospital, entre proctologistas, urologistas, infectologistas, cirurgiões plásticos, clínicos gerais, psiquiatras e psicólogos, além das visitas da professora de inglês, advogada e pessoas da Instituição para qual foi designado para dar todo o apoio ao rapaz. Assim que Takao saiu do Hospital, foi realizada uma grande comemoração na Instituição, quando o imigrante chegou na ONG e, pela primeira vez depois de tanto tempo, Takao se sentiu acolhido de verdade por alguém.
Conforme os anos passavam, Kazunari foi reconstruindo sua vida aos poucos. Primeiro, dominou a língua nativa, em seguida, arrumou na própria ONG o trabalho de monitor e, às vezes, palestrante, depois passou a fazer faculdade de serviço social, se graduou para, por fim, trabalhar atualmente como assistente social da ONG que ajudou a refazer a sua vida. Lá, o homem também aprendeu sobre a militância LGBTTIQA+ e o quanto era importante lutar e resistir até depois do fim. Na Instituição, Takao também seguiu todo o tratamento médico, a cirurgia foi um sucesso, não pegou nenhuma DST, estava bem de saúde física e até hoje, sem falta, ia para suas sessões com a psiquiatra mais a psicóloga. Já na parte jurídica, o caso foi um pouco mais complicado, não pelo primeiro estuprador, que a polícia achou rapidamente – duas semanas após o ocorrido – e como o criminoso foi pego em flagrante, ele foi imediatamente preso e posteriormente julgado a cumprir prisão perpétua, além da castração química. A complicação deu-se pelo fato do segundo estuprador, o que quase matou Takao, ser também filho de um empresário influente, gente rica e poderosa, portanto o caso arrastou-se por um bom tempo, por causa de recursos em cima de recursos, entretanto o segundo criminoso foi julgado, condenado e como ainda houve a tentativa de assassinato, o criminoso foi condenado a pena de morte. Justiça feita.
Apesar da prisão dos seus algozes, as marcas dos crimes continuavam na mente e no corpo de Kazunari até hoje: Takao, durante muito tempo, não conseguiu se envolver com ninguém devido a um severo transtorno do desejo sexual (ainda em tratamento até hoje), resquícios de instabilidade de humor (Takao ficou com estresse pós traumático muito forte e por pouco não desenvolveu depressão, mesmo com o tratamento), crises de choro por nada, ficou mais introvertido e pesadelos constantes sobre o que passou, principalmente quando era a semana de tal ano do ocorrido, assombravam sua mente. O homem também não conseguia mais ver, ler cenas ou ouvir falar da palavra “estupro” sem lembrar dos momentos de terror passados, naqueles dois dias, além de várias outras sequelas menores. Fisicamente, Kazunari ficou com um leve estreitamento do canal anal, que dificultava um pouco as atividades fisiológicas e sexuais, consequência da cirurgia reparadora. Para driblar esse desconforto, principalmente na hora do sexo, Takao sempre pedia para o parceiro parar a penetração, deixar o pênis “repousando” lá dentro por um bom tempo e só quando não sentisse nenhum desconforto, ele autorizava o prosseguir do ato. Tanto que só teve um parceiro sexual após o ocorrido: um ex-namorado americano, totalmente ciente do seu passado, muito gentil e compreensível. O relacionamento durou dois anos e terminou pelo amor de ambos ter voltado ao ponto de amizade, prevalecida até hoje.
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Takao saiu do banheiro, enxugou o rosto já sem nenhum sinal de choro, e quando foi para sua mesa, jogar a bandeja fora, encontrou alguém inesperado, sentado, comendo uma montanha de hambúrgueres, vestido todo de preto:
— Kagami... Taiga?
— E aí, Takao, há quanto tempo! Eu juro que pensei que você voltou para o Japão. Posso te dar um abraço? — exclamou o rapaz em japonês.
Kazunari reparava o quanto Kagami estava diferente, cabelo raspado na máquina um, porém com o vermelho escuro ainda predominante, mais forte, mais alto, com algumas ruguinhas e ainda muito atraente, sim, tinha que admitir. O japonês desde a época do colegial, quando se conheceram como rivais no time de basquete, também achava Takao bastante atraente. De certo modo, o assistente social, de 29 anos, ainda ficava assustado por abraçar alguém, por abraçar exatamente alguém por quem também sentia, naquele momento, um significante desejo sexual, mesmo já tendo namorado antes – resquício do transtorno. Resolveu encarar as relutâncias de frente e aceitar o abraço de Taiga, afinal fazia 10 anos que não se viam.
“Cheiroso...” — o perfume cítrico de Taiga dava uma sensação de refresco ótima as narinas de Kazunari, além do calor gostoso do corpo daquele homem, transmitido pelo abraço. Separaram-se e começaram a conversar sobre vários assuntos como suas carreiras profissionais, as dificuldades da vida adulta, etc. Taiga desconfiava do sumiço repentino de Takao, mas em respeito à privacidade do outro, preferiu que o próprio Takao comentasse sobre isso, caso ele quisesse. O assunto, naquele momento, girava em torno do destino dos colegas nos tempos de colegial no Japão: uns casados, outros solteiros, uns no topo, outros por baixo, alguns continuavam a mesma coisa, porém o clima ficou um pouco pesado, quando o assunto descambou para o ex-namorado do assistente social. Kagami sabia que eles terminaram em maus termos, todavia não imaginava que o término foi tão traumático. Ainda processando o que Kazunari acabou de contar, o bombeiro comentou:
— Eu nunca me dei bem com o Midorima, isso é um fato, mas ele disse algo totalmente diferente para nós, quando ele veio com a namorada no Japão... quer dizer, esposa, né?! Porque eles se casaram ano retrasado e tiveram até uma filhinha, que se não me engano, já está com um ano de idade. Tudo isso que estou falando da situação deles atual, fiquei sabendo através de colunas sociais, bem naquelas, quando você não tem nada para fazer e vai ler esse tipo de coisa. Porque eu e quase toda nossa galera de basquete não fala mais com eles, depois eu explico melhor. Continuando aquele assunto, quando eu e o Kuroko perguntamos sobre você, ele só respondeu: “O Takao fugiu do nada”. Mas... sinceramente, é melhor você nem tentar manter contato com ele. O Midorima mudou muito, desde que começou a namorar aquele purgante de mulher.
— Posso saber o motivo?
— Ela é simplesmente um nojo de pessoa. Arrogante, julga as pessoas pelo dinheiro que elas possuem ou não possuem, racista... e toda a nojeira dela impregnou o Midorima, infelizmente. Só para você ter uma ideia, Takao, ninguém da nossa galera foi no casamento deles ou visitar a filha deles. Ninguém conseguiu perdoar o que eles fizeram contra a Momoi e o Aomine.
— Como assim? — questionou Kazunari, espantado.
— Resumo, aniversário de 20 anos do Murasakibara, todo mundo reunido, o Midorima foi apresentar a namorada para o Aomine e a Momoi. A arrogante de merda simplesmente virou as costas para os dois e saiu andando. É óbvio que o Midorima foi perguntar para ela o que aconteceu, mas aí ela virou para ele e falou para todo mundo ouvir: “Eu não divido ambiente com preto e com puta”, e para finalizar, ela foi até os dois, olhou para Momoi com uma cara de desprezo, ódio... Takao, se eu fosse mulher, eu teria voado no pescoço dela, enfim... e ela jogou toda a soda que estava tomando na cabeça da Momoi. Foi uma confusão do caramba... tipo, você sabe como a Riko, a minha ex-treinadora, é, né?! Não leva desaforo para casa e tal, aí quando a Riko viu isso, ela simplesmente não pensou duas vezes, foi até a namorada do Midorima e deu um soco na cara dela que doeu até em mim, Takao. Aí, claro, confusão generalizada e ao invés do Midorima, pelo menos, pedir desculpas no nome dela... não... ele foi lá defender a racista e desde então, ele virou um nojo de pessoa. Por isso, Takao, nem vale a pena.
— Na verdade, Kagami, isso tudo só serviu para confirmar o que eu já sabia: o Shin-chan pelo qual me apaixonei morreu quando desembarcou aqui e esse novo Midorima-san, eu sinceramente desconheço e depois do que você acabou de dizer, não faço a mínima questão de conhecê-lo. —, concluiu Kazunari, ainda um pouco atordoado com o que acabara de ouvir.
Imediatamente o ruivo mudou de assunto, mostrando para Takao, no celular, as fotos do casamento de Aomine e Momoi, ocorrido ano passado. Kazunari não conseguiu segurar as lágrimas, cheias de saudades dos velhos companheiros de adolescência:
— Quem são essas, Kagami?
— As esposas do Kimura, do Ootsubo, do Miyaji e a namorada do irmão dele, o Yuya.
— Caraca, como o Murasakibara e o Himuro mudaram. Olha o cabelão do Mura e o Himuro todo cheio de piercings!
— O que é que uma temporada na França para um e o meu irmão virar rock star no Japão não fazem. —, comentou Taiga rindo.
— Não acredito que o Reo e o Hyuuga estão juntos! Quando eu saí do Japão, o Hyuuga vivia brigando com o Reo e ainda namorava a Riko... — exclamou Takao, que foi interrompido por Kagami.
— Que agora é casada com... É... ela conseguiu botar o Haizaki na linha. Se você voltar para o Japão, Takao, você não o reconhece. A Riko foi literalmente a salvação dele, na moral. Ele realmente mudou para muito melhor, depois que começou a sair com ela. —, explicou Taiga.
— A Riko está maravilhosa, poderosa, irradiando autoestima, bem-estar, a foto mostra isso de forma bem nítida... Que é isso, o Kuroko está com o Mayuzumi? Caraca... com todo o respeito, mas o Kuroko e o Mayuzumi não mudaram nada e quem é esse cara loiro, todo bonitão, que está do lado do Akashi?
— É o namorado alemão dele, o Rudolph, gente fina para caramba. —, Kagami foi pragmático.
— E essa, Kagami... não. É... é a LuA, a cantora famosa lá na nossa terra do sol nascente?! É o que estou pensando?
— Sim, ela se casou com o Kise.
— Bom... era de se esperar, ele sempre namorou essas mulheres famosas, né?! Não acredito, até os caras da Josei foram no casamento do Aomine! Falando em Aomine... esse aí também não mudou quase nada. — comentou Kazunari, rindo com Kagami, como não fazia muito tempo. Como sentia falta dos tempos de colegial no Japão... depois, continuou — Já a Momoi, como o tempo fez bem para ela! Como essa mulher conseguiu ficar ainda mais maravilhosa? Dizem as lendas que felicidade irradia só coisas boas e nessa foto é nítida a felicidade dos dois...
— Olha, Takao, eu tenho mais fotos da galera no meu apartamento aqui perto, se você quiser ver...
O homem ficou um pouco receoso com o convite de Taiga, porém pensou ser ainda resquício dos traumas sofridos, além do pensamento:
“Kagami é camarada de longa data e aparentemente não parece ter mudado em nada o seu caráter, Kazunari. Para que ter medo? ”
Seguiu novamente o conselho de sua psicóloga e psiquiatra: encarar os traumas de frente. Aceitou o convite, saíram do bar rumo ao apartamento, mas antes, para reviver os velhos tempos, eles jogaram basquete de rua em uma quadra próxima.
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No apartamento modesto de Taiga, ambos de banho tomados e vestidos com camisetas e bermudas, já dentro do quarto dele, os rapazes ouviam música e continuava a ver as fotos dos momentos tirados com os companheiros do tempo de colegial, mostrando a Takao tudo que ele perdeu, ao se afastar tanto do Japão...
Ah, como ele queria contar a verdade para Kagami!
Estavam próximos, muito próximos, sentados ao lado do outro, dividindo a mesma cama... Kazunari percebeu os olhares de Taiga para sua boca, também olhava a boca dele, quando se deu por si, Takao já estava com os lábios colados aos do ruivo. Uma sensação boa, nostálgica, revigorante de beijar na boca por vontade própria, entretanto a violência sofrida ainda insistia em perseguir o assistente social, através dos rápidos flashback de momentos soltos, quando as bocas se abriram e a língua de Kagami passou a provar a do outro por completo, em delicados movimentos circulares. Percebendo os tremores anormais de Takao, Taiga parou o beijo, olhou para o rosto do outro, tentando segurar as lágrimas no rosto. As suspeitas dele estavam corretas, aconteceu algo muito grave com Kazunari, para ele ficar alguém totalmente contido após 10 anos, ficar assim só com um beijo e principalmente desviar a conversa, quando o assunto era o sumiço dele. Envolveu o homem em um abraço bem forte e falou:
— Desabafa, Takao.
— Você tem certeza que quer ouvir tudo mesmo, Kagami?
— Não faz sentido nenhum eu trabalhar salvando vidas, se eu não puder nem salvar um amigo meu, apenas doando meus ouvidos para o seu desabafar mais um abraço para confortar.
Kazunari retribuiu Taiga em um abraço ainda mais forte e desabafou tudo, sem nenhum filtro.
Um misto de sentimentos invadiu a mente do bombeiro: culpa por não ter deixado o telefone mais o endereço dos seus pais, dos pais de Himuro ou até mesmo os de Alex, sua ex mentora no basquete, e seu marido para Takao ligar em uma situação de emergência, culpa por não ter procurado saber o lado rapaz e acreditar em Midorima. Desprezo e nojo pela omissão de ajuda vinda dos pais de Takao, de Midorima mais sua namorada e principalmente, uma profunda ojeriza misturada com revolta pelos atos monstruosos feitos pelos algozes do homem. Também sentia uma forte tristeza por tudo que ocorreu a Takao, juntamente a uma grande admiração pelo rapaz, por estar firme e forte, depois de tudo que sofreu, além de uma forte vontade de protegê-lo... Preferiu optar em limpar todos os sentimentos, se concentrar em ser empático a todo o relato forte do rapaz, abraçou Takao ainda mais forte, um gesto que vale mais do que mil palavras.
Desfizeram um pouco do abraço, olharam profundamente nos olhos um do outro, quando Kazunari ia ensaiar o movimentar para outro beijo, Kagami avisou:
— Você não precisa de beijos, de sexo. Você precisa disso. — Taiga, como um tigre determinado a proteger um dos seus, abraçou Takao de forma ainda mais forte e acolhedora do que antes, onde completou — Você é incrível, pequeno grande “falcão” guerreiro.
E pela primeira vez, Takao sentiu-se compreendido de verdade...
Um ano e seis meses, o tempo necessário para a história de amor entre Takao e Kagami começar, onde pela primeira vez, ele sentiu o seu temporal começar a passar de forma plena.
Onde depois de tanto tempo, ele sentiu-se vivo de novo para amar alguém.
Onde Takao sentiu-se completo.
Onde sentia-se a cada dia, cada vez mais motivado a continuar os tratamentos.
Onde teve a certeza de estar certo em buscar todo dia ser feliz.
Onde teve o orgulho de resistir até depois do fim.
O orgulho de viver.
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